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▲Perante este cenário catastrófico para um partido histórico na Alemanha, conjetura-se que Olaf Scholz pedirá a demissão no próximo domingo

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▲Perante este cenário catastrófico para um partido histórico na Alemanha, conjetura-se que Olaf Scholz pedirá a demissão no próximo domingo

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Olaf Scholz. O chanceler alemão que nunca foi popular perto de uma derrota histórica nas urnas

Sondagens mostram que Scholz não deverá ir além dos 16% nas eleições federais, levando o SPD a mínimos de 1887. À reportagem do Observador, apoiantes reconhecem dificuldades — e fazem críticas.

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Cheirava a pipocas e havia copos de refrigerantes. No cinema Cinepol Capitol, na localidade de Kassel, o chanceler alemão organizou uma ação de campanha em que calmamente respondeu a perguntas dos seus apoiantes na manhã desta segunda-feira. Antes de se deslocar para Paris, onde era um dos convidados para a cimeira de emergência sobre o futuro da Ucrânia e das relações transatlânticas, o líder germânico foi questionado por membros da audiência sobre vários tópicos. No palco da sala onde horas antes tinha sido transmitido O Capitão América, Olaf Scholz vestiu o fato de chanceler ponderado e sério para mostrar que é sinónimo de estabilidade, numa altura em que os tumultos geopolíticos da nova administração se fazem sentir na Europa.

Da plateia, Olaf Scholz respondeu a várias perguntas e reparos, raramente usando um tom crispado. Afinal, o evento tinha sido organizado pelo Partido Social-Democrata (SPD, sigla em alemão, partido pertencente à família dos socialistas europeus) e estava entre muitos aliados e camaradas. Muitos destes que, no final do evento, formaram uma enorme fila para tirar uma selfie com o chanceler, que pacientemente tirava fotografias com apoiantes. Apesar de estar rodeado de pessoas num ambiente que se tornou rapidamente caótico, a segurança não foi deixada ao acaso.

Quem entrasse no Cinepol Capitol, parecia que estava a entrar num aeroporto. À porta, havia dezenas de carros de polícia e ambulâncias. Para quem entrasse no cinema, o controlo de segurança era bastante apertado. Quem trouxesse mochilas, eram revistadas à entrada, cheiradas por um cão polícia e novamente vista antes de se entrar na sala. Havia igualmente um detetor de metais — e nem líquidos, à exceção dos que eram comprados dentro do cinema, podiam entrar no espaço onde Olaf Scholz ia discursar.

▲ Cinema que acolheu o evento de Olaf Scholz na manhã desta segunda-feira

José Carlos Duarte/Observador

Mesmo estando entre possíveis apoiantes, houve alguns reparos e críticas a um líder que esteve muito longe de ser popular nos últimos quatro anos que governou a Alemanha. Uma mulher da plateia deu-lhe mesmo uma tarefa, tratando o chanceler por tu: “Tenho uma tarefa para ti: vais ter de terminar com a burocracia na Alemanha”. Outro jovem lamentou que o executivo não tenha criado um “Ministério da Digitalização”, algo que esperava que tivesse sido cumprido. E uma mulher criticou igualmente que Olaf Scholz esteja a endurecer o discurso no que diz respeito à política migratória, já que o SPD deve ser um “partido humanista” e não “ceder à extrema-direita”.

Entre piadas e respostas com um tom cândido mesmo quando o criticavam — longe de ser combativo —, Olaf Scholz ia puxando a fita da obra feita. Pelo meio, ia sublinhando os sucessos do executivo alemão, desde a aposta nas energias renováveis ao controlo das rendas. No entanto, ficou sempre a sensação de que o governo que liderou nos últimos quatro anos não conseguiu dar resposta a muitos dos problemas que o país atravessou. Mesmo entre os apoiantes, notou-se essa perceção de incapacidade que pautou o executivo da Alemanha.

“Sei que os últimos quatro anos não foram perfeitos, mas Olaf Scholz ainda é o homem certo para governar a Alemanha. Tem experiência, conhecimento e preocupa-se com as pessoas”, disse ao Observador Timo Hermann à saída do evento, que afirmou “ter adorado”. Social-democrata “desde sempre”, o alemão de 57 anos, que conseguiu tirar uma selfie com o chanceler alemão, reconhece, ainda assim, que, no próximo domingo 23 de fevereiro, o SPD “vai perder as eleições”. “Sou realista. Mas acredito que um segundo lugar ainda é possível.”

▲ Sala de cinema em Kassel antes de Olaf Scholz discursar

José Carlos Duarte/Observador

Segundo as sondagens, o segundo lugar é, porém, um cenário praticamente impossível para o SPD. O partido do chanceler alemão deverá ficar em terceiro, atrás do centro-direita da CDU/CSU e da Alternativa para a Alemanha (AfD, sigla em alemão), de extrema-direita. Em algumas sondagens preveem que o SPD fica mesmo atrás dos Verdes, o parceiro de coligação. Em qualquer um destes casos, o resultado é bastante negativo.

O SPD terá um resultado entre os 14 e os 16% dos votos, perdendo quase dez pontos percentuais face a 2021, eleições nas quais o partido obteve 25,1%. A confirmarem-se as sondagens, será o pior resultado dos sociais-democratas alemães em séculos. Há que recuar ao longínquo ano de 1887, numa altura em que não havia uma verdadeira democracia e a Alemanha ainda era um império e em que o chanceler era Otto von Bismarck, para um resultado tão baixo.

[No podcast “Pequenas Reivindicações de Liberdade“, a paciência da pessoa convidada é sempre posta à prova e nada a impede de abandonar o estúdio — mas o que está dito, está dito. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Perante este cenário catastrófico para um partido histórico na Alemanha, conjetura-se que Olaf Scholz pedirá a demissão no próximo domingo ou nos dias que se seguem. O chanceler deverá dar lugar a um novo rosto, que terá pela frente uma tarefa também ela difícil. Apesar de o SPD perder as eleições, o centro-direita liderado por Friedrich Merz deverá procurar os sociais-democratas para formar uma coligação. Pressionado por uma extrema-direita cada vez mais forte, um bloco central será a hipótese mais viável para a governação da Alemanha. Será um recomeço para o SPD — e quase certamente sem Scholz num cargo de destaque.

▲ Em Kassel, Olaf Scholz responde a perguntas dos apoiantes

José Carlos Duarte/Observador

A “vida piorou” e foi “um dos piores chanceleres de sempre”. Em Herne, ainda há fiéis a Scholz, mas há críticas

Longe do cinema de Kassel, o céu estava limpo na tarde desta segunda-feira em Herne, apesar da temperatura estar próxima dos 0ºC. No centro da cidade com cerca de 150 mil habitantes, no Estado federal da Renânia-Vestfália, havia pessoas às compras e outras a passear. Em plena região do Ruhr, Herne deve muito do seu desenvolvimento às minas de carvão que agora se localizam nos subúrbios da localidade. Não é à toa que o brasão de armas da cidade tem um cavalo e dois martelos.

Numa cidade com uma forte presença de operariado desde o século XIX, o Partido Social-Democrata alemão sempre teve vários apoiantes em Herne, estando próximo da sua base eleitoral. Essa tendência ainda se verifica hoje em dia — a cidade continua um dos principais bastiões para o SPD. Basta olhar para um mapa dos resultados das eleições europeias de 2024 para ver isso. Numa mancha preta (cor da CDU, a União Democrata-Cristã) que domina a Renânia-Vestfália, há um ponto vermelho, cor dos sociais-democratas. Esse ponto é Herne. 

Mesmo assim, esse bastião esteve em risco de se perder já nas últimas eleições europeias: o SPD obteve apenas mais cinco votos do que a CDU, sendo que as duas formações políticas obtiveram a mesma intenção de voto: 23,7%. Este resultado indica que, mesmo entre a sua base eleitoral, os sociais-democratas estão a sofrer pesadas perdas que se deverão também verificar nas eleições federais deste domingo.

No centro da cidade de Herne, Julia Nückel, de 66 anos, aproveitava o tempo soalheiro. Reformada, diz ao Observador que sempre votou no SPD. “Foi sempre o meu partido”, conta, acrescentando que, no próximo domingo, também vai votar nos sociais-democratas alemães. Contudo, a mulher não esconde alguma insatisfação com os últimos quatro anos. “Gosto do senhor Scholz, mas sinto que, nos últimos quatro anos, a Alemanha não evoluiu. O custo de vida aumentou, a vida piorou e o dinheiro encolheu. Mas vou dar-lhe uma segunda oportunidade.”

Essa segunda oportunidade deve-se ao facto de, para Julia Nückel, não haver “melhores alternativas” no panorama político alemão. “Não vou votar na CDU, nunca gostei desse partido. Na AfD, também nunca votaria. À esquerda, o meu marido diz que vai votar no Die Linke, mas eu não defendo muitas coisas que eles defendem”, explica.

Nas principais ruas e avenidas de Herne, veem-se muitos cartazes para as eleições federais, em particular de três forças políticas: o SPD, o Die Linke, o partido mais à esquerda na Alemanha, e também o da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW, sigla em alemão), uma força partidária que defende ser de esquerda na economia e à direita na parte social. É neste último partido que Brunhild Helmerich, de 78 anos, refere ao Observador que vai votar. Vestindo um gorro e umas luvas para combater o frio esta segunda-feira enquanto passeava o cão, a ex-funcionária pública na reforma assume “gostar da mensagem” de Sahra Wagenknecht.

▲ Cartazes eleitorais em Herne do Die Linke, SPD e da Aliança Sahra Wagenknecht

José Carlos Duarte/Observador

“Já votei em vários partidos, mas costumo optar pelo SPD. Nas últimas eleições, votei no Scholz, mas também já cheguei a votar na [ex-chanceler Angela] Merkel”, assinala a septuagenária. Nestas eleições, já optou pelo voto no BSW, uma vez que é uma “novidade”. “Já chega de guerras, já chega de confusão, já chega de inflação. Senti-me muito desiludida pelo meu voto no SPD há quatro anos, agora não lhe dou outra oportunidade”, garante.

Nas últimas eleições federais, em setembro de 2021, o resultado do SPD em Herne foi bastante expressivo em relação aos outros partidos. Os sociais-democratas alemães obtiveram 38,2% dos votos, o dobro do segundo partido com mais votos, a CDU, que não foi além de 19%. Nem três anos depois, os dois partidos praticamente ficaram empatados nas europeias. E tudo leva a crer que esse cenário voltará a acontecer nas federais.

Em 2021, já tinha votado na CDU. Ao Observador, Hans Hops, um bancário de 54 anos que saía do trabalho esta segunda-feira à tarde no centro de Herne, relata que sempre gostou da mensagem do partido de centro-direita e que votou nele “várias vezes”. “Também deverei optar por votar na CDU no domingo. É o partido que mais me identifico”, frisa. Sobre Olaf Scholz, o homem tem uma opinião bastante negativa. “Foi o pior chanceler desde que me lembro. Arruinou a Alemanha. Passámos de um país forte a estarmos na dianteira na Europa.”

"Conheço muitos amigos que também estão desiludidos e que votaram em Scholz há quatro anos. Eu nunca confiei nele, sempre achei que seria um péssimo chanceler"
Hans Hops, bancário de 54 anos

“Conheço muitos amigos que também estão desiludidos e que votaram em Scholz há quatro anos. Eu nunca confiei nele, sempre achei que seria um péssimo chanceler”, prossegue Hans Hops, lamentando que o chanceler não tenha sido “firme” e não tivesse uma “verdadeira política para o futuro da Alemanha”. Questionado sobre se a coligação semáforo (que juntava os liberais, os Verdes e o SPD) não contribuiu para a falta de eficácia do chanceler, o bancário encolhe os ombros e diz que “foi Scholz que a formou”: “Se teve problemas com a coligação, a culpa só pode ser dele”. 

A coligação, a guerra e os problemas económicos: o que explica as queixas dos alemães?

De modo a conseguir formar uma maioria no Parlamento alemão para governar a Alemanha em 2021, Olaf Scholz formou uma coligação com dois partidos: os Verdes e o Partido Democrático Liberal (FDP, sigla em alemão). As formações partidárias eram muito diferentes entre si, o que deu azo à falta de coordenação no executivo alemão e inúmeros atropelos. Em novembro de 2024, os sociais-democratas e os liberais oficializam a rutura da coligação, originando as eleições antecipadas deste mês de fevereiro.

Em declarações ao Observador, Ed Turner, professor na Universidade de Aston e especialista em política germânica, não tem dúvidas de que o mau funcionamento da coligação esteve na origem da perceção negativa — de ineficácia e falta de coesão — que muitos têm sobre o governo alemão. “Scholz teve de gerir uma coligação com três partidos que discordavam num ponto essencial: o seu partido e os Verdes defendiam uma subida na despesa pública, enquanto o FDP preferia um corte de impostos.”

"Scholz teve de gerir uma coligação com três partidos que discordavam num ponto essencial: o seu partido e os Verdes defendiam uma subida na despesa pública, enquanto o FDP preferia um corte de impostos"
Ed Turner, professor na Universidade de Aston

O mesmo especialista realça que esta discordância num ponto chave “já era difícil de gerir em quaisquer circunstâncias”. Mas ainda se tornou mais complicada por causa da conjuntura internacional. A coligação semáforo herda uma Alemanha liderada por Angela Merkel que ainda estava a tentar recuperar os efeitos da pandemia de Covid-19. Poucos meses depois de o governo ter tomado posse, o Presidente russo, Vladimir Putin, ordenou a invasão à Ucrânia — e isso afeta de forma significativa a Alemanha. 

No centro da política energética alemã estava o gás natural barato oriundo da Rússia. Ora, após o início do conflito e os ataques aos gasodutos Nord Stream, isso acabou. As consequências imediatas foram uma “subida de preços da energia”, sinaliza Ed Turner. E não só: houve um aumento generalizado do custo de vida. “Foram precisos mil milhões de euros para apoiar consumidores e negócios”, refere ainda o especialista, realçando que isso “exacerbou os conflitos na coligação”. Os Verdes e o SPD defendiam uma estratégia, ao passo que o FDP queria adotar outra.

“A coligação não correu muito bem”, admite ao Observador Johannes Förster, que esteve presente no comício de Olaf Scholz em Kassel. Membro da juventude do SPD, o jovem de 26 anos indica que talvez tenha sido “o mais difícil” nos últimos quatro anos. Mesmo assim, salienta que os sociais-democratas alemães “fizeram o melhor que puderam”. “A culpa sempre foi de [Christian] Lindner [líder do FDP], que nunca foi honesto e que tentou sempre destruir a coligação”, lamenta.

▲ Olaf Scholz a tirar selfies e fotografias com os apoiantes

José Carlos Duarte/Observador

À saída do cinema Cinepol Capitol, após o comício, Johannes Förster reconhece, no entanto, que a forma como a coligação funcionou vai ter “impactos” no resultado eleitoral do próximo domingo. “Na minha opinião, confiar no FDP foi o nosso maior erro — eles defendem políticas diferentes das nossas. Mas temos de avançar e transmitir uma mensagem de confiança aos alemães: de que vale a pena votar no SPD.”

Scholz transmite duas mensagens: estabilidade e de que combate a extrema-direita

Antes de Olaf Scholz assumir o palco da sala de cinema em Kassel, alguns dirigentes partidários locais estiveram a conversar cerca de 45 minutos com a audiência sobre variados tópicos — desde iniciativas de desporto local a incentivos às pequenas e médias empresas. Chegaram a reconhecer que apenas o estavam a fazer, porque o líder partidário “estava atrasado”.

Porém, assim que o chanceler chegou ao cinema, as luzes do Cinepol Capitol apagaram-se, como se se fosse assistir a um filme — e nem faltaram os refrigerantes, já que o bar do cinema estava aberto. Em vez disso, assistiu-se a um curto documentário, que repetia a palavra “segurança”. Seja na área social, económica ou internacional, tudo naquele vídeo dava a entender que o líder germânico quer ser visto como um garante da estabilidade na Alemanha.

À luz da alternância política que a Alemanha deverá optar no domingo, a estratégia é óbvia. Antes das perguntas da plateia em Kassel e após ser recebido na sala de cinema com um forte aplauso, Olaf Scholz fez um discurso de cerca de cinco minutos. Focou-se em dois pontos, um deles sobre a cena internacional. Recordou as palavras do vice-presidente norte-americano na Conferência de Munique na passada sexta-feira — em que JD Vance criticou as políticas europeias — para demonstrar que o SPD será sempre uma “alternativa” a este típico de discursos “radicais”.

▲ A sala de cinema onde Olaf Scholz discursou em Kassel

José Carlos Duarte/Observador

“A Europa é cada vez mais importante. Precisamos de uma Europa forte. Precisamos de uma Ucrânia forte na mesa das negociações. É por isso que estou de partida para Paris”, afirmou Olaf Scholz na sala de cinema, destacando que vai sempre “defender um fortalecimento da União Europeia”. Contrariamente à sessão de perguntas e respostas, o chanceler vestiu o fato de líder político e usou um tom combativo e assertivo, tentando galvanizar a audiência, mesmo que esta fosse amigável.

“Temos de responder ao que se passa nos Estados Unidos, às coisas estranhas que JD Vance disse”, atacou Olaf Scholz em Kassel, num tom bastante crispado. “Só assim é que podemos ter uma Europa forte”, insistiu. A ideia que o chanceler quer transmitir é que, na instabilidade em que mergulharam as relações entre a Europa e os EUA, os sociais-democratas alemães são um porto seguro.

Outro dos pontos, pelo qual aliás iniciou o seu discurso, é também uma das principais estratégias para estas eleições federais: colar o centro-direita à Alternativa para a Alemanha. Em Kassel, o chanceler repetiu a mesma ideia. “Nunca vamos trabalhar em conjunto com a extrema-direita. É impensável. Isso nunca vai acontecer. Mas não sabemos o que o partido conservador [a CDU] vai fazer com um partido extremista. Eles não se comprometem”, avisou Olaf Scholz.

"Nunca vamos trabalhar em conjunto com a extrema-direita. É impensável. Isso nunca vai acontecer. Mas não sabemos o que vamos o partido conservador [a CDU] fazer com um partido extremista. Eles não se comprometem"
Olaf Scholz em Kassel sobre a extrema-direita

Recordando a possível aliança no endurecimento de políticas migratórias que a CDU já ponderou fazer no Parlamento com o apoio da AfD, Olaf Scholz não perdeu a oportunidade para repetir que o centro-direita não é confiável. “Não podemos acabar com o cordão sanitário à extrema-direita. Eles [CDU] já o tentaram fazer. Nós nunca. Nós nunca vamos aliar-nos à AfD.”

Esta promessa tranquiliza Jasmin Eissmann, de 35 anos, que, esta segunda-feira à tarde, estava a caminho de um supermercado no centro de Herne. Ao Observador, a mulher refere que “vota no SPD” e que poderá voltar a fazê-lo no próximo domingo, ainda que “não esteja 100% convencida”. “Não é que goste particularmente do candidato a chanceler ou do candidato ao Parlamento aqui em Herne, mas é o melhor partido para combater a AfD”, justifica.

“Não quero a extrema-direita no poder — é a pior coisa que podia acontecer à Alemanha. E não confio em [Friedrich] Merz para que o cordão sanitário se mantenha”, explica Jasmin, que assinala que nas últimas eleições europeias votou nos Verdes. “Mas agora a situação é diferente. Quero que haja um terceiro lugar forte e o SPD parece ser a escolha mais natural a fazer.”

▲ Centro da cidade de Herne, na Alemanha, esta segunda-feira à tarde

Sentado num banco perto da Igreja Evangélica de Herne, a AfD também preocupa Dieter Lachmann: “Não quero fascistas a governar o meu país”. O homem de 69 anos confessa, contudo, “estar bastante indeciso” e nem sabe se “vai votar” no próximo domingo: “Nenhum político me convence particularmente. Votei em 2021 no SPD, mas arrependi-me. Fiquei desiludido com Scholz”.

O fim de Scholz aproxima-se. E já há possíveis sucessores na calha

Dieter Lachmann não é o único a criticar Olaf Scholz, um político com uma taxa de aprovação negativa e que é bastante impopular entre os alemães. Como escreve o canal de televisão alemã MRD, nenhum antigo chanceler registou um desempenho tão negativo na reta final do mandato como o atual líder alemão. Em fevereiro de 2025, cerca de 57% avaliavam negativamente o social-democrata no cargo de chanceler da Alemanha.

Tendo em conta as taxas de aprovação negativas e as sondagens, algumas fações do SPD ponderaram não eleger Olaf Scholz, mas sim Boris Pistorius, o atual ministro da Defesa que é bastante mais popular entre os alemães, como candidato a chanceler. Jasmin, por exemplo, admite que “gosta mais de Boris Pistorius”: “Preferia que ele fosse o candidato a chanceler e sinto que as eleições não teriam sido dadas de bandeja à CDU”.

▲ Cartaz do SPD em Herne perto da sede do SPD na cidade

José Carlos Duarte/Observador

No entanto, o partido decidiu que Olaf Scholz devia avançar com a recandidatura, mesmo com os indicadores negativos que foram saindo ao longo dos últimos quatro anos. Seja por teimosia do atual líder alemão em não querer sair, seja por o partido não querer queimar um ativo, o chanceler é o rosto do SPD nestas eleições. A partir de 23 de fevereiro, e da muito provável derrota histórica dos sociais-democratas alemães, isso deverá mudar.

“Considero que Scholz vai abandonar o seu cargo muito rapidamente”, conjetura Ed Turner, que prevê que o SPD deverá encetar negociações com a CDU para a formação de um bloco central. “As negociações não serão fáceis, pois existem vários desacordos entre os partidos, os mesmos que, aliás, estiveram na origem do colapso da coligação com o FDP.”

Nessa nova fase para o SPD, o especialista em política alemã aponta dois nomes como sendo “particularmente importantes” para o futuro do partido e para o rumo que vai tomar a cooperação (ou falta dela) com a CDU. Boris Pistorius será um deles, sublinha Ed Turner, tal como Lars Klingbeil, um dos atuais co-líderes do Partido Social Democrata alemão.

epa11814697 German Defence Minister Boris Pistorius speaks during a press conference at the eight meeting of Ukraine Defense Contact Group at the US Air Base in Ramstein, Germany, 09 January 2025. The US Secretary of Defense has invited Ministers of Defense and senior military officials from around the world to Ramstein to discuss the ongoing crisis in Ukraine and various security issues facing US allies and partners.  EPA/RONALD WITTEK

▲ Boris Pistorius (à esquerda) e Lars Klingbeil (à direita), os dois possíveis sucessores de Scholz à frente do SPD

RONALD WITTEK/EPA

De qualquer modo, Olaf Scholz deixará de assumir um papel de destaque entre os sociais-democratas alemães. Regressado ao poder depois de 16 anos de Angela Merkel, o SPD não soube convencer o eleitorado. Uma coligação frágil, uma conjuntura internacional negativa e um líder que nunca soube comunicar de forma eficiente levaram a que o Partido Social-Democrata alemão se encontre à beira de uma derrota de proporções históricas. O final do filme ainda não está fechado, mas tudo leva a crer que o fim de Olaf Scholz enquanto chanceler não será feliz.

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