Foi no passado dia 28 de março que a Exponor, no Porto, recebeu o evento “Horizonte Verde: Sustentabilidade do Setor dos Recursos Minerais”. Organizado pela ACPMR – ASSOCIAÇÃO CLUSTER PORTUGAL MINERAL RESOURCES e ASSIMAGRA – ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DA INDUSTRIA DOS RECURSOS MINERAIS, a conferência reuniu no pavilhão da Stone Ibérica empresas do setor, parceiros e convidados.
Para Marta Peres, Diretora Executiva do Cluster, este tipo de iniciativas é importante para mostrar o que de melhor se faz no setor e para desmistificar a ideia de que a exploração de recursos minerais é uma área poluidora. “Estes eventos são muito importantes, primeiro porque o assunto da descarbonização é novo e há muitas dúvidas ainda em volta dele. E a verdade é que a descarbonização e a sustentabilidade ambiental trazem economia às empresas, que gastam menos, consomem menos e conseguem mais”.
Por outro lado, para a Diretora Executiva do Cluster, é fundamental continuar a promover estas iniciativas para se divulgar uma imagem correta do setor, que é fortemente regulado e tem práticas sustentáveis. “Nós sabemos o que é que as empresas estão a fazer. O público lá fora não sabe. E quando se mostra o que estão a fazer, além do nível reputacional, levam outras empresas do setor a imitar. E este efeito de imitação é muito mobilizador”. Para Marta Peres, para se atingir a neutralidade carbónica é preciso que todas as entidades trabalhem para o mesmo fim.
A abertura do evento ficou a cargo de Célia Marques, Vice-Presidente Executiva da ASSIMAGRA, que falou sobre a importância do setor. “A pedra natural portuguesa é reconhecida mundialmente e as empresas têm sabido aproveitar as oportunidades para expandir a sua presença para os mercados internacionais”. Prova disso é o facto desta área ser responsável por 14.300 postos de trabalho diretos no nosso país e ter exportado, em 2024, 470 milhões de euros, como refere Célia Marques.
A Vice-Presidente da ASSIMAGRA deu conta, ainda, dos desafios que a Europa – e particularmente Portugal – tem de enfrentar para se alcançar a neutralidade carbónica. “Apesar desta resiliência, hoje, para uma empresa ser competitiva, não basta ter bons produtos e saber vendê-los. Eles têm de ser sustentáveis em três dimensões: económica, ambiental e social. Esta é uma exigência atual das nossas cadeias de valor, dos mercados internacionais e das próprias expectativas da sociedade”.
Nesse sentido, foi criado – e já aprovado – o roteiro de descarbonização para o setor. Este roteiro, cujo projeto é liderado pela ASSIMAGRA em parceria com outras entidades, tem como objetivo alavancar a neutralidade carbónica da indústria, através da promoção de uma mudança de paradigmas, procurando capacitar as empresas a tomar decisões responsáveis. “Temos de ter um compromisso genuíno para com o ambiente e com as comunidades que se relacionam com a nossa atividade”, afirmou Célia Marques.
O projeto “ROADTO2050: Roteiro para a Descarbonização do setor da Pedra Natural” foi apresentado durante o evento, onde se deu a conhecer não só os indicadores atuais e a evolução prevista para o setor nos próximos anos, mas também os processos dentro da pedra natural que têm maior potencial de descarbonização, as tecnologias que já estão a ser desenvolvidas e os principais desafios à sua implementação.
Foi, ainda, apresentada a calculadora de emissões de carbono, uma ferramenta desenvolvida para ajudar as empresas a se autoavaliarem e, assim, poderem tomar as melhores decisões com vista à descarbonização.
Debater as dificuldades do setor no caminho da transição
O evento contou, ainda, com uma mesa-redonda intitulada “Estratégias para a Neutralidade Carbónica – os desafios da Transição Verde”. À conversa, moderada pelo host do Observador João Miguel Santos, juntaram-se Eliseu Frazão, fundador da FRAVIZEL, João Carlos Santos, da STET, Frederico Cardoso, da STONECITI – DigitalBuilt e Maria João Pereira, professora do IST- Instituto Superior Técnico e antiga Secretária de Estado da Energia.
Para Eliseu Frazão, a descarbonização é uma prioridade crescente, mas ainda há muito a fazer. “A descarbonização não passa só por ter soluções que às vezes não chegam ao mercado com a velocidade que deviam chegar. Passa por fazer muito com pouco”. Já João Carlos Santos aborda o tema da digitalização, afirmando que “é preciso ser-se mais eficiente no local de trabalho e só se consegue tomar melhores decisões com mais e melhor informação”. O representante da STET dá o exemplo da Inteligência Artificial, que já é utilizada em equipamentos, e permite recolher dados em tempo real que, por sua vez, ajudam a melhorar a eficiência dos processos.
Para Frederico Cardoso é necessário “aproveitar as infraestruturas que temos para trabalhar de forma colaborativa e gerar conhecimento em prol de um bem maior, que é a informação que as empresas podem utilizar”. Maria João Pereira concorda e afirma que “é preciso haver polos de ligação” entre associações, organizações e a academia e que “há um ganho para o setor através da transferência de tecnologia de outras áreas”.
Quanto aos principais desafios que o setor enfrenta no caminho da transição verde, Eliseu Frazão considera que “é preciso haver comunicação entre todos e melhorar os processos o mais rapidamente possível”. Para isso, o fundador da FRAVIZEL diz que é preciso investir. Para João Carlos Santos, os desafios estão relacionados com os combustíveis renováveis (eletrificação, biocombustíveis e hidrogénio verde), mais especificamente com os custos de aquisição e com a energia hidráulica necessária para movimentar as grandes massas minerais.
Já Frederico Cardoso afirma que a automação e a digitalização centrada na otimização de processos são fundamentais, mas não se pode esquecer a capacitação e formação de pessoas. De acordo com Maria João Pereira, as principais dificuldades serão a atração de talento para o setor e conseguir pôr a indústria da pedra natural “na moda”. Ainda assim, a professora do Instituto Superior Técnico mostra-se otimista e considera que “a descarbonização vai-se fazer por ser não um desafio, mas uma oportunidade para as empresas. É pelos ganhos económicos que a descarbonização vai avançar”.
Prémios “Mineral Resources – For Better Life”
O final do evento ficou marcado pela entrega dos prémios “Mineral Resources – For Better Life”. Este galardão, composto por seis categorias, foi criado com o objetivo de dar a conhecer as boas práticas ambientais das empresas do setor e o que de melhor se faz em termos de inovação.
Para apresentar os prémios subiu ao palco Isabel Almeida, presidente do júri e professora do ISCTE, que referiu a excelência de todas as candidaturas. “O que encontrámos foi encorajador: empresas comprometidas, projetos inovadores, uma vontade clara de contribuir para um futuro mais resiliente e mais sustentável”.
Conheça, de seguida, os vencedores desta primeira edição.
Categoria Descarbonização e Eficiência Energética
Vencedor: SOLANCIS Projeto: “Descarbonização e eficiência energética” A empresa está há mais de dez anos comprometida com a descarbonização e eficiência energética, que impulsiona através de investimentos inovadores. A estratégia inclui a instalação de painéis fotovoltaicos, a substituição de equipamentos movidos a combustíveis fósseis por soluções elétricas, a otimização dos processos produtivos e a gestão inteligente de recursos e embalagens. O projeto apresentado evidencia impactos concretos, como a redução do consumo energético, a melhoria das condições de trabalho e a diminuição da pegada carbónica, alinhando-se com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. “É bom ver este trabalho reconhecido e é importante também reconhecermos que existem empresas à nossa volta que nos permitem fazer este caminho ao desenvolver equipamentos que nos permitem melhorar a eficiência”, diz Marco Aniceto, representante da SOLANCIS.
Categoria Economia Circular, Gestão de Resíduos e Reciclagem
Vencedor: ROCKING Projeto: “STOME by GALRÃO” Inspirada na economia circular, a STOME aplica técnicas de upcycling para criar produtos sofisticados e funcionais, redefinindo o conceito de luxo sustentável. As coleções exclusivas combinam tradição e modernidade, valorizando a riqueza da pedra natural, e cada peça reflete uma abordagem artística e inovadora através da utilização de mármores selecionados. A STOME promove um design consciente, maximizando o aproveitamento dos recursos naturais e reforçando o compromisso com um futuro mais sustentável. Para Paulo Dinis, representante da empresa, este prémio foi uma forma de “ver reconhecido o trabalho que tivemos, na tentativa de arranjar um produto que seja vendável, que seja atraente para o consumidor, partindo de pedras que à partida não tinham valor nenhum”.
Categoria Inovação para a Sustentabilidade
Vencedor: REDCORP Projeto: “Mina da Lagoa Salgada: Uma Nova Era de Mineração Sustentável em Grândola” O projeto inovador da REDCORP marca o futuro da mineração em Portugal, sendo um empreendimento que vai muito além da exploração mineral: é um exemplo de mineração inteligente, sustentável e socialmente responsável. Situado nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal, o projeto aposta na automação, eletrificação e energia renovável. A operação subterrânea utilizará uma frota elétrica, uma infraestrutura moderna e uma central solar, com um impacto positivo direto na redução de 8,8 mil toneladas de CO2 anualmente. No centro deste projeto está o compromisso com a comunidade: serão criados 300 empregos diretos e 700 indiretos, com programas robustos de habitação acessível, bem-estar social, saúde, desporto e valorização do património local. “Para mim foi uma honra ter recebido este prémio. É motivo de satisfação e impulsiona-nos para novos voos e para sermos cada vez melhores”, afirma António Osório, que recebeu o prémio em nome da REDCORP.
Categoria Sustentabilidade Ambiental
Vencedor: FILSTONE Projeto: “PIER – Parque Integrado de Experiências e Renaturalização” Este projeto é uma proposta inovadora que transforma o paradigma da exploração de pedreiras. Implantado numa localização estratégica, a poucos quilómetros do Santuário de Fátima, e inserido no coração do Maciço Calcário Estremenho, o PIER cruza espiritualidade, natureza, e regeneração ambiental numa experiência única a transformadora. Com um programa dividido em três fases até 2050, o projeto prevê a criação de centros interpretativos, miradouros, jardins temáticos, anfiteatros, pontes suspensas, esculturas contemporâneas e até os emblemáticos espaços de retiro e meditação conhecidos como “Casas da Paz”. Mais do que recuperação paisagística, o PIER propõe uma verdadeira reinvenção do território pós-exploração, interligando turismo religioso, turismo de natureza, arte, arquitetura sustentável e vivência espiritual. Para Ricardo Filipe, “receber um prémio desta importância faz sempre bem, nem que seja para animar as tropas. É simbólico, mas nesta altura do campeonato, com tanta coisa a acontecer no mundo, receber um prémio é sempre ótimo”. O representante da FILSTONE acrescenta, ainda, que vão “tentar honrar a confiança que nos deram, ainda por cima nesta área”.
Categoria Responsabilidade Social e Comunitária
Vencedor: SOMINCOR Projeto: “JAP-SOMINCOR: Empreender o Futuro em Castro Verde” A SOMINCOR, em parceria com a Junior Achievement Portugal (JAP), está a transformar o futuro de jovens do município de Castro Verde. Através dos programas “É o Meu Negócio!” e “Economia para o Sucesso”, esta intervenção envolveu 115 alunos do 8.º e 9.º anos no ano letivo de 2021/202 e abriu novas janelas de oportunidade na educação para o empreendedorismo, literacia financeira e preparação para o mundo do trabalho. Através de conteúdos pedagógicos dinâmicos, entregues por voluntários da própria empresa, os estudantes exploraram conceitos como criatividade, tomada de decisão, gestão de recursos e autoconhecimento. Os resultados falam por si: 84% dos jovens afirmaram ter adquirido competências empreendedoras; 88% sentiram-se mais capazes de gerir recursos financeiros; 91% reportaram melhorias no trabalho em equipa. Mais do que números, este projeto representa um investimento no capital humano da região. Com base numa lógica de mudança que alia voluntariado empresarial à capacitação juvenil, o programa provou ser um exemplo de eficácia, impacto e inovação social.
Categoria Sustentabilidade Económica
Vencedor: MARFILPE Projeto: “Stone Studio by MARFILPE: Sustentabilidade que Ganha Forma” O Stone Studio by MARFILPE nasceu da vontade de transformar desperdício em valor. A partir dos excedentes de pedra natural gerados nos processos de transformação, surgem peças únicas: elementos decorativos, mobiliário de pequena e grande escala e aplicações exteriores. Cada criação alia a nobreza da pedra portuguesa à inovação estética, oferecendo-se uma nova visão sobre o potencial da matéria-prima. Mais do que uma linha de produtos, o Stone Studio é um manifesto. Num setor onde a extração mineral é essencial, a MARFILPE assume o desafio de repensar o ciclo de vida da pedra e posiciona-se na vanguarda da economia circular. Este projeto reforça o compromisso da empresa com práticas sustentáveis, alinhadas com os desafios ecológicos do século XXI. “É agradável recebermos um prémio pelo desenvolvimento de algo que tem sustentabilidade e é gratificante sermos reconhecidos por estarmos a fazer algo em que acreditamos”, afirma Filipe Miguel, da MARFILPE.Esta primeira edição dos prémios foi, para Marta Peres, um sucesso, já que tiveram um número considerável de candidaturas. “Foi muito importante as empresas perceberem que são premiadas por práticas que hoje se chamam boas práticas, mas que elas já fazem há muitas décadas”, reitera a Diretora Executiva do Cluster.
Agora, é tempo de avaliar o impacto desta iniciativa e o objetivo é que os prémios sejam atribuídos a cada dois anos às empresas mais inovadoras e sustentáveis do setor.