O rumor já existia, as conversas de café já o tinham como protagonista, até Rui Borges sabia que estava a prazo. Este domingo, porém, Paulo Fonseca decidiu antecipar-se a praticamente todos e mostrar que é dono do próprio destino — ao ponto de, numa altura em que o Sporting ainda nem sequer tinha anunciado que estava a negociar para trocar de treinador, confirmar que estava muito perto de assinar pelos leões.
“Existe uma possibilidade, logo se vê. Gosto muito deste grupo, são magníficos. O Lyon é um grande clube. Às vezes é difícil compreender as dificuldades do clube. O que esta equipa conquistou até agora é incrível. Somos uma família. Interesse do Sporting? Neste momento, tudo é possível. Vou terminar a época? Não sei. Amanhã estarei lá com o grupo. Gosto muito de trabalhar em França e adoro as pessoas do clube”, atirou logo depois da vitória deste domingo contra o Angers, onde recebeu os jogadores nos braços depois do segundo golo, numa clara despedida do plantel.
Uma década depois de sair do Sp. Braga, Paulo Fonseca vai voltar a Portugal através do Sporting e deve estrear-se já no próximo sábado, em Alvalade e contra o Moreirense, sendo apresentado na quarta-feira e depois de o interino Tiago Fernandes orientar os leões esta terça-feira contra o Shakhtar Donetsk, em Londres e na Liga dos Campeões, já que Rui Borges recusou fazer esse jogo.
Aos 53 anos, o treinador português começa mais um desafio depois de ter feito história no P. Ferreira, de ter falhado no FC Porto, de ter conquistado uma Taça de Portugal no Sp. Braga e de lá fora ser um ídolo no Shakhtar Donetsk e uma figura de má memória no AC Milan. Pelo meio, viveu uma das histórias mais impressionantes dos últimos anos ao fugir de Kiev, com a mulher e o filho, nos primeiros dias da invasão da Ucrânia por parte da Rússia.
▲ Nos tempos do P. Ferreira, onde ficou em terceiro lugar e conseguiu um histórico apuramento para a Liga dos Campeões
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O Paulo que começou por ser só Fonseca, o colega Marco Silva e a influência de JJ e Quinito
Antes de também ser conhecido por Paulo, era apenas Fonseca — um centralão de quase 1,90 metros, um daqueles globetrotters que passou por várias equipas da Primeira Liga, que era elogiado pelos que o treinavam e por aqueles que com ele jogavam, mas que nunca deu o salto. O salto, na verdade, ficou-se por um contrato assinado com o FC Porto sem nunca se ter estreado pelos dragões, andando de empréstimo em empréstimo até ao empréstimo final.
A história de Paulo Fonseca, porém, começa antes. E nem sequer começa em Portugal. Nascido em Nampula, Moçambique, é filho de um fuzileiro naval que estava a cumprir serviço militar em África nos tempos da Guerra Colonial. Em 1974, com pouco mais de um ano e na sequência do 25 de Abril, viaja pela primeira vez para um Portugal que era casa, mas que nem sequer conhecia. A família instalou-se no Barreiro, tal como tantas outras famílias que regressaram ao país vindas de África e depois do fim do Estado Novo, e foi na Margem Sul que Paulo Fonseca cresceu para a vida e para o futebol.
Deu os primeiros pontapés na bola no Galitos, passando também por Vila Chã e Santoantoniense ainda muito novo, mas foi naturalmente no Barreirense que acabou por escolher a carreira. Estreou-se pela equipa principal em maio de 1991, acabado de fazer 18 anos, e apesar de nunca ter conseguido guiar o clube até à tão desejada subida à Primeira Liga, deu nas vistas ao ponto de assinar com o FC Porto em 1995.
Nos dragões, contudo, nunca teve espaço. Foi imediatamente emprestado ao Leça, estreando-se na Primeira Liga com uma temporada em que o clube escapou por pouco à despromoção — e rodeado de instabilidade, dificuldades financeiras, salários em atraso e até um treinador, Fernando Festas, que se demitiu por considerar ser impossível “tirar o máximo de um plantel alimentado a sandes”.
Foi novamente emprestado na época seguinte, desta feita ao Belenenses e entrando num balneário que tinha Silvino, Paulo Madeira, Valido, Lito Vidigal e… Marco Silva, o atual treinador do Benfica, que tinha apenas 18 anos e estava a dar os primeiros passos na equipa principal dos azuis. Foi no Belenenses que Paulo Fonseca se cruzou pela primeira vez com Quinito, técnico que começou a época 1996/97 no Restelo e que se tornou uma das principais inspirações do futuro treinador, que voltaria a ser orientado por ele no V. Guimarães e no Estrela da Amadora.
Paulo Fonseca terminou a carreira de jogador com apenas sete golos na Primeira Liga e o primeiro aconteceu precisamente ao serviço do Belenenses e no Estádio da Luz, em janeiro de 1997 e já com Vítor Manuel no banco de suplentes, abrindo o marcador logo aos seis minutos, batendo Michel Preud’homme de cabeça e encaminhando uma vitória dos azuis contra os encarnados de Mário Wilson. O Belenenses ficou em 23.º lugar e o jovem central, agora com 24 anos, voltou a fazer as malas e foi emprestado ao Marítimo de Augusto Inácio.
Na Madeira, na verdade, Paulo Fonseca terá feito a melhor temporada da carreira. Participou em 32 jogos, marcou dois golos e contribuiu para uma época em que o Marítimo ficou no quinto lugar, garantiu a qualificação para a Taça UEFA e venceu o Benfica no Funchal, para além de também ter empatado com o Sporting em Alvalade. No fim da época, o central desvinculou-se finalmente do FC Porto, foi incluído no negócio que levou Capucho para as Antas e assinou a título definitivo com o V. Guimarães, que tinha ficado na terceira posição do Campeonato.
Em Guimarães, porém, nunca foi feliz. Apesar do reencontro com Quinito, teve um percurso muito marcado por lesões e fez apenas oito jogos em duas épocas, acabando por sair para o Estrela da Amadora no verão de 2000. Passou os últimos cinco anos da carreira na Reboleira, entre a Primeira Liga e a Segunda, e foi por lá que voltou a encontrar-se com Quinito e que também conheceu Jorge Jesus, outra figura em quem foi beber grande parte do que hoje em dia procura colocar em campo. Pelo meio, já tinha decidido tornar-se treinador, já se tinha apaixonado pelo Arsenal de Arsène Wenger que por esta altura era campeão da Premier League e finalista da Liga dos Campeões e já tinha escolhido que o primeiro passo seria dado ali mesmo — no Estrela da Amadora.
▲ No FC Porto, acabou por não ter sucesso num balneário recheado de estrelas como Otamendi, Lucho, Quaresma e Jackson
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História no Paços, o balneário de estrelas no FC Porto e a Taça no Sp. Braga
Paulo Fonseca terminou a carreira no verão de 2005, aos 32 anos e logo depois de ter feito apenas seis jogos na temporada que levou o Estrela da Amadora de regresso à Primeira Liga. Não fez qualquer paragem entre o dia em que pendurou as botas e o dia em que se sentou no banco e os dois anos seguintes foram passados ao leme dos juniores dos tricolores, ali mesmo na Reboleira, aproveitando a oportunidade que o clube lhe deu para começar a carreira de treinador num sítio que já conhecia.
Mudou-se depois para o 1.º de Dezembro, passou pelo Odivelas, levou duas vezes o Pinhalnovense aos quartos de final da Taça de Portugal e em 2011/12, já na Segunda Liga e com o Desp. Aves, repetiu a presença nos quartos de final da Taça. Os avenses ficaram a escassos dois pontos da subida à Primeira Liga — mas Paulo Fonseca, a título individual, subiu mesmo de escalão.
No verão de 2012, cerca de sete anos depois de começar a carreira de treinador, assinou pelo P. Ferreira, estreou-se na Primeira Liga e só precisou mesmo de uma temporada para fazer história. Naquela que é ainda a melhor época da história do clube, com um plantel que contava com André Leão e Ricardo como referências e Cícero como goleador, ficou no terceiro lugar do Campeonato, garantiu a qualificação para o playoff da Liga dos Campeões, venceu os dois jogos contra Sp. Braga e Sporting e só perdeu mesmo com FC Porto e Benfica, chegando ainda às meias-finais da Taça de Portugal.
Em 2013, num filme tantas vezes visto no futebol português e que ainda há pouco tempo foi repetido quando Rui Borges deixou o V. Guimarães para render João Pereira no Sporting, Paulo Fonseca foi o eleito pelo FC Porto para substituir Vítor Pereira, que tinha acabado de deixar os dragões depois de ser bicampeão nacional — supostamente para rumar à Premier League e ao Everton, mas acabando por assinar pelo Al Ahli da Arábia Saudita.
No Dragão, contudo, nada correu bem ao jovem treinador. Entre a ideia praticamente confirmada de que ainda não estava preparado para um desafio tão exigente e o facto de estar constantemente a ser comparado a quem tinha acabado de conquistar os dois últimos Campeonatos, Paulo Fonseca foi engolido por um balneário de egos em que a maioria dos jogadores tinha maior nome e currículo do que o treinador. Otamendi, Fernando, Lucho González, Héctor Herrera, Danilo, Ricardo Quaresma e Jackson Martínez estavam todos no FC Porto e a receita para o desastre acabou por vingar.
“Estamos a falar de um balneário com Lucho González, Otamendi… Não era fácil, como ele próprio já disse em várias entrevistas. Ele não conseguiu adaptar-se. Estávamos no balneário e o treinador tinha de bater à porta para entrar. Eu ouvia baterem à porta, perguntava se ninguém ia abrir e só ouvia ‘ninguém abre, o treino é só às 10h30’. E o treinador à espera. Era qualquer coisa, eram muitos egos. Saber lidar com tudo aquilo não era fácil”, já contou Tiago Rodrigues, antigo jogador que na altura estava na equipa B dos dragões e treinava com a equipa principal, em entrevista ao jornal Expresso.
Apesar de ter conquistado a Supertaça Cândido de Oliveira no início da temporada, naquele que foi também o primeiro troféu que venceu como treinador, Paulo Fonseca não chegou ao fim da época e foi despedido em março, logo depois de um empate com o V. Guimarães, numa altura em que já estava a nove pontos da liderança do Benfica de Jorge Jesus. Para a história fica o dia pouco refletido em que, logo depois de uma derrota com os encarnados em janeiro, garantiu que o FC Porto seria campeão nacional na última jornada e precisamente no clássico contra o principal rival.
Ainda assim, não teve receio de dar dois passos atrás para dar outro à frente e aceitou voltar de imediato ao P. Ferreira, afastando qualquer ideia de um eventual arrependimento. “Nem tudo foi mau no que diz respeito ao FC Porto. Quando saí tive alguns convites de ligas mais competitivas e de emblemas mais mediáticos, comparativamente ao P. Ferreira. Mas não quis voltar logo ao ativo, primeiro, e depois senti que as mais variadas condições não estavam todas reunidas, não queria agarrar num projeto com o qual não me sentisse totalmente identificado. A verdade é que o Paços surgiu na única altura em que podia ter aceitado, foi uma feliz coincidência para todas as partes. Costumamos dizer que não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes, mas estou longe, muito longe mesmo, de ter algum sentimento parecido com arrependimento”, disse no dia em que foi novamente apresentado na Mata Real.
▲ No Shakhtar Donetsk, quando cumpriu a promessa de se vestir de Zorro se conseguisse o apuramento para os oitavos da Liga dos Campeões
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O sucesso não foi o mesmo, com um oitavo lugar e o falhanço no apuramento para a Liga Europa na última jornada do Campeonato, mas foi o suficiente para mais um salto. Substituiu Sérgio Conceição no Sp. Braga, logo depois de o treinador ter saído para o V. Guimarães após perder a final da Taça de Portugal com o Sporting, e deixou boas memórias na Pedreira: ficou no quarto lugar na Liga, chegou aos quartos de final da Liga Europa e conquistou a primeira Taça de Portugal do clube em 50 anos, vencendo o FC Porto de José Peseiro nas grandes penalidades no Jamor. No verão de 2016, mais de uma década depois de ter terminado a carreira de jogador para começar a de treinador, era tempo de deixar Portugal para trás.
O início das aventuras no estrangeiro e o “pior dia” que começou em Kiev e acabou na Roménia
A verdade é que, ao assinar agora com o Sporting para substituir Rui Borges ao leme dos leões, Paulo Fonseca vai regressar a Portugal pela primeira vez no espaço de uma década, já que nunca voltou ao futebol português depois de sair do Sp. Braga em 2016. Na altura, foi o escolhido pelo Shakhtar Donetsk para suceder ao histórico Mircea Lucescu, que tinha orientado os ucranianos nos 12 anos anteriores, e aceitou o primeiro desafio de vários além-fronteiras.
O interesse apareceu depois dos quartos de final da Liga Europa da temporada anterior, onde o Shakhtar Donetsk até eliminou o Sp. Braga com duas vitórias, mas a estrutura do clube ucraniano terá ficado impressionada com Paulo Fonseca — que também teve o selo de aprovação de Lucescu, o antecessor. “Para mim é um grande orgulho e felicidade ser o treinador de um clube como o Shakhtar. Quero agradecer ao presidente e ao clube pela oportunidade. Vim para cá porque quero construir uma boa equipa e ganhar títulos, esse é o nosso principal objetivo”, sublinhou no dia da apresentação.
E cumpriu. Em três anos na Ucrânia, foi sempre campeão nacional e conquistou sempre a Taça, juntando ainda uma Supertaça, e em 2017/18 conseguiu mesmo chegar aos oitavos de final da Liga dos Campeões: numa campanha que incluiu uma vitória contra o Manchester City na fase de grupos, em Kharkiv, que terminou uma série de 29 jogos sem perder da equipa de Pep Guardiola. Na altura, cumprindo uma promessa que tinha feito na véspera, celebrou o apuramento para os oitavos de final ao aparecer vestido de Zorro na conferência de imprensa. Pelo meio, deu uma volta à vida pessoal e divorciou-se da primeira mulher, com quem tem dois filhos, e casou com a apresentadora ucraniana Katerina Ostroushko, com quem teve um terceiro filho.
Numa fase em que já era muito associado à Premier League, particularmente ao Everton, o percurso muito positivo no Shakhtar Donetsk garantiu-lhe mesmo o salto para um dos principais Campeonatos da Europa à boleia de um dos clubes mais mediáticos de Itália. No verão de 2019, depois de três anos na Ucrânia, assinou pela Roma e mudou-se para a Serie A para substituir Claudio Ranieri, que a meio da temporada já tinha substituído Eusebio Di Francesco. “Estou entusiasmado e motivado com este desafio, estou ansioso por mudar-me para Roma, conhecer os adeptos e começar a trabalhar. Acredito que juntos poderemos fazer algo especial”, disse na apresentação no Olímpico.
Ficou dois anos em Itália, com um 5.º e um 7.º lugar e o ponto alto a acontecer ao chegar às meias-finais da Liga Europa, onde caiu com o Manchester United, numa altura em que já contava com o apoio de Tiago Pinto como diretor desportivo dos italianos. Ainda assim, não viu o contrato renovado e saiu em maio de 2021, sendo substituído por José Mourinho. Paulo Fonseca só voltaria a treinar daí a um ano, naquele que é ainda o maior hiato da carreira de treinador, mas foi precisamente ao longo desse ano que viveu um dos episódios mais marcantes da própria vida.
Logo depois de deixar a Roma, Paulo Fonseca chegou a ser dado como o favorito de Fabio Paratici, então diretor desportivo do Tottenham, para suceder precisamente a José Mourinho nos spurs. O negócio nunca aconteceu e o português, numa entrevista posterior ao jornal The Daily Telegraph, revelou que o clube inglês preferiu um treinador mais defensivo e conservador — e a escolha, na verdade, acabou por ser Antonio Conte. Meses depois, após a Arábia Saudita entrar oficialmente no Newcastle, foi entrevistado pelos magpies, mas ultrapassado por Eddie Howe. Chegou a ser associado ao Aston Villa na mesma altura, mas o salto para a Premier League nunca chegou a acontecer.
Até que, em fevereiro de 2022 e numa altura em que ainda estava sem clube, Paulo Fonseca tornou-se notícia por tudo menos o futebol. De férias nas Maldivas, o treinador antecipou o regresso à Ucrânia quando a possibilidade de uma invasão da Rússia era cada vez mais uma evidência e para ajudar a família da mulher a fugir do país. Contudo, a meio da noite, horas antes de deixar o apartamento em Kiev e apanhar um voo rumo a Lisboa, foi acordado com o barulho dos mísseis. A guerra já tinha começado.
▲ A passagem pelo AC Milan ficou muito marcada pelos desentendimentos com Rafael Leão e Theo Hernández
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A primeira tentativa de fuga nem sequer chegou a começar, já que toda a capital ucraniana já tinha as saídas bloqueadas, e Paulo Fonseca acabou por receber uma chamada de Darijo Srna, antigo internacional croata e diretor desportivo do Shakhtar Donetsk, que sugeriu que o treinador levasse a família precisamente para Donetsk para se protegerem. “Não sabíamos o que fazer, toda a gente estava a tentar deixar Kiev”, contou o português à Sky Sports, naquele que disse ser o “pior dia” da sua vida.
My family and I are safe in Romania and hopefully will travel to Portugal on Monday. We thank everyone who has helped us. The nightmare continues for people in Ukraine and we appeal for help and for the war to end. ???????? pic.twitter.com/uXr8ONnyIc
— Paulo Fonseca (@PFonsecaCoach) February 27, 2022
“O Darijo ligou-me e disse-me para irmos para o hotel que é do presidente do Shakhtar. Fomos para lá e ficámos num bunker durante cerca de dia e meio, com os jogadores brasileiros do Shakhtar e a equipa técnica”, acrescentou. “Comecei a pensar que a situação só ia piorar e contactei a embaixada portuguesa, que me disse que no dia seguinte teria um carro pronto para irmos embora. Decidi sair do bunker de manhã, o carro apanhou-nos no hotel no dia seguinte e começámos a longa viagem até à fronteira. Foi perigoso, viajámos dia e noite sem parar”, explicou.
Paulo Fonseca, a mulher, o filho e a família da mulher viajaram cerca de 30 horas, atravessaram a Moldávia e só pararam na Roménia. “Vi muitos soldados da Ucrânia na estrada, ouvimos muitos alarmes, havia muito trânsito. Passámos muito tempo a 5 km/h. Ouvíamos os aviões a passar, era perigoso, mas não vi tiros ou combates”, recordou. Dias depois, em segurança e antes de conseguir mesmo voar até Lisboa, o treinador português desdobrou-se em entrevistas, garantiu continuar em contacto com muitos elementos do Shakhtar Donetsk e mostrou-se totalmente ao lado da Ucrânia e crítico da Rússia, uma postura que manteve nos últimos anos.
“Estou sempre a falar com algumas das pessoas que trabalharam comigo no Shakhtar, eles estão a tentar sobreviver, mas é difícil. Deixar o país é quase impossível e estou muito preocupado com eles. Gostaria muito de ajudar, mas sinto-me impotente. Tenho de confessar que nestes dias nem sequer tenho pensado em futebol. Isto é tão mais importante do que tudo, estamos a sofrer muito com a situação. Este povo, este país, não merece o que está a acontecer. Mas são heróis, estão a lutar. Esta realidade mostrou-me que existem coisas muito mais importantes do que futebol. Eu adoro a minha profissão, adoro futebol, mas a vida das pessoas é muito mais importante”, disse ainda em 2022, sendo que no ano seguinte defendeu que os clubes europeus não deviam negociar com emblemas russos.
Em junho de 2022, meses depois do início da invasão, voltou ao ativo e assinou pelo Lille, substituindo Jocelyn Gourvennec. Apresentou um futebol ofensivo e beneficiou de um ataque talentoso, com Benjamin André, André Gomes e Angel Gomes, para além do criativo Rémy Cabella e do goleador Jonathan David, e ficou em 5.º e 4.º lugar nas duas épocas que passou em França, chegando ainda aos quartos de final da Liga Conferência no segundo ano e acabando por sair por mútuo acordo e com o próximo destino praticamente acertado: o AC Milan.
Os meses no AC Milan, os meses fora do banco no Lyon, os meses antes do Sporting
Dois anos depois de sair da Roma, Paulo Fonseca voltou a Itália à boleia do AC Milan e para render Stefano Pioli, que tinha ficado em segundo lugar na Serie A na temporada anterior, mas que era também o responsável pelo único Scudetto do clube em mais de uma década. Em Milão, porém, o treinador português nunca foi uma certeza, teve o futuro ameaçado desde o primeiro dia e raramente reuniu consensos — mesmo tendo vencido o dérbi contra o Inter Milão, algo que o AC Milan não conseguia há dois anos.
Em dezembro de 2024, com os rossoneri no oitavo lugar da Serie A e praticamente apurados para o playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, foi despedido e substituído por Sérgio Conceição. Recentemente, até em jeito de comentário do facto de o AC Milan ser agora orientado por um outro português, Ruben Amorim, não escondeu alguma mágoa pelos escassos meses que passou em San Siro.
“Fiquei desiludido, sim, porque há dois anos fui contratado por um motivo, que era mudar o estilo de jogo da equipa. O que me disseram era que queriam que o AC Milan fosse dominante, que tivesse posse de bola e jogasse no meio-campo adversário. Respondi que era perfeito, que essa era a minha ideia de futebol. Mas a verdade é que para mudar é preciso tempo e praticamente esse tipo de futebol em Itália não é fácil. Para conseguir é preciso mudar, em primeiro lugar, a cabeça dos jogadores. Posso parecer arrogante, mas estava a seguir esse caminho e depois de mim nunca mais vi o AC Milan expressar a qualidade de jogo que demonstrou comigo”, disse em entrevista ao jornal La Gazzetta dello Sport.
▲ Este domingo, os jogadores do Lyon festejaram o segundo golo contra o Angers com o treinador, numa clara despedida
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Na mesma conversa, mais à frente, vincou ainda as diferenças entre a maneira como o receberam e a maneira como Ruben Amorim foi recebido. “Vi agora o Amorim a chegar a Milanello e estava lá o [Gerry, dono do clube] Cardinale, em pessoa, para o receber. Quando eu cheguei não estava lá ninguém. Fui contratado para mudar mentalidades, mas não me deram tempo. Realizámos vários bons jogos e depois de mim isso nunca mais aconteceu. Em Itália, os jogadores são mais importantes do que o clube. Se alguém, por muito que seja, não merecesse, comigo não jogava. Ninguém é maior do que o AC Milan”, vincou, referindo-se aos problemas que teve com Theo Hernández e Rafael Leão.
Apenas um mês depois, contudo, Paulo Fonseca já tinha novamente trabalho. O Lyon despediu Pierre Sage a meio da temporada e escolheu o treinador português, naquela que na altura foi descrita como uma “decisão unânime de John Textor e da direção desportiva” para devolver ao clube “uma ambição forte, tanto a nível nacional como europeu”. Aquilo que ninguém esperava, porém, aconteceu logo em março.
No quinto jogo ao comando dos franceses, contra o Brest, Paulo Fonseca não gostou de que o árbitro Benoît Millot tivesse decidido ir ao ecrã do VAR analisar uma possível grande penalidade a favor do adversário — até porque o jogo já estava nos descontos e o Lyon estava a vencer pela margem mínima. O treinador perdeu o controlo, encostou a cabeça ao árbitro enquanto discutia e gritava e foi expulso de imediato com um cartão vermelho direto.
Dois dias depois, na sequência da reunião da Comissão de Disciplina da Liga de Futebol Profissional de França, o castigo foi arrasador. “Suspensão firme antes, durante e depois da partida, do acesso ao banco, aos balneários dos árbitros e a todas as funções oficiais, até 30 de novembro de 2025, inclusive. Além disso, até 15 de setembro de 2025 inclusive, esta suspensão será acompanhada antes, durante e depois da partida pela proibição de acesso aos balneários, ao relvado, ao túnel e a todos os corredores que levem às áreas mencionadas. A sanção entra em vigor imediatamente”, podia ler-se no comunicado, sendo que a penalização não era alargada às competições europeias.
Em resumo, Paulo Fonseca estava castigado durante nove meses, até dezembro. Muitas vozes surgiram de imediato a defender a integridade do treinador e a criticar a severidade da suspensão, desde Tiago Pinto a Darijo Srna e passando por José Fonte, mas o recurso do Lyon não teve qualquer consequência. “Este é um dos momentos mais difíceis da minha vida como treinador. Ter tido este momento emotivo com os meus jogadores foi muito importante. Com os meus jogadores, equipa técnica e direção, não vou desistir”, disse o português aos meios oficiais do Lyon depois do jogo seguinte ao castigo, uma vitória contra o Steaua Bucareste na primeira mão dos oitavos de final da Liga Europa.
O voto de confiança do Lyon, na verdade, foi total. Mesmo castigado e até punido internamente, já que os franceses garantiram desde logo que apesar de não concordarem com a dimensão do castigo não toleravam o comportamento, o clube assegurou sempre que Paulo Fonseca era e iria continuar a ser o treinador. O Lyon ficou no sexto lugar da Ligue 1, o mercado de transferências do verão de 2025 passou e o português voltou pela primeira vez ao balneário nas competições internas em setembro, depois de uma vitória contra o Angers, sendo recebido em euforia pelo plantel. O regresso ao banco só aconteceu no início de dezembro e com sabor mais amargo, com uma derrota frente ao Lorient.
Agora, numa altura em que o Lyon está no terceiro lugar da Ligue 1 e a disputar a Liga Europa, Paulo Fonseca está de saída. Para trás fica um balneário que sempre o acompanhou, que o agarrou nos momentos mais difíceis e que, este domingo e numa despedida clara, levou o treinador às lágrimas ao festejar o segundo golo da vitória contra o Angers. Uma década depois, agora com o Sporting e sucedendo a Rui Borges em Alvalade, Paulo Fonseca está de volta a Portugal.
[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]