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Omar El Akkad: "Quão dispostos nos tornámos, como sociedade, a abrir mão do que deveriam ser bens públicos?"

Depois dos romances, foi com a não-ficção que o egípcio-americano conquistou reconhecimento, oposição e o National Book Award. Falámos com ele sobre "Um Dia… Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto".

A escrita é de uma beleza rara, depurada, melancólica. Omar El Akkad escreve em urgência sobre a desilusão que sente em relação ao mundo de hoje, em que fala de uma “fratura aberta”, uma “dor de peito sem cura”. Passou os dias a acompanhar o que desde outubro de 2023 acontece em Gaza, através dos relatos dos jornalistas palestinianos que se encontravam no território — muitos deles hoje mortos —, ele que foi também jornalista durante dez anos. Mas, apesar de profundamente poética, a escrita de Omar El Akkad em Um Dia… Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto (ed. Tinta da China) é muito simples e assertiva.

A partir dos relatos da vida quotidiana, de trabalho ou em família, El Akkad vai partilhando uma série de considerações sociais, pessoais e políticas em texto, como se cada um deles fosse uma crónica exímia, onde acaba por traçar também os porquês possíveis dos percursos de que a sua vida foi sendo feita. Nasceu no Egipto numa família de classe média alta, os pais viram-se obrigados a emigrar, seguiram para o Qatar, depois para o Canadá, onde ouvia os álbuns Nevermind e In Utero dos Nirvana. Nos países não livres, diz — e entenda-se aqui a sensibilidade da sua escrita —, não se caminha em direção a algo melhor, vive-se a afastar-se de algo pior.

Hoje, El Akkad reside nos Estados Unidos, onde formou família, tem filhos. Almejou sempre emigrar para os países ditos livres, porque acreditava que aí as falhas existentes eram consertáveis. Sobre o facto de a História não ser necessariamente nova, porque continua a repetir-se, o escritor considera que cada geração terá o seu buraco negro, o seu encontrou-o em Gaza. Depois do aclamado romance de estreia American War, distopia sobre uma segunda guerra civil norte-americana, e de What Strange Paradise, sobre um rapaz sírio que sobrevive ao naufrágio de um barco carregado de refugiados, esta estreia de Omar El Akkad na não-ficção é soberba — categoria na qual foi entretanto premiada com o National Book Award.

▲ A capa de "Um Dia… Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto", de Omar El Akkad, na edição portuguesa da Tinta-da-China

Este livro foi publicado nos Estados Unidos, assim como em Portugal, em 2025. Terminou de escrever o livro antes de Donald Trump ser eleito?
Sim, pelo menos os dois ou três primeiros rascunhos. Estava a fazer as últimas revisões quando a eleição se aproximou. O primeiro rascunho do livro foi concluído no final de fevereiro de 2024.

Alterou alguma coisa? Havia coisas que já não faziam sentido depois da eleição?
Não. Surpreendentemente, não havia assim tanta coisa. Pensei nisso, obviamente. Estávamos a fazer revisões ao texto e as eleições estavam a aproximar-se. Pensava no que precisaria de ser alterado, dependendo de quem ganhasse as eleições. E havia muito pouco. Na verdade, acho que não fiz nenhuma alteração no texto por causa da vitória de Donald Trump. Nessa altura, já estávamos muito perto da publicação.

Como se sentiu em relação a esta esta sucessão de acontecimentos: a eleição, a publicação do livro e tudo o que escreveu?
Era um pouco previsível que ele pudesse ganhar.

Zero surpresa, portanto?
Na verdade, normalmente, sou muito mau a prever estas coisas. Mas assim que Biden desistiu e Kamala Harris o substituiu, pensei que Trump iria ganhar. Por várias razões. De forma óbvia, porque vivo num país onde há um racismo e um sexismo bastante endémicos. E aqui estava uma mulher que não é branca a concorrer à presidência do país. Só isso fez-me pensar, desde o início, que ela teria uma longa e difícil jornada pela frente. A outra razão é que, nos Estados Unidos em particular, o processo de campanha para a próxima eleição começa no dia seguinte à eleição anterior. É um ciclo de quatro anos. E, em vez disso, essa mulher teve apenas alguns meses para organizar uma campanha. À medida que a campanha avançava, grande parte do entusiasmo inicial começou a evaporar-se quando ficou claro que, em várias questões importantes, incluindo o massacre em Gaza, Harris não iria diferenciar-se de forma significativa do que Joe Biden dizia.

"Há um ciclo que considero incrivelmente assustador. O facto de haver partidos políticos que supostamente são progressistas ou liberais, ou que se comportam dessa forma, que chegam ao poder e dizem todas as coisas certas. Penduram a bandeira arco-íris uma vez por ano, colocam o cartaz Black Lives Matter no relvado. Fazem tudo isso, mas depois não dão seguimento com nada de substancial."

Tem uma afirmação muito poderosa no livro, e é sobre isso que o livro trata: o facto de, com os acontecimentos em Gaza, se ter aberto uma “fratura impossível de preencher senão com vazio”. O mundo ocidental deixou de ser esse lugar de aspiração para as pessoas não ocidentais?
Importa fazer aqui uma distinção entre um lado institucional e um lado individual. Quando digo que me sinto desanimado ou desiludido com o Ocidente, que estou a afastar-me, estou a falar da dimensão institucional, dos centros de poder, do poder político, académico, jornalístico, os quais falharam redondamente nos últimos dois anos. Naquilo que no Ocidente se tem feito em comunidade, em solidariedade uns com os outros, tem sido incrivelmente inspirador: gente nas ruas, a protestarem, ver que as pessoas não estão dispostas a aturar isto. Quando falo sobre essa ideia de algo se desfazer, estou a pensar na distância entre o desempenho e a realidade. Esse é o objeto central da minha frustração. Neste momento, vivo nos Estados Unidos e diria que o atual governo federal é abertamente fascista. Sei qual é a minha posição em relação a um monstro. Sei como resistir a isso. Não há mal-entendidos sobre o que está a acontecer. Mas quando o porta-voz de um governo democrático vem falar comigo sobre o desejo de uma paz duradoura e todas essas coisas realmente importantes e, ao mesmo tempo, esse mesmo governo financia um genocídio, o abismo entre o desempenho e a realidade torna-se grande de mais para ser ignorado. Era com isto que eu estava mais preocupado quando escrevi este livro.

Parece descrever um patamar novo na política, é disso que se trata?
Sim, absolutamente. Em quase todos os sentidos. O que dou por mim a pensar é em quem é que sobra para enfrentar este estado de coisas. Nos Estados Unidos, há apenas dois partidos com hipótese de assumir o poder a nível federal. Um deles está a ficar cada vez mais descontrolado. Parece não haver limite para a crueldade, para a destruição das infraestruturas cívicas, etc.. Quem é que devia estar a enfrentar tudo isto? Posso dizer-lhe que recebo regularmente e-mails de angariação de fundos do Partido Democrata a falar sobre como Donald Trump é uma ameaça existencial à democracia americana. E concordo com tudo. A minha pergunta é: por que é que o Partido Democrata não está a agir em conformidade? A magnitude da crueldade explícita é diferente de tudo o que já vi. Chegaram a um ponto muito, muito perigoso. E essa crueldade vem de algum lugar.

Quando fala do Partido Democrata, que responsabilidades lhe atribuiu?
Há um ciclo que considero incrivelmente assustador. O facto de haver partidos políticos que supostamente são progressistas ou liberais, ou que se comportam dessa forma, que chegam ao poder e dizem todas as coisas certas. Penduram a bandeira arco-íris uma vez por ano, colocam o cartaz Black Lives Matter no relvado. Fazem tudo isso, mas depois não dão seguimento com nada de substancial. Tanto que as pessoas que votaram neles ficam cada vez mais desiludidas e decidem não votar novamente. Quem lucra com isso? A direita desequilibrada, que consegue chegar assim ao poder. Eles são tão desequilibrados e a crueldade é tão evidente que, eventualmente, as pessoas vão votar para tirá-los do poder. Vão votar novamente nos progressistas liberais, que, mais uma vez, fazem o mesmo discurso sem qualquer substância. E vivemos este ciclo repetidamente. Já não temos esse tempo. Estamos a falar do colapso climático e de um movimento massivo de seres humanos como resultado. Não temos tempo para continuar neste ciclo vicioso, mas aparentemente é isso que nos contentamos em fazer.

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▲ O autor esteve presente na gala dos National Book Awards, em Nova Iorque, a 19 de dezembro, onde foi distinguido com o prémio para melhor livro de não-ficção

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E o que espera que possa acontecer?
Depende se está a perguntar a mim pessoalmente ou se se está a referir a um sentido mais amplo.

No livro fala em ambos os níveis.
Há um motivo enorme para ter esperança. E digo isso porque, mais uma vez, vejo as pessoas a irem para as ruas, vejo pessoas a tomar a decisão consciente de que não vão tolerar mais isto. A vontade do povo é muito difícil de ser ignorada por qualquer sistema de poder. E estou a ver mudança, sabe? É muito lenta, mas estou a vê-la acontecer. É só nesta frente que acho que existem motivos para esperança. A nível pessoal, acho que nunca mais poderia votar no Partido Democrata. Não poderia votar em nenhum partido que permitiu que o genocídio em Gaza acontecesse, que estava em posição de fazer algo a respeito e não fez. Mas essa é uma decisão muito pessoal, não pretendo impô-la a ninguém nem julgar ninguém por votar no menor dos dois males.

O que o impede de partir novamente para um lugar onde as coisas não são assim, ou mesmo para um mundo não ocidental?
Cresci no Qatar, vivi lá na adolescência. Durante quase toda a minha vida adulta, desde que deixei o Qatar, se me tivessem perguntado o que seria necessário para voltar, teria respondido que, provavelmente, nada. Não há nada que me possam oferecer que me faça voltar, por várias razões. Políticas, mas também relacionadas com a memória. Há demasiado do meu passado lá. Mas esta é a primeira vez na minha vida em que penso que, se não fosse pelas ligações familiares ou pelas raízes que tenho nesta parte do mundo, provavelmente voltaria. Há várias razões, algumas delas muito práticas. A minha mulher trabalha nesta parte do mundo. Os meus filhos nasceram aqui. A minha família alargada, os meus sogros, estão aqui. A ideia de pegar nas minhas coisas e partir torna-se cada vez mais assustadora à medida que envelheço. A ideia de recomeçar, recomeçar e recomeçar… Se fosse solteiro, se não tivesse filhos, suspeito fortemente que estaria noutro lugar do mundo, agora. O que, novamente, é algo surpreendente de dizer, porque, durante grande parte da minha vida, o objetivo final era acabar aqui.

"Fui jornalista durante 10 anos e o que me importa em todas as histórias, sobre todos os assuntos, é que cada jornalista se pergunte quando está a escrever: como seria esta história se estivesse a escrevê-la num vácuo, sem qualquer pressão externa? E quando digo pressão externa, refiro-me a anunciantes a ameaçarem retirar os seus anúncios, a CEOs a ligarem para o editor-chefe porque são amigos ou a pessoas a gritarem no Twitter."

Há pouco tempo, passou num festival português de cinema [DocLisboa] um documentário sobre Seymour Hersh, o jornalista norte-americano que divulgou histórias como o massacre de My Lai no Vietname, as torturas de militares no Iraque ou em Guantánamo [Cover-Up]. Como é que um jornalista se sente — como é também o seu caso, que fez reportagens sobre Guantánamo e a Primavera Árabe no Egipto, onde nasceu — quando vê a História a repetir-se?
Digo em algum lado no livro que talvez cada geração tenha a sua versão do que estou a passar agora. Se estivesse vivo durante a Guerra do Vietname, talvez tivesse escrito este livro inspirado por isso. Portanto, não tenho dúvidas de que o que está a dizer está correto, existe uma continuidade. O que acho que está a mudar é o quanto avançámos na trajetória existente para os sistemas sob os quais estamos a viver, quando penso no colonialismo e em qualquer estágio do capitalismo em que nos encontramos. Quanto mais avançamos nessa trajetória desses sistemas, mais crueldade esperamos considerar normal. Porque são sistemas insaciáveis, são sistemas que não conhecem o significado da palavra “suficiente”. Não há um ponto final. Há apenas mais e mais a ser tomado. E acho que, da próxima vez que isso acontecer — e haverá uma próxima vez — estaremos ainda menos condicionados a aceitar mais violência e mais crueldade como norma. Sei que é uma afirmação incrivelmente cínica, e peço desculpa por isso, mas, a menos que estejamos dispostos a desmantelar esses sistemas e criar algo melhor, essa é a trajetória natural. Fui repórter de economia durante muito tempo. Quando cobria os resultados trimestrais da Amazon, não importava o que a Amazon ganhava naquele trimestre. A única coisa que importava era que fosse mais do que no mesmo trimestre do ano anterior. E, no ano seguinte, importava que fosse mais do que isso, e assim por diante. Qualquer sistema assim vai exigir cada vez mais, incluindo mais tolerância à crueldade.

No ano passado, no fórum internacional de jornalismo iMed, em Atenas, a jornalista palestiniana Yuma El Sayed, correspondente da Al Jazeera em Gaza, disse que os média ocidentais não consideram a informação vinda de Gaza credível o suficiente porque não há jornalistas ocidentais a fazer cobertura no terreno. Ela espantava-se com isso, contrapondo que não é a nacionalidade a definir se um jornalista é bom ou não mas, sim, a qualidade do seu trabalho. Que tipo de relação com o jornalismo está aqui retratada?
Acho que há várias respostas para essa pergunta. Uma delas é, simplesmente, o racismo. A desumanização dos palestinianos existe em tantos eixos que nunca seria possível evitá-la no jornalismo. Grande parte do racismo que vemos nas arenas política, académica e cultural nunca escaparia ao jornalismo. O jornalismo não seria imune a isso. Acho que outra faceta é o desejo desesperado de muitos jornalistas se verem como uma espécie de terceiros neutros que pairam acima da História. Há alguns meses, enquanto estava a conduzir para casa, ia a ouvir a NPR [rádio americana com financiamento público]. Tratava-se de uma entrevista a uma mulher que estuda o Medicare, o nosso serviço de saúde governamental. Os republicanos estão a tentar cortar o financiamento do Medicare. A jornalista estava a citar um político republicano que tinha afirmado que 50% de todas as despesas do Medicare eram fraudes, o que é uma invenção completa. Não tem nenhuma relação com a realidade. Ele estava apenas a inventar um número. E a jornalista confrontava a mulher, especializada sobre o assunto, com o número, ao que esta respondeu não existir qualquer evidência de que isso fosse verdade. O que descobriram, sim, quando fizeram o estudo, foi que 5% das despesas são resultado de erros de faturação. Então, a entrevistadora disse algo que me ficou na cabeça: “Você diz 5%, este político diz 50%”. E eu pensei: não há um terceiro termo? Este é o modelo de jornalismo com o qual tantos repórteres têm sido formados, esta ideia de serem um termo neutro.

O que quer dizer? Que a imparcialidade não é eficaz?
Um modelo de jornalismo realmente bom terá de estar inserido num campo de jogo equilibrado em que todos estejam a agir de boa-fé. Mas, claramente, na vida real, esse não é o caso. Vi alguns dos melhores trabalhos jornalísticos da minha vida serem feitos nos últimos anos, a grande maioria deles feita por jornalistas palestinianos, a maioria dos quais agora está morta. Fui jornalista durante 10 anos e o que me importa em todas as histórias, sobre todos os assuntos, é que cada jornalista se pergunte quando está a escrever: como seria esta história se estivesse a escrevê-la num vácuo, sem qualquer pressão externa? E quando digo pressão externa, refiro-me a anunciantes a ameaçarem retirar os seus anúncios, a CEOs a ligarem para o editor-chefe porque são amigos ou a pessoas a gritarem no Twitter [agora, X] e a enviarem todo o tipo de mensagens. Como seria a história se não houvesse nenhuma dessas pressões? Como a escreveria sob essas pressões? Quão grande será a diferença entre essas duas histórias? Porque essa diferença é, para mim, a definição de negligência jornalística. Todo o repórter tem a obrigação de reduzi-la ao máximo.

▲ "Há um certo tipo de leveza, um certo tipo de liberdade, que surge quando pensamos e escrevemos o que realmente queremos dizer"

Parece-lhe que existe desilusão com o jornalismo?
Existe. Há uma diferença entre dizer que “esta pessoa foi baleada por aquela pessoa” e dizer que “uma bala atingiu uma pessoa e ela agora não está mais viva”. Sabemos o que é esse tipo de linguagem passiva. No caso da Palestina, o racismo é uma parte importante da questão. Mas, além disso, acho que há um problema no jornalismo que é endémico em todas as histórias, que é o quanto essa lacuna, essa negligência, tem crescido. E isso não é apenas uma questão teórica. Isso está a causar danos sérios à instituição do jornalismo. Quando converso com pessoas mais jovens, com alunos do ensino médio ou universitário, o nível de desconfiança que têm em relação ao jornalismo é muito alto. Não posso dizer que os culpo, mas isso causa um dano enorme à sociedade. O jornalismo é importante. O jornalismo permite-nos descobrir o que as pessoas poderosas estão a fazer. Os danos que os jornalistas ocidentais, as instituições jornalísticas ocidentais, têm causado nos últimos dois anos vão repercutir-se por gerações. E por isso a pergunta: até que ponto nós, como sociedade, estamos dispostos a abdicar do que deveria ser um bem público? Eu considero o jornalismo um bem público. Quão dispostos nos tornámos, como sociedade, a abrir mão do que deveriam ser bens públicos em favor dos interesses corporativos?

É uma realidade?
O controlo corporativo dos média tornou-se não apenas avassalador, mas também demasiado concentrado. Aqui, Nos Estados Unidos, posso contar pelos dedos de uma mão o número de empresas que controlam grande parte da produção jornalística. Isto não pode ser ignorado. E, claro, há coisas endémicas que nunca desapareceram. Há muitos casos de colonialismo em que os média, no coração do império, ficavam felizes por minar e descartar as vidas que estavam a ser destruídas pelo empreendedorismo colonial. Podemos voltar atrás e olhar para os média no auge do Império Britânico, e ver o que eles tinham a dizer sobre a Índia, por exemplo. Este colonialismo existe há muito tempo, mas há também alguns fatores únicos no momento em que vivemos: este estágio do capitalismo coloca-nos perante tendências cada vez mais significativas.

No livro transmite a ideia de que precisava muito de o escrever. Assim sendo, sentiu algum tipo de alívio quando o escreveu?
Acho que não senti alívio algum. Não houve catarse. Certamente, não houve alegria, entusiasmo ou algo do género, embora a forma como o escrevi tenha sido objetiva. Escrevi este livro porque senti que precisava de o escrever. Não conseguia pensar em mais nada. Não conseguia escrever sobre mais nada. E acho que não poderia continuar a chamar-me escritor se tivesse deixado de escrever sobre as coisas que consumiam todos os meus pensamentos. Há, de certa forma, uma componente incrivelmente egoísta na construção deste livro, que tem a ver com esta noção: no mínimo, disse algo. Tudo o que sei fazer é escrever. Quando o mundo não faz sentido para mim, abro uma página e tento resolver isso dessa maneira. Esse foi o processo de escrever este livro. Estava a assistir a algo tão horrível que não conseguia processar. Comecei a escrevê-lo no início de novembro de 2023 e, durante todo o tempo em que escrevi o primeiro rascunho, não achei que houvesse a menor hipótese de a minha editora o publicar. Há um certo tipo de leveza, um certo tipo de liberdade, que surge quando pensamos e escrevemos o que realmente queremos dizer. Só depois de terminar o primeiro rascunho é que o mostrei ao meu agente, o meu agente mostrou-o à editora, a editora decidiu comprá-lo. Mas, durante o processo, foi puramente um ato de tentar descobrir o que estava a acontecer, quais eram os meus pensamentos. Não foi catártico e não senti nenhum alívio. Mas se não o tivesse feito, não teria conseguido viver em paz comigo mesmo.

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