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A exposição inaugurou esta semana no Mosteiro de Leça do Balio
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▲A exposição inaugurou esta semana no Mosteiro de Leça do Balio

Marco Cremascoli

▲A exposição inaugurou esta semana no Mosteiro de Leça do Balio

Marco Cremascoli

People in Motion. Da Bienal de Veneza para Leça do Balio, um manifesto político e religioso sobre as migrações

Com peças de Siza e textos de Dulce Maria Cardoso e Gonçalo M. Tavares, a exposição de Roberto Cremascoli parte da participação da Santa Sé na Bienal de Veneza, comissariada por Tolentino Mendonça.

No final de 2022, o arquiteto italiano Roberto Cremascoli recebeu um convite do cardeal e poeta português José Tolentino Mendonça, o principal responsável pelas áreas da Cultura e da Educação no Vaticano. Tolentino queria que Cremascoli assumisse as funções de curador do pavilhão da Santa Sé na Bienal de Arquitetura de Veneza do ano seguinte.

“Foi pouco antes do Natal e foi uma bela prenda receber aquele telefonema”, conta Cremascoli ao Observador, que inaugurou esta semana no Mosteiro de Leça do Balio a exposição People in Motion, reinterpretando a participação da Santa Sé num dos mais prestigiados eventos culturais do planeta, comissariada pelo poeta português que é desde setembro de 2022 o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação.

O local escolhido para a instalação do pavilhão da Santa Sé foi o mosteiro beneditino de San Giorgio Maggiore, desenhado no século XVI pelo arquiteto italiano Andrea Palladio, numa ilha mesmo em frente à Praça de São Marcos. Cremascoli começou a trabalhar na conceção do pavilhão a partir das duas mais célebres encíclicas do Papa Francisco — a Laudato Si’ (2015), sobre a ecologia integral, e a Fratelli Tutti (2020), sobre a fraternidade e a amizade social, dois documentos pensados para funcionar em continuidade e que representam o grande diagnóstico feito pelo Papa argentino sobre os dramas do mundo contemporâneo, das alterações climáticas às migrações.

A partir dessa dupla base textual, Cremascoli criou o pavilhão “Social Friendship: Meeting in the Garden” — também ele criado a partir de um diálogo entre o interior do mosteiro, o pavilhão dedicado à amizade social, e o exterior, o jardim dedicado ao encontro humano.

O arquiteto português Álvaro Siza Vieira, hoje com 92 anos, foi convidado para desenvolver a instalação interior a partir do tema da amizade social da encíclica Fratelli Tutti. “A instalação chama-se ‘Encontro’ e é uma série de figuras que acolhem”, explica Cremascoli. “São figuras de braços abertos, ajoelhados, com as mãos esticadas, que vão ao encontro das pessoas e as levam até ao jardim.”

▲ As peças arquitetónicas de Siza Vieira regressaram a Portugal como "peregrinos", diz o curador da exposição

Marco Cremascoli

Lá fora, o estúdio de arquitetura italiano Albori partiu da encíclica Laudato Si’ para desenvolver um jardim e uma horta, em parceria com um conjunto de agricultores e jardineiros. Todo o trabalho artístico foi desenvolvido a partir da regra beneditina, estruturada em três períodos de oito horas para o descanso, o trabalho e a oração.

“Tanto a instalação do Siza quanto a horta foram um sucesso”, explica Cremascoli. “Tivemos quase 300 mil visitantes e todas as semanas fazíamos a colheita das hortaliças, que depois eram distribuídas, à quinta-feira, nos mercados de Veneza.”

Dois anos depois da participação da Santa Sé na Bienal de Arquitetura de Veneza, o arquiteto italiano traz as peças de Siza Vieira para Portugal “como peregrinos”, para outro lugar religioso, o Mosteiro de Leça do Balio — onde a exposição, promovida pela Fundação Livraria Lello, coloca estas peças arquitetónicas em diálogo com a palavra escrita (com contos inéditos dos escritores Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Isabel Lucas, Dulce Maria Cardoso e Afonso Cruz), com a imagem (com trabalhos fotográficos de Attilio Fiumarella, Inês d’Orey, Nuno Cera, Paulo Catrica e Rita Burmester) e com outras instalações, de Mónica de Miranda e de Rita Nery.

O movimento de peregrinação das formas humanas de Siza Vieira entre Itália e Portugal dá o nome à exposição — People in Motion —, que assume um carácter manifestamente político, trazendo para o centro da discussão o movimento humano que marca o mundo contemporâneo. “A Humanidade não mudou”, sublinha Cremascoli. “Pessoas em movimento, que é o que nós fazemos desde que existe a Humanidade: andamos à procura de espaços melhores, a fugir de catástrofe, à procura de comida ou a fugir de guerras.”

“As peças do Álvaro Siza dialogam com os cinco contos, de cinco escritores que foram desafiados sobre o tema da imigração e da migração”, destaca o curador da exposição.

▲ O jardim é um dos pontos centrais de encontro da exposição

Marco Cremascoli

“Em tudo o que fazemos, deve sempre haver um ato político”

A este diálogo entre as peças arquitetónicas, os contos e as fotografias, juntam-se ainda dois outros capítulos na exposição: por um lado, um conjunto de peças assinadas por Mónica de Miranda, que representou Portugal na Bienal de Veneza em 2024 e que são expostas pela primeira vez em Portugal; e ainda o trabalho de Rita Nery, socióloga do Porto que apresenta um trabalho sobre “novos portugueses”.

Esta última será, possivelmente, a obra de carácter mais marcadamente político da exposição. Através de entrevistas a 11 imigrantes que se instalaram em Portugal, a obra Us and Them conta as histórias pessoais do movimento migratório a partir das palavras dos próprios imigrantes.

“Nesta exposição, as histórias das pessoas migrantes são contadas por elas próprias, permitindo-lhes narrar as suas experiências de forma autêntica e livre de imposições externas, com o intuito de provar que por detrás do preconceito estereotipado da sociedade, está outro ser humano com história, bagagens e vivências”, lê-se no catálogo da exposição.

Tal como no mosteiro veneziano, também em Leça do Balio Roberto Cremascoli construiu um jardim e uma horta, com vários vegetais plantados já desde a primavera e com um espaço circular para organizar encontros com os artistas.

▲ As peças de Mónica de Miranda que representaram Portugal em Veneza em 2024

Marco Cremascoli

Roberto Cremascoli sublinha que o cardeal José Tolentino Mendonça tem colocado “a arte, a cultura e a educação no centro do seu mandato” como prefeito na Santa Sé, focando-se especialmente na missão de levar “estes temas ao mundo inteiro, fora da Igreja também”.

Para o arquiteto, isso ficou especialmente patente em 2024, quando o cardeal português o convidou, a ele e a outros artistas, a trabalhar na participação da Santa Sé na Bienal de Arte de Veneza, numa ocasião em que o pavilhão da Santa Sé ocupou a prisão feminina de Veneza — e em que as instalações foram concebidas em conjunto com uma centena de prisioneiras.

Numa prisão onde havia “pouquíssimas presas italianas”, já que 80% são imigrantes, a exposição With My Eyes permitiu dar corpo a um dos apelos lançados pelo Papa Francisco aos artistas com quem se encontrou no Vaticano em 2023 numa iniciativa organizada por Tolentino Mendonça — em que participaram vários artistas portugueses, como Pedro Abrunhosa e Joana Vasconcelos, e em que Cremascoli também esteve presente.

Papa encontrou-se com artistas (incluindo Pedro Abrunhosa e Joana Vasconcelos) e pediu-lhes que interpretem o “grito silencioso” dos pobres

“Tive o privilégio de estar na Capela Sistina”, lembra o arquiteto italiano. “Enquanto estávamos à espera do Papa, havia um violoncelista a tocar Bach, com um instrumento colorido, feito com as madeiras dos barcos dos refugiados, daqueles barcos que chegam a Lampedusa e à Grécia. O Papa entra e fala disso, pede aos artistas e às pessoas da cultura que cheguem aos últimos, que levem a arte e a comuniquem aos últimos.”

A exposição People in Motion, inaugurada na mesma semana em que o Parlamento português voltou a discutir uma Lei de Estrangeiros que aumenta as restrições à entrada de imigrantes em Portugal, assume-se como um claro manifesto político baseado nos valores cristãos, assume o arquiteto. “Penso que em cada pessoa — e não só em cada intelectual ou em cada pessoa da cultura —, em tudo o que fazemos, deve sempre haver uma intenção e um ato político”, sustenta.

Nesse sentido, o conto proposto pela escritora Dulce Maria Cardoso para esta exposição é um texto especialmente significativo. Passado num mundo onírico, recheado de palavras em esperanto, onde não existem fronteiras nem outros países além daquele onde se passa a narrativa, a história é marcada pela chegada de um estrangeiro, criatura mítica de que ninguém ouvira falar. A pergunta lançada por uma criança dá o tom à história: o que é um país?

“Um país só existe quando há outro país, não é? Então, pensei na encíclica Fratelli Tutti, em que o Papa Francisco fala de um mundo sem fronteiras, ideal”, sustenta Roberto Cremascoli, sublinhando o seu desejo de transformar a exposição num “lugar de encontro” que acolha visitantes que sejam também peregrinos de qualquer religião, etnia ou contexto cultural.

Cremascoli não esconde ainda um outro desejo: “Que as pessoas saíssem daqui e pensassem na sorte que temos, mesmo assim, em estar deste lado do mundo. Em não termos, para já, de fugir à procura de outro lugar. Para já.”

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