Em momentos de muito entusiasmo ou, pelo contrário, de tensão e ansiedade, o corpo dá sinal. Há quem lhe chame um “frio no estômago” ou “borboletas na barriga” e não deve haver quem nunca o tenha sentido. Mas o que é, exatamente, e porque acontece – o que descrevemos desta forma? O que é que está a acontecer quando sentimos isto?

“As borboletas na barriga, os nós na garganta, os pesos no peito, vêm, na verdade, todos do mesmo lugar: o de sentir os movimentos internos corporais mais básicos, como o sangue a pulsar, os movimentos gástricos, o “borbulhar” dos sucos e mucosas ou a expansão dos pulmões dificultada pela tensão dos músculos envolventes”, explica Joana Machorrinho, psicomotricista, professora convidada na Universidade de Évora e investigadora na área de embodiment e consciência corporal, no Comprehensive Health Research Centre.

O nome científico para todas estas sensações é interocepção — a capacidade de sentir o interior do corpo – e têm uma utilidade prática: seja porque nos permitem detectar estados de doença ou desequilíbrio que precisam da nossa atenção, seja porque nos permitem perceber o impacto que as emoções têm no nosso corpo.

As percepções relacionadas com o estômago e barriga são possíveis porque o nosso cérebro e o nosso intestino estão em constante conversa através de uma verdadeira autoestrada de comunicação. Essa ligação, conhecida como eixo cérebro-intestino, une o sistema nervoso central (que inclui o cérebro e a espinal medula) ao sistema nervoso entérico — uma rede complexa de cerca de 100 milhões de neurónios que se espalha ao longo do estômago e dos intestinos— por isso, muitas vezes, se fala do intestino como o nosso segundo cérebro.

É por isso que quando nos sentimos ansiosos podemos ter um aperto ou frio no estômago, dor de barriga, alterações de apetite ou do trânsito intestinal. Não é “uma coisa da nossa cabeça” — é, literalmente, uma conversa entre dois sistemas que se influenciam mutuamente: o cérebro ativa o sistema nervoso simpático, responsável pela reação de “luta ou fuga”. Em poucos segundos, há uma descarga de adrenalina que prepara o corpo para agir: o coração bate mais depressa, a respiração acelera e o sangue é desviado dos órgãos “não essenciais” — como o estômago e o intestino — para os músculos e o cérebro, que precisam de energia imediata.

Curiosamente, esta sensação não acontece apenas com o medo ou o nervosismo — também surge com a antecipação, o entusiasmo e a paixão, já que o corpo reage de forma parecida a emoções intensas, sejam elas de ameaça ou de prazer.

Por outro lado, o nosso intestino também pode influenciar o estado emocional. Um desequilíbrio na microbiota intestinal — o conjunto de bactérias que habita o intestino — pode afetar a produção de neurotransmissores como a serotonina, que regula o humor e isso pode levar a sintomas como irritabilidade, fadiga ou sintomas depressivos.

“Sabe-se que esta comunicação é bidirecional, ou seja, que não é apenas o cérebro a influenciar o sistema gastrointestinal, através de estados de ansiedade, por exemplo, mas que o contrário também pode acontecer: as alterações no trato intestinal influenciam estados de humor e cognição”, detalha Joana Machorrinho.

A interocepção quer-se afinada, para não se resvalar para nenhum de dois extremos pouco saudáveis: ignorar os sinais do corpo ou, pelo contrário, amplificar as sensações e ter uma preocupação excessiva com elas.

Sabe-se que esta é uma capacidade que difere de pessoa para pessoa e muda consoante a fase da vida. “Sabemos que se altera com a idade – e a diminuição desta capacidade na terceira idade parece mesmo ser um fator de risco para doença mental e dificuldade na regulação emocional – , em diferentes doenças mentais, em perturbações do comportamento alimentar e no stress pós-traumático,”

“Isto não significa, no entanto, que sentir mais o corpo é o caminho simples para melhor saúde” detalha a investigadora. Joana Machorrinho realizou recentemente dois estudos que corroboram isso mesmo: associada à capacidade de sentir, deve estar também a capacidade de regulação, seja dos parâmetros fisiológicos, como a frequência cardíaca ou respiratória; da atenção que damos às sensações e do pensamento/julgamento que se segue sobre o que estamos a sentir.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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