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Pré-publicação. O país na fotografia de Artur Pastor, que o viu como poucos

Em 2014 a CML promoveu uma exposição antológica sobre um dos mais importantes fotógrafos portugueses do século XX. Agora, os textos e as mais de 200 imagens do catálogo transformam-se num livro.

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Nas suas fotografias estava um retrato amplo (porque abrangente) mas simultaneamente minucioso e pormenorizado do país em que nasceu e viveu: nomeadamente dos seus costumes, das suas gentes, das suas atividades, da sua paisagem rural e agrícola.

Artur Pastor, nascido a 1922 em Alter do Chão e falecido em 1999, quase sempre visto de câmara fotográfica na mão, é considerado um dos fotógrafos portugueses que melhor captou e documentou o Portugal do século XX e o Portugal rural dos anos pré (desde 1940) e pós (até 1990) revolução.

Até pela longevidade da sua dedicação à fotografia (que conciliou com a agricultura, em que se especializou e que estudou), o acervo de Artur Pastor permite acompanhar as próprias mudanças culturais de um país que era o seu. Agora, um livro vem tentar mostrar tudo isto: também com textos, claro, mas com algumas das imagens mais marcantes que captou.

Artur Pastor, o homem da Rolleiflex

Prestes a ser lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e o Arquivo Municipal de Lisboa, “Artur Pastor”, assim simplesmente intitulado, servirá para o grande público poder ficar a conhecer o catálogo da exposição antológica promovida pela Câmara Municipal de Lisboa em 2014.

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Transpostas agora para livro estão mais de 200 imagens e textos de autores como Ana Saraiva, Artur Pastor (filho), Cristiana Bastos, Luís Pavão, Marcos Fernandes e Maria Carlos Radich, que refletem sobre a fotografia do antigo técnico do ministério da Cultura e do amante da fotografia que cartografou o país de lés a lés, procurando retratá-lo na sua completude, do litoral ao interior e às ilhas, da terra ao mar.

O Observador pré-publica aqui o capítulo “O País de Artur Pastor”, uma reflexão de Cristiana Bastos sobre o Portugal retratado pelo fotógrafo e que enquadra a sua profunda ligação às gentes e territórios nacionais.

Da realidade que as imagens fazem

Encenadas, espontâneas, a pedido, negociadas ou roubadas ao momento, as fotografias de Artur Pastor transformam-nos a experiência e o conhecimento. Junto com a emoção estética que as suas nuances de preto-e-branco irremediavelmente geram — e dessa emoção e estética falarão os críticos de fotografia, detetando estilos, escolas e originalidades – vivemos a experiência de nos atirarem para um país que foi representado e se representou, e que, convivendo com as representações, existiu aquém e além destas, resistiu e resistiu-lhes.

Aqui faremos aproximações sucessivas ao país que Artur Pastor traz à vida: que pluralidades emergem, entre óbvio e secreto, entre litoral e interior, entre oficial e clandestino, entre conhecido e desconhecido, entre heróico e lírico? Que outras fontes de conhecimento — etnografias, história, suportes de propaganda — podemos cruzar com estas fotografias para nos relacionarmos com o país e países que elas contam? Se outras narrativas e caracterizações nos podem ajudar a situar a vida e as práticas fotografadas por Artur Pastor, algo fica, indelével, dos gestos, momentos e coreografias de objetos que a sua objetiva capturou e criou. Olhemos então para elas.

O país e os países de Artur Pastor

Não convoquemos ainda o país que se pode conhecer para aquém e para além das fotografias de Artur Pastor. Esse será — ou melhor, foi — um país de contrastes, de dificuldades, carências, esperas, silêncios, festas, produtos, objetos, trabalhos, alegrias, fados, romarias — um país, como aliás todos os outros, de unidades e diversidades, e também, como todos os outros, a seu modo único e irreplicável, e pelas mesmas razões odiado e amado, cantado e pesquisado, objeto de obsessões, paixões, poemas, interrogações, investigações. Lá chegaremos. Olhemos antes para o país que emerge destas fotografias, o país de Artur Pastor.

Na leitura das imagens, na vastidão do seu alcance, na sua repetição e extensão, deteta-se um fotógrafo intensamente comprometido com o registo visual de um país e a criação de uma memória de amplo espectro e vasta sustentação material. Os seus dados biográficos assim o confirmam: temos alguém dedicado em pleno a captar, registar, revelar, imprimir, divulgar e guardar para mais tarde as imagens de um quotidiano que ora se inscreve em grandes murais e panorâmicas, em paisagens que se transformam e que urge documentar, ora se lê nos olhares e aproximações entre homens, mulheres, árvores, animais, sementes, alfaias, casas, portas, redes, barcos, peixes, mas também na materialidade dos lugares de ciência e experimentação, nas estações agrícolas, nos seus laboratórios e postos avançados.

"Aqueles a quem Artur Pastor fotografava não eram radicalmente diferentes de si, não apareciam como destituídos clamando ajuda, reforma, revolução, gerando revolta ou compaixão; eram a expansão ampliada e diversificada de uma identidade comum, concretizada em gestos diferentes."

Era assim Artur Pastor, colecionador obsessivo, guardador de imagens em película e em papel fotográfico, o homem de quem se diz que não deixava livre um só espaço das prateleiras e gavetas de todos os lugares da sua casa, que paulatinamente iam cedendo ao império dos seus negativos, provas e positivos. Tudo merecia a sua atenção de fotógrafo, tudo merecia ser registado e conservado, mostrado a testemunhas presentes e guardado para olhos futuros. Foi esse registo que chegou até hoje e nos permite a viagem de volta ao país que as suas imagens constroem, que ao mesmo tempo revelam e ocultam o país real onde a objetiva as colheu, um país que corre ao lado das imagens, em parte coincide com elas, em parte as contradiz e vive no avesso do que aparece revelado.

E que país é este, o de Artur Pastor? Em grandes planos ou em detalhe, em cenas épicas de pesca, de tempestades, de banhos de mar pelo São Bartolomeu, de campos após a chuva, em cenas líricas de sementeira, apanhas, cultivos, ou ainda nas cenas aparentemente frias dos equipamentos industriais que também existiam, produz-se um país variado e bonito, vivo e feliz.

As redes que atravessam as praias e unem os homens são bonitas, e eles felizes. As saias sobrepostas e 150 bordadas das mulheres que esperam os homens e os peixes na praia da Nazaré são bonitas, e elas felizes. As roupas axadrezadas dos homens junto aos barcos da praia da Nazaré são bonitas, e eles felizes. Os peixes a secar nas redes são bonitos, e talvez até eles, contagiados por esta felicidade irradiante e difusa, sejam felizes ao brilhar nas redes, pontos de leitura destas fotografias, protagonistas de uma história que, desconhecendo, produzem. As geometrias criadas pelos peixes dispostos na areia, fazendo dezenas, prontos a ser contados e comprados, não podiam senão ser lindíssimas e esteticamente felizes.

Este é o país de Artur Pastor, sem cheiros nem mágoas, sem fome nem dor, sem exploração nem rancor. Todos se dispõem em coreografias verdadeiras, de pesca e de faina agrícola, trazem-nos momentos de beleza de gestos quotidianos. Homens, mulheres, cenários, fundos, montanhas, vales, praias, animais, peixes frescos na areia, peixes secos na corda, jogos de luz e de sombra, labirintos de ruas emergindo atrás e ao lado das paredes, portas, janelas, esperas, quotidianos, entrevendo-se um contentamento tranquilo de quotidianos tecidos em vidas esperadas, mesmo quando estão patentes as marcas da violência dessas vidas — veja-se a imagem das viúvas do mar, como pirâmides negras à esquerda e à direita do cenário.

Paira neste conjunto uma atmosfera de felicidade pacata, alegre contentamento, reduzido o horizonte para a proximidade, quase nos antípodas do documentário neorrealista que lhe é contemporâneo, do naturalismo literário que o antecedeu, ou das fotografias de denúncia social que os reformadores bem-intencionados capturavam no que para eles era o outro lado da vida, com o intuito de despertar, junto de quem vivia em conforto, ensejos de filantropia ou impulsos de mudança social. Se a Artur Pastor motivava mostrar como viviam os outros, eles não eram bem outros, e menos ainda “a outra metade”, como celebrizou o livro e conjunto fotográfico de Jacob Riis nos tugúrios dos imigrantes em Nova Iorque de finais do XIX. Aqueles a quem Artur Pastor fotografava não eram radicalmente diferentes de si, não apareciam como destituídos clamando ajuda, reforma, revolução, gerando revolta ou compaixão; eram a expansão ampliada e diversificada de uma identidade comum, concretizada em gestos diferentes, partilhando de um mesmo e pacato modo de ser, trabalhando num alegre contentamento que a todos tinha pequenos, laboriosos, heróicos nas breves epopeias do quotidiano. Nada de miséria, de sofrimento, revolta, desejo de mudança e reforma; nada a denunciar ou a oferecer aos olhos da filantropia, da reforma social ou da revolução. Pelo contrário: temos aqui um país de conformados, de acatamento dignificado. O país de Salazar, dos livros de instrução primária que nos anos 50 e 60 cantavam a felicidade de quotidianos sem outra ambição que a de manter a harmoniosa ordem do mundo.

"Pastor é diferente, não sistematiza nem analisa, vai produzindo uma série de encontros, a quente, com o esforço humano, com o esforço dos animais"

Seria, porém, redutor e injusto ver a obra de Artur Pastor como produto do Salazarismo — mesmo que a este se conforme. E mesmo que conformada, acomodada ou convergente nessa estima a um estilo de vida em que se apagam da vista os sinais de miséria, desconforto e revolta, não estamos nem de longe em presença de uma encomenda de regime. Quem encomendaria tão vasta obra, tão detalhada documentação, se não a própria vontade e desejo de a fazer, a capacidade de se lhe entregar, movida a paixão dedicada?

É nesta capacidade, desejo e entrega que melhor situamos a obra e estética de Artur Pastor, com um fundo de genuíno entusiasmo por um projeto em marcha, documentando um país que funciona, um país que trabalha e é trabalhado, pleno de equipamentos de apoio à agricultura e de lugares de inovação e experimentação científica; e nesse fundo recortam-se gestos de onde jorra vida, mesmo quando mais tipificados. Assim, numa épica de fundo em que o enunciado é discreto e constante, sobressaem os momentos de espanto e celebração, o encantamento perante os gestos, as pequenas epopeias que se incrustam nos retratos dos labores, em que a cada pescador corresponde um tempo, um roteiro escondido, a cada bordadeira um hino, uma saga, a cada agricultor, ceifeira, mondadeira, podador, um programa e pacto com a natureza. Em cada fotografia uma odisseia de desenlace feliz, e no seu conjunto um país dignificado, visualmente contado e cantado.

São os trabalhos agrícolas, sementeiras, apanhas, mondas, ceifas, debulhas; não é tanto a documentação da materialidade dos objetos e equipamentos envolvidos, essa exaustivamente levada a cabo pela equipa de Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Enes Pereira e Fernando Galhano, etnólogos que percorreram o país e sistematizaram as práticas de agricultura e pescas e a cultura material associada, das estruturas de apoio às atividades artesanais complementares, não deixando de incluir o registo simbólico das festividades e rituais. Pastor é diferente, não sistematiza nem analisa, vai produzindo uma série de encontros, a quente, com o esforço humano, com o esforço dos animais, com as nuances da combinação de ambos nas horas de lavra e de debulha. E as nuances só se ampliam com a máquina que, longe de destruir o universo reportado, se lhe incorpora sem rutura e lhe prolonga a densidade épica: a debulhadora mecânica, grande altar contra um de céu turvo de palha e fumo, devorando os fardos que os homens, sem trégua, lhe rendem, digerindo-os também sem trégua e expulsando os fardos padrão que anunciam um mundo de novos ordenamentos e novas combinatórias de humanos, máquinas, animais e vegetais.

Em dezenas de milhares de imagens multiplicam-se gestos, corpos, alinhamentos, posturas, todos humanos, todos de uma vida a que o fotógrafo rende homenagem. Aqui e ali adivinham-se os sentimentos, o esforço, no pegar das varas, no segurar das cordas, no acartar dos cestos, encosta acima, escadas abaixo, nas cargas de fruta, de palha, de madeiras, de sal.

São as atividades de apoio à pesca, antes e depois dela, e os objetos, equipamentos, barcos, bóias, redes, bois de tração, palheiros de praia, abrigos, cestas e centos de peixe, canastras, lotas, compradores, varinas, crianças. E são as outras atividades da beira-mar — a apanha do sargaço, que contamina de humidade as imagens, ou as salinas, onde o sol e a luz são tão intensos que ferem a vista de quem vê e quem é visto.

"Chegavam à praia, pescadores e peixes, esperados por elas, por eles, os barcos puxados a bois e a homens, as maquias divididas, os dinheiros distribuídos, o descanso e retempero alcançado. Outras vezes não. Morriam, perdiam-se, voltavam sem peixe, esmagados de fome, de lágrimas, secos de sede e de rezar, eles e elas, no mar e na praia, sofrendo, esmagados."

E são os ofícios artesanais de apoio à agricultura, aos animais, à vida em geral: vemos ferreiros e albardeiros, vemos sapateiros, latoeiros, carpinteiros, oleiros em torno dos seus potes, ladrilhos, tijolos; teares, costureiras, bordadeiras, fiadeiras de linho e lã, tosquiadores de ovelhas; vemos as pequenas indústrias, o gesto humano ajudando a máquina que ajuda o gesto humano: rolhas de cortiça, conservas de fruta, lagares de azeite, moinhos e moagens. E também laboratórios, equipamentos industriais, centrais de tratamento de alimentos, leite, vinho, ovos, aves, hortícolas, frutícolas, sementes. Aparecem os microscópios, as batas brancas, os agentes da ciência ao serviço da produção e dos produtos.

Esse era o país de Artur Pastor. Mas havia também um outro, sobre o qual este se fez, com vidas e quotidianos de outros significados, outras lutas, outras dificuldades, sofrimentos, também alegrias, também epopeias, também projetos. Tomemo-lo um pouco mais de perto, esse país que extravasa e resiste.

O país, além de Artur Pastor

Anos 1950, 60, 70. A Europa e o mundo saíam da II Grande Guerra; nos Estados Unidos vivia-se o baby-boom, aumentava o consumo de bens e serviços, multiplicavam-se os eletrodomésticos, inventava-se o crédito pessoal e o dinheiro de plástico, expandiam as universidades; na União Soviética seguiam-se outras vias de distribuição de oportunidades e caminhos de realização individual e coletiva; em África e na Ásia preparava-se a descolonização, nasciam as novas nações, projetos, utopias, revoluções, tudo se transformava; na América Latina alternavam governos progressistas, populistas e autoritários. Ao fundo a Guerra Fria, e entre uns e outros lealdades, alianças, esferas de influência.

Tudo parecia passar longe, muito longe de Portugal. Nem a guerra aqui batera em pleno, embora Lisboa se tivesse feito placa giratória de refugiados, a todo o país chegassem os racionamentos, as notícias na rádio, o conhecimento do conflito, camuflado por políticos que acenavam com o conforto de não ter a guerra dentro de portas nem os filhos fora de portas a servi-la, tudo isto envolto num bálsamo de gratidão rezado nas igrejas. Tão pouco se vivia o ambiente de pós-guerra que em tantos lugares fez suceder, à devastação, a euforia e a dinâmica da reconstrução. Em Portugal tudo parecia continuar inalterável, discretamente único e particular, como uma utopia que ninguém concebera e poucos teriam desejado — mas persistia na alegre conformidade dos brandos costumes, longe da agitação consumista que afetava os outros. Assim se representava um país a que estas imagens fazem a melhor justiça: vai-se vivendo, vai-se conquistando a vida dia a dia, tudo é belo, único, lírico e épico de uma só vez.

Mas a realidade era bem mais complexa. Chegavam à praia, pescadores e peixes, esperados por elas, por eles, os barcos puxados a bois e a homens, as maquias divididas, os dinheiros distribuídos, o descanso e retempero alcançado. Outras vezes não. Morriam, perdiam-se, voltavam sem peixe, esmagados de fome, de lágrimas, secos de sede e de rezar, eles e elas, no mar e na praia, sofrendo, esmagados, também, do frio e do entorpecimento dos gestos, do adiamento de uma felicidade maior ou de um desejo mais amplo que o de estar ali. Inseguros, precários, frágeis, sem rede ou renda que os protegesse, vulneráveis à fome, frio e abandono, de acampamento em acampamento, costa abaixo, rio acima, acantonamentos precários tornados permanentes, escolhas limitadas, vidas expostas, dificuldades multiplicadas.

"Artur Pastor deixou-nos toda uma outra perspetiva de um país mal conhecido, e também vivido, que percorreu enquanto regente agrícola trabalhando para o Estado"

E também nos campos e nas aldeias alternavam os momentos líricos captados nas imagens e um estar refém de um quotidiano tão pequeno que podia não passar de uma pequena côdea, ou de nem isso, e entre fome e frio e mais desconfortos, uma possibilidade, também, de inventar um presente e um futuro longe dali; e em temporadas, à estação, à época, a uns poucos de anos, a muitos anos, ou mesmo para sempre, partia-se do quotidiano, deixava-se o pequeno país a troco de circunstâncias ainda mais restritas, uma alcova em bidonville, em portaria de prédio em ruas onde se falava apenas francês, a bordo de escunas, bacalhoeiros e baleeiras, um lugar nas máquinas impiedosas da indústria têxtil na Nova Inglaterra, ou noutras fábricas de outras paragens, uma posição subalterna em padaria brasileira, e, para alguns, uma aventura de colono ou de soldado em terras de África.

Esses eram também os quotidianos possíveis, longe da objetiva de Artur Pastor, perto do horizonte das escolhas daqueles que nelas ficavam, apagados porém da representação oficial e oficiosa. Um país a vários tempos, impossível de enquadrar numa só narrativa, seja a do atraso, do esvaziamento, da ditadura, da pacatez, dos brandos costumes ou, como nas imagens, de beleza objetiva e felicidade difusa. O país era tudo isso e era ainda outras coisas, algumas delas fora dos estereótipos mais usados para o representar. Vejamo-las ainda na obra de Artur Pastor, que além das fotografias também nos deixou um precioso conjunto de anotações em fichas do Ministério da Agricultura.

Contados os campos e as fábricas, e também os laboratórios: visões de ciência, tecnologia e nação

Contados os campos e as máquinas, os pescadores e as varinas, as redes e os alcatruzes, os burricos e os bois, tudo estaria conforme a um estereótipo de país enaltecido na sua condição e vocação agro marítima. Mas algo aparece na obra de Artur Pastor que nos aponta para outras dimensões, densidades e complexidades. Se o fotógrafo se alongou entretecendo o lírico e o épico, e nós com ele, deixou-nos também toda uma outra perspetiva de um país mal conhecido, e também vivido, que percorreu enquanto regente agrícola trabalhando para o Estado.

Conta a biografia de Artur Pastor que foi a necessidade de documentar visualmente alguns elementos de agricultura que o fez fotógrafo – e muito bem o fez, como demonstram as mais de dez mil fichas do Ministério da Agricultura que constituem um espólio à parte e um manancial para futura pesquisa. São fichas 12×18 por ele preenchidas e assinadas, quase todas com uma fotografia de 6×6, aqui e ali dando lugar a uma panorâmica, quase sempre em preto e branco.

"Dificilmente encontramos os laboratórios e as estações de experimentação que a sua objetiva registou e a sua mão anotou, que compunham um país envolvido numa dinâmica de inovação produtiva que hoje, devorada a agricultura portuguesa nos tratados políticos internacionais, parece uma quimera distante, quase irreal."

Nessas fotografias temos tudo o que descrevemos acima e ainda mais. Temos os ranchos de ceifeiras e mondadeiras, os descortiçadores, temos grandes planos de frutos, hortícolas, árvores, sementes, animais, leite, ovos, máquinas, fábricas, postos de experimentação, campos e pomares sujeitos onde decorrem as experiências, ovelhas, vacas, porcos, aves, quintas, estações de tratamento, lagares, fábricas de conservas de fruta, de compotas, atividades complementares à agricultura, e muitas, muitas cenas de laboratório, prateleiras, bancadas, microscópios, mostrando o empenho coletivo em abraçar a ciência e tecnologia ao serviço da produção. Tal como já não deparamos com burros e carroças pelas estradas, ou com ranchos agrícolas, também dificilmente encontramos os laboratórios e as estações de experimentação que a sua objetiva registou e a sua mão anotou, que compunham um país envolvido numa dinâmica de inovação produtiva que hoje, devorada a agricultura portuguesa nos tratados políticos internacionais, parece uma quimera distante, quase irreal.

Lado a lado com os aspetos pitorescos e folclóricos que Pastor tanto gostava, estão as fotografias das obras de época, das frentes avançadas de inovação que convivem e mantêm relações de interdependência com o país artesanal. É a Estação Agronómica Nacional, em Sacavém, com a sua inconfundível arquitetura de regime no exterior e os seus múltiplos laboratórios no interior. São a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas; a Estação de Fruticultura de Setúbal; o Posto de Culturas Regadas, em Alvalade; a Estação Vitivinícola da Beira Litoral, em Anadia; o Posto Experimental do Vale do Tejo, em Salvaterra de Magos; o Serviço de Ensaios de Sementes, no Carregado; o Posto Vitivinícola da Régua; a Estação Agrária do Porto; a Estação de Lacticínios de Paços de Ferreira; a Estação Zootécnica Nacional; a Repartição de Serviços Arborícolas e Hortícolas de Lisboa; o Posto Agrário do Sotavento do Algarve, em Tavira; o Posto Experimental de Estudos sobre o Queijo da Serra; a estação de Lacticínios, as diversas Brigadas Técnicas regionais, e muitas outras estruturas de apoio ao desenvolvimento e experimentação. Aparecem-nos edifícios e inaugurações, como se esperaria em fotografias institucionais, mas são em franca minoria. Aparecem-nos personagens e pessoas envolvidas nos processos, muitas vezes tiradas do anonimato, empunhando varas, cestos, foices, máquinas, vasilhas, instrumentos, produtos. Aparecem-nos os animais, as espécies, as seleções, protagonistas, personagens nomeadas. Aparecem-nos as frutas, as árvores, as couves, as batatas, as raízes, as sementes, os cogumelos. Aparecem-nos os Cursos de Extensão Agrícola Familiar, visões do Estado em ação, domesticando os costumes, padronizando os gestos, distribuindo os conhecimentos aprovados para a saúde, a higiene, a costura, as maneiras, enfim, trazendo o modo nacional para dentro de todas as casas.

Fiquemos com uma nota final sobre a complexidade deste fotógrafo que, como o país que retratou, existia em várias dimensões e contradições. Com alguns dos produtos que tanto fotografava experimentou composições que nada teriam de programático para o Ministério da Agricultura, e, todavia, estão presentes nas fichas: trabalhos conceptuais, arranjos, naturezas mortas, piscando o olho às correntes artísticas que parecem tão distantes dos tributos à vida pacata do regime que dominam as suas fotografias. Fiquemos então com os arranjos de cogumelos, de avelãs, de laranjas, de ovos e de suas caixas, cujo pendor abstrato e futurista era também parte do universo de Artur Pastor.

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