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Ian Gavan/Getty Images

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Portugal em 2015. O que querem os gestores de topo?

Quais são os grandes desafios das empresas, onde estão as oportunidades de crescimento e o que fazer para atrair mais investimento? O próximo ano em perspetiva, na opinião de cinco gestores.

Criar emprego, atividade económica, atrair investimento estrangeiro. E apostar nas universidades. Fazer crescer o turismo. Ou modernizar as indústrias tradicionais e seguir o exemplo das empresas anglo-saxónicas. Importante é que não haja mais austeridade, se invista na lusofonia, que as empresas se internacionalizem cada vez mais e que se reduza a burocracia. O ano de 2015 vai ser o da recuperação económica? Os gestores de topo contactados pelo Observador não sabem, mas numa coisa todos concordam: ainda há muita coisa a fazer para que a economia possa crescer.

“Não se pode continuar a pedir austeridade às pessoas para o resto da vida”, diz Armando Zagalo de Lima, presidente da Xerox Global Customer Operations, a operar nos Estados Unidos da América e um dos cerca de 70 conselheiros da Diáspora Portuguesa. Para o gestor, o crescimento da economia já é a resposta às medidas que apertaram o cinto aos portugueses, “necessárias” e que “resolveram muitos problemas”. Contudo, apenas o fazem no curto prazo. “Acho que o povo português já demonstrou uma maturidade e um espírito de sacrifício que são de realçar, mas neste momento é preciso fazer crescer a economia: criar emprego, atrair investimento estrangeiro. Porque o país é um país pequeno”, revela.

Miguel Velez, administrador das Pousadas de Portugal, concorda que o tecido empresarial português respondeu de “forma muito positiva” à crise que se instalou no mundo e, em particular, em Portugal. “Vemos agora empresas que nunca tinham vendido para os mercados internacionais, ou que tinham vendido muito pouco, e que agora são os seus mercados principais. A palavra ‘resiliência’ aplica-se totalmente às empresas e gestores portugueses”, refere. Para Miguel Velez, no ano que se avizinha vai ter de continuar a apostar-se cada vez mais nos mercados internacionais e com “crescimentos expressivos”. Essa deverá ser a estratégia, revela, acrescentando que os primeiros resultados já começaram a aparecer “de forma expressiva” em 2014.

“É este o grande desafio que o próximo ano apresenta às empresas nacionais: que sejam, mais do que nunca, o verdadeiro motor da economia portuguesa”
Teresa Mira Godinho, presidente da Allianz Portugal

“A responsabilidade da recuperação económica e de crescimento do país cabe, em primeiro lugar, às empresas”, revela Teresa Mira Godinho, presidente da Allianz Portugal. Para a líder da seguradora, são as empresas que investem, que definem os índices de produtividade nacional, que contribuem para o crescimento das exportações e para a manutenção e criação de postos de trabalho. “É este o grande desafio que o próximo ano apresenta às empresas nacionais: que sejam, mais do que nunca, o verdadeiro motor da economia portuguesa”, revelou.

Miguel Fonseca, presidente da Toyota Financial Services, na Alemanha, acrescenta que também é preciso apostar nas universidades e no desenvolvimento de currículos universitários, proporcionando formações em maior quantidade nesta área. “Seria uma aposta estratégica e, provavelmente, diferenciadora em relação aos concorrentes de Portugal na cena internacional, que têm mão de obra barata, com a qual Portugal não pode competir”, revela. Como competir de forma diferenciada? Com uma nova estratégia para as leis laborais e incentivos. Mas, para isto, é preciso que haja estabilidade política. É este o primeiro desafio que o conselheiro da Diápora Portuguesa apresenta para 2015.

O segundo passa pelo contexto internacional, mais precisamente, na Europa, “onde há um abrandamento do crescimento económico e onde há uma grande instabilidade provocada pela situação na Ucrânia e na Rússia”. Contudo, há uma esperança. “É possível que o facto de o preço do petróleo estar a cair de uma forma tão radical constitua um equilíbrio, que permita que os países periféricos, que são muito dependentes do fator energia, também tenham alguma oportunidade de estabilizarem”, explica.

▲ Miguel Fonseca, presidente da Toyota Financial Services para a Europa e África

D.R.

As rotas para o crescimento passam por onde?

Pelo turismo, dizem Armando Zagalo de Lima e Miguel Velez. “Eu sempre fui um apologista do turismo. É um facto que o país tem especificidades únicas nesta área e acho que podíamos estruturá-lo um bocadinho mais, de forma a atrair um turismo um bocadinho mais elevado, que pudesse trazer mais dinheiro para o país”, diz o presidente da Xerox Global Customer Operations. A ideia é a de conseguir atrair um tipo de turista que gaste mais mais dinheiro quando visita Portugal, o chamado “turismo de qualidade”.

“Quando olho para os números de turistas nos diversos países, continuo a ficar surpreendido como é que alguns países, com menos qualidades do que o nosso, têm mais turistas do que nós. Nós temos uma história, temos um clima, a qualidade da alimentação, temos um povo que tem uma hospitalidade extraordinária. Não consigo entender”, referiu ao Observador.

Para Miguel Velez, as grandes oportunidades de crescimento estão maioritariamente fora de Portugal, porque são mercados maiores e onde a qualidade dos produtos e serviços portugueses é valorizada a preços competitivos, mas justos. “Sem dúvida que o turismo é um setor que potencialmente deve continuar a ter um forte crescimento e [Portugal deve] assumir-se internacionalmente como destino”, refere, sem descurar que existem outros setores em que se deve esperar um desempenho positivo, como o calçado, a cortiça e o vinho.

"Sem dúvida que o turismo é um setor que potencialmente deve continuar a ter um forte crescimento e [Portugal deve] assumir-se internacionalmente como destino"
Miguel Velez, administrador das Pousadas de Portugal

Para o administrador das Pousadas de Portugal, nunca foi tão importante que o país promova os seus produtos a nível internacional. “De cada vez que o fizermos de forma mais consistente, maior será o awareness [consciência] e a procura. Novos voos diretos e mais promoção externa pública e privada serão, no caso do turismo, os instrumentos mais relevantes a serem trabalhados”, diz.

Teresa Mira Godinho acredita que existem oportunidades de crescimento em praticamente todos os setores, dos serviços à produção industrial. “O que é realmente importante é não voltar a cometer os erros que se cometeram anteriormente e garantir que o crescimento seja sustentável, para que seja também contínuo e duradouro”, diz. A líder da Allianz revela que existem, “obviamente”, setores em que o crescimento corre a um ritmo mais elevado, mas acrescenta que o importante é que estejam criadas as condições necessárias para que o crescimento seja efetivo.

Sobre a indústria, Miguel Fonseca revela que é possível que alguns setores tenham margem para crescer, como o do papel. “É uma indústria em que Portugal pode continuar a dar cartas”, diz. E não se fica por aqui. Para o conselheiro da Diáspora, se as indústrias tradicionais, como a agricultura ou a produção, forem modernizadas, também pode haver desenvolvimento. Contudo, é preciso criar marca. “Temos produtos excelentes, mas esses produtos não têm o reconhecimento que merecem a nível internacional. Outras industrias que já foram pujantes, como o calçado, também podem ser revitalizadas, mas, uma vez mais, dependendo da capacidade de criar a marca que possibilite fazermos desses produtos, produtos estrela”, explicou.

"O facto de haver crescimento quer dizer que as empresas que alimentam a economia tem confiança para renovar a sua estrutura e isso, na minha ótica, é estabilidade”
Miguel Fonseca, presidente da Toyota Financial Services

Contudo, para o líder da Toyota Financial Services, o fator chave para o crescimento do país está no consumo interno, no curto prazo. É preciso é que o índice de confiança dos consumidores cresça. E dá um exemplo: “no mercado automóvel, há um crescimento de 30% e nos veículos comerciais, em concreto, há um crescimento de 60%. Os veículos comerciais sempre foram um bom indicador do desenvolvimento da economia em Portugal. As vendas dos veículos comerciais começaram a cair um ano e meio antes de a economia estar a cair. E isto é um facto interessante. O facto de haver crescimento quer dizer que as empresas que alimentam a economia têm confiança para renovar a sua estrutura e isso, na minha ótica, é estabilidade.”, revela.

Para Carlos Silva Lopes, conselheiro da Diáspora Portuguesa e diretor de Marketing da Dow Performance Plastics, na Suíça, o país devia continuar a apostar nos países lusófonos. “A lusofonia representava, no ano passado, cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e cresce a ritmo acelerado. Acho que se devia continuar a insistir na lusofonia. Já tem uma importância muito grande e a nível global cresce bastante”, revela. Quanto ao resto, adianta que é preciso promover a economia com foco. “Não é promover a indústria automóvel na Alemanha, por exemplo, onde eles já são fortes. É promover onde haja vantagens competitivas”, refere.

"Os veículos comerciais sempre foram um bom indicador do desenvolvimento da economia em Portugal. As vendas dos veículos comerciais começaram a cair um ano e meio antes de a economia estar a cair" 
Miguel Fonseca, presidente da Toyota Financial Services

Mais competitivos e com mais investimento. Como?

É preciso que as empresas se mantenham competitivas. Para Miguel Velez, um dos exemplos a seguir é o das empresas anglo-saxónicas: a fixação que têm por conhecer os mercados, os clientes e estudar os comportamentos para, só depois, tomarem decisões. “São instrumentos fundamentais de gestão e existem cada vez mais empresas preocupadas em desenvolver estas áreas”, avança. O gestor acrescenta que estes comportamentos também fazem aumentar a assertividade, reduzir o risco, reduzir os prazos e obter maiores e melhores obstáculos. “As empresas estão cada vez mais eficientes e preocupadas em melhorar os seus rácios de produtividade e inovação”, disse.

Teresa Mira Godinho acrescenta que, para serem competitivas, as empresas portuguesas precisam de ter ao seu alcance as mesmas ferramentas que as suas concorrentes mais diretas. “Vivemos num mundo cada vez mais global, em que a concorrência dentro de cada setor ultrapassa as fronteiras de cada país”, referiu a líder da Allianz. O Estado deve, por isso, ajudar as empresas: retirar os obstáculos ao crescimento. “Nomeadamente, no que diz respeito à capacidade de acesso ao crédito, à desburocratização, à estabilidade do quadro legal, à celeridade da justiça, à flexibilização do mercado de trabalho”, referiu.

“Um país que cresce e que tem um tecido empresarial competitivo atrai forçosamente investimento. Mas ainda há muito a fazer”
Teresa Mira Godinho, presidente da Allianz Porugal

O objetivo é o de criar as condições para que as empresas nacionais possam ser tão competitivas como as suas concorrentes estrangeiras. Mais: para aumentar a competitividade, Teresa Mira Godinho considera que é essencial que os empresários e os gestores sigam lógicas de longo prazo, “onde o rigor, a solidez e a sustentabilidade sejam pedras basilares das suas linhas de atuação”. E no que toca ao investimento externo, a líder da Allianz avança que, nos últimos anos, Portugal deu um salto competitivo “muito relevante”.

Os principais iscos para atrair investidores para Portugal são a desburocratização de processos, a simplificação administrativa, “que está ao nível das melhores da Europa”, diz Teresa Mira Godinho, a reforma laboral e do regime de licenciamentos turísticos, comerciais e industriais. “A juntar a tudo isto, não posso deixar de referir que as características dos portugueses são, também, muito valorizadas: a elevada qualificação que temos hoje em Portugal, associada à adaptabilidade dos trabalhadores e a sua disponibilidade, são fatores decisivos para qualquer empresa ou organização que equacione uma aposta no país”, referiu.

▲ Teresa Mira Godinho, presidente da Allianz Portugal

D.R.

A gestora acredita que a continuidade e o aprofundamento do trabalho efetuado nos últimos anos vai conduzir a um aumento gradual do investimento externo em Portugal. Para isso, é preciso continuar a expor o país e “o que ele tem de melhor nos mercados internacionais, associado ao rigor e à disciplina de todos os agentes intervenientes”. E acrescenta que o investimento está intrinsecamente ligado à capacidade de crescimento e à competitividade. “Um país que cresce e que tem um tecido empresarial competitivo atrai forçosamente investimento. Mas ainda há muito a fazer”, referiu.

Para Miguel Velez, a burocracia e a justiça ainda são obstáculos ao investimento no país. E avança que é fundamental que o país tenha um quadro legal claro, simplificado e rápido a atuar. “São essas algumas das melhores garantias que podemos dar”, referiu. Quanto à crise que emergiu no país, o administrador das Pousadas de Portugal adianta que o importante é olhar para o futuro, delinear uma estratégia e ser capaz de a concretizar. “As empresas portuguesas, em que o setor do turismo é um bom exemplo, têm demonstrado essa capacidade, pelo que, se nada de ‘especial’ voltar a acontecer em Portugal e se os mercados internacionais tiverem uma boa performance, podemos estar otimistas”, acrescentou.

"Claro que crises como a que vivemos nos últimos anos deixam sempre marcas e ainda há muito a fazer para recuperar e reconstruir, do ponto de vista do tecido empresarial e no plano socioeconómico. Mas quero acreditar que já passámos o pior"
Teresa Mira Godinho, presidente da Allianz

Os sinais que a economia deu em 2014 já são positivos, avançou Teresa Mira Godinho. “Permitem-nos perspetivar que 2015 será um ano de recuperação económica. Naturalmente que o ritmo a que esta recuperação acontecerá dependerá de várias condicionantes, muitas delas associadas à conjuntura internacional”. Para a presidente da Allianz, já existem alguns sinais de recuperação que são visíveis, ainda que “tímidos”.

“Acredito que estamos no bom caminho. Claro que crises como a que vivemos nos últimos anos deixam sempre marcas e ainda há muito a fazer para recuperar e reconstruir, do ponto de vista do tecido empresarial e no plano socioeconómico. Mas quero acreditar que já passámos o pior e que estão reunidas as condições para ultrapassar, no médio prazo, estas dificuldades”, referiu. Palavra de ordem dos gestores para 2015: crescer. Quanto mais, melhor.

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