(Artigo em atualização ao longo do dia)

É um clássico das campanhas do Bloco de Esquerda. O mega-almoço em Lisboa, na Sala Tejo do Altice Arena, reuniu este sábado cerca de 900 apoiantes vindos de vários pontos do país. Por coincidência, este ano acontece no mesmo dia em que as atenções de muitos portugueses (e eleitores) estarão centradas na luta pelo título de campeão nacional de futebol. Mas os bloquistas também traziam as suas jogadas estudadas. A primeira era simples: começar os discursos apenas “depois de servida a sopa”, não fosse a fome dos presentes tornar-se em impaciência. “Isto é para nos acalmar“, adivinhou-se numa das mesas do fundo da sala.

Na equipa escolhida pelo Bloco de Esquerda para atuar neste início de tarde quase não houve poupanças. As estrelas do plantel subiram ao palco: Catarina Martins, Marisa Matias, Mariana Mortágua e Pedro Filipe Soares. E ainda houve espaço para uma jovem promessa aparecer. Miguel Martins, de 18 anos, é um dos candidatos da lista do partido a estas eleições e estreou-se logo num dos maiores palcos do partido.

Cada tinha uma função a cumprir. Mariana Mortágua entrou com indicações para exercer uma pressão alta no discurso sobre evasão fiscal. Apostada em abrir brechas na narrativa dos adversários, a deputada — que ficou conhecida depois das suas exibições na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES — foi tentando encontrar espaços para faturar. “Os novos donos disto tudo fazem de Portugal o seu quintal, mesmo tendo morada na Holanda e contas na Suíça“, disparou.

A atuação parecia agradar à plateia, que ia agitando as bandeiras por cima das cabeças. Saiu Mariana Mortágua e entrou o experiente Pedro Filipe Soares. O líder parlamentar bloquista pausou o ritmo acelerado que Mariana Mortágua imprimira ao longo da sua intervenção. Num exercício de contenção, moderou o discurso e lembrou as conquistas do partido ao longo da legislatura. “Fomos nós que mostrámos que havia alternativa”. Um drible clássico, que não fez o deputado brilhar mas que não comprometeu a equipa.

Entrava-se na reta final do almoço quando Catarina Martins assumiu o púlpito, substituindo Pedro Filipe Soares ao som da “No Cars Go”, dos Arcade Fire. “Eu não quero nenhum empurrão, não quero nenhum empurrão/Vamos fazer isto de uma forma ordeira/Mulheres e crianças, vamos embora!”, canta Win Butler. Uma espécie de apelo que a líder do partido pediria emprestado à banda britânica durante o seu discurso.

A coordenadora do BE já apareceu algumas vezes ao longo da campanha e por vezes a sua exibição ofuscou a de Marisa Matias, que se apagava nos instantes finais. Havia novamente esse risco. Catarina Martins tinha entrado claramente para fazer a diferença. Depois de alguns tiros perigosos chegou o mais eficaz. “O apelo que faço é que quem confiou no Bloco de Esquerda em 2015 e quem votou em Marisa Matias em 2016 não fique em casa“, disse, aqui pedindo a deixa emprestada a uma outra canção, esta futebolística, do Sporting — “Só eu sei porque não fico em casa”, canta-se em Alvalade desde 2002.

A líder do Bloco de Esquerda foi continuando a insistir e no fim do seu momento declarou quem será o MVP destas europeias. “O voto que conta é no Bloco de Esquerda, é na Marisa Matias, a campeã do clima, a campeão dos Direitos Humanos”. A sala levantou-se e aplaudiu. Estava feita a assistência ideal para que a cabeça-de-lista do BE assumisse as rédeas do que restava do almoço.

Enquanto as colunas projetavam o tema “Seven Nation Army”, dos White Stripes, muito dada a adaptações, Marisa Matias apareceu no palco depois de a líder do partido lhe ter cedido o lugar. “Eu vou lutar contra todos eles/Um exército de sete nações não consegue parar-me”, canta Jack White. Quando a música parou de tocar, os pulmões dos presentes, qual estádio de futebol, ocupavam o silêncio imitando as emblemáticas sete notas da introdução da canção. “Ma-ri-sa-Ma-ti-aaas”. Iam cantando. “Magnífico”, agradeceu a eurodeputada já aos microfones.

Marisa Matias apelou a uma “nova Europa da cooperação”, que “só a esquerda” pode construir. Acusou PS, PSD e CDS de “festival de hipocrisia” e garantiu que o seu partido sempre foi coerente ao defender “na nossa terra” o que defende na Europa. Terminou com uma frase orelhuda: “O medo não pode ter tudo, este é ainda o tempo da esperança”.

No fim, a comitiva bloquista subiu ao palco e, de braços dados, abanaram-se ao som do hino do partido. O resto do almoço foi servido para depois começar a habitual arruada pela zona do Parque das Nações, em Lisboa.