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Um galo de Barcelos gigante é um dos 'amuletos' presentes no restaurante da luso-descendente Rosemary Pereira (C), proprietária do restaurante Little Portugal, instalado na pequena cidade de Fuquay-Varina, Carolina do Norte, Estados Unidos da América, 31 de outubro de 2024. Com pratos portugueses e venda de produtos nacionais, tem o negócio há quatro anos e é apoiante convicta de Donald Trump, principalmente por achar que a economia americana irá melhorar se o candidato republicano vencer as eleições. (ACOMPANHA TEXTO DE 02 DE NOVEMBRO DE 2024). NUNO VEIGA/LUSA
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NUNO VEIGA/LUSA

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No Little Portugal de Nova Jérsia, o medo das deportações tomou conta dos imigrantes portugueses ilegais

Só saem de casa para trabalhar, não se reúnem nos locais habituais e pedem apoio legal. É este o retrato dos portugueses sem documentos em Nova Jérsia. MNE ainda não apresentou novas medidas de ajuda.

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Anabela e Fernando chegaram a Newark, Nova Jérsia, em 2001, acompanhados pela irmã e os pais de Anabela, todos com vistos de turismo. Quando os vistos expiraram, todos ficaram nos Estados Unidos em situação irregular. Mais de duas décadas depois, o casal tem dois filhos, nascidos nos EUA e com cidadania norte-americana, um negócio bem-sucedido e uma casa sem hipoteca nos subúrbios de Newark. No entanto, continuam sem documentos legais e, com a nova administração Trump, temem ser deportados.

O casal português é um dos muitos imigrantes sem documentos que, desde o dia 20 de janeiro, se dirigiram ao gabinete do advogado de imigração George Russo para pedir apoio legal. “A história é trágica“, classifica o advogado lusodescendente ao Observador, sem relatar nomes ou outros detalhes que os identifiquem (Anabela e Fernando são nomes fictícios). Os casos de vistos expirados são os que agora mais chegam a Russo e nem sempre têm solução legal. A irmã de Anabela casou com um norte-americano e obteve cidadania. Posteriormente, os seus pais também puderam regularizar a sua situação, uma vez que passaram a ser pais de uma cidadã norte-americana. Já Fernando e Anabela só poderão pedir os documentos quando os seus filhos completarem 21 anos. Até lá, “vivem num limbo“, com medo.

O medo estende-se do gabinete de George Russo a toda a zona leste de Newark, conhecida como Little Portugal, já que 40% dos habitantes têm origens portuguesas. Foi neste mesmo bairro, o Ironbound, que, no passado dia 24 de janeiro, uma empresa de um português foi alvo de um raide dos Serviços de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE na sigla original). Três pessoas foram detidas, nenhuma delas portuguesa.

Paulo Rangel, ministro português dos Negócios Estrangeiros, garantiu esta terça-feira que, até agora, nenhum cidadão português foi deportado nas campanhas levadas a cabo pela nova administração norte-americana e o Ministério afirmou que está a acompanhar o desenvolvimento da situação e a reforçar os serviços consulares. Porém, o Observador sabe que, até à data de publicação deste artigo, há funcionários do consulado português em Newark sem conhecimento de qualquer plano concreto para lidar com um potencial aumento das deportações de cidadãos portugueses.

A meio caminho entre Newark e Lisboa desenham-se planos mais concretos, pelas mãos do governo regional dos Açores. Paulo Estêvão, secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, afirmou ao Observador que há contacto constante com o Governo nacional — mas os órgãos regionais também ainda não foram informados sobre novos planos de contingência.

As raízes minhotas, os vistos expirados e a nova rotina da era Trump. Os portugueses ilegais em Newark estão “sempre com medo”

Alguns quarteirões a leste do gabinete de George Russo fica a Casa do Minho, associação que procura manter vivas as tradições minhotas. Aqui, há ensaios de um rancho folclórico e de um grupo de bombos. Ao fim do dia, bebe-se um copo. Ao sábado, há almoço com comida tradicional portuguesa, cujo menu muda todas as semanas: no próximo sábado, é arroz de cabidela.

Jack Barreira é o presidente da Casa do Minho, cargo que acumula com a participação na União de Clubes de Newark e com a organização das celebrações do Dia de Portugal. Chegou aos Estados Unidos na década de 1980, parte de uma vaga migratória que levou portugueses, espanhóis e sul-americanos (principalmente, brasileiros e mexicanos) até ao Ironbound.

Ali multiplicam-se os restaurantes de cozinha nacional e o português é a língua mais ouvida na rua, a par do espanhol. “Há sítios a que costumo ir em que nem consigo pedir comida em inglês”, partilha George Russo. Em Little Portugal preservou-se o sentido de comunidade e as tradições melhor do que noutras comunidades semelhantes. Por comparação, em Boston, conhecida pela influência da imigração vinda da Irlanda, apenas 16% da população tem atualmente origens irlandesas; na Little Italy de Nova Iorque, menos de 12% dos habitantes dizem ter origens italianas.

Jack Barreira faz parte do grupo de imigrantes que equilibra a tradição portuguesa com a lei de imigração norte-americana. Entrou nos Estados Unidos com uma carta-convite do seu cunhado e demorou um ano a tratar da “papelada” para regularizar a sua situação. No entanto, diz conhecer muitas pessoas que chegaram ao país depois dele, mas nunca obtiveram os documentos obrigatórios, devido à demora no processo.

"Temos situações aqui na associação, em que eu sinto falta das pessoas que têm medo de serem presas, porque é nas associações e no trabalho que elas são detidas. Desde que o Presidente Trump tomou posse, eles pararam de aparecer."
Jack Barreira, presidente da Associação Casa do Minho

“Agora isso demora 15 anos. Eles dizem que, por essa altura, já podiam ter voltado para Portugal”, justifica. Outros casos que conhece “estão no país há 40 anos, trabalham, fazem descontos [para a Segurança Social]” — tal como Anabela e Fernando — e visitam frequentemente a Casa do Minho. Ou visitavam. Agora, deslocam-se para o trabalho “sempre com medo” e regressam imediatamente a casa. A passagem pela associação deixou de fazer parte das suas rotinas.

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“Temos situações aqui na associação em que sinto falta das pessoas que têm medo de serem presas, porque é nas associações e no trabalho que elas são detidas”, explica o português. Barreira é rápido a localizar o ponto de mudança na rotina: “Desde que o Presidente Trump tomou posse, eles pararam de aparecer”. Também George Russo identifica o dia 20 de janeiro como o ponto de mudança. Mas, se na Casa do Minho isso significa menos movimento, para o gabinete de advogados trouxe um aumento de pedidos de ajuda: “Sem dúvida que as pessoas estão mais assustadas”, afirma o advogado.

Michael Silva, vereador de Newark para a zona leste e filho de portugueses, faz o mesmo retrato do Ironbound: “O estado de espírito é de muita apreensão. Mesmo não tendo conhecimento de qualquer português deportado, todos têm pessoas conhecidas que estão nessa situação”, declara.

O medo e a apreensão de que os três homens falam espelha-se no silêncio com que os imigrantes portugueses sem documentos legais responderam aos contactos do Observador. Aqueles que cujas histórias foram partilhadas por outros são categóricos: não vão falar diretamente com os media, nem mesmo de forma anónima.

Um pedido de dinheiro para passar a fronteira e as “auto-deportações” para os Açores

Não é só George Russo que tem recebido mais pedidos de apoio desde o dia 20 de janeiro. Na semana passada, Jack Barreira recebeu um telefonema: “Um rapaz perguntava se, caso houvesse um problema com a imigração, o podia ajudar.”

Questionado sobre que tipo de ajuda pediu a um dirigente associativo que um advogado não pudesse dar, o presidente da Casa do Minho responde: “[Pediu] apoio financeiro, para ir para outro país“. “É difícil, porque, se se for ilegal aqui, também não pode entrar no Canadá. Mas se calhar há sempre formas de entrar, não?”, questiona.

Outra forma de apoio em que a comunidade pode ajudar é na divulgação de informação. Nos grupos de Facebook para portugueses em Newark multiplica-se a informação sobre os direitos de uma pessoa sem documentos e o que fazer em caso de uma operação do ICE. No programa Linha Aberta, do canal português nos Estados Unidos SPT, o vereador Michael Silva também deixou alertas, para que as pessoas não ignorem cartas enviadas pelo tribunal de imigração a marcar uma audiência. “Não ir ao tribunal é pior do que estar aqui a viver o dia a dia com medo”, justificou o lusodescendente, que defende um combate firme ao crime, mas um acesso à cidadania facilitado para os “residentes trabalhadores e cumpridores da lei”.

▲ O estado de Nova Jérsia tem a segunda maior comunidade de portugueses, só depois do Massachussetts

Wikipedia Commons

O terceiro alvo de pedidos de apoio são os consulados e a embaixada portuguesa em Washington. O Observador sabe que os pedidos de vistos de residência e até de asilo de portugueses sem documentos aumentaram exponencialmente logo após a vitória eleitoral de Donald Trump. Os serviços consulares portugueses também registaram um aumento de pedidos de renovação de passaportes e Cartões do Cidadão, que permitem um eventual regresso a Portugal.

Se em Newark se ouve sotaque minhoto, mais a norte, no Massachusetts, predomina o sotaque açoriano. É aqui que vive a maior comunidade portuguesa nos Estados Unidos, muitos deles com raízes nos Açores. O arquipélago também testemunha o regresso a casa de vários emigrados nos Estados Unidos. “Neste momento, há algumas famílias que estão a chegar aos Açores e que em princípio estariam numa situação de irregularidade, mas que preferiram voltar pelos seus próprios meios“, relatou ao Observador o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão.

As informações oficiais confirmam casos de imigrantes que já estão a regressar a Portugal — sejam imigrantes que estavam ilegais ou não. Mas a maior parte dos clientes de George Russo procura apoio precisamente porque não querem regressar a Portugal, depois de terem criado família nos Estados Unidos — como Anabela e Fernando. Mesmo entre os idosos que querem regressar a Portugal para gozar a reforma — situação que Jack Barreira diz ser usual — são raros os que estão dispostos a cortar todas as ligações aos Estados Unidos, onde têm filhos e netos.

Os 900 processos de deportação, o plano de contingência dos Açores e o acompanhamento “milimétrico” do MNE

As muitas histórias ouvidas pelo Observador partilham um traço em comum: todas as pessoas conhecem pessoalmente alguém que está nos Estados Unidos sem documentos. No entanto, não há números oficiais para esta situação. O advogado George Russo é o único que se arrisca a estimar um número: “Diria que cerca de 20% a 25% dos imigrantes portugueses não têm estatuto legal“, afirma.

Um estudo de 2023 aponta que 1,3 milhões de habitantes nos Estados Unidos se identificam como portugueses ou lusodescendentes. Se a estimativa de Russo estiver correta — e mesmo retirando os números do estudo que são lusodescendentes —, serão ainda milhares os portugueses que estão nos EUA sem documentos.

"Estamos a reforçar os nossos mecanismos para receber as pessoas, em termos de respostas de alojamento, emprego, apoio social, integração no mundo do trabalho. Há várias áreas em que estamos a afinar os nossos mecanismos para, se formos confrontados com esta situação, estarmos preparados."
Paulo Estêvão, secretário regional dos Açores para os Assuntos Parlamentares e as Comunidades

Tendo em conta os números de detenções que têm sido feitas nas operações do ICE — na última semana, passaram sempre as oito centenas diárias —, a detenção de cidadãos portugueses parece ser uma inevitabilidade estatística. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, confirmou esta terça-feira que ainda não foi deportado nenhum cidadão português e que o Ministério tem uma ideia do número de portugueses nesta situação, sem avançar dados concretos.

De qualquer forma, deportações de cidadãos portugueses dos EUA não seriam um cenário inédito. Neste momento, há cerca de 900 portugueses por todos os Estados Unidos em listas para possível deportação, segundo números da associação PALCUS, citados por Michael Silva e Paulo Estêvão. Dada a larga comunidade açoriana nos EUA, o governo autónomo está bem familiarizado com o processo de deportação. Desde que receberam o primeiro cidadão português deportado, em 1989, o governo regional já recebeu 1.109 imigrantes nos Estados Unidos, segundo dados enviados ao Observador pelo secretário regional.

Os números de deportados têm vindo a diminuir até números “residuais”, fruto de políticas internas de Washington. No entanto, dadas as medidas mais restritivas da nova administração norte-americana, o governo regional está a preparar um novo plano de contingência, de forma a prevenir um possível aumento no número das deportações.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, intervém na sua audição perante a Comissão de Assuntos Europeus, para prestar esclarecimentos na sequência do parecer negativo do Comité de Avaliação do TJUE relativamente à nomeação pelo governo para o cargo de juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), de Gonçalo Almeida Ribeiro, na Assembleia da República, em Lisboa, 30 de outubro de 2024. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

▲ O ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que o Governo está a acompanhar a situação "ao milímetro"

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

“Estamos a reforçar os nossos mecanismos para receber as pessoas, em termos de respostas de alojamento, emprego, apoio social, integração no mundo do trabalho. Há várias áreas em que estamos a afinar os nossos mecanismos para, se formos confrontados com esta situação, estarmos preparados”, explica Paulo Estêvão ao Observador. O plano inclui ainda a identificação de familiares no arquipélago, de necessidades de tradução ou de cuidados médicos específicos, e da formação profissional das pessoas.

No entanto, o secretário regional ressalva que se trata de uma mera prevenção, por serem conhecidas as políticas da nova administração norte-americana. Mas todas estas informações são articuladas entre Washington e Lisboa e, só depois, transmitidas ao governo nacional aos Açores.

Até agora, não há qualquer alteração do plano nacional para acolhimento de cidadãos portugueses alvo de deportação. Paulo Estêvão declara que os “canais de comunicação estão abertos” e que já falou com o secretário de Estado das Comunidades, mas que o governo regional ainda não foi informado de novas medidas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros — apesar das garantias de Paulo Rangel que a situação está a ser acompanhada “ao milímetro”.

Questionada pelo Observador sobre a existência de planos concretos para lidar com estas possíveis deportações, a embaixada portuguesa em Washington também remeteu explicações para o MNE, que, até à data de publicação, não respondeu às questões colocadas. Porém, o Observador sabe que, nos serviços consulares de Newark, os funcionários não receberam da embaixada em Washington quaisquer indicações sobre como fazer frente a um potencial aumento no número de deportações, apesar do aumento dos pedidos de vistos e de asilo.

"A nossa comunidade não é procurada, porque temos uma boa reputação, de bons trabalhadores, de nos adaptarmos a tudo. Agora, o problema é na América do Sul e no México, porque as pessoas chegam todos os dias."
Jack Barreira, presidente da associação Casa do Minho

Os “bons da fita” e os outros “criminosos”. Portugueses têm medo, mas dizem que não são alvo

O raide do dia 24 de janeiro numa empresa portuguesa despertou o medo da deportação noutras comunidades imigrantes do Ironbound. Dias depois da operação, um cidadão brasileiro que trabalha na empresa deslocou-se ao gabinete de George Russo para aconselhamento jurídico. “Muitos dos portugueses estão aqui há muito tempo. Têm dinheiro e mudaram-se para os subúrbios”, analisa o advogado, comparando a presença de portugueses com a de mexicanos e brasileiros, há mais tempo na cidade.

Ainda assim, Jack Barreira garante que são comunidades distintas: “A nossa comunidade não é procurada [pelo ICE], porque temos uma boa reputação, de bons trabalhadores, de nos adaptarmos a tudo. Agora, o problema é na América do Sul e no México, porque as pessoas chegam todos os dias”, critica. No entendimento de Jack Barreira, os portugueses são o que o vereador Michael Silva classificou como “residentes trabalhadores e cumpridores da lei” e que, portanto, merecem ter um acesso facilitado à cidadania norte-americana.

"Os portugueses que estão cá há muito tempo e veem pessoas que entraram mais recentemente obterem estatuto legal antes deles, porque pensam que as pessoas estão a furar a fila. Eu pergunto-me: que fila? [Os portugueses] vieram com um visto de turista que expirou. Isso não é entrar na fila."
George Russo, advogado de imigração em Newark

Os dados disponibilizados pelo governo regional dos Açores contrariam esta narrativa. Das 1.109 pessoas que foram deportadas dos Estados Unidos para o arquipélago, apenas 20,8% eram “residentes ilegais” — ou seja, sem a documentação regularizada. Os que tinham a situação regularizada representam 72,9% dos deportados. Os dados não dizem os motivos para que este segundo grupo tenha sido alvo de deportação, mas a lei de imigração norte-americana responde: cidadãos estrangeiros com a documentação em dia podem ser deportados caso tenham cometido crimes graves.

Ao mesmo tempo, o distanciamento dos portugueses dos restantes imigrantes levanta uma dicotomia difícil de explicar: como é que os portugueses garantem que não são os alvos das campanhas de deportação, mas têm tanto medo e procuram tantos apoios? George Russo não tem uma resposta, mas confirma que os seus clientes se revelam “frustrados”. A questão é que o alvo da frustração não é o Presidente — que foi até o candidato mais votado naquela região nas últimas presidenciais —, mas os imigrantes de outras nacionalidades.

“Os portugueses que estão cá há muito tempo e veem pessoas que entraram mais recentemente obterem estatuto legal antes deles pensam que as pessoas estão a furar a fila. E eu pergunto-me: que fila? [Os portugueses] vieram com um visto de turista que expirou. Isso não é entrar na fila”, critica.

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▲ Os mexicanos são a comunidade imigrante mais numerosa nos EUA e alvo de críticas pelos portugueses

Anadolu via Getty Images

A terceira vaga de imigração, já no século XXI, levou para os Estados Unidos muitas comunidades americanas, para além dos mexicanos: cubanos, guatemaltecos, salvadorenhos ou dominicanos tornaram-se algumas das maiores comunidades imigrantes. Contudo, ao contrário dos portugueses, podem recorrer a mecanismos como pedidos de asilo ou vistos de estatuto protegido temporário, atribuídos a cidadãos cujo regresso ao país de origem possa representar um perigo.

Uma nova visita, mais a fundo, pelas páginas de Facebook das comunidades portuguesas em Newark confirma que muitos apoiam a política de deportação de Donald Trump, que defendem que está apenas a visar “criminosos“. Mas, na verdade, todos os imigrantes sem documentos estão a ser alvo das operações. George Russo, que contacta com as várias comunidades devido ao seu trabalho, confirma que muitos dos seus clientes, que conhecem imigrantes sem documentos, votaram no republicano, porque separam os imigrantes em dois grupos: aqueles que conhecem dentro da sua comunidade — os “bons da fita” — e os de outras comunidades — os “criminosos”.

O advogado não concorda: há “bons da fita” em todas as comunidades, diz. Mesmo entre pessoas que chegaram aos Estados Unidos sem documentos e, décadas depois, construíram negócios, sem nunca terem regularizado a sua situação e que, agora, vivem com medo de uma possível deportação. O retrato final coincide com aquele que fez de Anabela e Fernando: a história “trágica” de pessoas “estabelecidas e bem-sucedidas”.

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