Três semanas de azáfama, pilotos instalados em hotéis por todo o Algarve e cinco mil pessoas só da organização. Vai ser assim em 2027 e 2028 quando a Fórmula 1 regressar a Portugal. As negociações começaram há mais de um ano, nem sempre com otimismo por parte dos responsáveis, confessa Jaime Costa, CEO do Autódromo Internacional do Algarve (AIA), que vai acolher o grande prémio. O equipamento cumpre, por fim, o desígnio para o qual foi criado há quase 18 anos, depois de uma experiência “precária” em 2020 e 2021, em que o Algarve foi uma solução de recurso durante a pandemia.
“O primeiro contacto com a Fórmula 1 surgiu há um ano e pouco, depois fomos desenvolvendo as conversas, em algumas alturas com mais otimismo, noutras com menos, mas a partir de uma certa altura tornou-se evidente que tanto nós tínhamos argumentos para convencer a Fórmula 1, como a Fórmula 1 também tinha interesse em vir para Portugal”, conta Jaime Costa ao Observador.
As alturas de menos otimismo prenderam-se com a ferocidade da concorrência, embora Jaime Costa não desvende quem é que Portugal conseguiu bater na corrida. “Seria especular”, diz. “Eu sei que a Holanda vai sair e nós vamos entrar para o lugar da Holanda. Mas daqui não se pode concluir que é uma substituição direta”, explica ainda.
Mas a luta foi renhida e, a certa altura, “tivemos que fazer valer alguns argumentos”. Não só o AIA, mas o destino Portugal como um todo, e particularmente o Algarve. “É um destino que interessava muito à Fórmula 1 por ser turístico”, refere. “Segundo percebi, eles gostam de ter no portefólio de circuitos alguma variedade de tipos de destinos. Circuitos de cidade, circuitos com ambientes mais urbanos, ambientes de festa e destinos turísticos. Portanto, o Algarve sempre lhes interessou muito. Juntaram-se as duas vontades e chegámos a acordo”.
O “argumento Algarve” não foi, porém, o único. A pista de 4,684 quilómetros de Portimão “é muito apelativa também, porque é uma pista muito diferente das outras. Tem muitas elevações, umas curvas muito características” que contribuem para o “espetáculo televisivo” para o “desafio de pilotagem”. Aliando isso à “capacidade que demonstrámos de organizar um bom evento”, a Fórmula 1 ficou convencida.
Segundo o Turismo de Portugal e do Algarve, a vitória de Portimão “foi resultado do trabalho de uma task force nacional que, ao longo dos últimos meses, integrou o Governo de Portugal, o promotor Parkalgar, o Turismo de Portugal e o Turismo do Algarve”. Jaime Costa sublinha o empenho do Governo no processo. “Foi uma condição necessária para que tivesse sucesso”, resume. “Houve uma vontade muito grande sobre todas as áreas do turismo, o secretário de Estado do Turismo, que foi uma figura sempre presente neste processo. A demonstração desse empenho, dessa vontade e dessa capacidade de entrega foi crítica para que vissem que tinham um parceiro credível deste lado”.
Corridas devem chegar no verão. Grupo de trabalho vai estudar acessos
A posição do grande prémio de Portugal no calendário da Fórmula 1 só será conhecida em meados do próximo ano, mas não há muitas opções. “Se formos ver o calendário de 2026, que já foi publicado, a época da Europa é junho, julho e depois setembro e princípio de outubro”, aponta o CEO do AIA. Pelo que a febre a Fórmula 1 deverá chegar a Portugal “entre junho e o início de outubro” de 2027.
A logística associada ao evento é gigantesca. E mesmo com o test drive de 2020 e 2021, Jaime Costa reconhece que haverá desafios. Até porque essas duas experiências, apesar de terem corrido “bem”, foram organizadas em condições “precárias” e com as limitações associadas à pandemia. “Correu muito bem, todos, participantes e organização, ficaram muito bem impressionados com a capacidade que tivemos de, em três ou quatro meses, realizar um grande prémio de Fórmula 1, com menos público do que o normal, porque tínhamos só 25 ou 26 mil pessoas”.
Desta vez será diferente. “Estamos a falar, sem grande dificuldade, de passarem aqui 200 mil pessoas”. O autódromo tem capacidade para 95 mil espetadores. E o evento estende-se bem para lá do fim de semana da corrida. “A Fórmula 1 vai cá estar durante três semanas, porque chegam duas semanas antes e partem uma semana depois”, revela Jaime Costa. “É uma comitiva com imensas pessoas de organização, logística, jornalistas, pessoas de todas as áreas de montagens e desmontagens. Durante três semanas estarão aqui da organização, em média, quatro a cinco mil pessoas”.
O próprio evento “cada vez começa mais cedo”, indo além da qualificação de sábado e da corrida de domingo, pelo que “é provável que entre quinta e domingo já estejamos a trabalhar em modo evento, e passarão seguramente 200 mil pessoas por aqui”. A capacidade hoteleira não será um problema, garante o responsável. Os visitantes, e os próprios pilotos e equipas, ficam hospedados um pouco por todo o Algarve.
Mais desafiante serão os acessos e infraestruturas. Na conferência de imprensa em que o regresso do grande prémio foi anunciado, o ministro da Economia manifestou a convicção de que “a situação das entradas nos aeroportos em 2027 estará francamente melhor e não será um problema”. Jaime Costa revela que vai ser criado um grupo de trabalho dedicado apenas à área dos acessos. Juntará o Ministério das Infraestruturas, o Turismo de Portugal e do Algarve, a Câmara de Portimão, a dona do autódromo e mais algumas entidades.
▲ Lewis Hamilton, então na Mercedes, foi o vencedor dos dois grandes prémios de Portugal em 2020 e 2021 no Algarve
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
“É um tema que tem impacto na experiência do utilizador. As nossas estimativas são a de ter pelo menos 60 mil pessoas a chegar, em pico. Nunca se conseguirá chegar a nenhum sítio em minutos com esta quantidade de pessoas”. Em concreto, no que toca aos acessos, serão avaliados parques de estacionamento dissuasores, sistemas de transporte gratuito e o melhoramento de algumas vias de acesso secundárias “para que possam servir de canal de acesso e de escoamento de trânsito”.
No recinto, a pista ainda terá de ser homologada para receber a prova. “Ainda por cima os regulamentos mudam um pouco todos os anos, portanto todos os anos temos que fazer investimentos na pista, quer para motos, quer para carros, para podermos ter as homologações das federações internacionais, sobretudo em termos de segurança”, adianta Jaime Costa.
Além disso, será feito um “investimento significativo noutras infraestruturas de apoio ao público” e na “hospitalidade corporativa”. Serão necessárias “mais salas, mais zonas de entretenimento, mais espaços para venda de hospitalidade corporativa”. Outros investimentos passam pelo reforço de cobertura de wifi e em mais ecrãs gigantes.
O impacto económico do evento em Portugal rondará os 150 milhões de euros, sendo que o custo ainda é segredo devido a “contratos assinados entre as partes com compromissos de confidencialidade”, ainda que o ministro da Economia tenha prometido divulgá-lo a seu tempo. Tal como Castro Almeida, Jaime Costa sublinha que a Fórmula 1 “representa, seguramente, um investimento com um retorno muito interessante para a economia do Algarve e de Portugal” e que “a receita que o Estado vai arrecadar em impostos será muito superior ao investimento que será feito”.
O CEO do Autódromo Internacional do Algarve estima ainda, usando as métricas do Moto GP, que tem uma dimensão menor, que o evento terá “um efeito estrutural de criação de 2.500 e 3.000 empregos permanentes”.
“O grosso da nossa atividade não é fazer corridas”
Quando a Fórmula 1 se instalar em Portimão, o Autódromo Internacional do Algarve terá 19 anos. Foi idealizado e fundado por Paulo Pinheiro, que morreu em 2024, e que “desde o início tinha o sonho e trabalhou para trazer para cá a Fórmula 1”, lembra Jaime Costa.
Entre a inauguração em 2008 ao auge esperado em 2027, o Autódromo Internacional do Algarve passou por um período conturbado, em 2012, quando a Parkalgar, gestora do AIA, entrou com um Processo Especial de Revitalização (PER) na sequência de uma dívida acumulada de 160 milhões de euros. Entre os credores estava o próprio patrão da Fórmula 1 na altura, Bernie Ecclestone, que chegou a interpor uma ação por uma dívida de 3,2 milhões de euros. O PER foi aceite e aprovado um plano de recuperação, com perdão de uma parte das dívidas, sendo o BCP o principal credor.
Hoje, a situação do autódromo é “estável”, diz Jaime Costa. “É uma empresa portuguesa com alguma dimensão que concorre nos mercados internacionais, traz para Portugal muita riqueza, gera muita riqueza na região do Algarve e tem as dores de competir nos mercados internacionais que têm normalmente as empresas portuguesas”, resume. “É muito melhor do que foi no passado. Embora os mercados em que competimos sejam mercados internacionais. Grande parte do nosso negócio, na realidade, são exportações, porque são clientes que nós trazemos”.
▲ Um grupo de trabalho vai estudar formas de melhorar os acessos ao autódromo de Portimão antes de 2027
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Os grandes eventos com público, como o Moto GP, não são a maior fonte de receitas do AIA, revela o CEO. As instalações estão ocupadas cerca de 340 dias por ano. “Com eventos de apresentações de carros, eventos corporativos, testes de carros e testes de motos e de pneus, lançamentos de novos modelos, trackdays para clientes da área turística que vêm do estrangeiro fazer experiências na pista. Esse é que é o coração da nossa atividade”, explica Jaime Costa.
Os eventos grandes “são importantes como complemento e como forma de posicionar o autódromo”, mas são apenas uma fatia do negócio, ressalva. O volume de negócios, afirma, “tem aumentado de forma sustentável”, sem adiantar um número.
Mesmo que o AIA queira atrair mais provas que encham as bancadas, “não há muitas mais, já temos quase a nata de todas”. Além da Fórmula 1, do Moto GP, o autódromo recebe ainda o campeonato do mundo de Superbike e o European Le Mans Series. “Depois temos cerca de 24 ou 25 corridas já marcadas para 2026, algumas que não atraem o interesse do público. Mas não há muito mais corridas para crescer na Europa. Só se fôssemos buscar corridas que existem nos Estados Unidos, mas não costumam ter adesão no mercado europeu. O grosso da nossa atividade não é fazer corridas. Uma corrida tem sempre o impacto de ocupar o calendário durante muito tempo. Tem que ser gerido com alguma parcimónia”.
A única expansão prevista do negócio, que tem acontecido aos poucos, tem que ver com as “infraestruturas de apoio ao desenvolvimento tecnológico, startups, investigação e desenvolvimento”. É uma área que “foi sempre considerada importante, mas que nunca houve capacidade para desenvolver”. Neste âmbito, foi constituída há dois anos uma associação com a Universidade do Algarve, a Accelerator, que já tem um edifício nos terrenos do AIA. “O plano inicial era ter um conjunto de lotes de terreno com edifícios com esta vocação tecnológica”. O primeiro ficou completo este ano.
A empresa também tem apostado na energia fotovoltaica, tendo instalado 18 mil painéis solares na zona do autódromo com o apoio de parceiros. “Esta infraestrutura ainda tem muito para crescer em termos de potencial de negócio, portanto o nosso foco é mais no core do nosso negócio do que na diversificação”, sublinha.
Do universo do autódromo fazem parte duas empresas. A Parkalgar Hotéis e Alojamentos Turísticos, que gere o hotel Algarve Race Resort e os apartamentos envolventes, e a Parkalgar Parques Tecnológicos e Desportivos, responsável pelo autódromo, o kartódromo e toda a parte desportiva. O Estado chegou a fazer parte da Parkalgar, através da capital de risco pública Portugal Ventures, com cerca de 12%, mas, segundo Jaime Costa, desde há cerca de um ano e meio que os acionistas são apenas privados.
Autódromo do Estoril gerido pelo Estado? “Há negócios que são para ser desenvolvidos por privados”
Da história da Fórmula 1 em Portugal faz também parte o autódromo do Estoril. É pública a vontade da câmara de Cascais em voltar a receber o grande prémio de Portugal no autódromo onde Ayrton Senna conquistou a sua primeira vitória, em 1985.
▲ A câmara de Cascais quer passar a gerir o autódromo do Estoril e trazer a Fórmula 1 em 2029.
Corbis via Getty Images
Ainda antes de ser anunciada a Fórmula 1 em Portimão, o presidente da autarquia, Nuno Piteira Santos, deu uma entrevista ao Jornal de Negócios na qual revelou que a câmara de Cascais quer passar a gerir o autódromo do Estoril, que é detido pela Parpública, gestora de participações do Estado, e receber também um grande prémio de Fórmula 1, que apontava já para 2028. Essa porta está fechada, mas o ministro da Economia deixou o futuro em aberto. “Podemos ter conversas posteriormente com a Câmara de Cascais sobre a melhor forma de rentabilizar o autódromo do Estoril, que tanta história tem na Fórmula 1 em Portugal”, assumiu.
Já depois do anúncio da prova no Algarve, Nuno Piteira Santos, também ao Negócios, declarou que, agora, é 2029 que o Estoril “está em cima da mesa”. Confrontado com a possibilidade de ter concorrência interna, o CEO do AIA começa por defender que “seria muito benéfico para o autódromo internacional do Algarve que o circuito de Estoril estivesse a funcionar no mercado como um operador normal, modernizado, com capacidade de receber eventos”. Para Jaime Costa, isso “teria um efeito positivo no mercado, porque é melhor ter um concorrente saudável do que um concorrente menos saudável”.
No entanto, a gestão pública do recinto causa dúvidas ao responsável do autódromo do Algarve. “Há negócios que são para ser desenvolvidos por privados”, defende. “Portanto, causa-me alguma estranheza que o Estado, com a mão esquerda ou com a mão direita, queira” gerir o autódromo do Estoril. “Acho que não tem sentido nenhum. É essa a minha opinião, mas não conheço o dossiê em profundidade”.