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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nos bastidores de "Corteo": é assim que se monta um espetáculo do Cirque du Soleil /premium

São mais de 100 pessoas a viajar, viver e trabalhar juntas. O "Corteo" do Cirque du Soleil está a chegar a Lisboa e o Observador foi saber como se monta esta "torre de babel".

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São oito em ponto quando atrás das cortinas translúcidas que tapam o palco há uma violenta chicotada no ar. Na Porsche Arena, na cidade alemã de Estugarda, o ruído das conversas do público para imediatamente para que uma voz dê as boas vindas ao Cirque Du Soleil. É dia de estreia do “Corteo” e os artistas começam a alinhar-se para duas horas de espetáculo onde não vão faltar as habituais piruetas no ar, exercícios de equilibrismo, homens gigantes, anões e palhaços.

Estamos no circo e os palhaços são, de resto, o principal elemento deste espetáculo. Mauro é o principal e é sobre ele esta história. Deitado numa cama, no centro do palco, surge morto, de mãos sobrepostas em cima do peito. É o dia do seu funeral, mas num exercício que dificilmente se faria na vida real o momento é de alegria porque vai recordar os amores que teve, reencontrar os amigos e ver realizados sonhos de criança.

É para o momento em que as luzes se ligam, a música começa a tocar e o pano sobe que os mais de 50 artistas do “Corteo” trabalham horas a fio, apoiados por mais umas dezenas de técnicos que, ao todo, completam a equipa de 110 pessoas que chegaram aqui vindas de 23 países diferentes.

A Alemanha é o país onde este espetáculo vai fechar o ano, sendo que a equipa já está toda em Lisboa. O primeiro espetáculo na capital portuguesa é só no dia três de janeiro, mas os mais de 20 camiões começam a estacionar na Altice Arena, no Parque das Nações, logo no dia 31 de dezembro. Lisboa é uma cidade especial porque vai quebrar a rotina de toda a equipa. Geralmente o circo parte de uma cidade para a outra na segunda feira, terça é dia de perder mais de 12 horas a montar todos os equipamentos para que na quarta esteja tudo pronto para a estreia. No domingo, volta tudo para dentro dos camiões e o relógio volta ao zero. Em Lisboa a trupe vai estar duas semanas.

Preparação física

Ao longo das duas semanas que vão estar em Lisboa os artistas do “Corteo” vão ter que fazer 13 espetáculos. Nos dias de semana sobem uma vez ao palco, mas nos fins de semana o público vai ter oportunidade de os ver duas vezes: “é uma rotina muito intensa para todas pessoas”, começa por explicar Maxwell Batista, o responsável por toda a comunicação do espetáculo, ao mesmo tempo que vai mostrando ao Observador todos os cantos da casa temporária que a produção montou em Estugarda e vai montar também na capital portuguesa.

O primeiro espaço que visitamos é o centro da arena, onde está o palco giratório, que durante o espetáculo vai ajudar os espetadores a verem os atores de diferentes perspetivas. Pelo menos os que estão no chão, porque ao longo da atuação é de cabeça erguida que o público vai estar a maior parte do tempo. Uma estrutura de aço, composta por seis carris está posicionada a 15 metros de altura e vai estar constantemente a deslizar. Ora com os anjos que protegem Mauro, ora com os candelabros onde Santé Fortunato vai estar pendurada.

Santé foi chamada para uma avaliação habitual a que todos os artistas estão obrigados no “Corteo”. A cada seis meses têm que passar por uma série de testes de flexibilidade, condição física e clínicos para que a equipa médica perceba se continuam a reunir todas as condições para atuarem de forma saudável. No chão, um tapete com várias medições serve de guia para a fisioterapeuta que vai pedindo à acrobata para se posicionar em cima dele de várias formas. Santé chama a nossa atenção porque a t-shirt cor de rosa que veste tem escrita em letras garrafais a palavra “Portugal”. Maxwell Batista explica que o pai dela é português, enquanto nos mostra a sacola com a bandeira portuguesa que a acompanha nos bastidores.

Santé Fortunato tem origens portuguesas que deixa que se notem nos bastidores do espetáculo.

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Ao contrário da maior parte dos artistas Santé Batista diz que não precisa de treinar muito “talvez uma hora por dia”, começa por explicar, acrescentando que faz “tantos espetáculos que não preciso de treinar muito mais, só se quiser aprender um exercício novo é que acabo por ter que trabalhar mais tempo”. Mas a maioria dos artistas “treinam muito, vão muito ao ginásio”, explica Maxwell Batista e continua: “passam aqui cerca de oito horas por dia, quando há apenas um espetáculo, e treinam duas a três vezes por semana”.

Os artistas do Cirque du Soleil fazem os seus números vezes sem conta antes de o espetáculo começar, mas não apenas os seus. Todos têm “backups”, ou seja, alguém que está preparado para assumir o papel no caso de alguma coisa correr mal. “A comida pode cair-lhe mal, ele pode cair, tropeçar, partir um pé ou torcer um tornozelo e o espetáculo não pode parar”, explica Marcelo Perna, o ator brasileiro que está no “Corteo” há cinco anos e que para além de fazer de palhaço branco tem ainda a responsabilidade de substituir Mauro, o personagem principal. “Eu estou sempre preparado para assumir o papel principal. Este é um espetáculo muito grande, é uma grande estrutura e não pode ficar dependente de uma única personagem”, conclui.

Marcelo Perna, o ator brasileiro que está no "Corteo" há cinco anos. Para além de fazer de palhaço branco tem ainda a responsabilidade de substituir Mauro, o personagem principal.

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Com números arriscados a preocupação com a segurança não passa despercebida nos bastidores. Os técnicos que vão percorrendo o espaço, vestidos de preto, estão artilhados da cabeça aos pés com arneses, bolsos com ferramentas, equipamentos de comunicação e até luzes na cabeça. Quando não estão pendurados em alguma das estruturas aéreas que compõem o cenário, é muito provável que estejam no chão, de braços atrás das costas, com atenção aos movimentos dos artistas que vão ensaiando. É o caso dos acrobatas que durante longos minutos ocuparam o centro do palco e treinaram os saltos em cima de uma prancha de madeira. Quando um pisava uma das extremidades da prancha, o da extremidade oposta era projetado no ar, fazendo piruetas e terminando de pé no exato ponto de onde tinha partido.

Os artistas do Cirque du Soleil fazem os seus números vezes sem conta antes de o espetáculo começar.

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A roupa e a maquilhagem são um dos elementos principais do espetáculo

Com o avançar das horas o palco começa a ficar livre e os bastidores menos povoados. A maioria dos artistas têm que começar a preparar-se para a atuação e para além do aquecimento que começa a fazer-se uma hora antes do espetáculo é preciso vestir os figurinos e tratar da maquilhagem. Numa das salas da Porsche Arena há três costureiras a trabalhar sem parar: “Hoje é dia de estreia, é um dos dias mais corridos porque por mais que deixemos tudo preparado nos camarins, há sempre alguma coisa de última hora que é preciso resolver”, conta Camila Babca enquanto prende um botão que tinha caído de um dos figurinos.

À volta das duas mesas de costura há dezenas de fatos que vão ser vestidos pelos personagens do Corteo. Muitos deles estão pendurados em chariots enquanto secam com a ajuda de ventoinhas e outros vão sendo engomados: “Não temos um minuto de descanso no guarda-roupa porque todos os dias à figurinos para arranjar”, continua Camila.

A tecnologia também é uma grande aliada da equipa de guarda-roupa uma vez que cada peça tem um código de barras que é lido pelas costureiras que imediatamente percebem de quem é aquela peça, quais são as características exatas que tem que ter para ser usada em cena e até algumas notas relacionadas com a personagem que a vai vestir.

Numa das salas da Porsche Arena há três costureiras a trabalhar sem parar.

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O Cirque Du Soleil tem uma equipa fixa de pessoas que viajam com a trupe pelo mundo apenas para tratarem dos figurinos, mas também contrata pessoas nas cidades por onde passa para ajudarem a adiantar trabalho. Camila começou assim. “Fiz esse trabalho em vários espetáculos que iam passando por São Paulo”, a cidade brasileira onde mora. “Depois chamaram-me para substituir uma pessoa que fazia parte da equipa fixa mas que tinha sofrido um acidente e acabei por fazer parte de uma tour durante algum tempo, mas só depois de tentar durante vários anos é que consegui fazer parte da equipa fixa. Não foi fácil”, conclui.

“Não temos um minuto de descanso no guarda-roupa porque todos os dias há figurinos para arranjar”, diz Camila.

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E se a roupa é um dos elementos mais importantes do espetáculo, a maquilhagem surge mais ou menos ao mesmo nível, mas com um grau de exigência superior para os artistas, porque neste setor não têm ajuda de ninguém: “Todas as pessoas fazem a maquilhagem sozinhas”, explica Marcelo Perna.

“Quando entramos no Cirque temos um processo de preparação para aprendermos a fazer as nossas maquilhagens. Foi uma coisa que fui obrigado a desenvolver porque a maquilhagem não está dentro do universo masculino. No começo foi muito complicado, mas como já fiz mais de mil maquilhagens já domino todo o processo”. Ainda assim confessa que demora “mais ou menos 45 minutos” a ficar pronto: “É muito complexa e eu tenho que a fazer com tranquilidade para que fique bonita e para que o público a possa apreciar”.

Os atores do Cirque du Soleil fazem a maquilhagem sozinhos e podem demorar mais de uma hora em todo o processo.

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Tanto no palco como nos bastidores é preciso que todos tenham muitas competências: “Aqui nós ficamos muito polivalentes e fazemos de tudo um pouco”, explica Alex Reis que para além de fazer toda a maquilhagem como todos os outros artistas, ainda interpreta um dos palhaços do espetáculo e toca todos os instrumentos de percussão: “É muito interessante este lado do Cirque porque acabo por desenvolver um lado não comum do que desenvolveria se a minha função fosse apenas ser músico. Foi esta polivalência que me atraiu a aceitar este desafio”, conclui.

Alex é o responsável por boa parte da música que se ouve durante o espetáculo. Ele ajuda a criar suspense quando os artistas estão em atuações mais extremas, mas também dá ritmo aos momentos de diversão que animam o público nas bancadas.

Para se preparar vem para a arena “bem cedo, por volta da hora do almoço”, explica. “Começo o dia a fazer artes marciais chinesas porque me mantém equilibrado e focado, depois pratico na bateria. Tenho vários ensaios e várias reuniões porque sempre que muda alguma coisinha no espetáculo é preciso alterar toda a conceção. É um trabalho de equipa”, conclui.

Alex Reis toca todos os instrumentos de percussão do espetáculos. Ao longo do dia vai ensaiando sem que ninguém perceba.

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Antes de subirem ao palco os artistas precisam de comer e é na cozinha que encontramos a maior azáfama de todos os espaços por onde passamos nos bastidores. Quando chegamos perto da porta é o cheiro que nos atrai, mas também a música eletrónica que bem audível vai tocando num rádio junto a um dos fogões que por esta hora não têm descanso. Somos convidados a entrar por um cozinheiro britânico. Sorridente e sem parar o que está a fazer explica que está a preparar cerca de 150 refeições: “são as necessárias para alimentar toda a nossa adorável equipa”, explica enquanto vai espalhando espinafres cozidos sobre um tabuleiro onde também já está um puré.

Um cozinheiro britânico prepara mais de 150 refeições para o jantar dos artistas.

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“O jantar vai ser salmão no forno com espinafres e polenta”, um puré sem glúten para satisfazer as necessidades alimentares de todos. A ementa hoje tem inspirações italianas, mas este chefe acredita que “a melhor comida para os artistas é a britânica”, não é capaz de nos explicar porquê, mas as suas origens podem dar uma ajuda. Ainda assim “os artistas gostam da minha comida, pelo menos voltam todos os dias”, conclui de sorriso rasgado antes de um outro cozinheiro nos pedir para sairmos, já que os pratos não se podem atrasar a chegar à mesa.

Conviver com pessoas diferentes: “é uma torre de babel”

Trabalhar no Cirque du Soleil significa estar em contacto com dezenas de nacionalidades diferentes. No Corteo ouve-se de tudo: inglês, francês, alemão, espanhol e russo são as línguas dominantes, mas também o português faz parte da equipa. Para Marcelo Perna é como se fosse “uma torre de babel”. Já Maxwell fala numa “experiência única conviver com pessoas de todos os mundos, é como fazer um intercâmbio, mas de forma extremamente mais intensa. Temos aqui pessoas de mais de 22 países diferentes”, detalha.

Alex Reis tem a mesma opinião: “A experiência de conviver com várias nacionalidades é riquíssima. Estamos sempre em contacto com culturas diferentes e é importante ter a mente aberta, saber conviver com as diferenças. Todos os dias aprendo alguma coisa nova”.

Mais do que uma barreira, os artistas e equipa técnica olham para as diferenças como uma oportunidade e demonstram um grande espírito de entreajuda e solidariedade: “Nós viajamos juntos, moramos juntos e trabalhamos juntos o que significa que no final de contas acabamos a cuidar uns dos outros porque nos transformamos em amigos e familiares uns dos outros, uma vez que a nossa verdadeira família está longe”.

A família de Alex está no Canadá e ele explica-nos que a cada três meses o circo dá aos artistas duas semanas de férias que eles podem usar para matar saudades. Mais a sul, é no Brasil que Marcelo tem as raízes. Foi lá que há 36 anos começou a trabalhar em teatro, mas só há seis anos é que passou a fazer parte da família “Corteo”: “Foi uma grande alegria porque eu venho do Brasil, um país com pouquíssimas políticas culturais e é dificílimo viver da arte”, lamenta. Quando lhe perguntamos pela distância a que está de casa, aproveita para lançar mais farpas ao país: “Olhando para a situação que o Brasil vive atualmente, às vezes até acho que é bom estar afastado daquela loucura, daquele hospício em que transformaram o Brasil”. Mas saudades mesmo tem do feijão brasileiro: “Dá-me umas saudades tremendas. Às vezes até conseguimos encontrar um restaurante de feijão brasileiro, mas não é a mesma coisa”, remata com um sorriso.

E se as saudades de casa – ou do feijão – são o copo meio vazio para a maioria dos artistas que fazem parte do “Corteo”, a possibilidade de viajarem pelo mundo é entendida por quase todos como o copo meio cheio. Camila Babca não contém o entusiasmo quando lhe perguntamos pelo próximo país que vão visitar. Só esteve em Portugal de passagem e vê o réveillon como o ponto de partida ideal para visitar a cidade de Lisboa.

O baterista do espetáculo também se assume como um “cidadão do mundo”, a mesma expressão usada pelo responsável pela comunicação do espetáculo: “É uma oportunidade incrível poder viajar pelo mundo e poder trabalhar ao mesmo tempo, fazendo parte de uma empresa incrível e de um projeto maravilhoso”. Maxwell assume mesmo as viagens como um dos elementos que sempre estiveram presentes nas profissões que desejou ter: “Sempre sonhei ser diplomata ou trabalhar para o Cirque du Soleil, acabei por vir trabalhar para aqui e considero que estou a ter uma das melhores experiências da minha vida. Estou muito feliz”, conclui.

São várias as línguas que se falam nos bastidores. "É uma torre de babel".

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Montar um espetáculo do Cirque du Soleil demora muito tempo

Largos minutos antes da hora marcada para o espetáculo começar a maioria do público vai-se acomodando nas bancadas. Durante dez anos consecutivos o Corteo apresentou-se em verdadeiras tendas de circo numa tour que percorreu todos os continentes, mas agora é em grandes arenas que os artistas sobem ao palco que está ao centro, ladeado por bancadas que permitem aos espetadores terem outros espetadores como pano de fundo. Os grandes candelabros são o elemento principal do cenário, mas também há desenhos feitos à mão, inspirados em artistas como Willette, Picasso, Tiepolo, Pelez e Knight cujas obras fizeram parte de uma exposição chamada “O Grande Desfile: Retrato do artista como palhaço”.

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Para se chegar ao momento em que público pode ver um espetáculo do Cirque du Soleil são precisos dois anos. Numa primeira fase “é contratada uma equipa de técnicos e de designers e mais ou menos um ano antes de o espetáculo estrear começam a ser contratados alguns artistas para fazerem toda a parte de criação dos números”, revela Maxwell Batista. Sobre a empresa diz que o segredo do sucesso é o facto de ter sido capaz de reinventar uma forma de arte: “Em 1984, quando a empresa começou, juntou-se a música ao vivo com vestuários e maquilhagens incríveis, artes de rua e um cenário idealizado apenas para este espetáculo. Tudo isto faz com que as pessoas sejam trazidas para um mundo único e se esqueçam do que se passa lá fora.

De 3 a 12 de janeiro o “Corteo” vai estar em cena na Altice Arena, em Lisboa, com bilhetes a custarem entre 37 e 75 euros.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador nos bastidores do “Corteo”:

Nos bastidores de "Corteo": é assim que se monta um espetáculo do Cirque du Soleil

O Observador viajou a convite da Everything is New

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