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PCP e BE à frente do CDS nas sondagens? Melo dramatiza e apela à direita democrática para votar contra os que "defendem ditaduras"

Nuno Melo dispara alarme no apelo ao voto: CDS não pode ficar atrás do PCP e do BE. Já Mota Soares, que luta por um lugar, nos mercados, tem vida própria. "É que gosto mesmo disto".

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(artigo em atualização ao longo do dia)

O apelo é para a abstenção. Ou para quem é de direita mas não tenciona sair de casa para votar nas Europeias. Ou, no fundo, para os “portugueses, que são um povo tolerante”. Votem, votem, porque a Europa está a ficar repleta de partidos extremistas e, se não votarem, o CDS — “partido tolerante, democrático” — corre o risco de ficar atrás de partidos como o PCP e o BE, que são partidos que “defendem ditaduras”. É o alerta vermelho de Nuno Melo, que já tinha sido ensaiado no discurso da noite passada.

As campainhas de alarme soaram na caravana centrista já na sexta-feira, quando foi conhecida mais uma sondagem do ISCTE/ICS para a SIC/Expresso que põe o CDS em risco de ficar atrás do Bloco de Esquerda e empatado, ou mesmo atrás, do PCP, podendo não conseguir eleger os dois eurodeputados que deseja. Para que isso não aconteça, e numa altura em que ainda há uma semana pela frente para apontar baterias e afinar discurso, o CDS opta agora por um discurso alarmista: “Quando os extremismos crescem no Parlamento Europeu, o CDS, que defende princípios democráticos, tem de ter mais votos do que a extrema-esquerda”, disse o candidato aos jornalistas depois de uma visita a mais um mercado, desta vez em Ovar.

Claro que o CDS não liga muito a sondagens (nenhum partido liga, a ver pelas reações habituais) e garante que “a nossa sondagem são as ruas”. Mas o que é certo e que a dramatização foi reforçada nas últimas horas e agora é preciso que Portugal dê “um sinal à Europa contra os extremismos”. “Portugal é um povo tolerante, por isso tem uma oportunidade, já no dia 26, de dar um sinal de que o CDS merece ficar à frente de partidos que apoiam ditaduras”, insistiu.

Minutos antes, nos holofotes dos “jotas” que acompanham a comitiva, não se parava de ouvir o cântico que tem servido de banda sonora à campanha: “A alternativa somos nós/A alternativa somos nós/Portugal merece/Uma Europa CDS”. Ora, se o CDS quer ser “a alternativa” ao Governo socialista, como aparece escrito em todos os cartazes e como tem servido de lema a Assunção Cristas desde março de 2017, pôr a meta eleitoral na liga do BE e PCP não é admitir que o CDS joga na liga dos últimos?

“É ser realista”, responde Nuno Melo, assumindo ter a “noção” de que o CDS não disputa os lugares do pódio, onde está PS e PSD. Em todo o caso, também alerta: os partidos da “alternância”, outrora os “inevitáveis campeões”, que não pensem que têm votos garantidos, porque “já ninguém vota por ver uma mão fechada (símbolo do PS) ou um símbolo cor de laranja (PSD)”. E aí Nuno Melo dá o exemplo da Frente Nacional, partido de extrema-direita de Marine de Le Pen, que venceu, em França, as europeias de 2014, deixando para trás os partidos da alternância.

“Há muitas pessoas em Portugal que se sentem de direita”. É para essas que o CDS aponta

No dia em que a campanha se concentrou na parte da manhã e início da tarde — porque ao fim do dia há campeão nacional de futebol –, Nuno Melo jogou tudo no flanco direito do espectro político. A jogar em casa, em Oliveira do Bairro (que o CDS conquistou nas últimas autárquicas), Nuno Melo insistiu na clarificação ideológica do discurso do CDS.

Ora, se o CDS “é de direita”, “mas não de extrema-direita”, e se o PSD de Rio está a fugir para o centro-esquerda, então sobra ali um espaço político entre o PSD e os partidos da direita radical (como o Chega, que Nuno Melo nunca nomeia), que é o espaço da direita moderada e democrática. Mas direita, ainda assim. “Com orgulho”, e “sem complexos”. É esse eleitorado que o CDS quer conquistar nestas eleições europeias — e que espera que seja superior ao eleitorado da extrema esquerda.

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“O CDS sempre foi um partido de direita democrática e moderada, e sociologicamente, em Portugal há muitas pessoas que se sentem de direita e que têm de estar representadas na Assembleia da República e no Parlamento Europeu”, afirmou, sublinhando que “se o CDS não existisse, a direita não tinha representação”. “É esse espaço político que reclamamos para nós e que achamos que pode ter bom resultado nas eleições. É só isto”, defendeu o candidato, insistindo mais uma vez que “só o voto no CDS não viabilizará qualquer governo de António Costa”.

O combate faz-se por cima nas duas frentes: demarcar-se da extrema-direita, por um lado, e colar o PSD à esquerda, por outro. Só assim haverá caminho para o CDS andar. E dentro da direira do CDS cabem, como diz Nuno Melo, os conservadores, como ele próprio, os democratas-cristãos, como Assunção Cristas (que fica mais à esquerda do que Nuno Melo), e os liberais (como Adolfo Mesquita Nunes, por exemplo). Mas não cabem nem ‘Andrés Venturas’ nem Rui Rio ou Paulo Rangel, que hoje ‘negam’ a direita para captarem votos ao centro.

“Motinha dos Mercados”? Mota Soares não trouxe a “lambreta”, mas corre em pista própria

O CDS não sai dos mercados. É onde se sente melhor, e Nuno Melo não se cansa de dizer que é onde “as pessoas estão”. A comitiva centrista não tem feito as chamadas arruadas, porque o risco de aparecer na televisão uma imagem de indiferença da população é maior do que nos mercados ou feiras, onde os caminhos entre uma banca e outra são estreitos e, por isso, dão uma ideia de maior concentração. Este sábado não foi exceção: mercado de Ovar, aqui vamos nós.

“Vai ali aquele da lambreta, o que foi ministro da Economia”, comenta um popular. Referia-se a Pedro Mota Soares, que foi ministro, não da Economia, mas da Segurança Social, e que nesses tempos ficou célebre por ir de mota para o ministério. Em Ovar, ninguém parece esquecer-se disso. “Oh Mota Soares, então e a mota não veio?”, atira uma senhora, enquanto o número dois da lista lhe prega dois beijinhos. Número dois que, nesta campanha, tem tido um lugar de destaque. É raro o discurso em que Nuno Melo não se desfaça em elogios para o colega e amigo. É que a meta do CDS para as europeias é precisamente eleger mais um eurodeputado do que há cinco anos, ou seja, eleger Mota Soares.

Luís Pedro Mota Soares, LP para os amigos, parece ter herdado o gene do “Paulinho das Feiras”. Mais do que Nuno Melo, que faz conversa com a população mas de forma um pouco mais rígida (e talvez forçada), Pedro Mota Soares sente-se peixe na água. “Eu sou um bicho estranho, é que eu gosto mesmo disto, sempre gostei”, comenta com o Observador depois de mais um desvio da rota da comitiva para ir falar com este ou aquele. Foi assim o tempo todo: Nuno Melo liderava a frota, e “LP” fugia da frota para se meter com os filhos dos feirantes, ou com a senhora que estava entusiasmada por aparecer na televisão. “Posso dar-lhe um beijinho?”, pergunta. “Pode, não me rouba nada”, responde-lhe a senhora, a quem Mota Soares devolve prontamente: “E também não paga imposto”.

Enquanto a caravana passa, alguma apatia e impaciência: “Deixem passar quem se quer governar. Agora é tudo e depois é nada”, queixa-se uma senhora que tinha ido ao mercado apenas para fazer as compras do dia. Nuno Melo, acompanhado de Mota Soares mas também de João Almeida e António Carlos Monteiro, deputados do distrito de Aveiro, até chegou a entrar numa tenda que media a tensão arterial, mas optou por não medir a sua. “Em dias de campanha já sabemos que a tensão está ao rubro, é melhor não medir”. Mais uma voltinha no carrossel das feiras, mais umas brochuras com “os três manjericos” (Nuno Melo, Mota Soares e Cristas) distribuídas.

Mas quando a caravana passa, os papéis azuis e brancos do CDS têm o mesmo destino dos outros cor de laranja, do PSD, que por lá já tinham sido distribuídos. E que já estavam esquecidos no chão.

Impostos europeus. Melo acusa Centeno de se comprometer sem autorização nacional

O tema já tinha sido lançado no jantar de ontem, no Montijo, mas é preciso reforçar as ideias. Falando depois de um encontro com autarcas de Oliveira do Bairro, terra centrista, Nuno Melo atacou o ministro das Finanças, Mário Centeno, por ter dado uma “indicação institucional a Bruxelas da disponibilidade” de Portugal para a criação de impostos europeus. E tudo isto “à margem de qualquer autorização do Parlamento”. Ou seja, sem o tema passar pelo crivo da Assembleia da República. E Mário Centeno faz isso, ainda por cima, “em plena campanha eleitoral”.

“Não compreendemos realmente que, em plena campanha eleitoral, o ministro socialista Mário Centeno se permita dar indicação institucional, a Bruxelas, da disponibilidade para impostos europeus, à margem de qualquer autorização do Parlamento e basicamente impondo a todos os portugueses aquilo que eventualmente os portugueses não querem”, afirmou o candidato aos jornalistas. Para Melo, isso é “abdicar de uma parcela muito relevante de soberania”.

Em causa está o facto de, como tinha explicado o candidato na sexta-feira à noite num jantar no Montijo, o comissário europeu Pierre Moscovici ter alegadamente enviado uma carta a Mário Centeno, que é também presidente do Eurogrupo, a propor esta iniciativa — intitulada, segundo Melo, de “business taxation 21” –, a que Centeno terá dado seguimento.

Para esclarecer o assunto, o CDS vai pedir a audição do ministro das Finanças, na Assembleia da República, com Nuno Melo a deixar claro que, quanto a uma eventual criação de impostos em Bruxelas, que venham a ser aplicados aos Estados-membros, o CDS diz “jamais” (em francês).

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