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O buzinão e os centros comerciais, as discotecas e a feijoada na ponte: de que foram feitos os anos 90 em Portugal?

O Observador faz a pré-publicação de "A Década Fabulosa: fazer pela vida em Portugal nos anos 90", de Pedro Boucherie Mendes, com excertos sobre a Kapital, a Geração Rasca ou os centros comerciais.

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“Finalmente a autoestrada Lisboa-Porto e a McDonald’s”; “O caso Aquaparque”; “O Made-in-Portugal, o pimba e o Bicho”; “O Nobel de Saramago”; “O Império dos Sentidos e o ‘cartoon do Papa'”; “A mania dos dinossauros”; “A princesa Diana e as Spice Girls”; “O pentacampeonato do FC Porto e o Benfica de Vale e Azevedo”. Qual a semelhança entre estes acontecimentos e protagonistas? São todos relativos aos anos 90. E também têm em comum o facto de serem partes do novo livro de Pedro Boucherie Mendes (que faz parte do painel do programa Pop Up, da rádio Observador), “A Década Fabulosa: fazer pela vida em Portugal nos anos 90”, que é publicado no dia 29 de setembro.

Depois do livro sobre a década de 80, o autor volta a cruzar factos históricos com memória pessoal, para descrever uma era particular no passado recente de Portugal. Nos excertos que revelamos nesta pré-publicação há referências à importância que a vida noturna conquista nestes anos, a contestação contra as portagens na Ponte 25 de Abril, as transformações na vida universitária, os centros comerciais como certeza económica e social e também o consumismo e a publicade, como nunca tinham sido vividos até então.

▲ Título: "A Década Fabulosa: fazer pela vida em Portugal nos anos 90" | Autor: Pedro Boucherie Mendes | Editora: D. Quixote | Páginas: 736

Mário Soares foi um Presidente extremamente popular. Reeleito em 1991, com mais de 70 por cento dos votos, deixou Basílio Horta, o segundo candidato mais votado, com 14 por cento. Os portugueses adoravam-no. Constatar que Soares-Presidente tinha boa imprensa é afirmar uma das maiores obviedades dos anos noventa nacionais. Uma das suas inovações foi aquilo a que chamou presidências abertas, digressões por zonas do país onde haveria défice de progresso e felicidade. Soares funcionou como contrapeso aos governos de Cavaco, e estas presidências abertas serviam como ações de denúncia e exposição. Em fevereiro de 1993, Soares faz uma na região de Lisboa. Como nem tudo era mau, passa a noite de sexta-feira, dia 12 de fevereiro, na Avenida 24 de Julho, em pleno roteiro de diversão noturna. Os jornais dizem-nos que desde o dia da Revolução o então Presidente não metia os pés numa discoteca; dito e feito, acabará essa noite de folia a dançar com a mulher, Maria Barroso, numa nova discoteca, que abrira na véspera, a que chamaram Kapital. A noite de Lisboa era um fenómeno cultural e social, e Soares e a sua entourage sabiam-no.

A abertura da discoteca Kapital, na zona de Santos da Avenida 24 de Julho, em Lisboa, seria mais tarde um dos pontos mais altos e recordados da vida social e mundana da modernidade trazidos pela onda cavaquista. Dá-se no mês da estreia da TVI. A diversão noturna era uma parte importante da socialização da juventude e de uma geração que vinha ocupando lugares no Estado e nas empresas que a nova vida da economia portuguesa requeria e ia formando. Por cá, os yuppies, os executivos de sucesso, os que usavam camisas às riscas e gel no cabelo ao fim de semana, chegam um pouco mais tarde do que na América.

Na noite em que abriu a Kapital, Soares jantou no renovado e relançado Banana Power, o pouso das elites empresariais e das velhas famílias habituais no suplemento Olá! e nas praias algarvias.

Nessas saídas à noite, éramos potenciais clientes de pessoas do Hindustão, que nos tentavam vender flores na noite e a quem chamávamos uma palavra que rima com café; éramos passageiros de táxis; éramos habituais do último comboio (ou do primeiro) da Linha; éramos devoradores de cachorros e de hambúrgueres a pingar gordura em roulottes; éramos visitantes de padarias em busca de bolos quentes de madrugada. Aqueles que podiam, iam de carro, pois claro, estacionando onde calhasse, daqui para ali e dali para aqui, vivendo a noite, no tempo em que os cigarros se vendiam por todo o lado, nem precisávamos de moedas, na noite havia sempre troco.

O Buzinão ou Bloqueio da Ponte foi um movimento espontâneo de condutores contra os aumentos das portagens, materializado em marchas lentas, buzinões constantes, passagens sem pagar e pagamento das portagens com moedas de valor ínfimo ou notas de grande valor num processo que só não desesperava os portageiros e os outros condutores na fila porque todos pareciam alinhar com a justeza da reclamação.

A Kapital não tinha destaques do tipo faraós à entrada ou pistas de gelo no interior, não era sequer descomunal com uma decoração cortante – o Alcântara-Mar, por exemplo, era muito mais elaborado, com dançarinos em cima de colunas, zonas privadas, bares diversos, veludos e casas de banho distintas –, mas foi o conceito certo, no sítio certo, à hora certa. A chegada da Kapital reforça o domínio da Avenida 24 de Julho na noite na cidade.

Essa fase intensa da noite lisboeta, de grandes investimentos e que se prolongou até meados dos anos noventa, é um dos principais acontecimentos sociais e culturais do arranque dessa época. A presença de Soares reitera a consideração, o país que deixara eufórico os anos oitenta divertia-se à grande, com inspiração na movida madrilena, que os empresários portugueses imitaram perto do Tejo. É provável que a data propriamente dita de 24 de julho tenha sido a mais repetida por muitos naqueles anos. Ninguém sabia a que respeitava, e ninguém se preocupou, sobrava a magnificência de viver uma época que acreditávamos ser única.

Bloqueios, buzinas e protestos

Uns dias antes de O. J. Simpson andar fugido pelas estradas de Los Angeles, a primavera de 1994 acabou com uma vitória descafeinada do PS de Guterres sobre o PSD de Cavaco nas eleições europeias. Apesar de toda a contestação nas ruas e nos jornais ao Governo, o PS nem um ponto percentual conseguiu de vantagem sobre o PSD. Era preciso continuar a luta. E assim foi. Meio distraídos com o Mundial de futebol nos Estados Unidos, o buzinão/bloqueio na Ponte 25 de Abril surpreende e assinala um corte entre um tempo e outro.

Em traços gerais, o Buzinão ou Bloqueio da Ponte foi um movimento espontâneo de condutores contra os aumentos das portagens, materializado em marchas lentas, buzinões constantes, passagens sem pagar e pagamento das portagens com moedas de valor ínfimo ou notas de grande valor num processo que só não desesperava os portageiros e os outros condutores na fila porque todos pareciam alinhar com a justeza da reclamação.

O longo episódio de contestação na Ponte 25 de Abril marcaria o verão de 1994, e é um dos mais recordados eventos dos anos noventa. Está contaminado pelo péssimo clima económico sentido. Sucintamente, a população explodiu e fartou-se da demora na recuperação da economia e revoltou-se porque as portagens iam subir de 100 para 150 escudos.

Se os protestos pareceram sinceros, não é provável que tivessem continuado sem ação efetiva de organizações e auxílio de partidos, que aproveitaram a oportunidade para castigar e desgastar o Governo.

O Presidente da República, Mário Soares (2-D), acompanhado pela mulher, Maria Barroso (2-E), pelo primeiro-ministro, Cavaco Silva (E), e pelo Presidente da Assembleia da República, Vítor Crespo (D), durante a cerimónia de juramento, na Assembleia da República, em Lisboa, 09 de março de 1991.

▲ Mário Soares foi um Presidente extremamente popular. Reeleito em 1991, com mais de 70 por cento dos votos, deixou Basílio Horta, o segundo candidato mais votado, com 14 por cento

JOÃO PAULO TRINDADE/AFP

Chegara a altura de virar a página de vez, e havia um candidato: António Guterres, o líder do PS. Numa tentativa de se atualizar, o político cortara o bigode, como fizeram outros, até os jogadores de futebol passaram a ter o rosto escanhoado. À boleia do ar do tempo, nas eleições legislativas de 1995, Guterres apresenta-se ao país com o brilhante razão e coração, um slogan criado pelo publicitário brasileiro Edson Athayde, o autor da campanha «‘Tou xim», que lançou de vez a Telecel. No verão de 1994, os eventos na 25 de Abril sinalizavam que não faltava muito para as coisas mudarem.

O Buzinão foi um golpe muito profundo no cavaquismo, uma alegoria muito concreta da insatisfação presumida com o poder exercido por Cavaco Silva e os seus governantes. Não ajudou que o ministro das Obras Públicas afirmasse, com ar sereno, que há três anos que as portagens nem sequer aumentavam.

Se a memória condensa aquele evento numas buzinadelas irritantes, os registos comprovam que durou o verão inteiro. Começou por ser chato, insistente e aborrecido, mas tornou-se imparável. Ao quinto dia de buzinadelas, a polícia de choque carrega sobre os camionistas que bloqueavam a Ponte 25 de Abril. Sem treino para lidar com os media, as autoridades esqueceram-se de um detalhe chamado televisões, que, a meio da tarde, abrem emissões especiais e mostram os confrontos violentos aos portugueses.

As novas televisões, em especial a SIC, intuíram que o Buzinão era uma oportunidade para conquistar espectadores, contribuindo para dar uma dimensão nacional a um acontecimento da região de Lisboa, enrijecendo o carácter alternativo do terceiro canal, que vinha conquistando terreno com novas apostas.

Os diretos contagiaram os manifestantes, que não desistem e aumentam a luta. Quase um ano depois do caso Aquaparque, e semanas depois de violentas manifestações de estudantes, a insatisfação na vida pública nacional era de novo atestada por todos os que estivessem a olhar para o pequeno ecrã.

A memória daquela altura pode registar uma versão condensada do buzinão, mas os eventos na Ponte 25 de Abril, o principal acontecimento social e político de 1994, pareceram eternos, transformando o verão num inferno para o Governo, para o PSD e para as polícias. Decorrido o mês de agosto, em que, por tradição, não se cobravam portagens, logo nos primeiros dias de setembro, os automobilistas voltam à carga com as buzinadelas e as marchas lentas; o filão era demasiado rico para não ser aproveitado por quem se sentia a fragilizar o poder central. Em meados de outubro, uma nova marcha convocada pela recém-formada associação de utentes incluirá figuras públicas, o que levará o partido do Governo a acusar a esquerda de instrumentalizar os manifestantes.

Em círculos sociais alargados, deixar de estudar parecia mal, ouvir-se-ia a alguns que estavam a estudar à noite, para acabar uma ou duas disciplinas no secundário, 99 por cento das vezes era Matemática, iam tentar a universidade depois, partilhavam connosco a intenção, diziam que não estavam a conseguir ir às aulas, e o assunto acabava por morrer, na Geração X há inúmeros casos de gente que pode dizer que só lhes faltam umas cadeiras.

Para quem não era forçado a passar a ponte, como era o meu caso, os incidentes eram um distante folclore, um jogo do gato e o rato entre os condutores e as autoridades. A literacia do que seriam portagens justas ou injustas ultrapassava-nos, a Margem Sul era um destino que os da margem da parte de Lisboa consideravam de segunda, sem que os motivos fossem claros. A ponte servia-nos para ir ao Algarve ou às praias da Costa de Caparica, lembrando que a alternativa de circulação eram os cacilheiros porque a Ponte Vasco da Gama ainda não existia.

O aumento para 150 escudos foi mesmo em diante, mas a convicção de que talvez fosse Cavaco a ter de descer do palco, pois era preciso limpar isto para começar de novo, era muito intensa e notada. E não era verdade que era só escandaleiras no Governo do PSD, como O Independente, de Paulo Portas, nos revelava todas as sextas-feiras?

Estudantes profissionais

Uma certa trivialização da ida para a universidade faz nascer um glossário. Aquele entrou à primeira no curso que quis. O outro não teve média. O irmão ficou um ano à espera. O primo só entrou na Covilhã. A filha da vizinha está numa privada. O irmão da amiga vai pedir transferência. A cada ano letivo, e como num souk, alunos, pais, instituições e ministério procuravam soluções, traficando vagas com papéis colocados nas faculdades dizendo coisas como «aluna de Sociologia colocada no Porto troca com vaga de Antropologia em Lisboa». A música feita de médias, notas, numerus clausus, valores e matrículas toca bem alto nos ouvidos da geração e das famílias. Passam a ser costumeiras palavras como caloiro, veteranos, praxes, tunas, trajes académicos, propinas, exames, frequências, cadeiras, segunda época, orais, ano zero, bênção das fitas e finalistas. E até PALOP, porque vários estudantes de países de expressão portuguesa frequentavam as nossas faculdades.

A gíria migra para as conversas, o contexto estudantil é parte do presente do indicativo de uma realidade geral debitada nos noticiários que é suposto conhecer-se. Existia pressão para se ter um canudo qualquer, o que justificou que algumas famílias aguentassem os seus filhos durante anos inscritos na universidade. Ainda não era óbvio e evidente que o filho ou a filha tivessem um curso, mas já era visto de lado se se confessasse que estes não tinham querido seguir os estudos. Em círculos sociais alargados, deixar de estudar parecia mal, ouvir-se-ia a alguns que estavam a estudar à noite, para acabar uma ou duas disciplinas no secundário, 99 por cento das vezes era Matemática, iam tentar a universidade depois, partilhavam connosco a intenção, diziam que não estavam a conseguir ir às aulas, e o assunto acabava por morrer, na Geração X há inúmeros casos de gente que pode dizer que só lhes faltam umas cadeiras.

Havia quem entrasse em contingentes especiais, regimes ad hoc. Eram coisas que sabíamos existir quando éramos confrontados cara a cara, como ter colegas de curso com 50 anos, como me aconteceu. Todos sabiam que convinha marrar para entrar numa universidade pública, o que ajuda a explicar o nervosismo da Geração Rasca e dos seus pais. O motivo era prosaico: as privadas, como a Lusíada, a Internacional, a Fernando Pessoa, a Independente, a Moderna ou a Autónoma, eram caríssimas, sem pedigree das públicas, exceto a Católica, que gozava de outra respeitabilidade.

▲ O longo episódio de contestação na Ponte 25 de Abril marcaria o verão de 1994, e é um dos mais recordados eventos dos anos noventa

MANUEL MOURA/LUSA

No outono de 1994, uma reportagem na RTP revela que nas universidades privadas se pagavam pelo menos 30 mil escudos por mês, cerca de 150 euros em 2026, mas a guerra das propinas não queria saber destes jovens nem de quem suportava as mensalidades.

Ouvem-se e repetem-se frases do tipo «naquela faculdade um 12 equivale a um 18», sinais de um âmbito confuso, desregrado, recheado de arbitrariedades, prenhe de diz-que-disse e que também ninguém contestava. A malta queria era acabar o curso. Já nas universidades privadas, pagavam-se taxas de inscrição, taxas para fazer exames e outras despesas. Quem fosse de fora de Lisboa ou do Porto ainda teria de pagar o alojamento, a comida e os transportes. O negócio corria bem, a verdade é essa. Na reportagem citada, revela-se que existem 102 instituições de ensino privado a operar e cobrar mensalidades.

Aqueceu o coração dos partidos e da sociedade civil, incluindo dos manifestantes, haver dezenas de milhares a frequentar e a pagar cursos no privado, entre universidades e institutos politécnicos? Não se pode dizer que tenha acontecido, a indiferença para com aqueles que tinham de pagar uma privada é outra das originalidades portuguesas, uma dimensão da vida coletiva passível de suceder a qualquer um e que as famílias enfrentavam com sacrifício e silêncio. Com os anos, o crescimento da oferta no público com a queda demográfica resolverá o problema, passando a existir vaga para quase todos no público. Com menos alunos, e com uma rede de institutos politécnicos a crescer pelo país, várias privadas soçobram, enquanto outras desapareceriam também por escândalos e danos reputacionais, sendo a célebre e polémica licenciatura de José Sócrates uma boa ilustração de como havia instituições pouco recomendáveis.

Novos e velhos ódios e simpatias

Promovidos pela iniciativa privada, os centros comerciais evidenciam que o capitalismo alastra. Os portugueses optaram pelo conforto e pela comodidade. Não há calçada portuguesa mal-amanhada onde se torce o tornozelo, nem a penumbra e antipatia a acolher o cliente dentro do estabelecimento. Escuta-se menos o tão nacional «não tem mais pequeno? Não tenho troco». A teima numa maternidade e paternidade perfeitas concluirá que nos centros comerciais não havia viroses, correntes de ar, chuva, frio, vento e alergias devido ao pó das obras. E não se levava com uma bola dos miúdos. Para mais, almoça-se e janta-se a bom preço nas praças de restauração.

Passei bastantes serões e fins de semana em centros comerciais, sem nunca ter saudades de cães a rosnar, caixotes do lixo a deitar por fora e placas a informar-me de que não podia pisar a relva. Pode soar triste e vazio de ideias, mas depois de trabalhar desde manhã até à hora de jantar, poder arrumar o carro livremente, comer qualquer coisa rápida e barata num local confortável e ver um filme a seguir era prático, inteligível e agradável. Faço parte da geração que passou a infância a brincar na rua e que a permutou assim que pôde pelos corredores destes novos centros comerciais.

Os detergentes garantem proteção a 99,9 por cento das bactérias. Escovam-se os dentes com escovas a pilhas, usa-se elixir, lembram-nos para termos cuidado com a placa bacteriana, o fio dentário é imprescindível, a publicidade ensina um monte de coisas que muito boa gente desconhecia. O Vim e a lixívia reformam-se e dão lugar a outras marcas, categorias e classificações. O renovado Sonasol lava tudo e garante-nos que «o algodão não engana», a frase migra para a linguagem comum.

Não fizemos um mau negócio. Ambições intelectualizadas de passeios bucólicos no parque colidem com a realidade de estes não existirem, pelo menos de dimensão ampla, agradável e descontraída do imaginário contemporâneo. É mais tarde que se congemina a ideação do espaço público como um sítio para se estar, com os clássicos parques a serem nomeados zonas verdes, com recantos ajardinados e cuidados, onde se substituem baloiços e se instalam mais bancos.

Não levou quase tempo nenhum a que nascesse uma nova classe: os odiadores de centros comerciais, que daí a pouco também são odiadores de telemóveis e dos programas na televisão, agora que as privadas davam o ritmo. A existência de uma classe média cheia de genica e de um sistema capitalista que a acolhe e reforça afetará duramente as gentes instaladas, que nos seus círculos se sentem obrigadas à manifestação frequente do desapreço pelos traços de modernidade que seduzem o povo. Com os shoppings aparece uma outra batalha de crenças, mais uma, e os anos noventa estão cheios delas.

Os comerciantes garantiam-nos sacos de plástico de bom grado, nos anos noventa toda a gente exibia sacos de plástico, quase todos tinham vários de reserva guardados em casa. Numas compras regulares de supermercado, tiravam-se uns quantos a mais, numa abundância que só termina quando uma taxa implicou um custo pelos mesmos. Ausentes no interior destes centros comerciais de nova geração por terem limitações legais aos horários, as farmácias podem ficar cá fora, transformando-se em lojas cheias de cosméticos, cremes, loções e escaparates com fotografias de mulheres lindíssimas com uma pele estupenda. Quando se ia aviar um antibiótico sem receita, o que acontecia muitas vezes, porque o farmacêutico facilitava, dava vontade de levar aquilo tudo. O Portugal dos anos noventa é um país que se rende aos cremes de rosto, corpo, pés e mãos antes, durante e depois do sol, antialérgicos, para emagrecer, anticelulite, antirrugas; comprava-se e experimentava-se o que houvesse.

Novidades e modernidades

Os jarros Brita aparecem como comichões, é preciso filtrar a água, sabe-se lá o que anda por aí. As fronhas das almofadas são antialérgicas. Os néctares estão em voga, da Sumol, da Compal, da Santal, convencem-nos de que são mais saudáveis que qualquer outra bebida. A água engarrafada é pura. O vírus das maratonas e das meias e minimaratonas aterrara em Lisboa no princípio da década e incluía poder atravessar a Ponte 25 de Abril a correr. À nossa volta, ouvimos vagos sussurros de conversas de gente que está a pensar inscrever-se na próxima, ainda que a verdadeira popularidade seja uns anos mais tarde. Os detergentes garantem proteção a 99,9 por cento das bactérias. Escovam-se os dentes com escovas a pilhas, usa-se elixir, lembram-nos para termos cuidado com a placa bacteriana, o fio dentário é imprescindível, a publicidade ensina um monte de coisas que muito boa gente desconhecia. O Vim e a lixívia reformam-se e dão lugar a outras marcas, categorias e classificações. O renovado Sonasol lava tudo e garante-nos que «o algodão não engana», a frase migra para a linguagem comum. Há detergentes para a roupa líquidos e em cápsulas, promovidos em campanhas estreladas por vedetas que nunca imaginaríamos a lavar a roupa. O Fairy chega e conquista o planeta Portugal. O detergente que pagará a feijoada na Ponte Vasco da Gama. Excitadas pela adesão nacional aos telemóveis, a Telecel e a TMN têm campanhas novas todas as semanas de modelos, preçários e promoções. Toda a gente nos anúncios está a rir, muitas vezes em câmara lenta, os bebés no anúncio «papa a pa-pa», da Cerelac, a beldade do champô Organics, o pescador dos filetes de pescada da Iglo, o grupo de amigos prestes a comer salsichas Nobre com sabor mexicano, os mariolas a beber cerveja Sagres e Super Bock.

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▲ Excitadas pela adesão nacional aos telemóveis, a Telecel e a TMN têm campanhas novas todas as semanas de modelos, preçários e promoções

LEHTIKUVA/AFP via Getty Images

Sente-se o dinheiro em Portugal. Começam a ser frequentes os anúncios fílmicos, como o dia da Missa do Galo para o azeite Gallo, na quadra natalícia de 1995. É interessante notar que estas propagandas procuram reconstruir um ideal nostálgico de um Portugal tradicional, antigo, que era imperioso lembrar. No ano seguinte, uma campanha da Galp anuncia 180 automóveis de prémio, um por dia, era só abastecer e preencher o cupão. Em 1997, a Caixa Geral de Depósitos promove os seus cartões de crédito com fotografia do titular, um modismo que não contagiou a concorrência; uma promoção perguntava «adivinhe porque é que o cartão de crédito da Caixa Geral de Depósitos tem fotografia?». E respondia: «É para ver a sua cara de felicidade ao ganhar este apartamento no Algarve.»

Porque havia o fervor dos prémios e dos sorteios, as marcas eram umas mãos largas, e nesta iniciativa particular listavam-se mais 89 prémios, entre os quais três automóveis, em tempos de Renault Megane, lentes Varilux, portáteis Compaq e o CD de uma banda que tocava músicas dos Metallica em violoncelo.

Em 1996, um anúncio internacional da Levi’s revela ao mundo português a modelo Ana Cristina, uma beldade que arrumámos na mesma gaveta do murro de Joaquim de Almeida; íamos longe, estávamos imparáveis, e Pedro Lamy até tinha pontuado num grande prémio, o primeiro ponto português na Fórmula 1.

Em 1997, privatizava-se a Brisa, a terceira parte da Portugal Telecom e a EDP, o guterrismo segue mesmo a cartilha do cavaquismo. Ainda que para nós o liberalismo fosse o ato de uma mulher fazer topless ou um homem usar calças cor de laranja, sem nenhuma relação com temas da economia, muitos portugueses abrem os braços à economia de mercado e passam a ser acionistas destas empresas, alguns mordendo o isco dos bancos e aceitando empréstimos para comprar ações, vitamina-se o capitalismo popular e o Estado dava benefícios fiscais a quem fosse às privatizações. Haveríamos de nos familiarizar com os termos «rateio», «valorização», «OPV», liquidez e «ordens de compra e venda». Quase sempre as ações valorizaram no imediato, e muitos trataram de as vender, ganhando dinheiro, parecia a coisa mais simples de sempre; jornais, rádios e televisões falavam das cotações da Bolsa como se dos resultados de futebol se tratasse. A EDP vai ao mercado em junho e valoriza 50 por cento em menos de nada. Um cronista do Expresso diz que a operação foi um «excesso de sucesso».

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