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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Pré-publicação. A primeira conversa em que André Villas-Boas assumiu que queria ser presidente do FC Porto

As eleições do FC Porto só aconteceram em abril de 2024, mas André Villas-Boas tinha tudo pensado cinco anos antes. Pré-publicação de "Capitão de Abril, André Villas-Boas e a Revolução Inacabada".

As eleições mais importantes da história recente do FC Porto terminaram com a vitória de André Villas-Boas e a derrota de Jorge Nuno Pinto da Costa, que liderava os dragões há mais de quatro décadas. No livro Capitão de Abril, André Villas-Boas e a Revolução Inacabada, Octávio Lousada Oliveira conta as histórias por detrás da decisão do antigo treinador de se candidatar à verdadeira “cadeira de sonho”. 

O FC Porto mudou de capítulo a 27 de abril de 2024, mas o real virar de página começou cinco anos antes e em Paris, bem longe da Invicta. Com prefácio de Álvaro Almeida e publicado pela Oficina do Livro, Capitão de Abril, André Villas-Boas e a Revolução Inacabada está nas bancas esta terça-feira e será apresentado por Manuel Queiroz e Pedro Duarte no Hotel Axis Porto Club, no Porto. Em Lisboa, no dia 17 de setembro, a apresentação fica a cargo de Bruno Vieira Amaral, Catarina Cardoso e Diogo Feio, na Livraria Buchholz.

O Observador pré-publica um excerto do prólogo, onde é possível assistir ao encontro de André Villas-Boas com o presidente do Marselha e Andoni Zubizarreta onde este assume pela primeira vez que quer ser candidatar-se à liderança do FC Porto. 

FC Porto President Andre Villas-Boas (C-L) and former President Jorge Nuno Pinto da Costa (C-R) hold the trophy after their team wins the Portuguese Soccer Cup final match between FC Porto and Sporting CP at Jamor Nacional stadium in Oeiras, outskirts Lisbon, Portugal, 26 May 2024. ANTONIO COTRIM/LUSA

▲ André Villas-Boas e Jorge Nuno Pinto da Costa surgiram juntos na conquista da Supertaça da temporada passada, em agosto de 2024

ANTONIO COTRIM/LUSA

Oito de Maio de 2019. Passam poucos minutos da hora de almoço quando André Villas-Boas, ladeado pelo seu empresário, Carlos Gonçalves, cruza a abóboda da entrada do opulento hotel Le Royal Monceau – Raffles Paris. Localizado a um quarto de hora a pé dos Campos Elísios, com vista para o Arco do Triunfo, as suas paredes estão prestes a testemunhar uma reunião que virá a definir o futuro do ainda jovem treinador. Considerando que, pelo luxuoso hotel, baptizado como «o palácio dos loucos anos 20», desfilaram e pernoitaram personalidades como Winston Churchill, Dwight David Eisenhower, Ernest Hemingway, Joseph Kessel, Coco Chanel, Walt Disney, Maurice Chevalier, Josephine Baker, Robert De Niro, Michael Jackson ou Madonna, o ponto escolhido para o encontro é auspicioso. Foi ali que, em 1944, os Aliados improvisaram um quartel-general após libertarem a capital francesa da ocupação nazi. E foi também nos salões grandiosos do Le Royal Monceau, imersos nos inúmeros apontamentos de Art Déco, que David Ben-Gurion e Golda Meir «cozinharam», em 1948, a declaração de independência de Israel.

Sete décadas volvidas, Villas-Boas irrompe pelo distinto espaço concebido pelo arquitecto e designer Philippe Starck aquando da profunda remodelação do hotel em 2010. Na conciergerie e nas áreas contíguas, a meia-luz âmbar contribui para decorar os elementos de madeira nobres e quentes, como o mogno da escadaria central. O bordô das carpetes e de algumas fileiras de candeeiros de parede criam uma atmosfera equilibrada que, embora sofisticada e algo cénica, confere a indispensável dose de intimismo ao local. Justamente o recato exigido pela ocasião. O técnico tem encontro marcado com o presidente do Olympique de Marselha, Jacques-Henri Eyraud, que se faz acompanhar pelo director desportivo do clube, Andoni Zubizarreta, o qual, por sua vez, quatro anos antes, na qualidade de director desportivo do Barcelona, chegou a tentar convencer o português a tornar-se treinador dos catalães. Na altura, o jovem técnico negara os rumores acerca das negociações com dirigentes dos culés.

Afastado do banco desde Novembro de 2017, quando rescindiu, por mútuo acordo, o contrato que o vinculava ao Shanghai SIPG (hoje Shanghai Port), Villas-Boas aterrara em Paris ciente do que estava em causa. A ordem de trabalhos daquela reunião tem um único ponto: Eyraud pretende convencê-lo a regressar ao activo para que devolva ao emblema do Sul de França o título e a glória que escapam desde 2010. Por essa altura, já o Paris Saint-Germain (PSG), dos riais catarianos que brotam dos bolsos de Nasser Al-Khelaïfi como se neles houvesse jazidas de petróleo ou campos de gás natural, impõe a lei do mais forte. Em meia dúzia de anos, os parisienses, alavancados pela força financeira gerada pelos hidrocarbonetos, contabilizam cinco títulos da Ligue 1. E caminham a passos largos para o sexto.

▲ André Villas-Boas acabou por levar Andoni Zubizarreta para o FC Porto

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Eyraud não gosta do filme que está a passar diante dos seus olhos. Desde que, três anos antes, assumira a presidência do clube, os focéens não conseguiram mais do que se bater pelo segundo lugar. Após uma primeira época completa promissora, que até conduziu o Marselha à final da Liga Europa, Rudi Garcia desapontou na segunda temporada. Em 2018/2019, o futebol torna-se morno, previsível e os bons resultados escasseiam. O acesso às competições europeias reduz-se a uma miragem e os decibéis das críticas aumentam para um nível insuportável. O presidente do clube percebe que tem de arrepiar caminho e alterar drasticamente o perfil do líder da equipa técnica.

Surge então a hipótese André Villas-Boas, que, como o próprio técnico viria a confessar decorridas duas semanas desde esse encontro, num evento no País Basco, o Bilbao International Football Summit, já tinha sido sondado para orientar o Marselha em 2013, altura em que optou por se mudar para a Rússia para orientar o Zenit de São Petersburgo. À mesa, olhos nos olhos com Eyraud e Zubizarreta, o homem que alcançara o estrelato oito anos antes ao serviço do Futebol Clube do Porto (FC Porto) – a quem, por essa razão, já chamavam Special Two, numa alusão à possibilidade de ser o sucessor de José Mourinho –, e que sempre estabeleceu um limite de 15 anos para a carreira como treinador, acaba por surpreender os representantes marselheses.

De facto, ainda na China, a 9500 quilómetros do Stade Vélodrome – o seu futuro reduto –, Villas-Boas começava a pensar noutro tipo de voos. Não hesita em partilhá-los com os seus dois interlocutores. Para que não haja margem para qualquer equívoco, previne-os de que, apesar de estar pronto para abraçar o projecto Marselha, não tenciona fazê-lo por mais de dois anos. O limite é esse: dois anos. Porquê? Porque a partir daí pretendia estar livre para preparar com cabeça, tronco e membros a candidatura à presidência do seu grande amor desportivo, o clube a cujos jogos assistia desde miúdo, com três anos, ao colo ou às cavalitas do padrinho, irmão da sua mãe, ainda na velhinha arquibancada, na lateral leste do relvado e que completava o anel do Estádio das Antas.

▲ O antigo treinador foi eleito no final de abril do ano passado

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na mente de Villas-Boas, é cada vez mais vincado o sentido de destino. Pensa recorrentemente em voltar à casa em que se sente em casa, até porque, mesmo à distância, acompanha pari passu a vida do FC Porto, que enfrenta um dos períodos mais difíceis do reinado de Jorge Nuno Pinto da Costa, sujeito à apertada tutela da UEFA devido ao incumprimento das regras do fair-play financeiro. Em jeito de vaticínio e com uma convicção que parece inabalável, diz ao presidente do Marselha que tem à sua frente o próximo presidente dos azuis-e-brancos. A tirada parece extemporânea e demasiado arriscada, mas o calendário, esse, joga a favor do ainda treinador. Quase desenhado à sua medida. Permite-lhe dar tempo ao tempo e jogar friamente.

Afinal, os sócios seriam chamados às urnas na Primavera de 2020 – timing implausível para alguém que, a tão curta distância, se preparava para assumir o comando técnico de outro clube – e voltariam a escolher o presidente e respectivo elenco directivo quatro anos depois, em 2024. Fica gravado na pedra que esse seria o ano do regresso. A partir daí, todos os passos serão dados em função da meta estabelecida. Está definido o horizonte. Ou, na prática, identificada a derradeira cadeira de sonho. A primeira, o banco do Dragão, apesar de ter permitido conquistas gloriosas, acabou por ser fugaz. Esta revelar-se-á o desafio dos desafios.

Seja como for, Eyraud recebe com agrado aquele aviso prévio. Aprecia a honestidade e valoriza a ousadia. Há quem, nesse momento e muito tempo passado, prefira chamar loucura ao plano, mas o presidente do Marselha pensa de forma distinta. Não vislumbra inconvenientes em fechar o acordo com um treinador heterodoxo, multifacetado e com objectivos tão claros para o pós-carreira de treinador. Villas-Boas, conta quem o conhece bem, não dramatiza quando está longe do relvado, longe do treino, longe dos jogos. André não se afunda em depressões quando lhe faltam as rotinas de campo, como acontece a tantos outros colegas de profissão. A profusão de paixões vem desde os tempos de escola e poupa-o à aspereza dos momentos negativos. A comitiva marselhesa percebe de imediato o perfil psicológico do homem que está prestes a recrutar. Fica convencida. Villas-Boas cai-lhes nas boas graças. O negócio está bem encaminhado.

▲ O agora presidente dos dragões tinha o projeto pensado cinco anos antes das eleições

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Passam 13 dias, estamos a 21 de Maio de 2019. Novamente com Carlos Gonçalves, Villas-Boas aterra em Nova Iorque. Desta feita, o encontro sobe de patamar (e decorre muitos andares acima do anterior): é com Frank McCourt Jr., o magnata oriundo de Boston, com um percurso feito sobretudo no ramo imobiliário, anterior proprietário dos Los Angeles Dodgers, uma das principais equipas da Major League Baseball, e que investira cerca de 45 milhões de euros para adquirir 95% das acções do Marselha a Margarita Louis-Dreyfus, viúva de Robert Louis-Dreyfus.

Obstinado, como viria a demonstrar mais tarde, em 2024, ao formar um consórcio para comprar as operações do TikTok nos Estados Unidos, em parceria com o co-fundador do Reddit, Alexis Ohanian, McCourt empenha-se no OM Champions Project, comprometendo-se a investir 200 milhões de euros em quatro anos. Quer dar sangue novo ao Olympique e torná-lo competitivo internamente e além-fronteiras – e é aí que entra Villas-Boas. Convidado para um encontro no escritório do empresário americano, num edifício situado na vertente oeste do Central Park, o técnico não se afasta do guião que apresentara a Eyraud e Zubizarreta. A presidência do FC Porto é quase um desígnio que McCourt percebe e nem ousa contrariar. Tal como o presidente e o director desportivo, percebe que está ali um homem do futebol de outra cepa, uma figura heterodoxa num ecossistema habitado por figuras de vistas curtas.

A reunião não consome demasiado tempo a nenhuma das partes. Villas-Boas cai nas boas graças da cúpula do Marselha. Decorridos oito dias, a 29 de Maio, no Centre d’Entraînement Robert Louis-Dreyfus, também conhecido como La Commanderie, Villas-Boas sela o acordo. Está prestes a voltar a comandar duas dezenas de homens que vão dar tudo – sem sucesso – para interromper a hegemonia do PSG.

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