Chama-se Fidju Kitxora e é apresentado como um coletivo que se estreou no ano passado com o álbum Racodja. Sem promoção, o disco foi lançado de forma discreta, quebrando com os padrões convencionais na era da comunicação digital. Contudo, foi ganhando força à medida que uma série de ouvidos atentos convocaram o projeto para algumas importantes performances.
2025, porém, será o ano em que Fidju Kitxora se apresenta definitivamente nos palcos. Depois de um espetáculo em Braga em janeiro, o projeto rumou à GrETUA, em Aveiro (1 de março); segue-se agora o Musicbox, em Lisboa, por onde já havia passado no ano passado (8 de março); a Tallinn Music Week, na Estónia (5 de abril); o Tremor, em São Miguel (10 de abril); o Westway Lab, em Guimarães (11 de abril); o Impulso, nas Caldas da Rainha (9 de maio); e o Festival Nascentes, em Leiria (5 de Julho). Outras datas serão anunciadas em breve.
Embora se posicione como um coletivo artístico — uma ideia que de facto se materializa em palco, com os cruzamentos com múltiplos convidados, com o trabalho de design de luz, com uma performance de dança — este é um projeto encabeçado por André “Xina” Coelho, músico e investigador académico que partiu de uma história íntima para (des)construir uma narrativa sonora maior do que ele próprio, e que acima de tudo reflete a essência muito particular da nação crioula que é Cabo Verde.
Uma relação tensa com a terra-mãe
Não foi um projeto planeado, mas antes o “fruto de uma situação emocionalmente impactante”, como Fidju Kitxora, crioulo para “filho que chora”, descreve ao Observador. “Aconteceu a partir de uma viagem após a morte da minha avó. Ela estava em Portugal, e senti que era o momento ideal para ir a um lugar que é difícil para a minha família, da própria imaginação do que foi e do que ainda é.”
Fidju Kitxora refere-se a Cabo Verde e à sua natureza insular. Filho de pai português e mãe cabo-verdiana, o músico e investigador nunca tinha ido ao arquipélago africano. Nascido em Portugal, passou uma boa parte da infância em Macau e viveu muitos anos no Brasil. Teve formação musical, colecionou instrumentos tradicionais, começou a produzir batidas nos programas digitais e a entrar no mundo das gravações de campo e do sampling, das paisagens sonoras também ligadas ao circuito académico. Protagonizou e participou em diferentes projetos musicais. Mas nunca tinha tido contacto direto com Cabo Verde, onde tem origem metade do seu ADN, das suas raízes familiares.
[ouça o álbum “Racodja” na íntegra através do Spotify:]
A relação com a terra-mãe é tensa, complexa, e aconteceu com muitas outras famílias no pós-colonialismo. Há 50 anos, em 1975, ano da independência de Cabo Verde, a sua família materna veio para Portugal. O avô, natural da ilha de São Nicolau mas que tinha feito vida em São Vicente, fazia comércio com o exército português. Começou por vender fruta, depois abriu uma loja que se tornou conhecida na ilha, a Casa Mimosa. Com a revolução do 25 de Abril e a independência das colónias, deixaram tudo para trás e rumaram a Portugal.
A ligação a Cabo Verde não se manteve de forma estreita. Não se ouvia apenas música cabo-verdiana ou se comiam as iguarias locais, o crioulo deixou de ser a língua franca falada em casa. “A minha mãe casou com um português, o meu pai, ao mesmo tempo que, para se proteger, começou a rejeitar certos atributos da sua cultura. O que é natural, como muitos fizeram na diáspora. Resolveram-se, recalcaram o trauma, abafaram-no e vida para a frente. São pessoas que vivem bem, têm a sua vida, mas há uma dor ali que de vez em quando vem ao de cima, essa nostalgia que vem quando se ouve uma morna. É essa mágoa, são essas dores. E é dos cabo-verdianos como pode ser dos angolanos, dos paquistaneses ou das pessoas do Bangladesh, todos aqueles que vivem numa nação dispersa. O Fidju Kitxora é isso, é essa representação simbólica da dor daqueles que partiram e nunca mais voltaram, como a minha família.”
A ida a Cabo Verde, a grande matéria-prima deste disco
Contrariando a vontade da família, André “Xina” Coelho partiu para Cabo Verde em 2021 e esteve por lá durante três meses. Foi de forma “muito inocente”, com parcos recursos, viajando entre ilhas, fazendo largas caminhadas entre “povoações longínquas”. De mochila às costas, como um “ermita”, a deixar-se envolver por aqueles que o acolhiam. “Estive em contextos em que tinha de ser acolhido pelas pessoas, por questões de precariedade da minha parte, enquanto caminhante, por não ter comida, nem nada, e lá também não haver forma… Há certos contextos ali em que o dinheiro não vale nada e há uma cumplicidade e um acolhimento daquele povo, em certos contextos e ilhas, que também me trouxeram choques emocionais.”
Nesta jornada de descoberta pelo arquipélago, entrou em contacto com uma certa “nostalgia alheia”, a dos seus familiares, que também tinham uma “memória seletiva”, um mecanismo de defesa para lidar com os “traumas” de terem deixado o país naquelas circunstâncias. Esteve com primos e sobrinhos dos seus avós, conviveu com familiares que nem a sua família tinha tido a oportunidade de conhecer. E em simultâneo fez um processo de recolha: de memórias, mas também de fotografias e sons. “Tinha um gravador e um bloco de notas. E a dado momento comecei a desenhar músicas na minha cabeça, porque tinha gravado uma coisa que achava que iria dar uma remistura ou uma música interessante. Fiquei num lugar de criativo passivo, que para mim é muito importante — não é só estar no estúdio, também crio dentro da minha cabeça.”
Quando regressou a Portugal, passou a “sistematizar” muito daquilo que tinha recolhido, a atribuir sentido às memórias e aos registos acumulados. “Fiquei num processo de tentar criar uma reconciliação entre a minha mãe e as minhas tias e estes lugares que ainda existem, que não são simplesmente lugares parados na memória delas.”
[o vídeo de “Nadaver”:]
As gravações, muitas delas tornadas em samples, originaram músicas concretas. “A dada altura percebi que havia um retrato. Tinha escolhido as formas, as cores e de repente comecei a desenhar um retrato que, aí sim, talvez já tenha sido mais estratégico para que realmente fosse um álbum coerente, consistente e sólido. Escolhi as músicas que seriam as diferentes veias que vou querer fazer daqui em diante. Tenho uma música virada para algo mais electro-techno, com África ao nível percussivo; tenho um som mais ligado ao hip hop instrumental, a uma grande referência minha que é o J Dilla, e sinto que é algo que quero trabalhar com malta do rap crioulo; e depois tenho música super experimental, que também é algo que faço. Quero sintetizar as coisas. Ao longo dos anos, desde os meus 16 até agora, estive sempre a produzir diferentes alter-egos, diferentes projetos, mas neste momento é esta a minha narrativa, algo em que estou mergulhado. Também é uma parte da minha identidade que é uma história mal contada, porque foi condicionada por parte da minha família, porque não tive a realidade como se calhar muitos descendentes tiveram, de viverem realmente a cultura cabo-verdiana de uma forma plena através da língua, da música, da comida.”
Uma diáspora que (re)constrói constantemente um país
A força calorosa e acelerada do funaná funde-se com os balanços muitas vezes mais associados à música angolana, com influências hip hop e texturas eletrónicas, sintetizadores e vozes que adornam a paisagem sonora. Há samples de música tradicional cabo-verdiana como d’Os Tubarões, mas também de outros criativos contemporâneos — com vida feita em Portugal — que se têm agarrado às tradições crioulas para questionar o colonialismo, afirmar o pan-africanismo e dar novos mundos a toda esta amálgama cultural, como é o caso de Xullaji e Scúru Fitchádu.
O cantor e compositor Princezito e o rapper Karlon são outros dos nomes que inspiram diretamente a obra e cuja marca é literalmente audível ao longo das oito faixas de Racodja. Todo este processo de reminiscências, de utilizar o passado para projetar um futuro, carregando a tradição mas transformando-a em música nova e disruptiva, é um paralelismo que podemos traçar com a essência daquilo que é Cabo Verde.
Quando o arquipélago composto por uma dezena de ilhas vulcânicas foi descoberto pelos navegadores portugueses no século XV, aquele território ao largo da costa ocidental africana não era habitado. Portugal procurou povoar as ilhas e estabeleceu feitorias que serviam o comércio transatlântico de escravos, uma exploração fundamental para a economia do império e também para as ambições da expansão marítima. Milhares de pessoas que viviam nos territórios que hoje são a Guiné-Bissau e o Senegal, entre outros, foram levados para o arquipélago ao longo dos séculos. E as misturas — os processos de crioulização — começaram a acontecer, tanto de maneira orgânica como forçada.
▲ O facto de sempre ter sido um migrante fê-lo identificar-se com a própria identidade do cidadão cabo-verdiano. “Há uma dificuldade que vem destes lugares 'entre', que não é bem estar aqui nem lá"
“Houve um comportamento muito estratégico dos portugueses em juntar pessoas de diferentes povos africanos escravizados, de forma a que não fossem demasiados de cada grupo, para que não houvesse uma resistência cultural”, contextualiza André “Xina” Coelho.
“Os fazendeiros precisavam que os africanos cultivassem as terras ou trabalhassem para eles, e a igreja queria evangelizá-los. Estamos a falar de pessoas em idade adulta, em que isso é muito violento. E vem daí esta realidade de incluir e transformar. O crioulo vem daí, surge dessa relação entre diferentes povos que precisavam de se entender entre si. A língua foi muito retalhada entre aquilo que apreendiam na igreja ou junto dos fazendeiros portugueses, ou as palavras que os companheiros de outras etnias lhes ensinavam. O crioulo surge dessa necessidade de incluir e colaborar, ainda que tenha começado com uma realidade violenta. E isso está muito no ADN de Cabo Verde.”
Se a própria base da identidade e nação cabo-verdiana tem raízes no colonialismo, pois a grande maioria dos cabo-verdianos são descendentes de escravos — muitos deles tendo também antepassados europeus, os colonos — os processos de mistura tornam-se ainda mais complexos com a história contemporânea do país.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Com terras áridas, recursos minerais limitados e uma economia frágil, o fenómeno de emigração em Cabo Verde tornou-se a realidade para grande parte da população. Em Cabo Verde, viviam em 2021, de acordo com os Censos realizados nesse ano, cerca de 490 mil pessoas. Estima-se que a diáspora — os muitos cabo-verdianos que vivem em Portugal, Estados Unidos da América, França ou Países Baixos, entre outros territórios — possa chegar aos 1,5 milhões de pessoas, de acordo com dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), que tem trabalhado num mapeamento da comunidade cabo-verdiana espalhada pelo mundo. Será um dos países com uma das taxas de emigração mais altas de todo o planeta — e a própria noção de que o território é o país parece ser posta em causa quando existe uma diáspora tão vasta.
“Quando fui finalmente a Cabo Verde, entendi que já lá tinha estado. Porque a diáspora é Cabo Verde. É a diáspora que contribui musicalmente para potenciar aquele país, os imigrantes enviam muito dinheiro para lá e sustentam aquele país de certa maneira, então eu já tinha entrado em contacto com esta circulação que existe na diáspora, o que fazia com que lá houvesse uma confirmação de que realmente aquele país não é só aquele arquipélago”, explica Fidju Kitxora.
Embora não tenha crescido com a presença massiva da cultura cabo-verdiana, ao contrário de outros descendentes, o facto de sempre ter sido um migrante fê-lo identificar-se com a própria identidade do cidadão cabo-verdiano. “Há uma dificuldade no auto-entendimento que vem destes lugares ‘entre’, que não é bem estar aqui, não é estar lá… Há muitos descendentes que, acima de tudo, se sentem cabo-verdianos. Mas vivem noutros lugares, e aqui existem muitos que não se sentem representados enquanto portugueses, porque a sociedade de uma forma geral não o permite.”
[o vídeo de Boi Prétu:]
A relação da diáspora com o país de origem é de um processo constante de reciclagem, de uma circulação contínua. “Mesmo na música, há coisas que foram criadas em Cabo Verde, depois foram apropriadas na diáspora, onde são reinventadas pelos próprios migrantes, pelos seus filhos, mas depois volta novamente para Cabo Verde, e de lá volta novamente… Há um comportamento muito canibalístico que se sente muito nas ilhas. Quem o disse foi o Tony Tavares, que disse que nas ilhas há sempre esta necessidade de nos conectarmos com o que está lá fora. Naquelas ilhas, ao nível cultural, essa necessidade é muito mastigada e regurgitada novamente noutra coisa, depois essa outra coisa vai lá para fora, também por necessidade de consumo emocional de quem está lá fora… Há sempre esse movimento que talvez possamos nomear como crioulização, não sei qual é a palavra certa mas é um movimento constante. Também por haver uma certa crise identitária em Cabo Verde. Afinal, o que é ser cabo-verdiano?”
Até na língua, aponta, existe esse desafio. No ano passado, o presidente do país, José Maria Neves, expressou a sua vontade para que este ano — em que se comemora o 50.º aniversário da independência — o crioulo seja oficializado como língua, a par do português. A língua portuguesa é a única oficial em Cabo Verde, a única que é ensinada na escola e utilizada formalmente; mas os crioulos mantêm-se como língua franca, usados no quotidiano entre famílias, amigos e vizinhos.
“Vamos oficializá-la, OK, mas qual dos crioulos? O badiu, o Sotavento ou o de Barlavento? Se olharmos ao nível microscópico, estamos a falar de nove ilhas com o seu dialeto, estamos sempre a reinventar-nos e é tudo válido”, diz o músico e investigador, que está a trabalhar num doutoramento precisamente sobre o crioulo cabo-verdiano. A própria língua, explica, tem sido um objeto constante de renovação fruto do contacto com a diáspora.
“As palavras surgem de repente no vocabulário e são crioulizadas. Podem surgir na diáspora na Holanda, nos Estados Unidos, em França ou em Portugal e são logo reinventadas. Como o kasubody, um termo que vem de ‘cash or body’. Nos anos 80 ou 90, houve muita malta repatriada dos Estados Unidos para a ilha de Santiago e houve uma onda de assaltos. Era a expressão em inglês que usavam e que se tornou numa palavra do crioulo. E eu enquanto criativo estou com esse pensamento de querer incluir as diferentes camadas daquilo que foi a minha vivência. A crioulizá-las, se é essa a palavra, e de criar e recriar. Com um comportamento híbrido e expansivo, de integrar e incorporar, com aquilo que também é a forma de ser do cabo-verdiano e que é simbólico de Cabo Verde.”
Embora parta de uma história íntima e de uma visão pessoal, Fidju Kitxora tornou-se num projeto maior do que o seu autor, ao ponto de ser apresentado como um coletivo. “Comecei a ligar-me a outras histórias, a outras pessoas, a outras dores, a outras memórias e isso familiarizou-me com essas pessoas. Não posso pôr isto num plano tão egocêntrico, de dizer que é o meu projeto. Não é assim. É um projeto que também resulta de outras vozes. E a forma de conseguir racionalizar isso ou partilhar isso com as pessoas é dizer que é um coletivo — porque no fundo é. Eu posso ser o produtor, quem está a dar uma forma e uma direção, para que haja uma leitura num certo contexto. Mas quero fazer isto enquanto exercício para despistar uma certa tensão que é fixar uma narrativa. Se virmos de forma mais aérea, a música cabo-verdiana não respeita nada, no sentido em que haja algo em que se diga que ‘tem de ser assim’. Está sempre a ser reinventada. E também gostava da ideia de não entregar tudo numa era em que a música vive tanto da imagem e está tudo tão explanado. Nem precisamos de ouvir a música porque já sabemos que música é. ‘Porque ele faz isto, porque li o press-release e vi a foto, e já ouvi 10 segundos’. Se obrigarmos as pessoas a imaginar, elas estão também a participar na construção.”