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▲Ilustração de Gustave Doré mostra o momento em que Sansão destrói o templo de Gaza

Wikimedia Commons

▲Ilustração de Gustave Doré mostra o momento em que Sansão destrói o templo de Gaza

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Sansão e Dalila, a Terra Prometida e as profecias de destruição. A longa história de Gaza na Bíblia

É uma das primeiras cidades mencionadas na Bíblia — logo no Génesis —, é palco de múltiplos episódios bíblicos ao longo de milhares de anos, e sobreviveu até hoje: a história bíblica de Gaza.

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As horas que antecederam o arranque da ofensiva terrestre israelita contra a cidade de Gaza, o principal centro urbano do enclave palestiniano que desde outubro de 2023 é palco da sangrenta guerra entre Israel e o Hamas, foram de enorme ansiedade para os responsáveis da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. No dia anterior, as forças israelitas emitiram uma ordem de evacuação para uma zona da cidade que incluía um armazém daquela instituição francesa, que trabalha desde o final do século XIX na Faixa de Gaza, dedicando-se à investigação arqueológica de um território com mais de cinco milénios de história humana.

Assim que soube da ordem de evacuação, o diretor da escola, o frade dominicano Olivier Poquillon, multiplicou-se em contactos diplomáticos com a UNESCO, o governo francês, o Patriarcado Latino de Jerusalém e o Vaticano — e conseguiu comprar algumas horas a Israel. A história dessas horas é contada pelo The New York Times, que detalha os esforços de Poquillon para encontrar, em tempo recorde, uma equipa capacitada para encaixotar milhares de artefactos arqueológicos e camiões para os transportar para um espaço relativamente seguro, um edifício que, apesar de tudo, também não escaparia a ataques israelitas.

Mas o sucesso desta operação apenas coloca em evidência a quantidade de património histórico que foi impossível salvar até agora. De acordo com a UNESCO, só entre 7 de outubro de 2023 e 18 de agosto de 2025, já tinham sido registados danos em 110 lugares protegidos na Faixa de Gaza, incluindo 13 sítios religiosos, 77 edifícios de interesse histórico e/ou artístico, três armazéns de objetos culturais, nove monumentos, um museu e sete sítios arqueológicos.

epa12382553 Smoke rises after an Israeli airstrike on the outskirts of Gaza City, as seen from an undisclosed location on the Israeli side of the border, 16 September 2025. Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu confirmed during a court appearance that the Israeli military has begun a major operation in Gaza City. More than 64,800 people have been killed in the Gaza Strip since October 2023, according to the Palestinian Ministry of Health.  EPA/ATEF SAFADI

▲ A cidade de Gaza, povoação mencionada no livro bíblico do Génesis, está a ser alvo de uma ofensiva terrestre por parte das forças israelitas

ATEF SAFADI/EPA

Ao fim de décadas de guerra armada na região, a palavra Gaza é já um sinónimo do conflito israelo-palestiniano, de uma tensão permanente entre israelitas e palestinianos, entre judeus e árabes, transcendendo as fronteiras do Médio Oriente para se tornar num dos tópicos mais divisivos do mundo contemporâneo. As imagens que nos chegam daquele lugar são, há vários anos, as de um enclave limitado por muros, densamente povoado e praticamente destruído pela guerra. Gaza tornou-se símbolo de uma guerra distante e, ainda assim, permanentemente presente — e é difícil pensar hoje na Faixa de Gaza como algo mais que não o palco desse conflito interminável.

A verdade, porém, é que por trás desse palco de um conflito interminável está um lugar com uma história milenar, habitado ao longo de séculos por inúmeros povos numa sucessão de conflitos e conquistas cujos ecos chegam até aos dias de hoje. Para compreender a importância histórica e cultural daquele lugar não é preciso ir muito longe. Basta olhar para os textos que se encontram na raiz das três grandes religiões monoteístas e que estarão, muito provavelmente, guardados numa prateleira na casa da maioria dos leitores deste artigo: os livros da Bíblia.

De acordo com a UNESCO, só entre 7 de outubro de 2023 e 18 de agosto de 2025, já tinham sido registados danos em 110 lugares protegidos na Faixa de Gaza.

Através dos textos bíblicos (que incluem lendas e mitos, mas também epopeias, poemas, códigos legais e alguns relatos históricos) é possível encontrar Gaza num lugar de destaque em muitos dos episódios que fazem parte do imaginário coletivo de mais de metade da população mundial: Gaza é uma das cidades mencionadas logo no livro do Génesis e é uma das poucas cujo nome sobreviveu até aos dias de hoje; situada numa importante rota comercial, Gaza é mencionada várias vezes nas histórias bíblicas; é lá que decorre, por exemplo, o célebre episódio lendário de Sansão e Dalila; Gaza surge como uma das cidades dos filisteus, povo entretanto desaparecido mas cujo nome daria origem ao nome da província romana da Palestina e que perdurou até à atualidade; a cidade foi também várias vezes condenada pelos profetas.

Até aos dias de hoje perduram também as dúvidas históricas — com ecos bem atuais num conflito em que se multiplicam as referências bíblicas como justificação para atos de guerra — sobre se Gaza alguma vez fez efetivamente parte da terra prometida por Deus a Abraão e habitada pelo povo hebreu durante os reinados de monarcas como David e Salomão.

Gaza na terra prometida a Abraão?

A primeira referência à cidade de Gaza na Bíblia surge logo no livro do Génesis. No décimo capítulo, um texto de carácter lendário, é relatado como, depois do dilúvio e da conhecida história da arca, a terra é repovoada a partir da descendência dos três filhos de Noé: Sem (de quem descenderiam os chamados povos “semitas”), Cam e Jafet. É na descendência deste segundo, Cam, que se encontra outra personagem fundamental, Canaã, o epónimo mítico do povo cananeu, que povoou aquela região. Em Gn 10:19 aparece a primeira referência concreta a Gaza: “A fronteira dos cananeus estendia-se de Sídon na direção de Guerar até Gaza e em direção de Sodoma, Gomorra, Adma e Ceboim, até Lecha.”

Mais à frente no mesmo livro, no 15.º capítulo, é relatada a aliança de Deus com Abraão, o momento fundador da tradição abraâmica, selado com a promessa feita por Deus de um território para a sua descendência — a Terra Prometida. Na frase atribuída à voz divina pelo livro do Génesis, em Gn 15:20, Deus promete a Abraão um território que inclui também a terra dos cananeus, pelo que se pressupõe que Gaza se encontra dentro desse território. Também no livro do Êxodo, que relata a mítica saída do povo hebreu do Egipto em direção à Terra Prometida, é dito (Ex 23:28-31) que Deus promete a Moisés que expulsará o povo cananeu daquele lugar para que os hebreus ali se instalem.

“Há no Pentateuco várias referências à cidade de Gaza, mas há uma grande ambiguidade sobre se Gaza pertence ou não à Terra Prometida”, explica ao Observador o padre jesuíta Francisco Martins, professor do Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. “Uma coisa é pertencer a Canaã, que é o que se pressupõe na referência em Génesis. Outra coisa é que, realmente, seja uma cidade a conquistar verdadeiramente. Essa ambiguidade atravessa um bocadinho a Bíblia.”

"Há no Pentateuco várias referências à cidade de Gaza, mas há uma grande ambiguidade sobre se Gaza pertence ou não à Terra Prometida. Uma coisa é pertencer a Canaã, que é o que se pressupõe na referência em Génesis. Outra coisa é que, realmente, seja uma cidade a conquistar verdadeiramente. Essa ambiguidade atravessa um bocadinho a Bíblia."
Francisco Martins, padre jesuíta e professor no Pontifício Instituto Bíblico

Essa ambiguidade pode notar-se nas referências a Gaza nos livros de Josué e dos Juízes, que contam a história do povo hebreu após a saída do Egipto e a chegada à Terra Prometida. Josué, o sucessor de Moisés, “não conquista Gaza”, explica o biblista português, especializado no Antigo Testamento e autor do livro A Bíblia Tinha Mesmo Razão?, em que explora a dimensão histórica ou lendária dos vários textos bíblicos: “No livro de Josué, no capítulo 10, diz que ele conquistou até à fronteira de Gaza.”

Mais à frente, é só no livro dos Juízes (Jz 1:18) que é referida, finalmente, a conquista de Gaza pela tribo de Judá, uma das 12 tribos de Israel, que ocupou a região sul daquele território — algo que acontece, de acordo com a narrativa bíblica, já após a morte de Josué, durante a instalação do povo hebreu em Canaã. “Judá conquistou Gaza com os seus territórios”, lê-se nesse trecho bíblico. Contudo, tudo indica que se trata de uma incorreção histórica. A própria nota de rodapé sobre este versículo na edição da Conferência Episcopal Portuguesa explica que se pensa que Judá não tenha conquistado a cidade em nenhum momento.

“A parte mais interessante é que a versão grega e a versão de Flávio Josefo dizem que não foi conquistada. Só a versão hebraica é que o diz. Até neste texto, que é o texto onde fica mais claro que Gaza teria sido conquistada naquele primeiro processo de conquista da terra — e nem vamos aqui falar sobre o carácter mitológico ou lendário desse processo —, os diferentes textos têm divergências”, destaca o biblista. “Provavelmente, eu diria que a versão grega e a versão de Flávio Josefo, que são mais antigas, conservam ou dão testemunho de um texto hebraico mais antigo. O texto hebraico massorético, que é o que nós recebemos depois na versão rabínica, é um texto que provavelmente foi modificado.”

Para Francisco Martins, a grande probabilidade de as tribos de Israel nunca terem conquistado Gaza encontra sustentação no facto de toda a informação disponível sobre o período da monarquia revelar que nem no período da sua extensão máxima o império de Salomão incluiu Gaza. Os mapas do império de Salomão, elaborados a partir da informação do Livro dos Reis, deixam de fora aquela pequena faixa litoral que inclui a cidade de Gaza e as outras cidades filisteias. “Gaza tinha um rei cliente, um rei vassalo”, sublinha o biblista. “Mas não se considera que faça parte do reino propriamente dito. São, de alguma forma, reinos clientes ou reinos vassalos à volta.”

▲ "A Partida de Abraão", de József Molnár (1850), retrata o patriarca Abraão em viagem rumo à terra que lhe fora prometida por Deus, segundo o Livro do Génesis

Wikimedia Commons

“David submeteu os filisteus, mas não parece ter sido no sentido de ocupar aquilo com membros do reino. Há outras passagens que dão a entender que a Filisteia nunca foi ocupada por membros nem de Judá nem de Israel. Os autores bíblicos têm uma certa noção de que os filisteus são um bocadinho à parte e que se mantiveram à parte”, destaca Francisco Martins, sublinhando que esta ambiguidade continua atual. “Não sei se realmente quem quer ocupar Gaza está muito interessado neste género de nuance. É sempre possível encontrar justificação.”

As cinco cidades dos filisteus

Na maioria das vezes, Gaza é referida na Bíblia como parte da chamada Pentápole filisteia, ou seja, as cinco cidades do povo filisteu: Gaza, Ascalon, Asdod, Gat e Ecrom. Este povo, que ocupou aquela região entre os séculos XII e VII a.C., será um dos mais conhecidos da Bíblia: subjugado pelo rei David (o famoso Golias era um filisteu) e posteriormente destruído pelos babilónios, os filisteus deixaram uma marca na etimologia da região. Foi por causa da presença dos filisteus que a zona adquiriu designações como “Peleset” ou “Palastu”, encontradas em fontes egípcias e assírias da época.

Muito mais tarde, no século II d. C., os conquistadores romanos viriam a recuperar o termo para batizar a região sul da província da Síria como “Síria Palestina” — e a palavra fez o seu caminho até a atualidade, representando de forma genérica aquela região sob vários impérios e lideranças.

Ainda assim, os filisteus não devem ser confundidos com eventuais antepassados históricos dos atuais palestinianos. A origem do povo filisteu está também envolvida em várias incertezas, como explica o padre Francisco Martins, apontando sempre a cautela que é necessária para analisar textos em que a fronteira entre os factos históricos e os relatos de caráter lendário e mítico (escritos várias centenas de anos depois, muitas vezes refletindo o contexto do momento da redação) é bastante ténue.

Se a primeira referência a Gaza aponta para uma cidade que integra o território dos cananeus, os tais descendentes do mítico Cam, logo no livro do Deuteronómio (Dt 2:23) é descrita a chegada àquela região dos “caftoritas, provenientes de Caftor”. O texto bíblico aponta este povo como um descendente de Caftorim, também ele um descendente de Cam; hoje em dia, acredita-se que Caftorim seja um epónimo usado para descrever a atual ilha grega de Creta.

De acordo com Francisco Martins, acredita-se que no século XII a.C. aquele povo se tenha instalado na região dos cananeus, no contexto de uma migração mais vasta dos chamados “povos do mar”, que poderá ter sido provocada por razões climáticas. “São povos que chegam da zona do Egeu”, sublinha o biblista. “Creta, mas também daquelas zonas todas da Turquia, Anatólia, etc. As nossas fontes principais sobre esta migração são as fontes egípcias, porque o Egipto, até àquele momento, controlava a zona de Canaã, ou do Levante. Temos a impressão de que a chegada destes povos é, inicialmente, uma chegada relativamente pacífica. Mas são uma quantidade grande e isso provoca aquilo a que chamamos o colapso das cidades-estado cananeias, no século XII a.C., e também provoca o recuo do Egipto, que controlava aquela parte toda, em disputa com o Império Hitita, e volta àquilo que são as fronteiras naturais do Egipto, saindo do Levante.”

O mapa que mostra as antigas cidades filisteias no Médio Oriente, sobreposto ao mapa com as fronteiras atuais de Israel e dos territórios palestinianos:

“Há uma grande discussão sobre se [os cananeus] colapsaram por causa dos povos do mar ou se colapsaram por outras razões. Não sabemos. O que é facto é que a Bíblia reconhece que este povo acaba por estar naquela zona”, frisa Francisco Martins.

É nessa migração que se encontra a origem dos filisteus, que fazem crescer as cinco importantes cidades de Gaza, Ascalon, Asdod, Gat e Ecrom, mencionadas em grupo em várias passagens bíblicas (como Js 13:13 e 1Sm 6:17). “Estas cidades, de alguma forma, são uma unidade. Embora, provavelmente, cada uma das cidades tivesse uma espécie de rei, elas eram cinco cidades-estado que estavam numa espécie de liga entre elas”, destaca Francisco Martins, sublinhando a importância geográfica e comercial da Pentápole: era por ali que passavam as duas principais rotas comerciais da época, a Via Maris e a Rota do Rei. Estas rotas decisivas ligavam o Egipto a Damasco — e, a partir de Damasco, à Mesopotâmia — e passavam por Gaza e pelas restantes cidades filisteias, dando-lhes uma grande relevância estratégica e, sobretudo, uma grande riqueza.

Este contexto é fundamental para compreender como, nos relatos bíblicos, os filisteus são sistematicamente retratados como o inimigo número um do povo hebreu, envolvendo-se em lutas constantes até à vitória protagonizada pelo rei David. No contexto da narrativa literária bíblica, o povo hebreu, depois de décadas sob escravidão egípcia, é libertado do jugo do faraó por Moisés, num acontecimento de enormes dimensões relatado no livro do Êxodo. No entanto, tudo indica que a história não terá sido exatamente assim. No seu livro A Bíblia Tinha Mesmo Razão?, o padre Francisco Martins explora a improbabilidade histórica daquele acontecimento e explica que é muito mais provável que por trás do relato do Êxodo tenha estado, por exemplo, a fuga de um pequeno grupo de escravos do Egipto que viu nesse sentimento de libertação a mão do seu deus — e que, séculos depois, o povo hebreu tenha escrito aquela história como uma epopeia, um relato mítico associado à fundação do seu povo.

Segundo o biblista, a história do Êxodo pode até ter acontecido exatamente ao contrário. De acordo com essa hipótese, os hebreus podem nem sequer ter sido escravizados no território do Egipto, mas sim subjugados pelo faraó na sua própria terra — e a libertação ter acontecido na sequência de uma retirada dos egípcios e de um recuo das tropas do faraó. De qualquer modo, algum tipo de experiência de libertação terá estado nas origens longínquas do relato mítico da libertação do povo por Moisés.

O que é certo, explica Francisco Martins ao Observador, é que é altamente improvável que as lutas entre hebreus e filisteus tenham acontecido como diz a Bíblia. “Os filisteus têm uma espécie de função definidora, do ponto de vista literário, do que é Israel como povo e, sobretudo, como reino”, destaca o biblista, frisando que a identidade do povo hebreu se construiu, numa primeira fase, em confronto com os filisteus. “Tiveram um papel decisivo na definição inicial da identidade israelita. Alguns autores até dizem, embora isso hoje em dia seja bastante contestado, que o tabu da carne de porco se iniciou no confronto com os filisteus, que talvez comessem um pouco mais de carne de porco.”

A narrativa bíblica coloca o povo hebreu a chegar à Terra Prometida após o Êxodo e a ser atacado pelos vários povos que lá habitavam, incluindo os filisteus, para depois assumir o controlo de Canaã e ali se estabelecer progressivamente — num processo que terá um vértice na vitória do rei David e na construção do templo sob Salomão. De acordo com Francisco Martins, “as escaramuças, provavelmente, foram exatamente ao contrário do que diz a Bíblia”.

"A Bíblia diz que os filisteus atacaram as tribos de Judá e de Israel. Mas isto não faz nenhum sentido. Os filisteus eram ricos e tinham acesso a um porto. (...) Quem é que se vai dedicar a atacar meia dúzia de gatos pingados nas montanhas?"
Francisco Martins, padre jesuíta e professor no Pontifício Instituto Bíblico

“A Bíblia diz que os filisteus atacaram as tribos de Judá e de Israel. Mas isto não faz nenhum sentido. Os filisteus eram ricos e tinham acesso a um porto”, enquanto, nesta altura, as tribos de Israel seriam pequenos grupos “de uma espécie de meliantes” que habitavam na zona interior do território. “Quem é que se vai dedicar a atacar meia dúzia de gatos pingados nas montanhas?” De acordo com o biblista português, o mais provável é que aquelas tribos, que viviam nas montanhas, tenham feito “incursões em território filisteu, nestas cidades mais ricas”, incluindo a cidade de Gaza.

Atualmente, das cinco cidades filisteias, quatro situam-se em território israelita — Asdod e Ascalon são, na verdade, importantes cidades israelitas, enquanto Gat e Ecrom são apenas sítios arqueológicos — e apenas Gaza fica em território palestiniano.

A destruição do templo de Gaza por Sansão

É no contexto da permanente inimizade entre o povo hebreu e os filisteus que surge a história de Sansão, um dos mais conhecidos episódios lendários do Antigo Testamento — que o texto bíblico situa justamente na cidade de Gaza.

O episódio é relatado nos capítulos 13 a 16 do Livro dos Juízes, que retrata um período de transição bastante conturbado na vida do povo hebreu. Depois da libertação do Egipto e da instalação na Terra Prometida, as tribos de Israel não têm ainda a organização social mais rígida que surgirá com a monarquia — e vão, gradualmente, afastando-se de Deus e do cumprimento da lei, sendo oprimidas por outros povos da região e periodicamente salvas pelos juízes, figuras de liderança que resolvem as disputas surgidas no seio dos povos e que comandam o povo hebreu na luta contra os povos inimigos.

“Aquele período tem, provavelmente, um certo carácter lendário”, frisa Francisco Martins, sublinhando a “estrutura circular e repetitiva” do livro, organizado em torno de vários ciclos que se cumprem sempre da mesma forma: o abandono de Deus pelo povo hebreu, a subjugação por um povo estrangeiro, o pedido de ajuda a Deus, a salvação intermediada por um juiz e um período de paz de quarenta anos. “Chamamos a isto os ciclos do livro dos Juízes”, explica o biblista, acrescentando que o livro está construído numa trajetória descendente que culmina com o “caos total” que leva o último juiz, Samuel, a instituir a monarquia — inaugurada com o primeiro rei, Saul.

“O livro é uma espécie de descida ao caos que justifica a monarquia”, afirma Francisco Martins, sublinhando que é imediatamente antes do período do caos total que surge o ciclo do juiz Sansão. De acordo com o relato bíblico, Sansão era um nazireu, um homem consagrado a Deus fazendo votos de nunca cortar o cabelo, nunca beber vinho e nunca tocar num cadáver. Percebe-se, através do texto, que Sansão é dotado de uma força sobre-humana — e que a raiz dessa força é justamente essa consagração especial a Deus. Caso a quebrasse, por exemplo cortando o cabelo, perderia a força.

▲ Sansão capturado pelos filisteus em conluio com Dalila, numa pintura atribuída a Joos van Winghe (século XVI)

Wikimedia Commons

Segundo o texto do Livro dos Juízes, Sansão apaixonou-se por uma mulher filisteia, casou-se com ela e, no decurso das celebrações, fez uma aposta com os presentes no casamento. A aposta correu mal para Sansão e conduziu a uma espiral de violência que, em poucas linhas, coloca o hebreu a ser perseguido por milhares de filisteus. Sansão dirigiu-se para Gaza, depois de um primeiro episódio com uma prostituta, e acaba por se apaixonar por Dalila. Os filisteus aproximaram-se de Dalila para que ela levasse Sansão a revelar a origem da sua força sobrenatural. Ao fim de algumas tentativas, Dalila conseguiu convencer Sansão a revelar-lhe que a sua força residia no cabelo. Numa emboscada combinada com Dalila, os filisteus aproveitaram a noite para cortar o cabelo a Sansão — e conseguiram detê-lo, arrancar-lhe os olhos e escravizá-lo.

O texto acaba com a vingança de Sansão, levado para o templo de Gaza com o intuito de entreter todos os governadores dos filisteus e milhares de habitantes da cidade. Segundo o final do texto, Sansão invocou Deus e recuperou a força sobrenatural, usando-a para destruir o templo, matando todos os que lá estavam — incluindo a si próprio.

O biblista Francisco Martins sublinha que, do ponto de vista literário, a história de Sansão também “reflete uma certa ideia de que o conflito com os filisteus tem um carácter importante para as tribos de Israel e de Judá, para Israel como povo”. A história, de “carácter lendário”, está construída para terminar como “um trabalho inacabado” e para ajudar a construir a ideia de que Deus conduzirá o povo hebreu à vitória sobre os filisteus. “Sansão é aquele que começa a combater os filisteus. Isso, no fundo, cria a expectativa de que alguém acabe com eles, que será David”, sublinha.

“Naquela transição muito importante entre o período dos Juízes e a monarquia, os filisteus são o ‘outro’. Samuel também luta contra os filisteus, Saul morre a lutar contra os filisteus e, finalmente, David derrota os filisteus” num confronto que terá no enfrentamento com o gigante Golias o seu episódio mais célebre. Segundo Francisco Martins, “a narração está construída de tal forma que seja David a derrotar os filisteus, o que é também uma forma de elevar a figura de David”.

As profecias da destruição de Gaza

A cidade de Gaza é também mencionada várias vezes nos livros proféticos, um dos mais longos segmentos da Bíblia. Há referências àquela cidade filisteia nas profecias de Amós, Zacarias, Sofonias e Jeremias e são todas no mesmo sentido: Gaza será castigada, punida e destruída pelos seus pecados.

“Assim diz o Senhor: ‘Por três crimes de Gaza e por quatro não revogarei a sentença, por terem imposto o exílio completo ao povo, para o entregar a Edom. Lançarei fogo contra as muralhas de Gaza e devorará os seus palácios’”, lê-se no primeiro capítulo do Livro de Amós. Numa altura de grandes pecados e crimes, em que a aliança com Deus parecia já pertencer ao passado e em que o povo se afastava do cumprimento da lei divina, fazendo rituais pagãos nos santuários, o profeta Amós pregou várias invectivas contra os povos daquela região, incluindo Gaza e as restantes cidades filisteias.

No nono capítulo do livro de Zacarias surge uma nova profecia que visa as cidades filisteias: “Ascalon verá isto e ficará com medo e Gaza contorcer-se-á de dor; e também Ecron, pois a sua expectativa fica frustrada. O rei desaparecerá de Gaza e Ascalon não será habitada.” Este segmento do livro terá sido escrito por altura da intervenção de Alexandre Magno no Médio Oriente — que expandiu o mundo grego para aquela região e que incluiu também o conhecido cerco de Gaza — e, no texto, é feita a proclamação profética do triunfo do povo de Deus e da derrota dos povos que lutaram contra eles.

Também o livro de Sofonias, no segundo capítulo, inclui oráculos sobre a destruição de vários povos, como anúncio de reconstrução de caminho para a paz. “Então Gaza ficará abandonada e Ascalon, entregue à desolação; Asdod será expulsa a meio do dia e Ecron, arrancada pela raiz”, diz o texto. No 25.º e no 47.º capítulo do livro de Jeremias, por fim, surgem várias referências a Gaza no contexto de oráculos sobre um julgamento universal aos povos do Médio Oriente.

"Muitas vezes os profetas reconhecem que estes povos até estão a fazer o trabalho que Deus lhes pediu, estão a castigar Judá e Israel, que mereciam castigo. Mas, de forma muito comum, o que acontece é que, nas profecias contra as nações, há a ideia de que os povos exageraram no castigo. Que foram demasiado zelosos na forma de aplicar o castigo."
Francisco Martins, padre jesuíta e professor no Pontifício Instituto Bíblico

Francisco Martins diz que estes textos incluem-se todos nos chamados “oráculos contra as nações”, que são muito frequentes nos livros proféticos e que visam vários povos da região — sobretudo os assírios e os babilónios, principais responsáveis pela destruição do reino de Israel. De acordo com o biblista, estes textos compreendem-se no contexto da grande conflitualidade que marcou a região nos mil anos antes do nascimento de Jesus: vários impérios sucederam-se na zona e, por várias vezes, os reinos vassalos procuravam rebelar-se, deixar de pagar impostos, tornar-se independentes e mudar os equilíbrios de poder. Foi sempre nesses contextos que, pela voz dos profetas, foram surgindo invectivas contra os vários povos da região.

“Muitas vezes os profetas reconhecem que estes povos até estão a fazer o trabalho que Deus lhes pediu, estão a castigar Judá e Israel, que mereciam castigo. Mas, de forma muito comum, o que acontece é que, nas profecias contra as nações, há a ideia de que os povos exageraram no castigo. Que foram demasiado zelosos na forma de aplicar o castigo”, destaca Francisco Martins. Para o biblista, há um dado importante a retirar dos textos proféticos que mencionam Gaza: o facto de serem incluídos nos “oráculos contra as nações” e não em oráculos contra Judá e Israel mostra que, em todo o período coberto pelos relatos bíblicos, a cidade de Gaza nunca pertenceu totalmente ao território do povo israelita.

O padre jesuíta alerta, porém, para os riscos de distorcer a narrativa com comparações forçadas com a atualidade. Para Francisco Martins é igualmente “absurdo” considerar os árabes herdeiros diretos dos filisteus e dos cananeus e considerar o Estado israelita como herdeiro dos povos cananeus. “A partir do momento em que aquilo passou para o lado dos romanos, a confusão dos povos é total”, destaca. “É muito difícil dizer quem são os judeus e quem são os árabes ali ao longo de dois mil anos.”

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