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Reiner Löbe © Coleção Hohenzollern do Castelo de Sigmaringen

Reiner Löbe © Coleção Hohenzollern do Castelo de Sigmaringen

O hospital a que deu nome, o casamento de 14 meses e as teses sobre a virgindade: as histórias de Dona Estefânia

Num novo livro, Isabel Stilwell reconta um mau presságio, a promessa e os desejos da rainha que se casou com Pedro V, viveu 14 meses em Lisboa e deu nome ao primeiro hospital pediátrico de Portugal.

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Porventura conhecida sobretudo pelo nome que deu ao primeiro hospital pediátrico de Lisboa, foi rainha consorte de Portugal durante sensivelmente 14 meses, até morrer de difteria quando ainda tinha 22 anos. A até então princesa alemã Stephanie de Hohenzollern-Sigmaringen desembarcou em Lisboa em maio de 1858 já casada com Pedro V, um rei com 20 anos que estava no trono há pouco mais de dois. Entretanto, mais de um ano depois do casamento, terá morrido virgem, de acordo com o artigo que o investigador Ricardo Jorge publicou na revista A Medicina Contemporânea em 1909. “À medida que as falsas membranas se espalhavam pela vulva, os médicos examinaram-na e ficaram surpreendidos por encontrar o hímen intacto”, escreve o médico. No novo romance histórico Estefânia: A rainha virgem, Isabel Stilwell regressa à história deste período e, com base em cartas e documentos históricos, procura reconstruir o que poderá ter acontecido entre os jovens reis para justificar não terem consumado o casamento.

“Temos vários documentos que dizem que esse rumor passou pela corte, inclusive temos uma carta de uma avó de Estefânia e do próprio Kratz, o secretário particular da rainha, que diz que já chegaram a Paris rumores de que o casamento não está a ser consumado ou que não está a correr bem”, diz Isabel Stilwell, autora de outros romances sobre figuras históricas, como Maria II ou Filipa de Lencastre. “Ricardo Jorge reconhece que a informação já era conhecida por tradição, mas nunca até aí divulgada, o que vinha ao encontro de alguns testemunhos recolhidos junto de outros médicos”, explica a jornalista. “Falei com muitos sexólogos, com fisioterapeutas da zona pélvica, e dizem-me que, embora hoje em dia nós saibamos que existe o que se chama hímen complacente, que pode abrir e não romper, a verdade é que tudo aponta para esta dedução final de que de facto não houve relações sexuais, pelo menos completas”.

Cartas que desvendam a relação entre marido e mulher

A começar pelo momento em que a rainha chega de navio a Portugal e a terminar exatamente no dia em que morre, vítima de difteria, a autora explora, mês a mês, o que se passou dentro e fora do Palácio das Necessidades a partir dos relatos contidos em cartas de Estefânia para a sua mãe, que estavam no arquivo do príncipe Hohenzollern-Sigmaringen e foram publicadas por Júlio de Vilhena em 1922. “Tenho escrito sobre mulheres que viveram há 700 ou 800 anos. Quanto mais distantes, menos informação temos. Mas no caso destas rainhas mais próximas, como D. Amélia, sobre a qual já escrevi, ou D. Estefânia, temos o privilégio enorme de ter as cartas, os diários, e temos a informação não só da própria pessoa, como das pessoas ao seu redor. Isso permite-nos chegar muito mais perto das pessoas. É como uma janela para os seus sentimentos e para os seus pensamentos mais escondidos”. Isabel Stilwell usou também relatos da inglesa rainha Vitória (a família real portuguesa tinha laços estreitos com a britânica nesta altura e Estefânia foi escolhida para Pedro pelos reis ingleses), seja de diários ou das cartas à filha, além das cartas de D. Pedro para o príncipe Alberto ou outras personagens da história, como é o caso das cartas da Condessa de Rio Maior.

▲ Desenho de Estefânia a ilustrar o Palácio das Necessidades

Cedida por Isabel Stilwell

Estas cartas revelam, por exemplo, que já nessa altura se usava a expressão “secante”. “Achei tão engraçado, nós estamos convencidos que isto são os meus netos que usam, mas afinal em 1850 já era a palavra utilizada”, destaca a jornalista. Apesar das línguas mais comuns nas cartas e provavelmente também faladas dentro do palácio serem o alemão ou o francês, a rainha teve aulas com o professor de Pedro para aprender português antes de chegar a Lisboa. “As pessoas ficam muito surpreendidas logo no primeiro encontro que têm com ela, porque sabe quem é o Duque de Saldanha, sabe quem é o ministro e fala em português.” Relatos que permitiram ter detalhes caricatos e precisos da história da rainha, que também podem ajudar a explicar a relação entre Pedro e Estefânia e o motivo para nunca se terem envolvido sexualmente.

Anjo para Pedro, Steph para a família

Como rainha de Portugal, era chamada Estefânia, mas dentro do Palácio das Necessidades era tratada pelo nome em alemão. “Os aposentos dela tem entrelaçadas as letras S e P. Portanto, mesmo em Portugal, mesmo no Palácio, ela nunca é tratada por Estefânia, o casal é tratado por Stephanie e Pedro”. Nas cartas à família também usava o nome estrangeiro, enquanto que para a mãe assinava como Steph. Contudo, para o marido, era “Anjo”, o que a autora acredita traduzir a forma como Pedro via a mulher.

▲ A capa de "Estefânia: A Rainha Virgem" e a autora, Isabel Stilwell

“Nas cartas que escreve à rainha Vitória e ao príncipe Alberto a descrever o casamento, diz que Estefânia, felizmente, é uma mulher que compreende que os aspetos materiais do casamento devem ser sublimados a favor da lealdade e da compreensão. Portanto, no fundo, da amizade profunda”, explica Isabel Stilwell. “De facto, quando ela chega, é extremamente meiga, generosa, cautelosa com ele. E, no fundo, ele adora-a, mas adora-a como o ‘meu anjo’, a pessoa que está sempre disponível. Hoje consideraríamos o amor querer que o outro se realize. E, neste caso, o amor de Pedro é um amor egocêntrico”.

A tiara com quatro mil diamantes e o mau presságio

Quando Estefânia chegou a Portugal, Pedro V ofereceu-lhe um diadema cravejado com quatro mil diamantes, uma peça única e que só recentemente teve o seu destino identificado. Apesar de ter sido usada pela rainha no dia do casamento, não havia uma imagem que representasse a tiara de forma fidedigna — e por isso Isabel Stilwell diz que este foi o seu momento “eureca” na pesquisa para o livro.

"O diadema nunca tinha sido visto. E agora podemos pela primeira vez ver o famoso diadema que estava na cabeça dela no dia em que ela celebrou o casamento em Portugal e que era tão pesado que fez correr sangue na testa."
Isabel Stilwell, autora de Estefânia: A rainha virgem

Em contacto com os descendentes da família Hohenzollern-Sigmaringen, Isabel Stilwell teve acesso a documentos como uma caixa onde estão resumidas as cartas que Estefânia escreveu, e onde a jornalista encontrou desenhos feitos pela própria rainha, retratando o Palácio das Necessidades, as paisagens de Lisboa, e também imagens dela própria. “Como não há fotografias, ela tende a mostrar à família o sítio onde está, a casa onde vive, a roupa que veste para cada baile, através do desenho”. Entre as imagens, há um desenho em que Estefânia revela as características da coroa. “O diadema nunca tinha sido visto. E agora podemos pela primeira vez ver o famoso diadema que estava na cabeça dela no dia em que ela celebrou o casamento em Portugal e que era tão pesado que fez correr sangue na testa.”

A história é outro elemento que dá ainda mais dramaticidade à união de Estefânia e Pedro. De acordo com o que escreveu a condessa de Rio Maior, “chegou a aparecer na fronte da noiva uma gota de sangue: era a coroa muito pesada que lhe feria a testa”. Identificado o sangue, o diadema terá sido substituído por um arco de flores. Um momento que, de acordo com Isabel Stilwell, “assumiu um valor simbólico, porque tinha sangue. A sua vida foi trágica e, portanto, posteriormente viu-se nisso um mau presságio”.

Acreditava-se que o diadema tinha sido entregue à família Hohenzollern-Sigmaringen após a morte da rainha, mas uma investigação de 2020 feita por João Júlio Rumsey Teixeira identificou a estrutura da coroa no Palácio da Ajuda. De acordo com o investigador, a tiara foi encomendada em 1858. Depois da morte de Estefânia em 1859 e de Pedro V, dois anos depois, a peça foi oferecida como um presente à rainha Maria Pia de Sabóia. Por ser uma coroa desconfortável de se utilizar, o diadema foi desmontado. Os diamantes foram aproveitados numa joia que foi totalmente refeita em 1886 para o casamento do príncipe Carlos com Amélia de Orléans e Bragança. A estrutura original de 1858, sem pedras cravejadas, permaneceu guardada no quarto da rainha Maria Pia, perto das restantes joias e totalmente desmantelada. Ao longo do tempo, as peças acabaram catalogadas separadamente, mas a pesquisa que antecedeu a abertura do Museu do Tesouro Real conseguiu reuni-las e montar o que poderá ser a versão do diadema que esteve efetivamente na cabeça da rainha Estefânia.

A “promessa dos Bragança” e o hospital pediátrico

Nas cartas que troca com a mãe, Estefânia não podia revelar que, na verdade, o casamento não foi consumado, mas buscava formas de passar a mensagem para aquela em quem mais confiava. “Logo ao princípio, a rainha conta à mãe como é que foi a primeira noite. Diz que ela própria achou muito desagradável e que felizmente Pedro teve uma sensibilidade muito grande — usa a palavra ‘um excesso de sensibilidade'”, descreve Isabel Stilwell. “A partir de certa altura, vemos que ela fala insistentemente no desejo de engravidar, e depois acabamos com ela a acreditar e a pedir ajuda, a ser-lhe oferecida a ajuda de cumprir a promessa”, relata a jornalista.

“D. João V já tinha feito, a sua própria sogra (Maria II) já tinha feito, era uma promessa de descendência“, explica a autora. “Estefânia tranquiliza a mãe dizendo que isto não é superstição, é só o cumprimento de uma promessa feita pelos antepassados de Pedro”, relata. O Palácio-Convento de Mafra é o resultado da promessa feita por D. João V para que D. Maria Ana lhe desse descendentes, enquanto a Basílica da Estrela foi construída depois da promessa feita por D. Maria I. De acordo com a jornalista, a carta de Estefânia para a mãe revela que D. Maria II também terá feito a promessa. “Estefânia conta à mãe que Dom Pedro V nasceu como resultado do cumprimento da promessa. O que é que ela pagou em cumprimento da promessa não sabemos, mas fez a promessa e temos a descrição.”

De acordo com a autora, o ritual passa por juntar três frades da ordem dos franciscanos no Palácio de Mafra, onde fariam exercícios espirituais durante uma semana. Contudo, como na altura as ordens religiosas estavam expulsas de Portugal, tudo tinha de ser tratado em segredo. “Foi feito às escondidas porque era proibido haver ordens religiosas e, portanto, tiveram que encontrar estes antigos frades e fazê-los entrar secretamente na biblioteca de Mafra e pô-los a rezar para fazer esta semana de oração. E à mãe, Estefânia diz que três boas senhoras estão à procura de frades para voltar a fazer esta operação em Mafra, como já tinha sido feito com a sogra”.

"Estava de facto determinada em ajudar as Irmãs da Caridade e em lutar contra a ideia da expulsão da ordem, que tinha estado na Guerra da Crimeia. Imagino que tenha pedido o Hospital D. Estefânia, porque D. Pedro escreve ao príncipe Alberto que ela queria que estivessem as Irmãs da Caridade a gerir o hospital e serem elas a cuidarem das crianças."
Isabel Stilwell, autora de Estefânia: A rainha virgem

Contudo, Estefânia não teve tempo de realizar todos os rituais que previam a promessa. “Infelizmente, esta é a última carta que ela escreve à mãe e depois, uma semana depois, ela já está doente.” Também não se sabe o que a rainha pretendia construir se recebesse aquilo que pedia, mas a autora tem um palpite. “Estava de facto determinada em ajudar as Irmãs da Caridade e em lutar contra a ideia da expulsão da ordem, que tinha estado na Guerra da Crimeia. Imagino que tenha pedido o Hospital D. Estefânia, porque D. Pedro escreve ao príncipe Alberto que ela queria que estivessem as Irmãs da Caridade a gerir o hospital e serem elas a cuidarem das crianças”, explica. “Ele diz que sabe que não vai cumprir esta parte do desejo de Estefânia porque sabe que isso dividiria a sociedade e mancharia a imagem dela”. As freiras francesas deixaram Portugal em 1862, mas em 1874 iniciou uma progressiva abertura ao retorno das ordens religiosas.

Meses depois da morte da mulher, Pedro V encomendou o projeto do hospital à enfermeira e especialista em construção hospitalar Florence Nightingale, “que inclui o hospital D. Estefânia na sua autobiografia, com os detalhes de tudo o que pensou. Diz que é o primeiro no mundo que foi dedicado e pensado de raiz para as crianças”, explica Isabel Stilwell. A construção do chamado Hospital da Bemposta começou em 1860, a unidade foi inaugurada em 1877 e posteriormente rebatizada Hospital de Dona Estefânia.

▲ Estefânia foi escolhida pela rainha Vitória e o príncipe Alberto da Inglaterra para se casar com Pedro V. Chegou a Lisboa a 17 de maio de 1858

Os desabafos pessoais da rainha

Apesar dos muitos detalhes que Isabel Stilwell consegue reproduzir a partir das cartas, os desabafos pessoais da rainha ficam por desvendar. No romance, a autora usa o artifício literário de um diário ficcional, no qual relata o que acredita que se passava na mente de Estefânia — e que nunca poderia ser revelado através das correspondências com a família. Porém, o diário poderá ter mesmo ter existido.

Numa carta ao pai da rainha, enviada após a sua morte, o secretário pessoal, Louis Kratz, escreve que sabia onde estava a chave da cómoda onde Estefânia guardava as cartas e os papéis secretos, os quais diz ter buscado e guardado. “Uma coisa mesmo curiosa é que começo por contar aquela passagem dos documentos do secretário para o irmão de Estefânia, que veio buscar as coisas e os documentos dela. Depois, passado um tempo, descobri que aquilo que eu estava a escrever e achava ser um bocadinho ficcional, na realidade aconteceu“, descreve a jornalista. “Ela tinha de facto documentos que era preciso retirar imediatamente antes que o próprio rei ou outra pessoa viesse e descobrisse. No meio daqueles documentos, nós não sabemos se estava lá um diário“.

"Acho que provavelmente com mais tempo ela teria sido capaz de o ter ajudado a tornar-se uma pessoa menos eremita e pôr a uso do país o que ele de facto tinha, que era uma capacidade enorme de trabalho e uma visão que muitos dos políticos portugueses não tinham."
Isabel Stilwell, autora de Estefânia: A rainha virgem

É nestas passagens que Isabel Stilwell deixa clara a sua opinião sobre o que será a explicação para Estefânia ter morrido virgem. Uma tese mais complexa do que as especulações sobre orientação sexual ou impotência, que envolve todo o contexto familiar e político no qual Pedro V cresceu e viveu. “Em todos os meus livros gosto de olhar para a infância das pessoas. Aquilo que somos e aquilo pelo que passamos como crianças influencia aquilo que viemos a ser em adultos”, diz a autora sobre os traumas passados do rei. A jornalista destaca ainda aquilo que o próprio Pedro V escreveu em cartas ao príncipe Alberto: “Diz que tem que ser muito regrado com os prazeres, todos os tipos de prazeres, para depois concentrar a energia no trabalho intelectual”.

Isabel Stilwell acredita que a morte prematura do casal interrompeu o que poderia ter sido uma história de amor uma relação que potencialmente marcaria a política da época. “D. Pedro era brilhante, tinha estudado muito, viajado pela Europa e estava disponível para aprender. A política do país não era nada fácil e ele era muito novo. Acho que estava assombrado pelo passado, nomeadamente pela figura da mãe que lhe deixou esta responsabilidade. E acho que a Estefânia morre bastante desalentada com o facto de não conseguir mudar Pedro e não conseguir ter um papel mais ativo. Ela vem cheia de projetos e quer pô-los em prática. E a sua última carta para a mãe é uma carta de esperança: vai cumprir a promessa em Mafra para ter descendência e está a dizer à mãe que mudou o regime de Pedro, obriga-o a fazer exercício e a ter uma vida mais saudável. Acho que provavelmente com mais tempo ela teria sido capaz de o ter ajudado a tornar-se uma pessoa menos eremita e pôr a uso do país o que ele de facto tinha, que era uma capacidade enorme de trabalho e uma visão que muitos dos políticos portugueses não tinham.” Depois da morte de Estefânia, Pedro V não se voltou a casar e não teve filhos. Morreu em 1861 de febre tifoide, dois anos depois da morte da mulher e seis após a subida ao trono.

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