O ambiente é, por estes dias, de sobressalto na Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE), instalada no Palácio do Bolhão, na Rua Formosa, no Porto. O novo ano letivo começou sob um dilúvio de denúncias anónimas nas redes sociais de assédio sexual por ex-alunos visando António Capelo, antigo professor e fundador da escola. O assunto levou mesmo à demissão da direção da ACE na passada quinta-feira. Mas, nos corredores da escola, a história está longe de ser nova. Há até quem lhe chame “o segredo mais mal guardado do Porto”. Todos os anos, a mesma dúvida, citada ao Observador: “Quem é que é este ano? Com quem é que o Capelo quer estar?”
A bolha rebentou nas últimas duas semanas nas redes sociais, mas há quase um ano que o Observador recolhe testemunhos de alegadas vítimas de práticas de assédio por parte de António Capelo, reconhecido ator e encenador português e figura de proa do teatro nacional. Os testemunhos, quase todos de alunos do género masculino e muitos deles menores à data dos alegados acontecimentos (os cursos artísticos são um percurso de nível secundário), relatam práticas que consideram abusivas desde o início dos anos 1990 até, pelo menos, 2011.
Os depoimentos recolhidos pelo Observador nos últimos meses, resultado de conversas presenciais e telefónicas, revelam padrões: pessoas que na sua maior parte não se conhecem apresentam relatos coincidentes sobre comportamentos, locais e pessoas envolvidas. Quase todas escolhem o anonimato por receio de represálias. Ao Observador, Capelo, que foi diretor artístico da ACE até 2022, diz que o que tem “a dizer, de momento, é negar peremptoriamente qualquer tipo de acusação”.
“Disse-me que o que podíamos ter podia ser algo muito especial”
Mia Filipa, 43 anos, foi o primeiro testemunho não anónimo recolhido pelo Observador (a professora falou também ao jornal Público). Foi ela a autora da denúncia de abuso sexual que chegou à direção do Bloco de Esquerda, que na última semana se demarcou do antigo mandatário, que nestas eleições autárquicas integra um vídeo de campanha do socialista Manuel Pizarro à Câmara Municipal do Porto.
“Esperei quase 30 anos por este momento, para o ver cair”, confessa Mia ao Observador. A professora, número três nas listas do BE à Câmara do Porto nestas autárquicas, é uma pessoa trans feminina, atualmente em processo de transição de género. Quando chegou à ACE em 1998 era um rapaz de 16 anos. “Entrei [na ACE] com o sonho de qualquer adolescente na altura: fazer teatro.”
Filipa vem de uma “família humilde” dos arredores de Campanhã. “Os meus pais nasceram num meio muito pobre, têm uma escolaridade muito reduzida, mas a minha mãe fez sempre o melhor que podia, sendo eu uma criança muito diferente”, afirma. “Vinha deste lugar de querer ser outra coisa, fugir do que a sociedade me impunha, mesmo ao nível de género, e estudar teatro foi uma espécie de revelação.” Foi ali, por exemplo, que conheceu, pela primeira vez, uma pessoa homossexual. “Era um colega, fiquei muito espantada que alguém se assumisse assim. Estava a encontrar de facto um lugar onde me pudesse exprimir. Estava muito contente de ter conseguido entrar para a academia.”
▲ Mia Filipa, 43 anos, foi o primeiro testemunho não anónimo recolhido pelo Observador. Foi ela a autora da denúncia que chegou à direção do Bloco de Esquerda, que então se demarcou do antigo mandatário
MARIA JOÃO GALA/OBSERVADOR
Corria o ano de 1998 e António Capelo era uma figura incontornável da representação portuguesa. Era um dos fundadores da ACE — Escola de Artes, que transformou o panorama teatral portuense, tornando-o uma referência nacional. “Mas ele não fazia apenas teatro, fazia também cinema. Naquela altura tínhamos um grande deslumbramento pelo cinema, tínhamos aquela ideia de Hollywood. Mas a alegria com que entrei para aquela escola rapidamente ficou manchada por aquela pessoa.”
A jovem terá despertado a atenção do encenador rapidamente. “Mostrou logo interesse em mim, metia-se comigo. Tinha uma atitude muito máscula, sempre a mandar umas boquinhas, a dar entender que sabia do que é que eu gostava [rapazes].” Em pouco tempo, surgiram os primeiros presentes. “Dava-me livros. Eu ficava super entusiasmada de ter o diretor da escola tão preocupado, a dar-me atenção. Isso dava-me uma valorização. Depois começaram a surgir convites, umas bocas para ir a casa dele.”
Foi ainda no primeiro ano, com apenas 16 anos, que Mia entrou pela primeira vez na casa de António Capelo, no centro da cidade. Pouco antes, o ator e professor falara-lhe de um potencial projeto. “Disse-me que estavam a fazer uma novela na RTP e que se calhar eu podia encaixar-me. Lembro-me de contar à minha mãe que o diretor da escola estava a pensar dar-me um trabalho. Mas, claro, era tudo uma ilusão porque nada disso aconteceu.”
“Estava em casa dele e estávamos no sofá, a conversar, mas ele sempre com uns olhares lascivos em relação a mim, e a pôr-me a mão”, relata sobre essa primeira visita a casa de Capelo. “Pegou na minha mão e pô-la em cima do pénis dele. Ele estava excitado e começou a esfregar. Depois aproximou-se para me beijar e eu cedi àquele beijo meio baboso. Lembro-me do perfume dele, que nunca mais esqueci. Até hoje não consigo estar perto de ninguém que use o mesmo perfume. É um perfume que me dá vómitos”, afirma. “Depois, baixou as calças e pediu-me para lhe fazer sexo oral. Disse-me que o que podíamos ter podia ser algo muito especial e que podíamos ser grandes amigos.” Mia acedeu. “Depois, despachou-me de casa.”
Não foi a única vez que foi a casa do professor, alega. “Recordo umas cinco vezes em que estive com o Capelo em casa dele. Sempre com sexo. E as coisas foram aumentando… Pediu-me para ter sexo anal, coisa com que na altura não me sentia muito confortável e não queria, mas por insistência dele acabei por ter esse tipo de relações com ele”, conta.
“Sentia-me muito desconfortável. Por um lado queria recusar, mas naquele momento não sabes o que pensar. Lembro-me que ele não me atraía nada, não era uma figura com quem quisesse ter alguma coisa. Estava na descoberta da minha sexualidade”, explica. Na escola, começou a receber tratamento especial. “Selecionava-me nas aulas para fazer massagens, para estalar o pescoço… Lembro-me que as pessoas à minha volta notavam. ‘Ah, o Capelo gosta de ti’.” Os episódios prolongaram-se até ao segundo ano, quando Mia Filipa deixou de aparecer. “Comecei a arranjar desculpas para não estarmos juntos. Não dizia um ‘não’ diretamente porque não me queria ver prejudicada na escola e já tinha ouvido outros gritos e ameaças que tinha feito a outros alunos, como ‘não trabalhas nesta cidade’, coisas desse género.”
Mas os efeitos dessa negação teriam consequências, assegura. “Ele começou a ter uma atitude humilhante comigo. Passou de ser uma pessoa que me dava muita atenção para me ignorar completamente dentro da escola. Era desconfortável, dizia-me que eu não tinha corpo de ator, que tinha um corpo muito feminino, que era afeminado e que um ator não podia ter esses trejeitos”, revela.
Mia deixou de conseguir ir às aulas. “Tornou-se insuportável estar na escola. O resto do ano estive a fingir que ia às aulas. Comecei a trabalhar, a fazer animação de rua, de espaços comerciais, tinha de ocupar o meu tempo enquanto fingia que ia às aulas”. Tinha 17 anos. Nunca acabou o curso. “Sentia-me descartada da escola. O Pedro Aparício [então diretor da ACE], na altura companheiro do Capelo, também mudou o comportamento comigo”, diz.
Como a maioria das alegadas vítimas que falaram com o Observador, Mia Filipa demorou anos até dizer alguma coisa a alguém. “Não sabia como contar isto à minha família. Sentia-me culpada, que tinha sido interesseira, que me tinha posto a jeito, que me tinha sujeitado àquilo. Sentia muita vergonha, achava que ninguém ia acreditar.”
“Foi preciso chegar aos 39 anos e fazer terapia para verbalizar isto como abuso. Só nessa altura é que consegui tomar consciência de que esses acontecimentos seriam abuso e assédio. Não tinha noção da dimensão e da proporção que este tipo de atitudes teve ao longo da minha vida, nomeadamente o que estou a passar agora”, diz, referindo-se à transição de género. “Obviamente, ele não é o principal responsável, mas é também uma das pessoas que contribuiu para estar a fazer uma transição tão tarde, nesta idade. Contribuiu muito para o meu processo de transfobia, homofobia internalizada, vergonha de não viver de acordo com aquilo que é a minha essência e identidade.”
“Sabes que se fores para casa vai ser muito difícil para ti fazer teatro no Porto”
“Era o único gajo que dava cartas na cidade do Porto a nível teatral, o tipo era intocável. Não acontecia nada no teatro no Porto em que o Capelo não dissesse sim ou não.” O retrato de um Porto no início dos anos 1990 é feito por José (nome fictício), 51 anos. Tinha 19 anos quando entrou na cobiçada escola. “Todos frequentávamos a roda Capelo, um homem que sempre gostou de se rodear de pessoas, uma estrela. (…) Frequentávamos o café Luso, que é muito diferente do que é hoje… Era o que seria hoje o Aduela, que congregava vários tribos da cidade, mais artísticas e intelectuais, arquitetos, jornalistas, atores e alguns alunos de faculdades que eram contra a praxe… Embora oficialmente fechasse às duas horas, depois fazia-se o caminho para casa de alguém, às vezes para a do Capelo.”
Foi numa dessas noites que terá sido alvo da primeira investida por parte do então professor, diz ao Observador. “Uma das noites em casa do Capelo em que ele e o [Pedro] Aparício estavam mais chateados, fez-me uma festa nas costas e disse: ‘Olha, não queres dormir cá esta noite?’ Eu estranhei porque eu não morava longe, não fazia muito sentido.” Recusou. “Ele percebeu que eu talvez não tivesse percebido e reforçou o pedido: ‘Aceita, anda lá, passas cá a noite’. E voltei a dizer-lhe que não”. “Sabes que se fores para casa vai ser muito difícil para ti fazer teatro no Porto”, terá ouvido. “Fiquei um bocado sem saber o que dizer e vim embora.”
A partir daí, o contacto com Capelo “esfriou”. As “consequências”, classifica, descobriu-as mais tarde. “Tive imensa dificuldade em fazer teatro no Porto ao ponto de ter de emigrar. Todas as portas no Porto se fecharam na altura para mim.” Em 1995, saiu definitivamente do Porto. “Sempre associei uma coisa à outra porque eu tinha as portas relativamente abertas e depois fecharam-se, foi uma coisa bizarríssima. Sempre soube que tinha sido por causa dele.”
Nem todos conseguiram dizer que não à primeira. “Tive um colega que era uma promessa gigante aqui na cidade. Fugiu ao fim de três de anos, não aguentou o assédio. Foi para a montanha e nunca mais voltou. Chamávamos-lhe o ‘menino do Capelo’, éramos muito cruéis.”
Ricardo (nome fictício), 50 anos, era esse “menino do Capelo”. Tinha apenas 14 anos quando fez parte de uma das primeiras turmas da ACE, no início da década de 90. Era um “miúdo expedito” que foi de uma terra pequena para a grande cidade. Alugava um quarto por oito contos.
“Eu era um miúdo bonitinho, com aquele ar de Tom Sawyer”, lembra agora ao Observador. A solidão e afastamento da família tornava-o apetecível para convites espontâneos por parte de António Capelo, diz. “Vamos dar um passeio”, “vamos beber um café” ou até “beber um copo”. “Nos anos 90 era uma coisa que parecia normal”, compara. “Pela forma como as pessoas falavam parecia que era normal no teatro o ator mais velho ter um namorado mais novo. ‘Ah, lá anda aquele menino a fazer-se para ter os papéis’. Era posto da forma contrária. A pessoa que estava a ser abusada ainda era a que estava a ser posta como a abusadora. Era conversa comum nos anos 90.”
“Na altura, se tivesse a consciência que tenho hoje tinha sido o primeiro a ir fazer uma queixa. A vida não é assim, aquilo era um mundo muito particular.” Ricardo ainda tem dificuldade em verbalizar o que passou naqueles anos no Porto e não esconde que ficou “a tremer” quando viu as denúncias de assédio plasmadas nas redes sociais nos últimos dias. “Há um medo que fica. De não poder falar, de apontar, de desapontar. É muito complexo e era muito complexo na cabeça de uma criança.”
Recorda uma noite em casa de Capelo, em que acedeu pernoitar por viver longe e um ensaio ter terminado tarde. “Um dia acordei com ele dentro da minha cama e a meter-me a mão. Peguei nas minhas coisas e saí, ainda com a roupa por vestir. Nunca mais me esqueci.” As “investidas”, diz, eram constantes. “Era aquela coisa de aproximar, um abraço mais próximo, depois tentava um beijo. Várias vezes aquilo deixava-me completamente perturbado, essa coisa de querer estar comigo, de me querer tocar, abraçar, pôr a mão, beijar.”
“Eu gostava de mulheres, não gostava de homens, tudo aquilo foi perturbador para mim. Era miúdo e perguntava-me porque é que não era homossexual, que talvez assim fosse tudo mais fácil. Isto é uma coisa tenebrosa de se pensar. Fica a ecoar na cabeça. É saudável a gente saber do que é que gosta, mas com pessoas da nossa turma, da nossa vida, pessoas que são como nós. Não é com uma pessoa com mais 30 anos.”
Foi só graças a uma namorada, anos mais tarde, que Ricardo conseguiu assumir a palavra com que define o que sofreu: “Abuso”. “Foi uma pessoa que me abriu os olhos e que me explicou na cara tintim por tintim que não podia ter admitido aquilo.” Recorreu a um psiquiatra, apesar do “imenso estigma” na época. “Era uma coisa… Difícil de aceitar, muito mais do que é agora.”
A dada altura, cansou-se de fugir das investidas e saiu da cidade. “Não aguentava mais. Nunca mais fiz teatro. Desliguei-me por completo”. Não sem antes falar com Capelo. “Disse-lhe tudo, que me tinha feito muito mal em miúdo, que me tinha manipulado, que me tinha gozado, que tinham feito tudo o que lhe apetecia, e que estava tudo errado. Depois saí do Porto.” Hoje vive à margem de tudo.
Admite, porém, que chegou a pensar, com outros colegas, em fazer alguma coisa. “Chegámos a reunir-nos. Mas pensávamos que nos podiam acusar de vingança, de não termos sido escolhidos para isto ou para aquilo. A má língua já existe há muitos anos. Não tínhamos consciência. Agora as pessoas perguntam: ‘Já viste o que nos fizeram?’”
“Capelo usava o pretexto de não haver transportes para pedir a alguns alunos para dormirem lá em casa”
O abandono da área artística é o desfecho de muitos relatos que chegam ao Observador. Mas nem todos o fizeram. O ator Luís Araújo, 41 anos, por exemplo, admite ao Observador: “Fui um dos muitos miúdos que ele na altura levava a jantar a casa”. Estudou na ACE Porto entre 2000 e 2003. “Já se ouviam histórias disto anteriores a mim”, nota. Tinha 16 anos quando entrou pelas portas da ACE.
“Na altura não víamos aquilo como abuso. Mas era um diretor de uma escola a levar-te a casa a jantar quando tens 17 anos… A mim só me caiu a ficha muitos anos depois que não é uma coisa que se faça. Na altura sentia-me super especial e ele servia-se muito disso, da fragilidade. Tentava apanhar os mais frágeis, os que precisavam de figuras fraternas, entrava por aí”, conta ao Observador. Também ele terá sido ameaçado quando não quis responder às investidas do então professor. Nos últimos dias, já depois de falar com o Observador, Araújo acabou por tornar público parte do seu testemunho, através de histórias no Instagram em repúdio ao alegado assédio perpetuado por António Capelo. “Foram discussões, gritos e ameaças. Chegou a dizer-me, de punho no ar, à frente de alguns colegas: ‘No que depender de mim tu nunca trabalharás nesta cidade!’”, escreveu.
Hugo (nome fictício), 44 anos, também se manteve no meio artístico. É ator, mas prefere manter-se anónimo por temer represálias. Frequentou a ACE no início dos anos 2000. “Houve logo uma predileção do Capelo por mim. Estava constantemente a dizer que era muito bonito, a elogiar o meu corpo, a dizer que eu ia ser um bom ator.”
Com 19 anos, esteve nos “famosos jantares” em casa de António Capelo, relatados por várias testemunhas ao Observador. “Ele tinha o hábito de convidar pessoas para ir a casa dele, para fazer jantares, no intuito de criar dinâmicas de grupo para a turma se conhecer melhor, para falar sobre a profissão e isso tudo. Nesses jantares, a maior parte de nós eram rapazes, era raro irem raparigas”, nota. “Ele convidava na sala de aula, mas não à frente da turma toda, esperava que algumas alunas saíssem e convidava algumas pessoas.”
▲ A direcção da ACE demitiu-se na última quinta-feira, na sequência das denúncias que recairam sobre António Capelo, um dos fundadores da escola em 1990
LUSA
“Tinha uma postura muito exibicionista a falar dos trabalhos, que já tinha colocado alunos na televisão e no cinema. No final dos jantares, como alguns alunos viviam longe, ele oferecia-se para as pessoas ficarem lá a dormir. Eu nunca dormi lá. Embora vivesse longe e já não tivesse comboios no final dos jantares, que decorriam durante os dias de aulas, tinha sempre um colega que me trazia a casa. Mas sei de colegas que acabavam por dormir lá, em casa dele. Nos dias a seguir, nós reparávamos que os colegas estavam com uma atitude completamente diferente em relação ao Capelo, viam-no nos corredores da escola e punham os olhos no chão, ficavam confrangidos quando ele falava com eles nos corredores da escola. Alguns alunos começavam a faltar, nós não percebemos porquê, mas era nos dias imediatamente seguintes aos jantares terem acontecido.”
Hugo foi a três jantares. “Foi o suficiente para rapidamente perceber que o Capelo usava o pretexto de não haver transportes para pedir a alguns alunos para dormirem lá em casa.” Nunca aceitou, garante.
Seis meses após o início do ano letivo, Capelo pediu-lhe que permanecesse na sala depois de a turma sair de uma aula. “Pediu para eu me sentar à frente dele, ficou uns momentos em silêncio e depois começou a elogiar-me, disse que eu tinha muito potencial, que tinha uns olhos lindos e que queria emprestar-me um livro”, relata. Tirou-o da gaveta e pediu-lhe que lesse. “Disse-me que tinha uma voz bonita e que tinha apenas de trabalhar algumas coisas de dicção”. Segundo Hugo, o tom mudou de repente: “Começou-me a tocar nas pernas e nos ombros e eu fiquei extremamente desconfortável. Levantei-me para sair, mas ele encostou-me à parede e começou a beijar-me o pescoço, tentou beijar-me a boca. Afastei-me e, quando tentei abrir a porta, percebi que estava trancada.”
Conseguiu afastá-lo apenas depois de insistir: “Tentei afastá-lo, mas ele foi persistente, tive de começar com socos e chutos na porta para chamar a atenção. Uma funcionária acabou por abrir a porta”. Saiu, conta, “a tremer, a suar, muito vermelho”, e fugiu de imediato para apanhar o comboio para casa.
▲ A Academia Contemporânea do Espetáculo fica no Palácio do Bolhão, um edifício na Rua Formosa, no Porto
JOSÉ COELHO/LUSA
A partir desse episódio, tentou evitar o professor ao máximo. Limitava-se a ir às aulas, mas começou a receber mensagens: “Hoje não te pus a vista em cima”, “por favor não me trates como um monstro”, “eu não costumo ser assim, mas confesso que se fosse mais novo te pedia para namorares comigo”. “Cheguei a responder a algumas dessas mensagens a dizer que não via a coisa assim. Que esta relação de professor e aluno não deve ultrapassar aquilo que é.”
No segundo ano, Capelo chamou-o ao camarim para lhe dar notas de correção de um trabalho. “Estava nervoso. Quando entro reparo que o Capelo ia trancar a porta outra vez. Disse-lhe: se me queres dar as notas, abre a porta, porque não vai acontecer o que aconteceu no ano passado, não me queiras ver aos pontapés à porta aos gritos. Ele destrancou a porta, deu as notas e eu saí.”
Na altura, falou com a psicóloga que já o acompanhava enquanto explorava a sua sexualidade e lutava para aceitar a sua homossexualidade. “Ela ajudou-me a aceitar-me, no fundo. Foi doloroso na altura, mas fez-me bem. Ajudou-me a ficar em paz comigo próprio e a perceber que a culpa não tinha sido minha, de todo, e que o Capelo fazia o mesmo com outros alunos”, explicou.
Hugo nunca denunciou o caso à escola por receio de represálias, nomeadamente de ser expulso do curso. “[Estudar na ACE] era algo que eu queria mesmo”, afirma. Sobre as situações, recorda: “Na primeira vez fui apanhado de surpresa, na segunda senti só repúdio.”
“Foi por isso que nunca fiz queixa, porque sentia-me culpado daquele assédio”
“Toda a gente sabia na Academia. Era uma coisa de: quem é que é este ano? Com quem é que o Capelo quer estar?”, diz Tiago (nome fictício), que em 2007 entrou na ACE com apenas 16 anos.
Estava atrasado para uma aula de interpretação, lecionada por António Capelo, quando recebeu uma chamada de um número desconhecido. “Ligou-me do número pessoal dele quando eu já estava à porta da sala. Não sabia quem era, mas, como estava à porta da sala, não atendi. Quando entrei, disse-me que me tinha tentado ligar, para guardar o número dele”. Tiago desvalorizou e não guardou. “Nesse dia, estava a jantar com a minha avó à noite quando recebo uma mensagem dele a perguntar se quero ir tomar um café com ele. Eu não sabia quem era. Ele respondeu: ‘Sou o Capelo’. E eu disse-lhe: ‘Olha, deves ter-te enganado porque me estás a mandar mensagem a mim, sou o Tiago, o teu aluno’. Fiquei muito nervoso quando ele disse que não era engano. Lembro-me de ele me ter dito: ‘Não, é para ti a mensagem’”. “Arranjei uma desculpa qualquer, estava nervosíssimo.”
“Esta coisa do #METOO não era uma realidade. Era simplesmente uma coisa que toda a gente sabia. Contei a alguns colegas, responderam-me ‘OK, pronto, então este ano és tu’. Ou seja, a indicar que há um alvo todos os anos”, afirma.
As abordagens não aconteciam apenas durante o ano letivo. “O assédio foi constante ao longo dos três anos. Nesse verão mandava-me mensagens. “Que calor!!!”, outras “Estou a gravar em Lisboa, que vida de cão”. Isto durante as férias. O assédio começou durante o ano letivo e continuou”. Capelo continuava a fazer investidas, convites para jantar em casa, sempre por mensagem, afirma Tiago. “As mensagens eram uma coisa completamente sabida dentro da comunidade de alunos”, sublinha, recordando um episódio em que estavam 10 ou 15 alunos a jantar. “Recebemos todos uma mensagem do Capelo a dizer: ‘Queres paparoca?’ Isto é surreal”.
“Eu era adolescente, estava a explorar a minha intimidade… Viver isto teve repercussões terríveis”, diz. “Tenho uma sexóloga que me acompanha há três anos porque fiquei com imensas inseguranças, tenho imensos problemas na minha vida íntima por causa deste assédio. Durante muito tempo senti culpa… O facto de ser gay estava-me a colocar numa posição… Será que sinto desejo por este homem? Porque a iniciação à sexualidade de uma pessoa LGBT é um bocadinho diferente das restantes e, como havia um investimento da parte de outra pessoa, eu próprio estava confuso. Será que eu sinto desejo por isto? Foi por isso que nunca fiz queixa, porque sentia-me culpado daquele assédio, porque na minha cabeça eu achava que tinha dado algum sinal. Hoje em dia percebo que, mesmo que tivesse dado, o papel dele enquanto professor é cingir-se a não fazer nada.”
“Nunca contei à minha família porque sempre tive medo das repercussões da minha permanência naquela escola onde eu tanto quis entrar. Na minha cabeça, o Capelo, pela visibilidade social que tem e por ser o professor da escola, iria sair ilibado e eu não tinha provas suficientemente fortes. Então o que ia acontecer era eu sair daquela escola e isso também não queria. Tinha muito medo de falar disto à minha mãe.”
Reportar à escola sempre esteve fora de questão. “Era uma coisa banalíssima, o Capelo assediar alunos.” Além disso, diz, “o Capelo e o marido dele eram os diretores da escola, era uma impossibilidade”. “Dentro do ambiente escolar existe uma proteção inacreditável a estes abusadores. Era super aceite. O #METOO trouxe outro paradigma de olhar para isto, mas naquela altura era uma coisa naturalizada.”
Hoje em dia, tornou-se claro que mensagens de teor sexual enviadas por um professor a alunos menores não são consideradas aceitáveis. Páginas de Instagram como a “Não Tenhas Medo”, que se foca na exposição anónima de crimes e abusos, ou a “Mais um Casting”, dedicada à divulgação de oportunidades no meio artístico, têm exposto denúncias, em grande parte anónimas, com capturas de ecrã de mensagens de teor íntimo atribuídas ao ator.
▲ “As acusações que me dirigem são graves e totalmente distorcidas da realidade”, afirmou António Capelo num comunicado enviado a vários jornais
(Rui Oliveira/Observador)
Vítor (nome fictício), hoje com 29 anos, foi um dos que receberam mensagens indesejadas. Entrou na ACE em 2011. Tinha 15 anos. “Olhávamos para aquela pessoa [António Capelo], nome grande da nossa praça, com trabalho feito, uma escola de atores, havia esta coisa de: é bom que ele goste de nós e do nosso trabalho”, começa por dizer ao Observador. “Com ele era tudo muito físico, havia muito esta necessidade da parte dele de ser tudo com um cariz… Sou homossexual, mas com 15 anos não sabia, estava-me a descobrir dessa forma, então era tudo muito estranho. Era a minha primeira experiência como ator, como aluno de teatro, então não conseguia distinguir se aquilo era abusivo ou não, se fazia parte do exercício. Sabemos que neste meio dos atores há muito contacto, muito à vontade, e eu não sabia até que ponto a coisa era natural.”
As mensagens tornaram tudo mais claro. “Começou a enviar-me mensagens para tomar café, para jantar. Até que começaram a vir imagens, dickpicks [fotos do pénis, em português], e fiquei assustado”, lembra. “As pessoas com quem falava eram colegas mais velhos que já tinham passado por isso. Diziam-me: não te preocupes que isso acaba depois. Foi muito estranho lidar com isso.”
Vítor diz ter recebido pelo menos três vezes fotografias de cariz sexual. “As mensagens eram muito intensas. Estava a descobrir a minha sexualidade, era virgem, a lidar com aquilo. Foi o meu primeiro contacto, foi através dele, isso não é bom.” “Ainda tentei responder ‘porque é que mandaste isso?’, ‘olha, enganaste-te a enviar a fotografia’”. Mas nada fazia parar as mensagens. Questionava-se: “Será que eu dei abertura para isto e não tive consciência?”. “A coisa foi aumentando de gravidade, oferecia-me presentes, dizia-me ‘Trouxe isto para ti’ e eu tentava esconder”.
“Hoje acredito que falaria com os meus pais e a coisa tomaria outro rumo. Na altura, tinha muita vergonha, tinha medo que me tirassem da escola. Pensava: eu quero trabalhar na área, tenho medo que isto me possa prejudicar.”
Ator nega “peremptoriamente qualquer tipo de acusação” e apresentou queixa por difamação
Os testemunhos anónimos multiplicam-se, poucos dão a cara, com medo de represálias. O ator já informou, em comunicado enviado a órgãos de comunicação social, que apresentou uma queixa-crime por difamação “contra quem se arroga dono da verdade”. O Observador confirmou com a Procuradoria-Geral da República a existência da queixa, que foi encaminhada para investigação.
Mia Filipa, que decidiu dar a cara pelo seu relato, sabe os riscos que corre. Fala publicamente, diz, para “pressionar o Ministério Público e a sociedade civil e o Parlamento para que repensemos as leis de proteção de menores na escola”. Afirma que o comunicado da ACE Porto, entretanto divulgado, “é absolutamente ridículo e prova o porquê de as pessoas não falarem, põe as vítimas num lugar desacreditado atirando-lhes o rótulo de anónimas”. “Sei que é difícil desconstruir a imagem de algumas figuras, mas estas vítimas existem”, alerta.
Mia faz parte da organização Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto, que está a convocar uma manifestação à porta da ACE para esta segunda-feira, às 18h. Mas Mia espera que a conversa extravase as portas da ACE . “Isto não é sobre a Academia. A Academia é a tragédia que nos vai obrigar a falar sobre isto. Mas a participação da sociedade civil nesta concentração é muito importante porque vai valorizar o testemunho das vítimas, vai fazê-las sentir acolhidas, respeitadas, ouvidas e tantos outros casos poderão ter coragem a partir desta mobilização pública para trazer solidariedade e também exigência para que se pense em medidas estruturais que possam trazer um futuro mais seguro para as nossas crianças e jovens.”
Ao Observador, António Capelo afirma que o que tem “a dizer, de momento, é negar peremptoriamente qualquer tipo de acusação”. Num comunicado enviado a vários jornais, diz ter sido “alvo de acusações anónimas e difamatórias que põem em causa” a sua “honra, a vida profissional e até a vida privada”. “As acusações que me dirigem são graves e totalmente distorcidas da realidade”, afirma ainda. “A minha conduta sempre se pautou pela exigência profissional, pelo respeito e pelo cuidado com os alunos. Gestos de proximidade, de afeto ou de apoio — como abraços, empréstimos de livros, partilha de refeições ou acolhimento em momentos de necessidade — nunca tiveram outro propósito senão o de educar, apoiar e formar seres humanos e profissionais.”
Por isso, diz: “Não posso e não vou aceitar nem compactuar com campanhas difamatórias que procuram destruir não apenas o meu nome, mas também o trabalho e a credibilidade de uma instituição com provas dadas na formação artística em Portugal. O projeto da Academia Contemporânea do Espetáculo é maior do que qualquer um de nós e merece ser defendido da exploração irresponsável de acusações totalmente infundadas”.
Direção da escola demite-se, Inspeção-Geral da Educação abre processo
Alunos e ex-alunos alegam que há um “padrão” de assédio enraizado na ACE. Mas, ao Observador, Pedro Aparício, co-director da ACE, que terá tido uma relação amorosa durante anos com António Capelo, garante que a instituição “não” recebeu nunca qualquer denúncia, formal ou informal sobre o docente, que já não leciona na ACE há três anos. “Em nenhum dos instrumentos de auto-avaliação ou órgãos de controlo pedagógico da escola foi registada qualquer queixa contra este antigo professor. Nem junto da ‘rede’ de profissionais que enquadram o quotidiano escolar e que estão em contacto direto com os alunos, como diretor de turma, diretor de curso ou direção pedagógica, nem nos inquéritos anónimos de avaliação individual dos professores por parte dos alunos, que a escola promove anualmente, desde 2011. De igual modo, também não se verificaram queixas desta natureza nos inquéritos, anónimos, produzidos pela Comissão de Avaliação Interna, em 2023/24, ou nos inquéritos às/aos alunas/os criados pela Associação de Estudantes, em 2021.”
Na última segunda-feira, no primeiro dia do ano letivo, elementos da direção percorreram as salas para apaziguar os ânimos dos alunos. Segundo relatos de alunos ao Observador, ter-lhes-á sido dito que a escola era um espaço seguro, mas o nome de António Capelo nunca terá sido mencionado. No dia seguinte, a ACE emitiu um comunicado, disponível nas suas redes sociais, em que afirma não existir “qualquer queixa ou denúncia junto da escola ou de qualquer entidade judicialmente competente: o Ministério Público ou a Polícia Judiciária”, notando que não se revê, “de modo algum, na imagem agora plasmada naquelas afirmações”. A escola desativou os comentários da publicação. Dois dias depois, a direção da escola, constituída por Pedro Aparício e Glória Cheio, acabaria por se demitir.
O comunicado da ACE, divulgado na última semana
Questionada pelo Observador, a ACE não esclarece a partir de quando tem efeito a demissão e se já há previsão de uma nova direção para o estabelecimento de ensino. O Observador sabe que houve uma reunião extraordinária de professores na última sexta-feira. Entretanto, a Inspeção-Geral da Educação e Ciência determinou a abertura de um processo de averiguações à escola artística, na sequência de uma denúncia que deu entrada no dia 8 de setembro, confirmou o gabinete do Ministério da Educação e Ciência (MECI) ao Observador. A ACE é uma escola profissional de artes do espetáculo tutelada pelo Ministério da Educação.
Aos 69 anos, António Capelo continua a figurar em projetos de relevo na cena artística nacional. Atualmente, integra o elenco de Terra Forte, a próxima telenovela produzida pela Plural que se estreará em outubro na TVI, em parceria com a Prime Video. O Observador tentou contactar a direção da Plural e da TVI no sentido de perceber se Capelo se mantém nesta produção perante as denúncias que visam o ator, sem sucesso. No mês passado, o Observador noticiou que Nuno Homem de Sá, ator que enfrenta atualmente um processo na justiça por violência doméstica, tinha saído do mesmo projeto.