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▲Carlos Andrés Peréz e Jimmy Carter, os presidentes venezuelano e americano num encontro em Caracas em 1978

Bettmann Archive

▲Carlos Andrés Peréz e Jimmy Carter, os presidentes venezuelano e americano num encontro em Caracas em 1978

Bettmann Archive

Petróleo, independência, narcotráfico e uma companhia telefónica: breve história contemporânea da Venezuela

Um país que demora a ganhar identidade, rico além da consciência, atropelado por negócios e estratégia. Carlos Maria Bobone recorda o percurso recente: confuso, hesitante, cheio de avanços e recuos.

Imaginemos um Deus nórdico, uma espécie de James Bond, ou simplesmente um homem. Thor Halvorssen Hellum. O nome, a fortuna do pai, a situação, não parecem enganar, e em parte não enganam. É um norueguês, sim, muito rico, que leva uma vida de playboy por uns anos, junta-se a amigos poderosos para juntar mais dinheiro ainda, tem discotecas, casas, passeia por Miami, tudo certo. Mas não é apenas isso. Thor Halvorssen nasce na Venezuela, principal sede da fortuna do pai, que é também cônsul do rei em Caracas, e, depois de estudar em Oslo e nos Estados Unidos, depois de se divertir e ganhar dinheiro, é nomeado presidente da companhia telefónica venezuelana pelo presidente Carlos Andrés Peréz. Estamos nos anos 70, Halvorssen tem trinta e poucos anos, e é difícil imaginar a importância que ganhará na formação da Venezuela contemporânea.

A Venezuela é um país que demora a ganhar a sua identidade. Teve a particularidade de ser um dos poucos territórios ultramarinos alemães (se assim o podemos dizer, visto que ainda não havia bem Alemanha) quando Carlos V cedeu o território aos Augsburg, passeou entre a jurisdição da Nova Espanha e do Vice-Reinado do Perú, independentizou-se, sozinha umas vezes, junto a Nova Granada (Colômbia) outras, e é talvez o símbolo mais acabado do mundo liberal-militar, confuso, hesitante, cheio de avanços e recuos, trazido pelas guerras de independência.

É na Venezuela que nasce Bolívar e é na Venezuela também que se dão algumas das suas mais memoráveis campanhas, como a “Campanha Admirável”, um raide imparável pelo território principal do país que permitiu a proclamação da Segunda República – a primeira surgira dois anos antes, aproveitando a fraqueza espanhola nos tempos do domínio napoleónico, mas não se aguentara.

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▲ O General Juan Vicente Gomez foi o líder da Venezuela entre 1908 e 1935, ano em que morreu

Corbis via Getty Images

A luta pela independência, nas suas formas variadas, dura praticamente vinte anos, até se estabilizar – palavra arrojada para o que se passou a seguir – nos anos 30 e inaugurar um tempo de rápida sucessão de caudillos, ditadores e golpes militares, devidamente caricaturados em Alcazares, Tapiocas e Aurelianos Buendías, que todos associamos à América Latina.

E, de facto, os problemas e as grandes crises de identidade venezuelanas não são muito diferentes daqueles que atormentam os países vizinhos: uma relação difícil com um vizinho de cima opulento, que serviu ao mesmo tempo como inspiração, protetor e banco nas campanhas de independência, uma relação com os países vizinhos moldada também pela dúvida sobre as vantagens de uma federação ao estilo da norte-americana, e uma dificuldade em conseguir um modelo sequer parecido, num país cujas elites surgiram fundamentalmente do exército, preparado para as indústrias extrativas mas sem um processo ágil de exportação nem uma organização civil robusta.

Aquilo que se poderia dizer da Venezuela, também se poderia dizer da Colômbia ou da Bolívia, não fosse um pormenor: em 1875, um terramoto abre uma fenda numa fazenda de um político local, La Alquitrana, que permite descobrir petróleo. Forma-se uma companhia, a Táchira, que explora petróleo na zona, constrói uma pequena refinaria, e inaugura um negócio que se tornará tanto a grande bênção como a grande pecha do país. A primeira concessão petrolífera dura mais ou menos 30 anos; por essa altura, o General Juan Vicente Gomez, recém chegado ao poder, decide impulsionar a indústria com um modelo semelhante ao aplicado por toda a América (e que tão bem vem retratado nos Cem Anos de Solidão com a chegada dos Ingleses) em diversos setores: a cedência de vastas concessões a empresas estrangeiras, que se tornam responsáveis pela prospeção, refinação e desenvolvimento do negócio, e é assim que primeiro a Shell (na realidade a primeira a entrar é uma filial de uma antecessora da BP, mas o negócio acaba por voltar atrás), depois as outras grandes companhias, entram no país.

▲ É de Juan Pablo Perez Alfonso, que surge a ideia de criar uma organização de países exportadores de petróleo, que permita inverter as condições de negócio

Guillermo Ramos Flamerich

O petróleo venezuelano parece não ter fim. Ao longo dos anos 20 descobrem-se mais e mais reservas, a ponto de, durante a segunda Guerra Mundial, a Venezuela se tornar o mais seguro depósito americano de petróleo. A dimensão do negócio era de tal ordem, que o país se tornou largamente do petróleo, a um ponto capaz de fazer perigar a sua soberania. É por isso que, logo a partir da década de 50, é a Venezuela a comandar um esforço que culminará numa famosa organização, que terá um relevante papel a desempenhar na política internacional do século XX: a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

O negócio do petróleo em meados do século XX era, basicamente, comandado por sete empresas. Três delas, porém, eram o resultado de uma decisão jurídica que obrigara ao desmantelamento da Standard Oil, acusada de monopólio. Foram estas empresas a explorar as primeiras concessões no Médio Oriente, que juntaram às da América Latina e às que já detinham nos Estados Unidos, de tal modo que o controlo dos poços permitia ao pequeno grupo de empresas determinar quase unilateralmente as condições de exploração.

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▲ Em 1976, o presidente Carlos Andrés Peréz toma a decisão radical: reserva ao governo o direito exclusivo do comércio de petróleo e nacionaliza as concessões que estavam na mão das empresas americanas

Gamma-Rapho via Getty Images

É, então, de um venezuelano, Juan Pablo Perez Alfonso, que surge a ideia de criar uma organização de países exportadores de petróleo, que permita inverter as condições. Alfonso consegue juntar Irão, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, e é através da Organização que se generaliza a regra dos 50-50 na negociação do preço do barril — e que os países exportadores começam de facto a impor condições mais duras na negociação com as companhias. Alfonso queria ir mais longe e extinguir as concessões estrangeiras: o presidente Rómulo Gallegos não o permitiu, mas a ideia ficou, durante anos, como uma espécie de miragem, cujas consequências têm também uma história interessante.

É fácil perceber, conhecidos os membros fundadores da OPEC, que a relação entre os Estados Unidos e a organização nem sempre terá sido fácil. De facto, na crise do petróleo dos anos 70, em que a organização aprova um embargo contra os aliados de Israel, fica demonstrada a força política da Organização. É depois disso que Kissinger, que não quer estar na mão de inimigos, lança o primeiro plano de suficiência energética, que provocará naturalmente uma série de crises na Venezuela, misturadas com uma espécie de ressentimento ou despeito, próprias de qualquer dependência.

Assim, em 1976, o presidente Carlos Andrés Peréz toma a decisão radical: reserva ao governo o direito exclusivo do comércio de petróleo, nacionaliza as concessões que estavam na mão das empresas americanas e cria a “Petróleos de Venezuela”, a famosa PDVSA, que ainda hoje dá que falar. Estamos nos anos 70, nos mesmos anos em que este mesmo presidente, Perez, nomeia Thor Halvorssen para presidente da Companhia pública dos telefones, sem saber o que viria daí.

▲ A colaboração de Halvorssen com os EUA não é segredo para ninguém – tanto que, quase vinte anos depois de sair da administração dos telefones, é nomeado Comissário Especial para os Narcóticos

A crise do petróleo, as guerras surdas sobre o preço, as oscilações provocadas pelo braço-de-ferro Estados Unidos/Venezuela, geram naturalmente problemas económicos com que a Venezuela, cada vez mais dependente do petróleo, tem dificuldade em lidar. É por esta altura, contudo, que surge outro negócio, mais perigoso, talvez ainda mais lucrativo, e mais devastador, por toda a América Latina. As grandes plantações de droga, o seu contrabando para os Estados Unidos, a dificuldade em controlar o tráfico, tornam mais difíceis ainda as relações entre os Estados Unidos e a Venezuela. E é aí que Thor Halvorssen tem um papel decisivo.

A companhia dos telefones tem uma ligação fácil de perceber com a CIA e com os vários departamentos anti-droga dos Estados Unidos, visto que estes dependem das telefónicas para pôr sob escuta os alvos das suas investigações. A colaboração de Halvorssen com as autoridades norte-americanas não é segredo para ninguém – tanto que, quase vinte anos depois de sair da administração dos telefones, e quando Perez volta ao poder, nos anos 90, Halvorssen é nomeado Comissário Especial para os Narcóticos. Nada fazia prever que o bon vivant, festeiro, e talvez um pouco frívolo filho de um milionário se tornasse um ferocíssimo cão farejador: conseguiu extraditar os cabecilhas da família Cuntrera, o principal braço da máfia a operar na Venezuela, descobriu as fortíssimas ligações à droga do Banco Latino (foi ele que descobriu a ligação entre Orlando Castro Llanes, um dos homens mais ricos da Venezuela, e Pablo Escobar), foi um dos maiores aliados de Morgenthau, um em Caracas e outro em Nova Iorque, no combate ao narcotráfico e ganhou fama de um verdadeiro “Czar da Droga”.

▲ A deposição de Perez gera uma instabilidade política que só Chávez (aqui fotografado em 1994 após a saída da prisão onde estava detido depois de uma tentativa de golpe)

AFP via Getty Images

O mais extraordinário, contudo, foi que, no meio das suas investigações, descobriu uma conta secreta do Presidente, do mesmo Carlos Andrés Peréz que o tinha nomeado, com milhões de dólares. Os problemas eram evidentes, as suspeitas mais que muitas, e a descoberta levou ao impeachment de Perez. Ao mesmo tempo, enquanto Halvorssen denunciava os negócios obscuros do presidente e de alguns dos mais ricos homens de negócios da Venezuela, a CIA recebia informações, da parte de dois agentes infiltrados na Colômbia, de que dois generais da brigada anti-droga da Venezuela autorizavam carregamentos de cocaína para os Estados Unidos. É aí que pela primeira vez se usa a expressão “cartel de los soles”, que se suspeita do envolvimento do próprio exército no tráfico de droga, e que se instala uma ideia que nunca abandonará o governo americano: a ideia de que todas as instituições venezuelanas estão tomadas pelo narcotráfico, do exército, ao governo, aos tribunais.

Em 1993, enquanto investiga o Banco Latino, Halvorssen é acusado de terrorismo. Da acusação absurda, Halvorssen só se consegue safar depois de muita pressão internacional, e o acontecimento só exacerba a convicção americana de que a Venezuela está tomada pelo narcotráfico, a ponto de a própria justiça ser usada como instrumento de perseguição contra quem o combate.

Halvorssen exila-se nos Estados Unidos, a deposição de Perez gera uma instabilidade política que só Chávez conseguirá debelar, e a animosidade deste contra a ingerência americana no país é tomada como mais um elemento suspeito na complexa relação entre o estado Venezuelano e a droga. A partir daí, a história é conhecida.

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