O PS partiu para uma campanha com uma única meta aceitável: ficar à frente da AD nem que seja por um voto — “o melhor resultado possível”, como pede o líder socialista. Pedro Nuno Santos apoiou-se na curta margem (50 mil votos) que o separou da AD há um ano, deixando-o na oposição, para garantir que a vitória é possível e, pelo caminho, tentou cobrir todo o leque de indecisos. Ao longo da campanha, os alvos do apelo ao voto multiplicaram-se e as sondagens passaram a inimigo, quase em ex aequo com a AD. A imagem das últimas horas de campanha, na descida do Chiado, não podia fazer síntese melhor do que foram estes dias: um líder transpirado, de mangas arregaçadas e voz em esforço a procurar o que as sondagens não lhe dão.
O discurso socialista começou no óbvio apelo ao voto útil, que desta vez chegou cedo à campanha socialista — normalmente é uma carta mais jogada nos dias finais. Mas desta vez o PS quis descolar esse selo de Pedro Nuno rapidamente, tirando-o do canto da esquerda onde a margem de crescimento não é tão auspiciosa. Essa tentativa de suavização da imagem do líder começou logo nos debates, com uma visível moderação política, tanto na postura como na mensagem, e manteve-se durante todo o período de campanha oficial. Dos tempos da “geringonça”, o PS aproveitou apenas a “capacidade de diálogo” demonstrada pelo PS e nada de excesso de regozijo com os entendimentos à esquerda.
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Foi uma memória seletiva, a afastar dos discursos uma argumentação mais ligada à proteção dos valores da esquerda no tempo dessa maioria parlamentar, com o PS a ficar-se pela promessa de um “governo progressista” se vencer eleições. A linha preferencial foi vender um PS capaz de falar “com todos” e com provas disso. A dada altura, o líder socialista começou a lembrar de forma recorrente que “não foi só uma vez” que o PS conseguiu aguentar um mandato de Governo inteiro, num recuo aos tempos em que ainda era um jovem em São João da Madeira e António Guterres já tentava passar orçamentos no Parlamento pelo buraco da agulha da sua maioria relativa (com um deputado do CDS).
Os apelos à concentração do voto da esquerda no PS foi mais notório em distritos onde as forças políticas de esquerda não elegem deputados, como Santarém ou Faro, por exemplo. Pedro Nuno chegou a parecer o merceeiro de lápis atrás da orelha a contabilizar em palco que esses votos concentrados no PS poderia “roubar votos à AD” e também “fazer com que o Chega elegesse menos”.
Pelo caminho, foi sempre passando a mão pelo eleitorado que não quer ver ceder às investidas da AD, os pensionistas. Sempre foi um eleitorado forte para o PS, sobretudo nos anos pós-troika, em que António Costa beneficiou da zanga desta franja do eleitorado com o PSD de Passos Coelho, depois dos cortes nas pensões. E ainda as mulheres, outro grupo importante para a esquerda, que o PS procurou atingir nesta campanha a prometer “cuidar de quem cuida”, ou seja, das mulheres que “trabalham dentro e fora de casa”. A atenção a esta frente começou o comício de Bragança, quando se dirigiu ” às mulheres que cuidam dos filhos e dos pais dos outros. As mulheres que trabalham nos lares, que trabalham nas creches todos os dias, a cuidar dos nossos pais, a cuidar das nossas crianças” e foi por aí fora até prometer “proteger” as “mulheres em Portugal que trabalham a dobrar”.
Entrar no centrão com os medos
No início da última semana, o discurso procurou também furar o centro político — o tal eleitorado que flutua entre AD e PS — ainda que de forma indireta. Depois de uma primeira semana a apontar à questão da credibilidade e da ética de Luís Montenegro, apoiado no caso Spinumviva, passou a focar-se na ideia do medo de uma nova crise mundial (acena com a guerra das tarifas de Trump) e a experiência socialista na gestão de crises (pandemia e inflação).
Foi com estas duas ideias — a questão ética e a do medo da crise — que o PS tentou acertar na “estabilidade política” dos seus adversários. Foi sempre argumentando que o país estava em eleições por culpa de Montenegro e por este “não querer dar explicações” sobre os casos que o apertam — chegou mesmo a apontar “nuvens cinzentas no horizonte”, insinuando que mais casos poderiam estar para vir. E por outro lado tentou radicalizar a AD, com recurso à IL.
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A estabilidade é um dos valores políticos que as sondagens vão apontando como importante para os portugueses e, neste caso, Pedro Nuno parece não ignorar os dados (já os das intenções de voto, é outra conversa). “Imaginem o que seria no nosso país um Governo da AD com a IL. Era um Governo radical”, argumentou diversas vezes durante estes doze dias de estrada, nos vários comícios, arruadas e almoços.
Foi mesmo a mensagem em que o líder do PS mais insistiu na última semana, na tentativa de tal cerco ao centrão. Os socialistas acreditam que nesse núcleo vinga a moderação e que a simpatia com os liberais é reduzida. Por isso carregou nas tintas quando atirou à “coligação radical” da AD com a IL, para tentar atingir eleitores potencialmente virados para a AD com o medo de uma resposta que possa “ameaçar o estado social” caso esta frente esteja no poder e o mundo enfrente uma nova crise económica. Termina esta campanha a apelar, de forma intensa, ao voto dos que não querem “acordar na segunda-feira com um Governo da AD com a IL”, que garante que podem vir a “ameaçar
“Zangados”, venham de onde vierem
Durante uma visita à Feira de Gondomar, na quarta-feira, mesmo recta final da campanha, Pedro Nuno Santos alargou ainda mais o apelo aos indecisos. Falou nos “zangados” e “irritados” com a AD, quer tenham votado na coligação das últimas eleições quer não o tenham feito e nem tenham mesmo votado no PS.
O protesto com quem está no poder transferiu-se maioritariamente para o Chega, mas Pedro Nuno encerra a campanha a repetir uma frase que parece querer apanhar quem dê peso à questão da ética, venha de onde vier. “Devemos premiar um político ou reeleger um político como primeiro-ministro que acha normal que os governantes continuem a receber dinheiro de empresas enquanto estão em funções?”, questionou esta sexta-feira diversas vezes, para responder logo de seguida que o país “não pode correr o risco de voltar a ter um Governo que trouxe instabilidade política ao país, que tenha um líder que acha normal misturar negócios com política.”
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Já aos “envergonhados”, ou seja, quem tenha votado na AD mas que valoriza a questão do comportamento de Montenegro, o pedido de reflexão foi direto. No último dia de campanha, o líder do PS já falava de forma ostensiva e “muito diretamente aos indecisos que costumam votar no centro, entre o PS e o PSD e que até votaram na AD há um ano”, para lhe pedir que reflitam sobre a situação de Montenegro e ponderem o PS como “porto seguro”. No Chiado, esta tarde, gritou mesmo que o PS “é a única alternativa”.
Atingir a AD pelo lado cristão
Com a dramatização no auge, Manuel Alegre ainda foi à campanha tentar alargar a via a uma frente em que Basílio Horta, dias antes, tinha apostado, durante um almoço em Sintra: os democratas-cristãos. O fundador do CDS tinha chegado mesmo a desabafar um “ainda bem que Amaro da Costa e Freitas do Amaral não estão vivos para ver a desgraça em que o CDS se tornou”, para dizer que “não pode haver um único democrata-cristão” que possa aceitar a ameaça aos direitos sociais.
“Que bom que é agora ouvir Leão XIV querer reformar a doutrina social da Igreja em função daquilo que é a desumanização provável da inteligência artificial, que bom que é ouvi-lo dizer isso”, disse mesmo o presidente da Câmara de Sintra. E esta sexta-feira Manuel Alegre tocou no mesmo ponto ao dizer, no tradicional almoço do PS na cervejaria Trindade, ao mandar a direita “ler a encíclica papal Rerum Novarum e estudar a doutrina social da Igreja”.
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A encíclica do Papa Leão XIII, sobre o mundo do trabalho, ganhou especial relevância depois da escolha do nome Leão XIV pelo novo Papa. E Alegre aproveitou isso para falar na encíclica que, disse, defende “a existência de sindicatos, a distribuição equitativa da riqueza e da intervenção do Estado para proteger os pobres e desprevenidos.” Mais uma tentativa de entrar no eleitorado da AD e de tocar no receio de novas “mexidas nas pensões, privatizar parte da Segurança Social”. “Isso não é reformismo, é radicalismo e revanchismo”, disse Alegre num apoio à linha que o PS tem vindo a explorar.
Mais um inimigo: as sondagens
“Vamos derrotar a AD e vamos derrotar as sondagens”. A frase instalou-se no último dia de campanha, com os dados dos últimos estudos a continuarem a pôr a AD em vantagem face ao PS. Durante a campanha tinha respondido sempre às insistências dos jornalistas sobre uma eventual desmoralização com os números com a certeza de as sondagens “sistematicamente subestimarem o PS”.
O PS sentou-se em cima do argumento de que se já falharam no passado — em 2022 não previram a maioria absoluta socialista e há um ano davam seis pontos à AD quando a diferença foi afinal 8,8 — podem voltar a falhar este ano foi a prata da casa. E foi já mesmo na descida do Chiado, na última ação desta campanha, que entre os apertões de uma arruada bem participada disparou de rajada contra as sondagens: “Algumas daquelas amostras não passavam no primeiro ano de métodos quantitativos.” Quando tudo parece adverso à sua ambição, Pedro Nuno agarra-se ao que pode para tentar provar que ainda está em jogo.
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