A crise, o amor ou a sede de uma aventura longe do conforto caseiro empurraram-nos para longe. São oito portugueses, oito histórias e oito natais diferentes. O Skype, como não podia deixar de ser, é o grande amigo desta gente que vai passar o Natal no frio do Canadá ou no calor da República Dominicana ou da Austrália com o chinelo enfiado no pé. Há até quem esteja a viver em Luanda e que viajou para Moçambique para passar o Natal com o irmão, que vive na África do Sul.
À falta de familiares por perto, estes portugueses que partiram à descoberta do mundo têm outros aliados. “Os amigos também são família e estamos muito bem servidos, uns e outros, para o que der e vier”, explicou Frederico Vargas, que está a viver em Sidney, Austrália. Uns são estreantes nestas andanças do Natal no estrangeiro, outros nem por isso. Mas todos têm algo em comum: as saudades de casa.
Há também quem não seja fã do Natal, que liga pouco e que vai encarar a noite como outra qualquer. Salvador Pombo vive no Dubai e “fugiu” de Portugal por todas as faltas de respeito que sentiu, nomeadamente no que toca aos salários baixos. Mas não deixou de ficar surpreendido com o que viu nos Emirados Árabes Unidos…
▲ Luís Silva com a namorada, Patrícia
Luís Silva, 30 anos. Punta Cana, República Dominicana.
“Fomos mais umas vítimas da crise”, avisa à partida. O desemprego empurrou-o para longe de Portugal. O destino foi a República Dominicana, em abril, onde já estava a namorada, Patrícia, que também havia perdido o emprego há pouco tempo. Luís ficou em Lisboa mais uns tempos para tratar de ‘papeladas’ e das vendas do carro e mota, por exemplo, e seguiu mais tarde, com os dois gatos (Miau e Kika). “Imagina, tudo a ir de férias para a República Dominicana e eu com dois gatos…”
“Imagina, tudo a ir de férias para a República Dominicana e eu com dois gatos…”
Dizer adeus à família e amigos foi complicado, mas o casal agarrou-se com as duas mãos à racionalidade. Encontrar emprego e começar de novo era o objetivo, algo que não acreditavam ser possível em Lisboa. “É o primeiro Natal, em 30 anos, que passo sem os meus pais. Não quero pensar para quem será mais difícil, se para mim ou para eles. Até porque tenho uma irmã, a Sofia, que também emigrou para Angola.” O dia 25 será passado com a namorada e uma pequena comunidade de portugueses que vivem em Bavaro, Punta Cana. “São a nossa família”, diz sobre quem lhes deu a mão na hora da adaptação.
“Vamos esforçar-nos para tentar fazer um jantar o mais parecido com o que fazemos em Portugal. Aqui é difícil adquirir os produtos típicos, como o bacalhau, por exemplo. Tentamos trazer a família para a mesa e fazer uma espécie de déjà vu”, explica. A árvore, essa, já está montada há alguns dias e os presentes vão ganhando forma junto dela, que servem também de proteção contra investidas felinas do Miau e da Kika, os gatos. “Aqui, para mim, é muito difícil sentir o Natal. A temperatura estaciona entre os 20 e 28 graus, por isso no dia 25 vou dar um mergulho à praia e ficar na espreguiçadeira.”
Mas esta espécie de paraíso para quem lê não é sentido assim para quem está lá tão longe. “Não há frio, não há cheiro a castanhas, não há cheiro a Natal”, lamenta. “As ruas não estão decoradas — a eletricidade é muito cara. Há muitas festas e jantares de Natal, que atenuam a saudade. Estamos sempre a festejar, com bebida e comida, parece que concentram as festas todas do ano num mês.” A distância, os muitos quilómetros de distância para a casa de sempre, no Estoril, fazem-no entender melhor do que nunca o verdadeiro significado da palavra “saudade”.
“Sinto saudades de Portugal. Não pude voltar no Natal porque ainda não tenho direito a férias. Talvez em abril consiga um regresso. É difícil estar longe. Qualquer ‘gripezinha’ de alguém próximo sentimos como se fosse um ataque cardíaco.” Aceitar uma nova cultura e uma nova aventura faz parte da decisão, da ousadia e coragem inerentes à mudança. E é assim que Luís vai aprendendo a dar os primeiros passos em Punta Cana, um sítio onde não é assim tão raro ver motociclistas em sentido contrário na autoestrada.
▲ Marta Cerejo
D.R.
Marta Cerejo, 36 anos. Montreal, Canadá.
Este é já o terceiro Natal longe de casa. Marta Cerejo mudou-se em julho de 2012 para o Canadá, para não largar a mão do marido, que nasceu em Montreal. “Os pais dele são portugueses e durante a adolescência dele foram viver para Portugal. Em 2012 ficou desempregado e decidiu voltar ao país onde nasceu. Eu estava a fazer o Mestrado em Ciência Cognitiva e consegui uma parceria para fazer a minha investigação na Concordia University” contou.
“Não existem muitos hábitos que sejam exclusivamente daqui. Montreal é uma cidade multicultural e cada um segue um pouco as tradições do seu país. Quebec foi colonizado por França, pelo que os hábitos e tradições são muito semelhantes aos franceses, misturados com hábitos anglo-saxónicos. O Natal é passado em família. Como muitas pessoas têm a família longe, é também comum passar o Natal com amigos. Geralmente fazem um ‘potluck’: cada pessoa que participa na festa leva algo para comer e bebida. As bebidas alcoólicas são muito caras, por isso é comum cada pessoa levar bebida para qualquer jantar ou festa!”
O dia 24 será passado com a família nuclear: marido, bebé e gata, que também chegou de Portugal. No prato estará o bacalhau cozido, mas a tradição local sugere o peru e fiambre assados no forno. O dia 25 mete festança: “um amigo de infância do meu marido faz uma festa enorme na casa dele. Ele é italiano, a mulher é de Laos e muitos dos amigos são portugueses. É uma festa super-animada, com comida de todos estes países, jogos para troca de prendas e muita animação!”
As saudades de Portugal são muitas. “Desde o fim da minha adolescência que não ligava muito ao Natal, mas sempre foi importante que a família estivesse junta. Essa parte custa muito agora. Não só por mim mas porque sei que o Natal da minha família tem agora suspiros e saudades…”
Salvador Pombo, 35 anos. Dubai, Emirados Árabes Unidos.
A falta de respeito que sentia em Portugal e os salários baixos fizeram-no dar o murro na mesa. Era tempo de mudar de poiso. Salvador Pombo, designer de profissão, mudou-se em setembro para o outro lado do mundo para fugir ao dia-a-dia sinuoso lusitano.
“Eles chamam época festiva para não ofender as susceptibilidades muçulmanas, mas investem a sério nas decorações natalícias por questões capitalistas”
“Vim para aqui sozinho. É o meu primeiro Natal fora de casa. Mas, para ser sincero, nunca fui um grande fã do Natal, exceto quando era criança. Vou ter de confessar que até estou um bocado desiludido com a quantidade de Natal que há aqui. Eles chamam época festiva para não ofender as susceptibilidades muçulmanas, mas investem a sério nas decorações natalícias por questões capitalistas”, conta.
Apesar de não ir muito à bola com esta época, Salvador acha que vai contribuir para a tristeza coletiva da sua família em Portugal. “Claro que gostava de estar com a minha família, seja por que pretexto for, mas sempre achei um exagero a cristandade misericordiosa implícita no Natal”, critica. Este português em busca de outra sorte e fortuna nas arábias não vai esforçar-se muito por uma noite especial. “Conto passar o Natal na rua como se fosse uma noite de copos normal. Espero ter companhia e não ser único a sair com certas expectativas.” E uma prenda no sapatinho? “Espero que resulte o meu investimento de vir para um país que não representa minimamente os meus valores.”
▲ Marta Carvalho
Marta Carvalho, 29 anos. São Paulo, Brasil.
A mudança de país aconteceu em 2012, porque queria uma experiência longe do conforto, com tudo o que abraça essa decisão, o bom e o mau. Este ano volta a passar o Natal no Brasil, como no ano de estreia, com a família do marido. Marta não deixa de estranhar as mudanças, nomeadamente o que aparece em cima da mesa das famílias brasileiras. “Não tem bacalhau nem polvo, que é o que a minha família faz todos os anos no Natal. Aqui tem um pouco de tudo, mas mais virado para as carnes, desde peru, pernil, arroz, feijão, farofa, comidas mais típicas brasileiras. Este ano decidimos que cada um faz um prato e junta-se tudo na mesa na noite de Natal.”
“Não sei se posso dizer que é uma tradição, mas as pessoas não guardam os presentes para dar só à meia-noite do dia 24. Aqui encontram-se e trocam presentes na hora.”
E taras e manias locais? “Não sei se posso dizer que é uma tradição, mas as pessoas não guardam os presentes para dar só à meia-noite do dia 24. Aqui encontram-se e trocam presentes na hora.” Outra novidade é o calor, pois claro. “Em dezembro faz muito calor aqui, parece que está tudo fora do contexto natalício. Antes era frio, lareira, cachecol, as luvas e o Pai Natal vestido a rigor… aqui há decorações de neve nas ruas, o Pai Natal até está vestido para o frio, mas as pessoas usam chinelos. Na minha cabeça, depois de tantos anos habituada a um Natal português, parece que há qualquer coisa que não faz sentido”, diz, com uma senhora gargalhada (virtual). “Outra coisa que achei muito engraçada: no dia 24 à meia-noite é como na noite de ano novo. Ouve-se fogo de artificio nas ruas e as pessoas festejam e comemoram realmente.”
A saudade, a tónica deste texto, não falta na retórica de Marta, uma designer e ilustradora que se demitiu do trabalho em Portugal e arriscou (com sucesso) uma candidatura para a mesma empresa no Brasil. Mas não houve regresso no Natal porquê? “A maior barreira é o preço das passagens aéreas. Os preços são absurdos. E como trabalho por conta própria, isso significaria que, para além de gastar uma quantia alta de dinheiro com a viagem, não iria trabalhar nem receber nesses dias que estaria fora. Então optei por ficar e juntar esse dinheiro para no próximo ano poder ir no verão, mais tranquila.” O melhor presente de Natal para Marta seria a visita dos país na casa de São Paulo, algo que nunca aconteceu…
Frederico Vargas, 29 anos. Sidney, Austrália.
Um trabalho melhor. Foi isto que Frederico Vargas, “Kiko” para os amigos, procurava quando mudou de vida. “Tive a sorte de ter conhecido um casal australiano em Portugal, que na altura me convidou para vir para a Austrália. E foi isso mesmo que aconteceu. Vivi em casa deles os meus primeiros cinco meses na Austrália, até conseguir a minha independência e estabilidade.” Este é já o segundo Natal de Frederico longe do nosso país. “Mas longe de estar sozinho”, avisa. “Os amigos também são família e estamos muito bem servidos, uns e outros, para o que der e vier.”
Os portugueses com quem vai passar o Natal tratarão de arranjar bacalhau. “Já eles [os australianos] parecem não ter tradição no que toca a comida. Mais depressa acendem um barbecue e põem um lombo a assar.”
“O ano passado passei o dia 25 de dezembro com a família australiana com que vivi, os Chick. A relação que temos hoje em dia é claramente familiar e é com eles que vou voltar a passar o dia de Natal e a noite com amigos. Já a véspera de Natal vou passar com a Maria, a minha namorada.” A saudade — ui, lá vem ela — “bate mais forte” nesta altura, não tanto pelo Natal mas porque é sinónimo de regabofe familiar. “Saber que estão todos juntos deixa-me feliz, mas não poder passar com eles dá um apertozinho”.
Aos 29 anos, Frederico Vargas já conseguiu o que queria quando se aventurou para a terra dos cangurus. Se tudo está com o vento a favor, o que se pode pedir para 2015? “Consegui o sponsor do meu local de trabalho. Ou seja, passo a estar habilitado a trabalhar como qualquer outra pessoa, sem entraves e com possibilidades de residência e permanência mais tarde. Mas um passo de cada vez. O que espero, para já, é que 2015 seja um ano de estabilidade, com muita saúde, com muitas ondas e viagens à mistura. Mas, acima de tudo, gostaria que fosse possível voltar a ver as nossas famílias e amigos, seja aqui ou em Portugal.”
▲ Guilherme Zamith com a noiva, Laurie
Guilherme Zamith Pereira, 29 anos. Londres, Inglaterra.
O coração e a nacionalidade têm duas bandeiras, mas o Natal não será passado em nenhum dos seus países. Guilherme Pereira, engenheiro ferroviário, nasceu no Rio de Janeiro e aos sete mudou-se para Lisboa. Em maio de 2014 seguiu para Londres: “surgiu uma ótima oportunidade de emprego e não pensei duas vezes”. Depois de três anos divididos pela selva da Libéria e no Gana, o regresso à Europa…
“Vivendo em Portugal, especialmente enquanto criança, passava os natais no Brasil. Era uma mudança drástica. Na mitologia da Coca-Cola, o Natal era sempre marcado por neve e frio, noites passadas à lareira com uma bebida quente nas mãos. No entanto, no Brasil não há nada disso. Há praia, caipirinhas e samba! É uma experiência diferente. Por outro lado, era a única oportunidade de ver a minha família (avós, primos, tios…). Foi algo que, de certo modo, me deixou preparado para o futuro que agora vivo.”
O estrangeiro passou a ser o horizonte perfeito quando descobriu que Portugal não tem “nada que seja minimamente atraente em termos profissionais”. Aos 29 anos, Guilherme vai passar o primeiro Natal longe da mãe e do irmão. Desta vez vai partilhar o mesmo ar e o mesmo metro quadrado com a namorada norte-americana, que já é noiva e tudo.
E como será a aventura por Londres? “Vou passar a véspera de Natal a assistir a um concerto de música clássica natalícia, com uma orquestra vestida de época no Royal Albert Hall. É daquelas coisas que só mesmo numa cidade como esta”, contou. “Os hábitos daqui parecem ser os comuns, à exceção da tradição de consumo de álcool. No dia de Natal, a tradição é pegar a família e levar ao pub… O liberalismo desta cultura em relação ao consumo de álcool não deixa de me espantar, mas a verdade é que pelo menos na estrada (em Londres) não parecem haver grandes irresponsabilidades.”
E porquê ficar em Londres nesta altura? Por justiça. “Primeiro, os bilhetes de avião são inflacionados ao máximo: 400 euros no Natal contra 40 euros daqui a um mês. E depois, não é justo, porque a minha namorada, Laurie, não fala português e tem a família na Califórnia. Não seria justo.” A passagem de ano de Guilherme e Laurie será passada “nas margens do Tamisa”, mas o luso-brasileiro não deixa de sonhar com um regresso. “Para 2015 desejava um bom emprego em Portugal, mas do jeito que as coisas estão mais vale pedir para ganhar o Euromilhões…”
Carlota Morais, 23 anos. Cork, Irlanda.
A Irlanda passou a ser uma realidade na sua vida quando foi aceite pela University College Cork para fazer um mestrado, na área da comunicação. Aconteceu em agosto de 2013, mas nesse ano voltou a Portugal para celebrar esta época natalícia junto da família. Desta vez passará o Natal longe, mas terá o calor da família do namorado, que celebrará de forma “tipicamente irlandesa”.
E diferenças nos costumes em relação a Portugal? “A tradição de abrir os presentes na manhã de Natal (25 dezembro), por exemplo. Para além disso, festeja-se o Natal da mesma maneira que se passa o resto do ano: no pub. No dia 26, há o Stephen’s Day, que é reservado para o convívio familiar no bar local.”
A comida que vai aterrar na mesa também não toca no mesmo tom que em Portugal. “A comida será outra das diferenças. Este Natal o bacalhau será substituido por peru. Pela primeira vez as couves cozidas não farão parte da ceia de Natal (yey!)”, diz, com muita satisfação. E o que vai fazer falta desta vez? “Os cozinhados da minha mãe, a lareira acesa com o empenho do pai e as mãos cheias de doces da minha irmã…”
Priscila Oliveira, 29 anos. Luanda, Angola.
O Natal de Priscila será em Moçambique, para encontrar mais ou menos a meio caminho o irmão, que vive na África do Sul. “Resolvemos encontrar-nos em Moçambique para passar esta época festiva num país de língua portuguesa e no qual as tradições e cultura são semelhantes à nossa.”, explicou. O calor, lá está, como nos outros casos, tem sido algo que estranha e dificilmente entranha. “Não é normal estar, nesta altura, a beber água de coco na praia em vez do tradicional bacalhau na noite de consoada.”
“Não é normal estar, nesta altura, a beber água de coco na praia em vez do tradicional bacalhau na noite de consoada.”
“Estou a contar passar o Natal numa praia de Moçambique com o meu irmão e restantes turistas que se encontrem por lá nesta altura, tornando-se assim num Natal mais internacional que alguma vez tive.” A primeira mudança de Lisboa para Luanda aconteceu em 2012. Uma oportunidade de trabalho e uma aventura forasteira aliciavam-na. Em 2013 voltou a casa, para juntos dos seus, mas em fevereiro de 2014 Luanda voltou a ser música para os seus ouvidos. As “condições atuais de Portugal” também ajudaram esta operadora de câmera a dizer basta. E lá foi outra vez…
Por enquanto há mais dúvidas, pontos de interrogação e incertezas do que algo sólido para apalpar neste Natal aventureiro. A única coisa que tem na mão é a companhia do irmão, Miguel. “Como qualquer boa patriota, obviamente que sinto muitas saudades do meu país, família e amigos em especial. Nesta época a saudade torna-se mais evidente…”