“Habemus Papam”, anunciava solenemente o Cardeal Mamberti. Um compasso de espera, acolhendo o aplauso alegre da multidão. E continuava: “o eminentíssimo e reverendíssimo senhor, senhor Robert Francis, cardeal da Santa Igreja Romana PREVOST”. E ovação redobrada da praça. Estou certo de que muitos, e em muitos lugares, se perguntaram: “quem?” Não foi certamente o caso dos Agostinhos, que exultámos de alegria ao ouvir um nome tão próximo e familiar. Prevost! Um irmão que de há muito todos conhecemos, já que durante 12 anos esteve à frente do governo da nossa Ordem.
A Ordem de Santo Agostinho
A Ordem à qual pertence Leão XIV funda as suas raízes na experiência de Santo Agostinho que, durante toda a vida (354-430), procurou incessantemente a única Verdade capaz fazer descansar o coração inquieto do ser humano. Depois de muito tempo errante, Agostinho deixou-se finalmente encontrar por Cristo e, juntamente com os amigos, viveu a experiência da conversão com 32 anos. Uma vez recebido o batismo e regressado à sua Tagaste, fundou uma comunidade de monges. Para eles escreve a Regra dos servos de Deus, um “manual” para o seguimento de Cristo segundo o modelo da primitiva comunidade de Jerusalém, na qual todos tinham uma só alma e um só coração, ninguém chamava próprio aos seus bens e, por isso, não havia entre eles necessitados. Eis o modelo. A esta comunidade agostiniana de Tagaste seguiram-se outras, e assim sucessivamente… até que no século XIII, alguns monges da Toscana (Itália), sentindo-se herdeiros do legado de Agostinho, pediram ao Papa Inocêncio IV que ratificara a sua união sob a jurisdição de um Superior Geral comum, ao modo das Ordens Mendicantes recentemente fundadas. E assim nasceu oficialmente a Ordem de Santo Agostinho em 1244, à qual se uniram outras comunidades em 1256 no pontificado de Alexandre IV.
Ordem de Santo Agostinho: a comunidade, o estudo, a humildade e o primeiro Papa
Em Portugal
No que respeita a Portugal, os dados confirmam-nos a chegada dos Agostinhos em meados do século XIII, e a expansão deu-se paulatinamente através da fundação numerosa de conventos. Apesar da profícua presença ao longo dos séculos e da fecunda atividade missionária —especialmente na Índia—, a presença agostiniana viu o seu fim como as demais ordens em 1834, e Portugal teve de aguardar pacientemente 140 anos até poder voltar a contar com o testemunho dos filhos de Agostinho. O esperado regresso aconteceu em 1974, na Guarda, e ampliou-se pouco depois na Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço. Mais tarde, em 1986, a Ordem assumiu a paróquia de Santa Iria de Azóia e, em 2004, a de São Domingos de Rana. Estas são as duas comunidades atuais dos Agostinhos em Portugal, ambas no Patriarcado de Lisboa e cada uma com 3 membros. Porém, a presença agostiniana no nosso país sobrepassa a vida consagrada, uma vez que conta também com três Fraternidades Seculares já canonicamente erigidas e duas em formação. As fraternidades são formadas por homens e mulheres que decidem vincular-se canonicamente à Ordem, como leigos, através da pertença a um grupo de vida ao serviço da Igreja e segundo o carisma agostiniano. Por outro lado, em 1990, os jovens unidos à Ordem em Portugal —enfoque principal da ação pastoral dos Agostinhos— tomaram a iniciativa de criar uma Associação Juvenil: a Juventude Agostiniana Portuguesa (JAP) que, assente nos pilares da comunidade, a interioridade, a formação e o compromisso, une em família cerca de 200 associados. Ao longo deste período de restauração, as comunidades têm suscitado também várias vocações à vida consagrada, masculina e feminina, ainda que de forma lenta e gradual. O futuro da Ordem em terras lusas encontra-se assim entregue por Deus a muitas vidas: sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos, famílias, jovens e crianças, “numa só alma e num só coração em marcha para Deus”.
Sacerdotes da Ordem de Santo Agostinho nas Jornadas Mundiais da Juventude
O carisma
Por carisma entendemos um peculiar dom (χάρις, “graça”) oferecido por Deus a uma pessoa com a finalidade de produzir uma forma concreta e renovada de viver o Evangelho. Que dom é este que recebeu Santo Agostinho e que transmitiu aos seus filhos? A amizade verdadeira, assim entendida quando a qualidade humana se une à Verdade que é Cristo. Bastará recordar que, por um lado, o próprio Jesus Cristo elevou a amizade ao grau máximo da caridade ao afirmar que “ninguém tem amor maior do que quem dá a vida pelos seus amigos” e que, por outro, assim chamou aos discípulos, “já não vos chamo servos, mas amigos”. Deste carisma fundacional brota a espiritualidade agostiniana, cujos pilares são: a procura de Deus e a interioridade; a comunhão de vida e a comunidade de todos os bens —materiais e espirituais—; a formação e o estudo; o serviço disponível à Igreja que se traduz nas mais diferentes missões apostólicas, num diálogo profícuo com o mundo e as especificidades próprias de cada época e contexto. A vida fraterna é vivida, assim, como um fim em si mesma, e assumida como primeiro apostolado.
O Papa é “graciano”
Se olharmos a geografia nacional, certamente encontraremos muitos conventos, igrejas, praças ou ruas cujo o nome evoca a advocação mariana “Nossa Senhora da Graça”. É este o apelativo mais antigo que a Ordem agostiniana deu à Virgem Maria. É ela a “cheia de graça” que oferece ao mundo o autor da Graça imerecida, Jesus. Por este motivo, os Agostinhos portugueses eram carinhosamente conhecidos como “gracianos”, especialmente em Lisboa onde se encontrava a sua principal casa: o convento da Graça. E que festa celebrávamos aquando da eleição do Papa a 8 de maio? A festa litúrgica de Nossa Senhora da Graça, padroeira da nossa comunidade de São Domingos de Rana. Não há acasos, há “deusidências”. Não restam dúvidas: o papa Leão XIV é também “graciano”: herdeiro de um legado secular de missionários, místicos, confessores e pastores segundo o coração de Deus. E assim é o Santo Padre: um homem sensato, tranquilo e generoso, com quem tive o prazer de contactar em algumas ocasiões pontuais. Recordo com carinho as duas vezes que coincidimos em Itália logo ao início da minha formação, em 2011. Rumámos desde Espanha (onde realizei a formação) para participar numa ordenação sacerdotal em Milão, uma vez que um dos colegas que connosco vivia era italiano e conhecia o novo sacerdote. Aproveitámos assim a deixa para estar alguns dias e peregrinar pelos lugares mais emblemáticos da história da nossa Ordem. Numa dessas noites, em Roma, o então Prior Geral da Ordem —o Padre Prevost— acolheu-nos na sua comunidade ao serão. Era um irmão mais, sem qualquer distinção, que nos recebeu com um abraço e um sorriso amável. Acomodou-nos na sala de estar e ele mesmo, com a ajuda de outro irmão, providenciou rapidamente uns refrescos e gelados para que nos sentíssemos em casa. No dia da referida ordenação, em Milão, conversámos alguns minutos uma vez terminada a celebração. Nessa breve conversa, animou-nos a seguir em frente e mostrou-se disponível e interessado pelo nosso caminho. É um homem de Deus e, como ele mesmo disse, “um filho de Santo Agostinho”. Obrigado, Santo Padre, pela tua generosidade ao abraçar o leme da barca de Pedro. Os irmãos rezamos muito por ti. Que Nossa Senhora da Graça te proteja e conforte.
Padre João Silva com Robert Francis Prevost, o Papa Leão XIV