Na madrugada de 25 de maio, as ruas portuguesas estavam vazias: anunciou-se internacionalmente que o Conselho de Segurança do Irão suspendia a lei que obrigava mulheres a usar hijab. Nessa mesma madrugada, assinalava-se exatamente um mês da vinda de Newsha Tavakolian a Portugal. Não foi a primeira vez em território português, mas foi uma estreia a expor em nome próprio.
And They Laughed At Me, uma exposição que dá a conhecer uma narrativa fotográfica construída em tempos diferentes – que se tornaram mais próximos do que distantes – e que se foi desenvolvendo a partir de consultas de arquivo, de perdas, de emoções, de experiências reais. Todas elas vagueando entre os géneros documental e artístico.
A fotógrafa iraniana, natural de Teerão, que faz parte da agência Magnum, assumiu que era momento de “recuperar as imagens tecnicamente imperfeitas dos seus primeiros anos de fotógrafa”, e reconstruir narrativas com um novo corpo de trabalho intimista e criativo. A exposição é “sobre uma sociedade que luta por liberdade e mudança”, diz-nos Newsha.
Soltando termos e premissas como “experienciar diferentes emoções, ver, repensar, destruir, reconstruir”, todas estas fazendo parte de um processo de desenvolvimento constante, mutante e único, Newsha não quis deixar a “imagem morrer”, pois este corpo de trabalho a que se dedicou não só é sobre resistência, “como também sobre assumirmos os nossos erros”.
Semanas depois da inauguração da exposição da fotógrafa na Narrativa — Espaço Galeria, em Lisboa (que permanecerá patente até dia 14 de junho), as ruas portuguesas continuaram vazias. Se, aparentemente, o dia da Liberdade reuniu milhares de pessoas nas avenidas de todo o país, há um detalhe que se vê e que dialoga com a exposição de que aqui falamos: perdeu-se a conta às centenas de protestos que reivindicavam a anulação da lei que impõe multas pesadas, a retirada de serviços públicos e, em caso de reincidência, a penas de prisão às mulheres que não cubram o cabelo em público. Até ao anúncio de Mohamed Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano, a lei estava a ser revista após vários episódios de protesto e sob as reservas do presidente reformista do país, Masud Pezeshkian.
Este é um dado relevante, porque as fotografias de Newsha Tavakolian, que capta há mais de mais de 30 anos, são também sobre o reconhecimento das liberdades que, como afirma, vão além de uma “arma política”: “não quero transformar o corpo da mulher numa arma política. Um dia, elas vestem uma coisa e vamos todos tirar fotos – é preciso pensar mais profundamente do que isso. Para mim, este movimento, este despertar feminino, é tão importante que não quero ‘usá-lo’ de forma incorreta”, termina a fotógrafa em entrevista, um mês antes da lei ser suspensa.
▲ "Ao invés de escolher as melhores imagens, decidi escolher as piores. Aquelas que estavam meio queimadas e que não estão bem expostas. Ou que aconteceram porque carreguei o botão por engano"
Newsha Tavakolian/Magnum
De que forma se chega a este processo de atuar com uma visão diferente sobre um trabalho que já era seu, que já estava feito?
É exatamente sobre essa visão, o deixar de ser unilateral. Este trabalho é sobre o meu arquivo que, na verdade, iniciou-se há cerca de cinco anos e meio. Foi quando o meu pai morreu. Fiquei muito zangada e, ao mesmo tempo, sentia que tinha muita força, mas era a força da raiva. Não sabia como lidar com a situação, porque estava fora do meu controlo. Tratava-se de perda. Era sobre dor e eu não tinha controlo sobre nenhuma das coisas que estavam a acontecer ou que surgiam. Diria que sou uma espécie de fotógrafa que quando quero vejo o meu trabalho como uma ‘gravidez’. Ou seja, quando ‘engravidamos’ de algo, damos à luz algo que esteve durante tanto tempo no nosso cérebro. É algo que nos sai do corpo, da alma. É como se déssemos tudo em torno de uma ideia e, a dada altura, ela sai do nosso corpo e do nosso sistema. Este projeto, esta exposição, é exatamente isso. A morte do meu pai e a raiva que espoletou em mim fez com que esta consulta ao arquivo fosse algo em que mergulhei seriamente.
A escolha das imagens derivou desse sentimento?
Sem dúvida. Ao invés de escolher as melhores imagens, decidi escolher as piores. Aquelas que estavam meio queimadas e que não estão bem expostas. Ou que aconteceram porque carreguei o botão por engano. Quando fotografava protestos, sentia que era quase como se construíssemos um feito de alguém difundindo-o num todo, num fragmento da vida que não está propriamente determinado num registo fotográfico perfeito ou muito bem exposto. Decidi escolher esses negativos.
E isso foi uma necessidade que se foi intensificando ao longo destes cinco anos? O real, o imperfeito?
Nos últimos cinco anos também mudei como ser humano e tornei-me mais adulta. O meu mundo também mudou. No ano passado, quando tive esta exposição em Teerão, quando vi o quadro, o retrato do meu pai que imprimimos num tamanho muito grande, estava extremamente escuro. Nesse momento percebi que esta era uma das últimas imagens do meu pai, porque ele morreu logo após esse retrato. Essa sensação de escuridão, de desconforto, fez com que eu decidisse apenas tornar aquilo diferente. Foi quando peguei na tinta e o pintei de amarelo. Para mim foi como dar luz àquele retrato, àquele sentimento. Em cada exposição que faço, recorro bastante a este método experimental. Aqui, em Lisboa, o meu pai transformou-se ‘num filho. É como um girassol, não o vemos.
As fotografias têm um forte poder expressivo, carregadas de questões, destacando o conflito entre a sociedade imposta e o desejo de mudança individual. Além de um ato artístico e visual, é também um ato político?
Depois de And They Laughed At Me, acho que nunca mais vou trabalhar da mesma forma. Para mim a fotografia não é realmente sobre fotografia. É uma metáfora sobre a vida, sobre tudo o que vivemos. Voltar ao arquivo, escolher os negativos e os fragmentos de eventos que ocorrem quando somos muito jovens e dos quais fizemos parte, é como quando – falando de uma forma metafórica — o negativo é exposto à luz: não podes expo-lo. E esse é o exemplo perfeito da vida. Quando estamos expostos a algo, não podemos dizer que aquele algo não aconteceu. Temos de lidar com isso. Aprendes, segues em frente, ou então colocas para debaixo do tapete. Podemos nunca pensar nisso, mas continua lá, porque, mais uma vez, está exposto. Está visível. No caso da luz, ainda neste contexto metafórico, o máximo que podemos fazer é perceber como manuseá-la. Lidar com ela. É importante lidar com esses pontos negativos, acho que é um ato de pensar mais longe e além da fotografia.
O facto desta exposição acompanhar as comemorações da liberdade e da revolução em Portugal também tem o seu lado metafórico, num viés político…
Sim, acho bonito que a minha exposição se abra sobre a celebração da revolução e acho que é importante para a geração jovem vir e ver porque é um lembrete para eles de que essa liberdade que eles têm, em qualquer tempo ou espaço, pode-lhes ser retirada. Têm de cuidar disso. No Irão também lutamos pelas liberdades. A liberdade pessoal e tantas outras coisas que as pessoas, em muitos países do mundo ocidental, consideram um dado adquirido. Os extremos políticos estão a subir e, consequentemente, a ter votos. É uma situação muito delicada e acho que talvez a minha exposição possa ser um lembrete para as pessoas pensarem sobre o passado em Portugal, sobre as pessoas que lutam e lutaram para chegarmos a este lugar.
▲ "Este despertar feminino, é tão importante que não quero usá-lo de forma incorreta"
Sobre esta “luz”, ao longo deste projeto vemos círculos de cores diferentes em torno dos rostos das mulheres, que parecem efetivamente fragmentos ou memórias. Porquê essas cores e formas? O amarelo foi algo que realmente se destacou.
Desde 2017 que introduzo este lado de artista visual. Na altura, estava a fazer um projeto para a revista Time, onde fotografava estudantes que estavam em protestos. Os governos e as universidades estavam a reprimir estas demonstrações, assim como os jovens estudantes. A decisão de ocultar os rostos surgiu porque alguns se sentiam confortáveis em dar a cara, mas outros não. Até porque alguns deles estavam inclusive a ser detidos em praça pública e eu tinha de captar isso. Isso fez com que eu decidisse não mostrar os rostos, porque, em muitas situações, nomeadamente, o assassinato da Mahsa Amini, fez com que a perseguição durante os protestos aumentasse e, muitas das vezes, é a partir das fotografias que as autoridades reconhecem os rostos das pessoas que estão envolvidas e durante as revoltas, no Irão, estas situações tornam-se muito delicadas, porque colocam muito facilmente em perigo as pessoas que fotografamos. Desde então decidi não mais fotografar rostos, a menos que não haja nada ameaçador.
A linguagem e a forma como dizemos as coisas acabam por ter muitas áreas cinzentas. Lembro-me de um texto que escreveu sobre uma alteração que fizeram a uma das suas biografias. A linguagem escrita, que não está de todo distante da visão e do trabalho de uma fotógrafa, como pode deturpar os temas com que um fotógrafo como a Newsha trabalha?
Mesmo as pessoas mais oprimidas não deixam de ser treinadas ou perseguidas. Estas mulheres estão a lutar por uma causa grande. Nestas circunstâncias o que diríamos é “apenas capacite isso”. Mas a necessidade de o Ocidente trazer as narrativas de que gostam para vitimizar as mulheres iranianas… não quero transformar o corpo da mulher numa arma política. Um dia, elas vestem uma coisa e vamos todos tirar fotos – é preciso pensar mais profundamente do que isso. Para mim, este movimento, este despertar feminino, é tão importante que não quero usá-lo de forma incorreta.
Estive e estou nesta luta há muitos anos. Quando era mais jovem, o meu inglês não era bom e eu não prestava realmente atenção ao que se ia escrevendo porque não sabia, não entendia. À medida que fui crescendo, fiquei mais sensível e tento estar sempre em cima das coisas porque, no final, é o meu trabalho. Neste caso específico, tratava-se da minha biografia. A ideia desse editor foi de alterá-la para a tornar mais dramática. Na altura cheguei inclusive a escrever um ensaio sobre isso. É muito importante quanto temos esta oportunidade de nos explicar. Não gosto quando mudam as minhas palavras, porque quem o faz está numa visão de poder e, nesse ponto, eu preciso de ter essa visão. A minha visão, não é nem tem de ser a que consideram mais atraente para o Ocidente ou para qualquer um outro ponto do mundo.
Numa entrevista que concedeu ao The Guardian há cerca de 10 anos, disse que sempre teve uma obsessão por álbuns de fotos de infância. Até que, a certa altura, percebeu que, a partir de uma determinada idade, isso acaba. Como surgiu a ideia de documentar para preencher essa lacuna?
Quando tinha 16 anos não consegui continuar a estudar. A minha permanência na escola estava afetada porque era disléxica. Naquela altura ninguém sabia o que era dislexia. Pensavam que era limitada ou preguiçosa. Mas, a verdade, é que era apenas o meu mundo. Ele é diferente para as pessoas com dislexia, porque desde cedo que o seu universo parece tornar-se mais artístico. As pessoas com dislexia conseguem inclusive ser melhores com algumas outras coisas do que até pessoas com outras capacidades. No meu caso, no primeiro dia que eu fui para a escola, escrevi tudo de uma forma espelhada. Eu era uma “escritora espelho”. Por isso, é que era super lenta e tinha de estar sempre separada do resto da turma.
Sentia-me uma outsider. Foi quando decidi ir para casa e, juntamente com os meus pais, percebi que não podia continuar. Não fui mais para a escola, mas era importante para mim e para a minha família a educação. Assumir toda a responsabilidade de fazer algo deu-me uma certa ansiedade, mas chegou o dia em que diversas áreas artísticas como o cinema e a fotografia, surgiram. E tudo isto se tornou interessante, até porque tínhamos uma câmara em casa.
▲ "Decidi não mostrar os rostos, porque, em muitas situações, nomeadamente o assassinato da Mahsa Amini, isso fez com que a perseguição durante os protestos aumentasse"
É aqui que nasce a relação com os álbuns?
O meu pai era aquela pessoa que apenas fazia imagens de família. Foi quando decidimos fazer uma aula de fotografia numa escola e foi claramente a melhor decisão. Estive lá durante meio ano e tornei-me fotojornalista. Mas tenho de admitir que não sou uma pessoa muito nostálgica. A relação com os álbuns, diferentemente das famílias mais tradicionais, acaba por surgir mesmo com o conceito de um trabalho que precisava que eu incluísse imagens que eles [pais] tinham em álbum de fotografias.
E quando é que esse registo, quase incutido, termina?
Em determinado momento, as famílias param de tirar fotografias das nossas vidas. É quando a realidade nos chega e toma conta. Mas a verdade é que não há muitas imagens que são sobre a vida real. Atualmente, conhecemos plataformas como o Instagram – que são os “novos álbuns” — porque é como se o mundo quisesse mostrar o seu melhor, mas ninguém mostra o seu “eu” real.
Com os álbuns físicos, decidi entrar na vida de nove pessoas e foquei-me em fazer registos que apenas seriam para mim. Isso aconteceu com um outro projeto meu, o Listen, em que apenas decidi capturar o dia-a-dia destas pessoas, sem mostrar a sua identidade. Naquela época, o Instagram não era algo tão presente. Estávamos entre 2014 e 2015. O livro que fiz, páginas em branco de um álbum de fotografias iraniano, é sobre a utilidade de um objeto que questiona a realidade da vida daquelas pessoas hoje, no agora.
Em algum momento há um certo questionamento do peso que essa realidade acarreta?
Não. Nunca sinto isso porque é a maneira como vivo. É uma escolha que faço. Sou privilegiada, sim, porque trabalhei muito. Poderia ter uma vida fácil, mas escolhi esta. Na maioria das vezes, estou sozinha, nos quartos de hotel, em diferentes países, a trabalhar em histórias difíceis. Sinto que não tenho essas perguntas presentes, mas é claro que às vezes questiono-me se fiz a escolha certa, se devo alterar alguma coisa. O trabalho que faço é artístico, mas na maioria das vezes é sobre a dor do outro.