Manuel Molarinho não se cansa de lançar perguntas. Perguntas a ele próprio, à comunidade, ao planeta, perguntas que o levam à revolta e também ao conforto e que nunca se esgotam nessa incessante vontade de perceber o nosso papel no mundo, as nossas limitações, o nada que está para lá do visível. Suicídio Comercial é, nesse sentido, um grande compêndio de perguntas, que às vezes nos levam ao desespero, à asfixia, mas que deixam entreabertas as frinchas da esperança para nos consolarmos num grande abraço coletivo e catártico.
“[O álbum] é uma conversa connosco sobre o que nos faz mexer e inquietar e, por outro lado, é o aceitar daquilo que somos e o reconhecimento de que não somos capazes de tudo. Somos pequeninos e muito sensíveis, é normal que soframos com as coisas e que não tenhamos respostas para tudo”, diz o vocalista e baixista dos Baleia Baleia Baleia, formação que partilha com o baterista, técnico de som e produtor Ricardo Cabral e que lançou neste mês de fevereiro o segundo álbum.
Quem os conhecia do seu disco de estreia homónimo, apresentado em 2018, certamente já saberia que da pena, dos pedais e das baquetas deste duo poderia esperar punk cru e letras trabalhadas com a dose certa de ironia (à maneira de JP Simões, Rui Reininho ou Ana Deus, por exemplo) que, ao invés de nos espetarem com o óbvio, qual bolo atirado à cara, nos provoca o riso nervoso e o desconforto necessários para que a reflexão não morra à nascença, logo na primeira estrofe.
[o vídeo de “Egossistema”:]
“Não me identifico com o ponto de alguns artistas que eu adoro, como por exemplo Jello Biafra ou mesmo os Fugazi, em certas coisas. São grandes referências para mim, mas eu não consigo falar com essa autoridade. Erro muito mais vezes do que eles e sinto-me muito mais contraditório. Por outro lado, acho que não funciona o confronto sociopolítico a partir do dedo acusatório. Sinto que já funcionou, mas acho que agora não é eficaz”, reflete Manuel Molarinho, explicando que nos Baleia Baleia Baleia a autocrítica é uma constante, bem como a preocupação em dar uma “capa leve” aos assuntos que retratam.
Voltemos então aqui à ironia, esse recurso linguístico que Manuel e Ricardo usam para gozar consigo mesmos e para abordar temas como a solidão, o egocentrismo, a gentrificação ou a síndrome do impostor de uma forma que não coloque trincheiras entre as pessoas, antes que as aproxime e as inclua. Se a letra entra logo a matar, diz Molarinho, então é mais difícil desconstruir estes temas. “Gosto muito daquela ideia dos livros muito densos, mas que têm uma capa apelativa que te mentem um bocadinho”, ilustra, ressalvando, contudo, que não querem aligeirar conteúdos nem estupidificar as pessoas, apenas tornar as coisas mais convidativas.
Por isso é que “Babes do Zodíaco”, faixa de abertura do disco, nos coloca no centro de um encontro, onde o interlocutor puxa do seu signo em Leão com lua em Sagitário para soltar a verborreia, enquanto olha para um rosto que lhe parece igualmente indiferente, mas que o empurra nessa demanda constante por carinho. Assim que somos enquadrados nesta cena, fica claro que o tema não é sobre horóscopos, mas sim sobre a solidão, esse estado de espírito duro e retorcido que muitas vezes nos dilui da nossa identidade.
Os dois primeiros versos, “Não me está a parecer / que isto vá resultar”, repetidos até à exaustão logo no arranque, ficam a reverberar no nosso subconsciente, antevendo o desfecho da conversa e, talvez, antevendo que Suicídio Comercial não nos vai desvendar o segredo da vida e da felicidade eternas, antes lançar-nos para um sistema de equações de infinitas soluções, zero certezas, só dúvidas, angústia e diversão também, com muita fantasia à mistura.
“Adoramos bonecada, a ideia de que na animação não há limites e a liberdade é absoluta”, atira Molarinho, para quem “South Park” é uma influência. Mais do que a música, diz mesmo – destacando pelo meio nomes como Death From Above, Variações, Conferência Inferno ou Lightning Bolt – os Baleia Baleia Baleia vão buscar inspiração a tudo o que os rodeia, seja Camus, os relatórios de Diogo Batáguas, a Fórmula 1, “que o Ricardo adora”, ou a NBA, esse universo transcendental onde homens com dois metros, de bola na mão, ganham asas e voam.
Neste processo de reflexão e de brincadeira, há que referir também o filósofo e pensador Agostinho da Silva, sobretudo a partir do modo como ele olhava para o Homem, não tanto como um criador, “mas como uma antena que quanto mais aberta estiver, mais consegue captar”. Eles, Manuel e Ricardo, abriram-na bem, tanto do ponto de vista conceptual, como lírico e sonoro. “Para mim isso nem tem nada de místico, porque acho que todo o trabalho colaborativo é assim. É como se existisse uma entidade que está a falar connosco e nós, como banda, somos o canal”.
▲ Manuel Molarinho e Ricardo Cabral: são eles os Baleia Baleia Baleia, é com estes dois que tudo acontece, seja em estúdio ou no palco
O álbum, embora vertiginoso da primeira até à décima faixa, está dividido tematicamente em duas fases: “As primeiras seis músicas têm um olhar mais virado para o mundo e as últimas quatro mais para dentro”, refere Molarinho. É na primeira parte que encontramos a já citada “Babes do Zodíaco”, como a ofegante “Venham as Máquinas”, uma profecia que nos quer libertar da repetição dos tempos modernos de Charles Chaplin, devolvendo o ócio, a fruição e o pensamento livre ao Homem e que imagina uma sociedade onde a distribuição de riqueza não é tão desigual; ou a “O Monstro Precisa de Amantes”, lembrando Três Tristes Tigres na sua interpretação elástica e nos loops do baixo que, nas mãos de Molarinho e com a sensibilidade de Ricardo, se traveste e multiplica em 1001 texturas ao longo do disco.
Esta complexidade textural é, aliás, uma das caraterísticas de Suicídio Comercial e que o difere do álbum lançado em 2018, no qual o som é mais direto. “O disco é de continuidade, mas houve muita preocupação com algumas coisas em comparação com o disco anterior”, diz, referindo-se a detalhes como o posicionamento dos microfones em relação aos amplificadores, o cuidado com as distorções, a manipulação de pedais e o trabalho de sampling – numa das faixas encontramos, inclusivamente, uma tirada em espanhol captada diretamente do google tradutor. “Há muita experimentação também”, aponta, destacando igualmente a energia do álbum: “Este disco é mais a nossa energia ao vivo, aquela energia fundamental do punk.”
É dessa energia, dessa aceleração frenética, que nasce “Egossistema”, sátira afiada ao incomensurável ego pós-moderno e à cegueira provocada pelas redes sociais. “O conceito dos 15 minutos de fama de Andy Warhol já foi destruído. Agora são 15 segundos de fama por dia.” Já “Relaxa Que Encaixa” é o desígnio de um novo deus entretido a pregar o pensamento positivo, num clima em que as leis do mercado são mandamentos, transformam cidades em marcas e obrigam as suas gentes a atravessar o rio para irem viver para a outra margem. “Não me sinto com autoridade suficiente para falar como é que se governa uma cidade, mas preocupa-me a forma como o Porto se está a desenvolver, porque sinto que assisti ao mesmo em Lisboa”, diz Manuel, alfacinha de nascença, que viveu na Rua da Prata – esbugalha os olhos como se quase duvidasse das suas palavras – e que se mudou em 2013 para o Porto, fugindo exatamente da gentrificação.
“Esta ideia de que o turismo é a única solução para a cidade assusta-me um bocadinho”, desabafa, colocando-se, uma vez mais, como parte do problema – “adoro ir ao RO comer o meu ramen” – ao mesmo tempo que assume a sua profunda impotência para combater a situação. “As lutas na rua parecem cada vez mais insuficientes.”
Isto leva-nos – já depois de se lembrar do senhor da mercearia que todos os dias lhe dá os bons dias ou da senhora do café que sabe de cor o seu nome – até “Politicamente Correcto” e às lutas políticas dos dias de hoje. Molarinho, conta-nos, é filho de pais que integraram o Partido Comunista Português e que foram torturados pela PIDE. A liberdade de expressão não é para ele um tema leviano, “cresci com esse valor”. “Tenho o direito de dizer a minha opinião em voz alta e houve uma altura em que comecei a medir se dizia a minha opinião ou não. Foi aí que me passou a preocupar a forma como estamos a travar lutas políticas”, desabafa, defendendo que a forma como lutamos não pode ser de facas apontadas, “porque assim estamos simplesmente a ostracizar e a perder a capacidade de seduzir”.
Seduzir é, precisamente, a aura que desponta no final do disco, já depois de atravessado todo o desespero existencialista, a descrença e a autossabotagem que a tríade “Jangada do Vazio”, “Peito Feito” e “Neura de Impostor” preconiza. Depois de cantarem “não sei dizer o que estou aqui a fazer / quero gritar mas nem dá para respirar”, asfixiando-nos nessa mensagem, Manuel e Ricardo vêm à tona com “Exorcismo”, faixa saída das vísceras e que nos mantém vivos, apesar de tudo. “É um pedido de ajuda, porque estamos a gritar, mas, por outro lado, convidamos toda a gente a gritar connosco”.
[ouça “Suicídio Comercial” na íntegra através do YouTube:]
No fundo, é a forma de os Baleia Baleia Baleia mostrarem empatia, de se colocarem num plano totalmente emocional, esse talento que a lógica e o raciocínio, por muito apurados que sejam, nunca conseguem explicar na sua plenitude humana, animal, terrena e cósmica. A sedução consubstancia-se em palco, onde banda e público estão cara a cara, fazendo da fragilidade e das inquietações força coletiva.
Depois de Porto, Barcelos, Guimarães e Aveiro, seguem-se o Village Underground, em Lisboa no dia 24 (quinta-feira), a Sociedade Harmonia Eborense, em Évora, no dia 25 (sexta-feira) e o Gasoline, no Barreiro, no dia 27 (domingo). Para já, a tour tem sido “um sonho” para os Baleia Baleia Baleia, que têm transformado cada concerto num exercício de liberdade e, acima de tudo, de libertinagem comunitária. “Queremos que os concertos sejam um espaço em que não esteja lá ninguém a dizer como é que tu te deves comportar. É precisamente ali que tu te libertas.”
As pessoas têm-se libertado e eles também, “tem sido melhor do que poderíamos imaginar”. Não raros são os espetáculos que chegam quase às duas horas de duração e à rouquidão de Molarinho. Quando a vontade de gritar é incontrolável, não há amarras que a contenha. Que o punk continue a escangalhar corações e a abraçar-nos com a sua revolta permanente. Afinal, não estamos sozinhos com as nossas dores.