Os vencedores
Luís Montenegro
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Apostaram contra ele no primeiro Orçamento, resignaram-se no segundo, terão de lidar com o terceiro e logo se verá o que acontece ao quarto. Luís Montenegro é um sobrevivente. À frente de um dos governos mais minoritários da história, num contexto de enorme exigência, o primeiro-ministro conseguiu superar mais um marco. Independentemente dos méritos e deméritos do documento, a força de Montenegro reside na fraqueza política dos adversários. Enquanto o Chega e (sobretudo) o PS temerem enfrentar a AD nas urnas, o líder social-democrata continuará a somar Orçamentos sem grandes dramas. A ironia, aqui, é outra: se Montenegro procurava o pretexto perfeito para se vitimizar e lutar pela tão ambicionada maioria absoluta, poderá mesmo ter de esperar por 2029 e responder pelos resultados conseguidos. Sem desculpas.
Joaquim Miranda Sarmento
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Portugal continua sem atingir o crescimento de 3% — coisa que Joaquim Miranda Sarmento, antes de ser ministro, dizia ser peanuts. Mas o ministro das Finanças, sem o protagonismo público dos seus antecessores Fernando Medina e (sobretudo) Mário Centeno, e num contexto extraordinariamente difícil, conseguiu fazer aprovar mais um Orçamento do Estado, com direito a mais uma redução de impostos e, ainda assim, um pequeno excedente. Esta última nota é especialmente relevante — imediatamente depois do comboio de tempestades que atingiu o país, falava-se abertamente do regresso dos défices — e prova bem o poder de Sarmento no Conselho de Ministros e a influência junto de Montenegro. Perder o discurso das contas certas seria um desastre para o centro-direita e Miranda Sarmento evitou-o. O grande risco que corre não é enganar-se nas contas; é transformar-se numa espécie de Maria Antonieta. Já se viu o que acontece quando o país do excel não coincide com o país real.
António José Seguro
Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República
António José Seguro decidiu mudar a doutrina Marcelo: com ele na Presidência, um chumbo de um Orçamento do Estado já não significa a dissolução quase automática do Parlamento. Mas, quando acontecer, toda a pressão que agora está nos partidos passa para o Presidente da República. Nesse dia, Seguro vai ter de convencer o Governo a elaborar um novo orçamento, os partidos a viabilizarem esse documento ou terá de assumir o ónus de ter um Governo em funções, mas um país em duodécimos. Com o orçamento entregue e aprovação garantida, Seguro não terá de passar por nada disso. Safa-se do risco de ser o protagonista principal de uma crise política. Consegue, além do mais, a estabilidade política e alguns metros do chão comum a que tanto apela em nome do interesse nacional. Como na legislação laboral, o problema volta a resolver-se antes de chegar às mãos de Seguro.
Os vencidos
André Ventura
ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
O líder do Chega reina no caos e alimenta-se dos bloqueios do regime. José Luís Carneiro desarmadilhou o caminho de Luís Montenegro e, com isso, destrunfou também André Ventura. Sem força para influenciar o Orçamento, sem margem para aprovar grandes medidas no processo da especialidade, sem o parceiro das “coligações negativas”, o líder do Chega não terá o palco político e mediático que costuma ocupar, uma situação que lhe é estranha. Ventura poderá sempre celebrar o facto de o PS, com a abstenção, se estar a corresponsabilizar por um Orçamento magro para as dificuldades que o país enfrenta. Mas a alternativa (duodécimos? crise política? eleições antecipadas?) seria sempre pior e tem sido rejeitada em sucessivas sondagens — os portugueses parecem dispensar mais dramas. De resto, Ventura não esconde que está mais preocupado em acelerar a comissão parlamentar de inquérito a Luís Neves do que em perder tempo a discutir um Orçamento em que não risca. O líder do Chega já virou a página e percebe que é em Neves — e não em Sarmento — que está o ouro.
Mário Centeno
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
Está transformado na Cassandra deste Governo, mas os números, para já, não lhe dão razão — nem mesmo quando são usados de forma, no mínimo, muito criativa. Uma coisa é criticar a estratégia de um governo, seja ele qual for, outra é entrar numa trip alucinogénica, que é o que acontece quando se compara Montenegro a Sócrates na mesma semana em que o Governo entrega um Orçamento com um crescimento previsto acima de 2%, um excedente a caminho (mais um), e uma dívida pública a descer para os 84,5% do PIB. Mário Centeno anda a ensaiar o “Vem aí o Diabo — Parte 2”. O primeiro filme correu mal; o segundo arrisca o mesmo destino, sobretudo quando o ego tolda a razoabilidade. Se ainda quer ter um futuro na política, o “Ronaldo das Finanças” deveria tentar preservar a sua imagem e fazer uma gestão eficaz da palavra e do tempo político.
A esquerda
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
Quando foram recebidos pelo ministro das Finanças no âmbito deste Orçamento, Livre, PCP e Bloco de Esquerda protestaram por não existirem mais medidas de combate ao aumento do custo de vida. Mas a verdade é que são cada vez mais deixados à margem do processo orçamental (e, já agora, de todos os outros). Mesmo que, aqui e ali, consigam fazer aprovar algumas das suas propostas na especialidade, não contam para este processo. Além disso, ainda veem o seu parceiro maior (o Partido Socialista) a viabilizar o orçamento da AD. Se há poucos anos, nos tempos idos da geringonça, o Orçamento era um momento de afirmação em que o PCP dizia “aprovámos isto” e o BE podia dizer “aprovámos aquilo”, atualmente continuam reduzidos a uma quase irrelevância negocial.
O abstencionista
José Luís Carneiro
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
José Luís Carneiro simplificou o processo de viabilização do Orçamento. Em vez de colocar linhas vermelhas ou pedir medidas irrealistas (do estilo da descida da idade da reforma), fez quatro exigências ao Governo que eram fáceis de corresponder do lado do Executivo. Também não alimentou uma longa novela como o antecessor Pedro Nuno Santos fez no Orçamento do Estado para 2025 e no qual não saiu bem da fotografia. Fez um rebranding, mais fofinho, do conceito de “abstenção violenta”, da autoria de Seguro, e batizou este voto de “abstenção exigente”. Fez, porém, questão de manter viva a oposição e fazer outras exigências ao Executivo (como aconteceu quando pediu para a AD não continuar a negociar com o Chega na lei do arrendamento), mas sempre sem criar um melodrama orçamental. E, esta quinta-feira, o PS disse que não dá por garantida a aprovação final — mesmo sabendo-se como a história vai acabar. Carneiro precisa de tempo e é o que esta abstenção lhe dá. Sem ter, neste particular, grandes problemas internos — o que na oposição nem sempre é fácil. Aí vão dois orçamentos viabilizados na contagem pessoal de Carneiro. É preciso recuar aos anos 90 e ao processo de adesão ao euro para encontrar quem, na oposição, o tenha feito mais vezes (Marcelo na altura viabilizou três ao amigo Guterres). Não podem, para já, acusá-lo de procurar a instabilidade.