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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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PSD afasta papão de Passos e não deixa cair Montenegro. "Quem tentar abrir uma guerra interna, morre"

Não há qualquer margem para que o PSD entre numa crise interna e escolha outra pessoa que não Montenegro para ir a votos. Passos não quer ser envolvido em conspirações e Moedas deu prova de lealdade.

Nem Pedro Passos Coelho, nem Carlos Moedas, muito menos Leonor Beleza. No PSD, não há outro candidato a primeiro-ministro que não Luís Montenegro. A partir das estruturas do partido e da direção social-democrata, vai-se deixando um aviso muito claro para quem tiver a tentação de conspirar contra o líder em funções: vai pagar o preço. “Quem tentar abrir uma guerra interna, morre”, sentencia ao Observador fonte da direção do partido.

Ao longo dos últimos dias, foram crescendo alguns rumores de que poderiam estar em curso movimentações internas para tentar derrubar Luís Montenegro. Colocavam-se, essencialmente, dois cenários: o PSD indicava outro primeiro-ministro para se manter no Governo (solução Durão Barroso-Santana Lopes) ou, havendo dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições antecipadas, as tropas anti-Montenegro organizavam-se para tentar indicar outro candidato a primeiro-ministro que não o atual líder social-democrata.

De resto, prova provada de que esses rumores foram chegando à cúpula do partido foi o cuidado que Hugo Soares teve em dizer, em entrevista à SIC Notícias, logo na terça-feira, que, em caso de eleições antecipadas, não haveria outro candidato que não Luís Montenegro. Esta quarta-feira, a poucas horas do debate da moção de censura, as estruturas distritais e regionais do partido emitiram um comunicado conjunto para manifestarem o “total apoio” a Luís Montenegro. Por outras palavras: não há qualquer espaço para dissidências.

O Observador sabe que Pedro Passos Coelho não deu qualquer sinal de que está disposto a ser opção para esta fase do partido e terá vontade de ficar quieto no seu canto — o que inviabiliza, naturalmente, qualquer tese conspirativa que o envolva. O mito sebastiânico terá, mais uma vez, de esperar

Partido deu sinal de unidade

Já depois do debate no Parlamento, em declarações aos jornalistas, Hugo Soares falou abertamente do papão que atormenta (e atormentou sempre) a atual direção social-democrata. Sem esconder alguma irritação, o secretário-geral do PSD atirou a matar: “É evidente que se o PS provocar uma crise política, que é disso que se trata, o PSD apresentará o seu melhor, Luís Montenegro. [Em resposta à pergunta], quem é que fala em Pedro Passos Coelho? É que eu não conheço ninguém que fale”.

No Parlamento, Luís Montenegro desfez qualquer tipo de tabu que pudesse existir e, entre a espada e a parede, escolheu a espada: anunciou que se vai sujeitar a uma moção de confiança, que será presumivelmente chumbada — o que resultará necessariamente na queda do Governo. O facto de não ter adiado por muito mais tempo esta decisão permitiu a Montenegro precipitar o calendário (controlando-o a seu favor) e reduzir qualquer margem que pudesse existir (e ela já era curta) para outro tipo de soluções mais criativas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O contrário — ficar à espera de ser cozido em lume brando para finalmente apresentar uma moção de confiança quando não houvesse outra alternativa — só traria mais desgaste ao primeiro-ministro, ao Governo e ao PSD. Pior: daria margem para que a oposição que existe (marginal, mas existe) se organizasse em torno de um candidato alternativo a primeiro-ministro — Pedro Passos Coelho, Carlos Moedas ou até Leonor Beleza. Assim, com o calendário a acelerar, mesmo aqueles que entendem que Montenegro não oferece as melhores condições de vitória nas próximas eleições, terão pouco espaço para grandes aventuras.

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Aliás, nem os mais críticos dos críticos de Montenegro se atravessam por um eventual golpe palaciano. “Há muito desconforto, mas as estruturas estão tomadas e há muita gente com receio das autárquicas. A única pessoa de que se fala é Passos Coelho, mas pode não querer nestas condições ou sequer ser possível. E Luís Montenegro vai tentar agarrar-se o mais que conseguir”, nota ao Observador um desanimado dirigente social-democrata que está desalinhado com a atual direção.

“Infelizmente, sim [Montenegro vai continuar]. Acho que isto é péssimo para o PSD. Precisávamos de um ciclo de poder enquanto partido, para provar o nosso ímpeto reformista”, lamenta outro crítico do atual presidente do partido. Não há margem para inventar alternativas a Luís Montenegro e, mesmo que houvesse, teria de ser em torno de uma figura realmente agregadora que, aparentemente, não quer ser envolvido nestas conspirações — Pedro Passos Coelho.

Entre os alinhados com Luís Montenegro, os avisos repetem-se: que ninguém pense em abrir guerras internas contra o atual líder do partido. E ninguém parece querer. Até porque, em ano de eleições autárquicas, ninguém quer arriscar estupidamente a cabeça. “Quem tentar, morre. Distritais e concelhias estão alinhadas e estamos com mais de 90% dos candidatos às Câmaras escolhidos. Há sempre lealdade. Fala-se de Pedro Passos Coelho? Pois, mas não tem tempo, nem condições”, atira um destacado dirigente social-democrata.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

De Norte a Sul do país, vai-se repetindo o mesmo mantra. “Vamos todos juntos e unidos com o nosso homem. Isso [guerra interna] não faz sentido nenhum. Temos um primeiro-ministro que está a ser atacado enquanto homem, enquanto marido e enquanto pai. Temos argumentos. E vamos para votos sem receios”, exalta um influente dirigente social-democrata da poderosa estrutura do PSD/Lisboa. “Não há margem para guerras internas. O partido está muito unido. Como já não estava há muito tempo”, concorda um importante dirigente do PSD/Porto.

Das estruturas do PSD de Braga e de Aveiro, que completam o top 4 das distritais determinantes para a eleição de qualquer presidente social-democrata, surgem as mesmas garantias: não há qualquer espaço para travar Luís Montenegro de se recandidatar ao cargo de primeiro-ministro. Pelo contrário: genericamente, e mesmo aqueles que não gostaram de ver os “erros” cometidos por Luís Montenegro ao longo de todo o processo, continuam a achar que o atual presidente do partido continua a ser o maior ativo para enfrentar as próximas eleições.

"Quem tentar uma guerra interna, morre. Distritais e concelhias estão alinhadas e estamos com mais de 90% dos candidatos às Câmaras escolhidos. Há sempre lealdade. Fala-se de Pedro Passos Coelho? Pois, mas não tem tempo, nem condições", atira um destacado dirigente social-democrata

Passos não quer, Moedas deu prova de lealdade

Depois, há que tirar uma coisa de cima da mesa: o Observador sabe que Pedro Passos Coelho não deu qualquer sinal de que está disposto a ser opção para esta fase do partido e terá vontade de ficar quieto no seu canto — o que inviabiliza, naturalmente, qualquer tese conspirativa que o envolva. O mito sebastiânico terá, mais uma vez, de esperar.

A outra opção mais sólida — Carlos Moedas — pôs-se fora de qualquer manobra desse género ao aceitar o convite da SIC Notícias para uma entrevista logo no dia em que o calendário político se precipitou. O presidente da Câmara de Lisboa decidiu assim dar uma prova de absoluta lealdade a Luís Montenegro e apostar todas as fichas no ataque ao PS — ele que terá, em setembro, um teste autárquico importante e que está consciente de que qualquer resultado nas legislativas influenciará, mesmo que indiretamente, o seu resultado.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Leonor Beleza, promovida a primeira vice-presidente do PSD no último Congresso do partido, foi atirada publicamente para esta discussão por uma figura estranha ao universo social-democrata: foi o socialista José Luís Carneiro, adversário interno de Pedro Nuno Santos nas últimas diretas do PS, quem deu voz à hipótese “Leonor Beleza” como possível sucessora de Luís Montenegro enquanto primeira-ministra de transição. Não há qualquer margem para que isso possa acontecer.

Em cima de tudo isto, há e havia sempre Marcelo Rebelo de Sousa. Mesmo depois de a moção de confiança ser chumbada, o Presidente da República não tinha necessariamente de dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas — poderia sempre convidar o PSD ou PS apresentar um novo primeiro-ministro, que teria de se sujeitar depois ao teste do Parlamento.

Acontece que Marcelo acabou com essa ideia rapidamente: assim que a discussão parlamentar desta quarta-feira terminou e o Presidente da República falou aos jornalistas, foi para sugerir abertamente que vai convocar de novo eleições e até para apontar o mês de maio como calendário mais provável. Dito de outra foram, Luís Montenegro, Pedro Nuno Santos e André Ventura estão condenados a enfrentarem-se mais uma vez.

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