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Capitão Fausto: a banda foi um dos nomes portugueses que integrou esta comitiva portuguesa
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Capitão Fausto: a banda foi um dos nomes portugueses que integrou esta comitiva portuguesa

Xavi Caparros

Capitão Fausto: a banda foi um dos nomes portugueses que integrou esta comitiva portuguesa

Xavi Caparros

O que fazem artistas e agentes numa feira de música internacional? "O nosso mercado é pequeno, precisamos de mais"

Apresentar projetos, vender concertos, descobrir contactos e apostar na internacionalização: acompanhámos a delegação portuguesa que esteve no Mercado da Música Viva de Vic, na Catalunha.

A música é muitas vezes uma indústria de grandes palcos, artistas vistosos, holofotes e aparências. Mas é também (ou sobretudo) um mundo de bastidores, de histórias por contar, de muito trabalho invisível — aos olhos do público — que é fulcral para cimentar carreiras e construir estrelas. Embora hoje sejam muitos os músicos e as bandas portuguesas que já tenham feito digressões internacionais e alguma carreira no estrangeiro — um processo sempre envolto nalgum romantismo, embora muitas vezes essa aura choque de frente com uma realidade mais dura — a missão de internacionalizar a música portuguesa parece eterna e, mesmo num mundo globalizado, há inúmeros desafios que se mantêm e modelos que são particularmente mais eficazes do que outros.

25 anos volvidos desde o início do milénio, os festivais de música são hoje eventos que abundam e que até se tornaram banais no nosso país — dos maiores aos de nicho, dos populares aos eruditos, dos festivais de culto aos de pouca dura, o conceito entranhou-se na vida musical (e social) portuguesa ao longo das últimas décadas. O que a maioria do público desconhece são os chamados showcase festivals, festivais organizados pela indústria e para a indústria, em que músicos, programadores e agentes de diferentes países viajam para apresentarem os seus projetos ou, no sentido inverso, procurarem artistas para os seus festivais ou salas de espetáculo. Paralelamente, é habitual haver conferências exclusivas e outras atividades que juntam os profissionais do setor.

Lina, que esteve no MMVV com Marco Mezquida: “Sinto que é o caso de muitos cantores em Portugal… Primeiro têm reconhecimento fora e só depois é que têm no seu país"

Xavi Caparros

Numa lógica que pode parecer estranha ao festivaleiro comum, nestes casos são muitas vezes os artistas que pagam para atuar — para terem a oportunidade de brilhar numa autêntica montra perante a indústria internacional, onde podem conquistar as pessoas certas se quiserem tocar neste ou naquele país, colaborar com esta estrutura ou gravar uma canção com aquele músico; no fundo, construir uma carreira internacional.

O Observador acompanhou, nos últimos dias, entre 17 e 20 de setembro, a delegação portuguesa na 37.ª edição do Mercado de Música Viva de Vic (MMVV), na região espanhola da Catalunha, nos bastidores — mas também na linha da frente — da internacionalização da música nacional.

A música portuguesa a internacionalizar-se a ela própria

“É nestes eventos que muitas vezes as bandas conseguem a visibilidade necessária para conseguirem fechar um festival ou uma sala, para arranjarem concertos, para serem vistos por jornalistas estrangeiros ou para conseguirem uma agência que faça o seu booking noutro país. É um trabalho que não é visível para o grande público, mas que é necessário e que tem dado frutos. Temos tido uma presença cada vez mais forte nestas feiras”, realça Jorge Bizarro, um dos fundadores da Why Portugal, associação sem fins lucrativos criada em 2016 com o objetivo de funcionar como um gabinete de exportação da música nacional.

Embora noutros países europeus este trabalho seja feito por organismos estatais — mais ou menos ligados ao governo central, dependendo dos modelos — em Portugal tem sido esta associação a desempenhar esta função. Atualmente, conta com apoios financeiros da GDA, a entidade que gere os direitos conexos aos direitos de autor dos artistas; e da Audiogest, a organização que representa as editoras.

“A associação começou com capitais próprios, depois lentamente conseguimos institucionalizar a coisa. Nas primeiras missões, muitas vezes eram os próprios músicos que financiavam e nós íamos procurar outros apoios. Agora a coisa está mais estruturada, houve um grande progresso e, na prática, embora sejamos uma associação independente, temos o apoio de entidades oficiais e somos reconhecidos como o export office de Portugal, na prática somos nós que fazemos esse trabalho, que muitas vezes noutros países são entidades agregadas aos ministérios da Cultura.”

“Temos excelentes artistas e muitos não são conhecidos lá fora. Muitas vezes, o primeiro passo é mostrarem o seu trabalho. Mas não basta — e convém envolver uma indústria. Apesar de hoje os músicos terem que ser mais multifacetados do que antes, os músicos devem estar mais preocupados com a sua arte."
Jorge Bizarro, Why Portugal

Muitas vezes, com a sua experiência e contactos, é a Why Portugal que estabelece a ponte entre os showcase festivals e os músicos ou os profissionais da cultura que desejam participar e mostrar o seu trabalho nestas feiras e mercados internacionais da música. Contactada pelo Mercado da Música Viva de Vic para fazer uma mediação com os artistas portugueses, a associação opera de “forma completamente neutra”, abrindo um open call para que quaisquer músicos se possam candidatar. Quem decide quem participa, em última análise, são as organizações internacionais dos próprios eventos, sem influência de estruturas como a Why Portugal.

Noutros casos, há convites diretos às bandas para se apresentarem num determinado festival, sendo que o export office nacional procura apoios — por vezes junto das embaixadas locais ou de outros organismos públicos — para que os artistas tenham os menores custos possíveis com estas presenças nos eventos, que envolvem estadias e deslocações, entre outras despesas.

“Temos excelentes artistas e muitos não são conhecidos lá fora. Muitas vezes, o primeiro passo é mostrarem o seu trabalho. Mas não basta — e convém envolver uma indústria. Apesar de hoje os músicos terem que ser mais multifacetados do que antes, os músicos devem estar mais preocupados com a sua arte. E há um lado menos apelativo e menos sexy desta indústria que deve ser desenvolvido por pessoas que estejam capacitadas para tal”, defende Jorge Bizarro, que no passado foi manager de músicos como Frankie Chavez ou Sam Alone. “Falar de números, de condições, tentar forçar uma venda… É importante haver esses profissionais da cultura, mesmo que muitas vezes estejam na sombra e sejam subvalorizados, porque são os operários desta indústria, que acabam por fazer o trabalho mais duro.”

Num mundo cada vez mais global em que a concorrência é feroz e os estímulos parecem infinitos, os showcase festivals são encarados como oportunidades essenciais para estes profissionais da cultura apresentarem os artistas com quem trabalham.

"O mercado em Portugal torna-se limitado, é pequeno, então o passo natural para este projeto é expandirmo-nos, precisamos de mais”, diz Fidju Kitxora

Xavi Torrent

“Neste momento, acho que é praticamente uma das únicas maneiras de conseguir mostrar a música”, refere Tânia Monteiro, da Produtores Associados, agência que foi a Vic apresentar uma performance do projeto Fidju Kitxora, mas que também trabalha com artistas como os GNR, A garota não, Ana Lua Caiano, Aurea, Cais Sodré Funk Connection, Cassete Pirata, Deejay Télio, Expresso Transatlântico, Lena d’Água, Joana Espadinha, Pongo, Raquel Tavares, Pedro da Linha, Rita Redshoes ou Sean Riley & The Slowriders, entre vários outros.

“Os programadores, cada vez mais, querem ver os concertos antes de contratarem. E, obviamente, como em qualquer profissão, isto também vive das relações com as pessoas. É preciso estar nestes festivais para conhecer mais pessoas, para as captar para os showcases. E outra coisa boa para quem trabalha nesta área é que podemos ver os concertos de outras bandas, ver como é que funcionam, perceber o que se está a fazer, para que direção é que a música está a caminhar, o que é que as pessoas estão a consumir em diferentes países.”

Paulo Sousa Martins, fundador da Locomotiva Azul — agência que trabalha com artistas como Cristina Branco, Cara de Espelho, Luca Argel ou Pedro Jóia, entre tantos outros — comenta no mesmo sentido.

“A partir do momento em que a agência tem o objetivo de internacionalizar um ou vários artistas e de os pôr a tocar em determinados mercados, estes encontros são fundamentais porque a maior parte dos delegados — os programadores de festivais ou de salas, outros agentes com quem possamos colaborar em diferentes territórios — estão aqui. É uma oportunidade de ir além dos telefonemas e dos emails e estar com essas pessoas frente a frente. Ainda mais hoje em dia, em que somos todos bombardeados com tantas propostas, é uma forma de humanizar um pouco as coisas e até de passar à frente de um monte de emails. É uma oportunidade incrível de conhecer melhor essas pessoas e perceber que tipo de propostas é que gostam de receber para sabermos encaminhar melhor as nossas.”

Com o tempo, as relações vão-se “solidificando”, mas muitas vezes os resultados não são imediatos nem lineares. “No meu caso, os frutos têm sido sempre a médio ou mesmo a longo prazo”, diz Paulo Sousa Martins. “É um trabalho contínuo, é uma maratona — e com barreiras. É óbvio que há sempre uma frustração, porque vamos a estes eventos e queremos logo sair com coisas objetivas e confirmadas. Às vezes estão apontadas e não acontecem, mas dois ou três anos depois acabam por acontecer. É preciso alguma paciência, é um trabalho de fundo.”

Estejam a acompanhar artistas em showcase ou apenas a participar como delegados na convenção — onde há sessões formais de pitch e apresentações oficiais de projetos em auditórios, mas também muitos negócios que se fecham à mesa ou entre copos, depois de o gelo estar quebrado e de se ter formado uma ligação — certo é que os frutos que podem advir deste tipo de eventos são múltiplos.

“Os programadores, cada vez mais, querem ver os concertos antes de contratarem. E, obviamente, como em qualquer profissão, isto também vive das relações com as pessoas. É preciso estar nestes festivais para conhecer mais pessoas, para as captar para os showcases."
Tânia Monteiro, Produtores Associados

“Um concerto de um artista potencia logo a exportação do produto — e às vezes até acontece para festivais dentro de Portugal”, comenta outro dos profissionais nacionais que estiveram este ano no MMVV, Luís Bandeira, responsável pela Pinuts Music Agency. “Estamos uns quantos portugueses, nunca tinham visto determinado artista e de repente gostam e contratam. Outra coisa que acontece é que, à partida, ninguém vem à procura de fazer compras, mas acaba sempre por levar algum artista. Chego a casa e, afinal, vim com dois artistas porque gostei e quero levá-los a atuar em Portugal.”

No caso de Luís Bandeira, está muitas vezes não só a tentar exportar os artistas portugueses com quem trabalha (Noble, Viviane ou April Marmara, entre outros), mas também a estabelecer pontes importantes entre a Europa e o gigantesco mercado brasileiro — são muitos os artistas e agentes que preferem uma parceria com alguém com quem partilham a língua e uma certa familiaridade cultural para tentarem entrar no mercado europeu, e a Pinuts Music Agency tem feito o booking de músicos como Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Bia Ferreira, Gabriele Leite, Trypas Corassão, Cátia de França ou Melly, entre outros.

“Muitos de nós não conseguimos ser músicos profissionais só em Portugal”

Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra só vão atuar em Vic com os seus Capitão Fausto na quinta-feira à noite, mas chegaram à cidade catalã na quarta-feira de manhã para fazerem contactos orgânicos e poderem usufruir melhor de um mercado da música como este. Quando os encontramos no bar do Teatro L’Atlàntida, o epicentro do MMVV, dizem-nos que já conheceram um artista e um agente cultural italiano só no caminho do aeroporto de Barcelona para Vic.

Os Capitão Fausto foram convidados diretamente pela organização para tocarem no festival. Embora não recebam cachet, e sejam um grupo com história e uma dimensão considerável em Portugal, aceitaram o desafio numa altura em que estão, mais do que nunca, focados no processo de internacionalização — também graças às muitas mensagens e pedidos que têm vindo a receber de fãs pelo mundo fora. Este ano, essa vontade levou-os a uma primeira tour internacional para apresentar o álbum Subida Infinita (2024), com meia-dúzia de concertos em cidades europeias.

“Desde que fizemos essa primeira incursão pela Europa que temos estado mais atentos aos festivais de showcase e a estes eventos da indústria”, comenta Tomás Wallenstein. “E claro que aceitámos imediatamente este convite e aproveitámos para vir mais cedo para estar à conversa com as pessoas, para ouvir concertos, para conhecer e perceber o que se está a passar.”

“Estou cá há um dia e já conheci imensos artistas, todos de estilos diferentes, mas super abertos”, diz Sofia Leão ao Observador algumas horas antes de se apresentar num palco instalado numa igreja

Cesc Maymo

A ideia passa por solidificar essa presença internacional dos Capitão Fausto, que terá uma estrutura mais sólida caso consigam trabalhar com agências locais nos diferentes países. “Esta primeira tour foi um processo muito produzido por nós próprios”, acrescenta Domingos Coimbra. “E de facto o primeiro passo muitas vezes é o mais complicado, há mais barreiras, mais perguntas e menos certezas. Mas esse primeiro passo foi feito e, agora, o nosso objetivo como banda é conseguir arranjar parceiros nos vários países e organizar a partir daí. Também estamos, paralelamente, com o nosso primeiro concerto marcado no Brasil, em São Paulo, e a organizar mais para novembro. Portanto, temos vindo a trabalhar essa frente, sendo que em Portugal a banda já tem vindo a fazer naturalmente o seu caminho.”

Encaram Espanha como “um mercado maior” apetecível e, embora reconheçam a “cultura interna muito forte” que por vezes pode fazer com que seja difícil haver artistas estrangeiros com um grande impacto, consideram que seria “muito estúpido” não explorarem a proximidade com o único país com quem Portugal tem fronteira terrestre. “Até porque dá para ir de carro… Quem vai a Braga vai à Galiza, quem vai a Évora pode ir para Badajoz ou para Sevilha… A Península Ibérica acaba por ser uma realidade à parte dentro da Europa e nós fazemos parte dela. Espanha é muito vibrante, tem uma cultura de rua e de espetáculos fora de série e também temos a aprender com isso. Estamos muito interessados em estar presentes, se nos quiserem”, assegura Wallenstein.

“Muitas vezes, gostamos de nos pôr um bocado fora de pé. Que desafio novo é este? O que é que podemos aprender e crescer como banda numa nova aventura? E sobretudo este caminho de fazer as coisas de uma forma muito progressiva, como fizemos ao longo dos anos em Portugal”, diz Domingos Coimbra, logo seguido pelo colega de banda. “E não podemos estar sempre à espera de estarmos dependentes de terceiros para fazerem as coisas acontecer por nós. Quando vimos que não havia propriamente portas ou caminhos traçados para seguirmos com parceiros já pré-definidos, resolvemos começar a marcar as coisas por nós próprios e tomar esses riscos, fazer essa aposta. Se conseguirmos ter uma rede maior e colaborar com pessoas que conhecem melhor cada território, melhor. Mas é claro que não vimos a um festival destes com a expetativa de resolver todos os nossos problemas. É um trabalho contínuo e não vai ser com o primeiro ou o segundo que vamos conseguir tudo.”

Após ter estado nos três principais showcase festivals a acontecer em Portugal — o MIL, em Lisboa; o Westway Lab, em Guimarães; e o novo Square Festival, em Braga; sendo que o país também já acolheu a itinerante Womex — o projeto Fidju Kitxora está determinado em fazer o mesmo caminho lá fora. Embora o álbum de estreia (Racodja) tenha sido editado em abril do ano passado, “só foi descoberto no final de 2024” e o projeto coletivo — que dilui identidades e que funde através do sampling sons tradicionais de Cabo Verde com uma roupagem eletrónica contemporânea — tem sido um dos nomes mais presentes no circuito de festivais pequenos e da música alternativa em Portugal ao longo deste ano.

"É óbvio que há sempre uma frustração, porque vamos a estes eventos e queremos logo sair com coisas objetivas e confirmadas. Às vezes estão apontadas e não acontecem, mas dois ou três anos depois acabam por acontecer. É preciso alguma paciência, é um trabalho de fundo."
Paulo Sousa Martins, Locomotiva Azul

“Só que o mercado em Portugal torna-se limitado, é pequeno, então o passo natural para este projeto é expandirmo-nos, precisamos de mais”, diz Fidju Kitxora. “Em Portugal, fazer uma circulação implica voltar a tocar em certos sítios, o que logicamente também vai originar uma necessidade de revitalizar o repertório. Mas como existe um contexto internacional que ainda pouco vivenciámos, também não há necessidade de sentirmos já essa ansiedade de querer um novo trabalho, não é? Acho que estes eventos servem para conseguirmos tirar o máximo proveito do que já foi feito, do que está maturado e não achar que temos já de partir para outra. Mas ainda estamos a gatinhar neste contexto internacional”, diz, aludindo ao facto de em breve ir tocar a outros showcase festivals na Europa, como o neerlandês Eurosonic, depois de já ter estado no início do ano numa convenção deste género na Estónia.

Acabaram de fazer o soundcheck durante a hora de almoço, sob o sol abrasador da Catalunha, mas a performance só arranca à meia-noite, num ambiente noturno e propício à agitação e catarse. “Num festival destes talvez não tenhamos um retorno humano como gostamos de ter, com um lugar cheio, há vários showcases a acontecer, muita circulação e se calhar a apreciação pode ser mais superficial. Mas basta haver um ou dois programadores a gostar que já faz uma diferença no que concerne a resultados práticos. O objetivo é conseguirmos mais concertos, outro tipo de circulação e, seja como for, também são festivais em que existe uma maior troca entre artistas, em que saímos com amizades e experiências, o que para nós já é um jogo ganho.”

A música feita em Portugal é amplamente diversa e outro dos projetos da delegação nacional que se fez representar em Vic foram os Move — banda de free jazz que junta o baterista português João Valinho, o saxofonista brasileiro Yedo Gibson e o baixista brasileiro Felipe Zenicola, radicados em Portugal, ainda que no MMVV só se tenham apresentado com os dois primeiros elementos, em parceria com outra dupla de músicos.

“É sempre importante tocarmos neste tipo de festivais para solidificar a nossa presença cá fora”, conta-nos João Valinho. “Apesar de termos feito vários concertos no estrangeiro, sentimos uma dificuldade em projetar-nos fora de Portugal.” Yedo Gibson destaca a importância da editora portuguesa dos Move, a muito reputada Clean Feed, que se tem revelado uma “força imensa” neste processo, para espalhar raízes no circuito do jazz moderno e da música de improvisação.

“Portugal é um país que não tem muitos espaços abertos para esta música, então fica limitado fazer tours em Portugal, porque num ano faz-se tudo”, comenta Yedo Gibson, logo complementado por João Valinho. “Procuramos sempre a internacionalização, até porque não conseguimos ser músicos profissionais só em Portugal. Há mesmo uma necessidade de levar a música e o trabalho que fazemos para todo o lado possível, apresentar o que fazemos a mais pessoas.”

Um dos discos que já gravaram foi Free Baile — Live in Shenzhen (2024), um álbum ao vivo na China, onde atuaram perante uma plateia efusiva de cerca de mil pessoas. “Tinham todos os nossos discos individuais e de outros projetos, ficámos duas horas e meia a dar autógrafos, foi mesmo impressionante, uma situação muito inusitada. Até agora não entendemos muito bem o que aconteceu”, diz Gibson sobre uma das provas dadas que têm no que diz respeito à internacionalização.

Depois do fado, onde notavelmente se destaca o nome e a carreira de Amália Rodrigues, terão sido os Madredeus os músicos portugueses a fazerem um percurso internacional mais consistente — durante os anos 90, numa época em que os custos de andar em digressão eram mais dispendiosos e os desafios eram outros. Hoje, um dos músicos essenciais na história da banda, Rodrigo Leão, tem na filha Sofia Leão, de 19 anos, uma herdeira musical que também procura construir o seu caminho.

Os showcase festivals são encarados como oportunidades essenciais para estes profissionais da cultura apresentarem os artistas com quem trabalham

Xavi Caparros

Lançou, em maio, o álbum de estreia, MAR. Pianista e cantora — que tem vindo a acompanhar o pai na sua formação ao vivo — está ainda numa fase precoce do seu percurso a solo, mas o trabalho com a Uguru (agência fundamental na internacionalização dos Madredeus e dos seus diferentes músicos) tem dado resultados e foi mais uma das artistas portuguesas que se apresentaram este ano em Vic.

“Estou cá há um dia e já conheci imensos artistas, todos de estilos diferentes, mas super abertos”, diz ao Observador algumas horas antes de se apresentar num palco instalado numa igreja. “É muito bom para perceber o caminho das outras pessoas, como é que elas chegaram onde estão, há histórias muito interessantes e cada uma vai ter a sua — não há aqui um certo ou errado. É muito diferente estar só fechada no meu país e gostava muito de ir a outros, mostrar a minha música. É bom começar assim, aos poucos e aqui mesmo ao lado, em Espanha.”

Um nome mais batido nestas andanças é a fadista Lina, que até tem consolidado uma carreira mais no estrangeiro do que em Portugal, onde não tem encontrado tantas oportunidades. “Sinto que é o caso de muitos cantores em Portugal… Primeiro têm reconhecimento fora e só depois é que têm no seu país. É triste e também é uma coisa muito portuguesa. A verdade é que os cartazes muitas vezes têm sempre os mesmos artistas e havia espaço para diversificar.”

No Mercado da Música Viva de Vic, apresentou-se com o pianista espanhol Marco Mezquida, com quem gravou um disco que será lançado nos próximos dias. “Aquilo que eu sinto ao participar nestes eventos é que abriu portas para colocar o fado em festivais onde o fado nunca tinha entrado”, diz a portuguesa.

“É quase mais importante do que um concerto normal”, acrescenta Marco Mezquida. “Porque, numa hora, podem estar 100 programadores a ver. Pessoas que me viram em muitos projetos, em muitas ocasiões, com muitas formações diferentes, mas aqui num duo tão especial e íntimo, ao lado de uma voz tão própria e potente, ainda por cima de Portugal, país irmão tão próximo… Já sabemos que nós, espanhóis, damos muito as costas e muitas vezes estamos mais perto do norte da Europa.”

Fado: grande embaixador ou grande preconceito?

Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2011, o fado é um tesouro musical nacional e o género que historicamente mais portas abertas teve no estrangeiro — mas também é muitas vezes encarado, entre os profissionais da indústria portuguesa contemporânea, como um legado que dificulta a exportação de outros géneros da música portuguesa, mesmo que nos últimos anos tenha havido alguma abertura e progressos feitos nesse sentido.

“O fado continua a ser o embaixador”, afirma Luís Bandeira. “E às vezes é complicado apresentar outras coisas, porque estamos demasiado conotados. Tive colegas a contarem-me que apresentavam artistas e os programadores estrangeiros, no final, só perguntavam: e fado, o que é que tens?”

“Um concerto de um artista potencia logo a exportação do produto — e às vezes até acontece para festivais dentro de Portugal. Estamos uns quantos portugueses, nunca tinham visto determinado artista e de repente gostam e contratam."
Luís Bandeira, Pinuts Music Agency

Tânia Monteiro comenta no mesmo sentido. “Há a tendência de as pessoas acharem que a música portuguesa é fado, e alguns outros projetos que se internacionalizaram têm começado a abrir outras portas, mas é algo que ainda se mantém um pouco. Acho que a maneira de mais pessoas consumirem música portuguesa é com os artistas portugueses a tentarem sair e a apostar na internacionalização. Isso poderá abrir-nos mais portas a todos. Sempre que corre bem para alguém, torna-se mais fácil. E mostrar que não é só fado, que temos mais coisas. O fado também é importante e é ótimo que se continue a internacionalizar, mas é bom que as pessoas oiçam outras coisas e projetos.”

Exemplificando com as exceções dos Buraka Som Sistema e dos Dead Combo, Paulo Sousa Martins concorda com essa conotação mas salienta que existem outros projetos que tiveram e têm visibilidade lá fora — até porque hoje “a abertura do estrangeiro para o fado também é mais reduzida”.

“Acaba por ser condicionada a três ou quatro nomes que internacionalmente estão bem, com uma projeção grande. Sinto que hoje há muito mais concorrência, que há uma oferta muito mais diversa na música portuguesa e isso é ótimo, mas ainda há um trabalho muito grande para se fazer enquanto país, cultura e enquanto gabinete de exportação, para mostrar a panóplia de coisas que existem, além do trabalho individual de cada agência. Enquanto país, falta mostrar muito mais a riqueza da música portuguesa, para criar ou solidificar muito mais as oportunidades, para não ser uma guerra pontual de uns e outros. Falta-nos imenso, enquanto país, mostrar o que é o som de Portugal além do fado — que faz parte da história, do presente e fará concerteza parte do futuro — mas há muito mais e isso precisa de estar mais sólido na cabeça das pessoas.”

Jorge Bizarro, da Why Portugal, sublinha que “nestes últimos anos houve uma mudança”, mesmo que a conotação com o fado se mantenha. Acima de tudo, acredita que a força e o valor da música portuguesa assentam na sua diversidade.

“Desde que fizemos a primeira incursão pela Europa que temos estado mais atentos aos festivais de showcase e a estes eventos da indústria”, comenta Tomás Wallenstein, dos Capitão Fausto

Xavi Caparros

“Não há uma identidade da música portuguesa, existem várias identidades. Não somos só o fado, nós somos música celta do norte, somos fado, somos norte de África, somos as fusões africanas a acontecer em Lisboa — que felizmente tem tido muito caminho, penso que o futuro seja muito por aí porque há aí uma nova identidade nacional a ser forjada e que tem de ser mostrada ao mundo — e nada é puro. Esta diversidade tem raízes históricas e culturais que são fáceis de perceber. Talvez estejamos muito ligados ao fado por causa dos quase 50 anos de ditadura, mas se formos ver a sua origem, se calhar algumas pessoas vão ficar admiradas. Todas estas diferentes influências estão na nossa música e no mesmo retângulo.”

Um gabinete de exportação reforçado e as comunidades portuguesas no mundo: os caminhos da internacionalização

Embora seja consensual a importância do trabalho que a Why Portugal tem desenvolvido nos últimos anos, também é unânime, entre agentes culturais e músicos, que seria valioso que este gabinete de exportação da música portuguesa contasse com mais apoios e meios para cumprir o seu propósito. “Quanto mais apoio, mais missões podemos fazer no exterior, mais bandas conseguimos levar. Temos feito um trabalho sério, rigoroso e consistente. É não deixar cair de um ano para o outro”, resume Jorge Bizarro.

“Nos últimos anos, a Why Portugal tem feito um esforço incrível e notável para conseguir chegar a mais mercados, para que exista uma maior delegação portuguesa a viajar e a estar presente nestes eventos. Mas claro que, a nível institucional, o nosso estado e o governo deveriam dar mais apoios para estas pessoas que estão no terreno e que conhecem as dificuldades da internacionalização e os outros modelos implementados nos restantes países”, aponta Tânia Monteiro. “Esta mostra de Portugal é uma mais-valia para o país, estamos a difundir a nossa cultura.”

Paulo Sousa Martins realça o facto de o Mercado da Música Viva de Vic ser “altamente promovido” pelo gabinete de exportação que existe só para a Catalunha e de existirem diversos institutos a “dar apoio aos projetos da região”. “Obviamente, isso dá uma força completamente diferente a quem se quer exportar e também é logo visto de maneira diferente para quem quer trazer artistas.”

Por seu lado, Luís Bandeira argumenta que as artes e a cultura em Portugal geralmente não são encaradas como um importante setor económico, o que faz com que os apoios sejam mais difíceis de garantir. “Enquanto empresário da música ou da cultura, acho que deveríamos pedir mais apoios ao Ministério da Economia. Porque isto é uma indústria, gera dinheiro e move milhões por ano, em Portugal e fora. Penso que o caminho é mais esse, porque muitas vezes o valor económico não é reconhecido e devia-se falar mais de investimento nestas áreas.”

Enquanto projeto artístico, Fidju Kitxora acrescenta ainda que falta, do lado dos músicos, “uma classe politizada” que também possa fazer essa luta e esse trabalho. “Não podemos simplesmente ficar no estúdio ou no café a responsabilizar a falta de investimento por parte da classe política quando temos uma classe artística que é segregada, que não está unida ao ponto de não termos pessoas na linha da frente que possam falar a mesma língua e ter esse entendimento com os políticos. Mais do que um governo humanista que possa ter uma visão mais aproximada daquilo que necessitamos, o que precisamos é de artistas politizados e de uma classe que tenha maturidade para conseguir dialogar com as entidades governamentais. Se não, ficamos sempre nesse plano de vitimização e acho que nós, portugueses, temos muita facilidade em ficar nesse lugar.”

"Não podemos estar sempre à espera de estarmos dependentes de terceiros para fazerem as coisas acontecer por nós. Quando vimos que não havia propriamente portas ou caminhos traçados para seguirmos com parceiros já pré-definidos, resolvemos começar a marcar as coisas por nós próprios e tomar esses riscos, fazer essa aposta."
Domingos Coimbra, Capitão Fausto

Nos caminhos da internacionalização, as vastas comunidades portuguesas — ou de expressão portuguesa por essa Europa e por esse mundo fora — podem ser um trunfo valioso para equilibrar o mercado estruturalmente limitado e periférico da música nacional.

“É sempre algo que os programadores perguntam, se existem comunidades portuguesas perto, se conseguimos comunicar com elas. Porque, à cabeça, é uma garantia de venda de bilhetes, os portugueses vão e levam os seus amigos estrangeiros. A comunidade portuguesa que vive fora é fundamental para o início de uma internacionalização”, diz Tânia Monteiro, enquanto projeta o mapa da Europa.

“França tem uma grande tradição de consumir aquilo que antigamente se chamava world music, sempre tiveram uma maior pré-disposição para consumir coisas diferentes. É um mercado em que todos tentamos entrar, até porque depois é mais fácil para ir para a Bélgica ou para a Suíça. Mas nunca nos podemos esquecer que, para lá chegar, temos de passar por Espanha. Um país em que muitas vezes podemos fazer concertos de carrinha, nem sequer é preciso de ir de avião, que hoje em dia dificulta muito as viagens porque está caríssimo. Por isso, claro que para nós portugueses é um mercado fundamental para conseguir começar a internacionalizar as bandas. Sabemos que consumimos pouca música espanhola e que os espanhóis também consomem pouca música portuguesa, mas passo a passo vamos conseguindo ter um pouco mais de mercado aqui. Tens de mostrar o que estás a fazer para as pessoas gostarem e, a partir daí, a palavra vai passando.” A água mole da música portuguesa continua, persistindo contra ventos e marés, a bater na pedra dura do mercado espanhol. Um dia, como diz o provérbio, é mesmo capaz de furar.

O Observador viajou a convite da Why Portugal

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