A deputada do PS e líder da Juventude Socialista desvaloriza o facto de não ter comunicado ao secretário-geral que se ia recandidatar à liderança da estrutura ao defender que precisa é “da confiança dos militantes” da JS. Eleita há dois anos, ainda com Pedro Nuno Santos como líder do PS, Sofia Pereira lembra que já discordou do atual secretário-geral e do antecessor e diz estar tranquila, caso surja novamente concorrência na corrida à liderança da JS.
Em entrevista ao Sofá do Parlamento, Sofia Pereira critica as medidas do Governo para os jovens, em particular a garantia pública para o crédito à habitação, que diz que cria uma taxa de esforço demasiado elevada, preferindo pôr fim à medida e criar um programa estrutural para aumentar o parque público habitacional.
Com elogios para José Luís Carneiro, Pedro Nuno Santos e Mário Centeno, a deputada e líder da JS afasta sombras ao atual líder do PS e garante que os socialistas não se entusiasmam com os números das sondagens e que, mesmo viabilizando o Orçamento do Estado, o PS vai a jogo na fase da especialidade.
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Anunciou este fim de semana a recandidatura à JS. A Juventude Socialista, tal como o partido, precisa de estabilidade na liderança?
A JS, felizmente, é uma estrutura que, em toda a sua história, tem vindo a demonstrar a sua vontade e ímpeto reformista. Grandes reformas que o PS levou a cabo, no que diz respeito a direitos, liberdades e garantias começaram na Juventude Socialista. Somos irreverentes e não temos medo de enfrentar um conjunto de desafios sociais que os tempos, e agora também nestes tempos, nos desafiam. A JS não precisa de estabilidade por ter uma ou mais candidaturas. A JS o que precisa é que os militantes, e também os que não são militantes, estejam disponíveis para discutir o País e as políticas públicas connosco.
Há dois anos as eleições tiveram dois candidatos, pela primeira vez em quase duas décadas. Este ano espera uma JS mais pacificada ou está a contar com concorrência?
Não sei. Eu serei candidata, como já tive a oportunidade de anunciar em órgão próprio e também publicamente. Sei que a JS, com uma ou com duas ou três candidaturas, certamente fará o que também foi capaz de fazer há dois anos, refletir sobre o que propomos com ideias diferentes. Felizmente, não pensamos todos da mesma maneira. Temos uma base comum, mas dentro das nossas diferenças, é apenas uma candidatura. Que estejamos prontos para discutir os desafios que vemos na nossa geração. As casas estão mais caras, não conseguimos sair da casa dos nossos pais, os rendimentos não fazem face ao custo de vida, a mobilidade ainda não é uma realidade para todos os jovens do nosso país, no norte, sul e nas ilhas, porque às vezes esquecemos que os jovens insulares têm mais dificuldade ainda do que os jovens do interior, que normalmente são os visados no que diz respeito a estas matérias de mobilidade. Portanto, uma candidatura ou mais do que uma, que façamos o que a JS tem demonstrado saber fazer: discutir o país.
Quando anunciou a candidatura, disse à TSF que ainda não tinha falado com o secretário-geral. Conta com a confiança de José Luís Carneiro para este desafio?
A JS é uma estrutura autónoma do PS. Temos estatutos próprios, a autonomia do partido, apesar de acompanharmos e de ser o PS que acreditamos que pode reformar o país. Preciso da confiança dos militantes da Juventude Socialista e dos que acreditam que possa continuar a fazer um bom trabalho, a dar voz à minha geração, aos militantes e aos não militantes, que esperam que sejamos a sua voz. Ao secretário-geral do PS e ao partido no geral, espero que também confiem na JS, mas a minha prioridade é que os militantes confiem.
Tem confiado? O secretário-geral?
Tem confiado. Tive a oportunidade de ser secretária-geral com dois líderes do PS: Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro. Senti que sempre tive a confiança dos dois. Discordei algumas vezes de Pedro Nuno, discordo também em algumas dimensões de José Luís Carneiro, mas o nosso objetivo é comum e não tenho razão de queixa até agora.
Duas deputadas do Chega invadiram o edifício da Rádio Universitária de Coimbra. Considera normal que uma associação académica proíba a presença de pessoas ligadas a um partido no seu edifício?
A Associação Académica de Coimbra, como qualquer outra, tem autonomia e os seus órgãos, e a Assembleia Magna que o decidiu, tem autonomia para poder decidir o que entenderem sobre quem entra ou não entra na sua associação. É um espaço onde os estudantes se podem manifestar e manifestaram-se como entenderam, e deliberaram o que entenderam. O que não acho normal é que duas deputadas à Assembleia da República se prestem à triste figura que fizeram ali. Tanto quanto sei, o que fizeram até pode ser um crime, porque não podem invadir um espaço onde estão vários jovens num espaço de comunicação social, da Universidade de Coimbra, para poder, por livre e espontânea vontade, imiscuir-se no que ali estava a acontecer. Tanto quanto também foi relatado, o Chega foi convidado para estar no debate, por via online, e decidiram não estar presentes.
Mas não há uma questão de limitação de liberdade política quando apenas um partido não pode aceder a um edifício?
Como digo, a Associação Académica de Coimbra, como qualquer outra, tem que ter a liberdade nos seus órgãos para deliberar o que entenderem.
Mas deliberou que o Chega é antidemocrático, isto não é um pouco antidemocrático também?
Há uma premissa que ao longo do tempo tenho ouvido e cada vez concordo mais. Às vezes, e não particularmente em relação a este caso da Universidade de Coimbra e da Associação Académica, precisamos de ser intransigentes com os intransigentes. O Chega já tem demonstrado que não tem qualquer prurido em violar um conjunto de preceitos e de pressupostos que estão socialmente estabelecidos para o bom funcionamento da democracia, das instituições, aliás, sistematicamente as põem em causa. Sempre que violam a liberdade do outro, e tentaram já várias vezes imiscuir-se na liberdade individual de cada um, inclusive com as posições no Parlamento, não parece que sejam, ou que estejam neste momento nas melhores condições para vir falar de liberdade.
“A resposta que o Governo está a dar aos jovens não é estrutural”
Este Governo alargou a abrangência do IRS jovem, criou a garantia pública para o crédito à habitação. Como é que se convence um eleitor até aos 35 anos de que o PS é a melhor opção, quando tem sido este Governo a criar novos mecanismos para tentar dar respostas a esta faixa etária?
Têm-se revelado alguns deles bastante prejudiciais a curto, médio e longo prazo e não dão respostas estruturais às crises da minha geração. Quem criou o IRS jovem foi o PS. É certo que foi alargado com este Governo e fico muito satisfeita por isso, mas a verdade é que o modelo que existe aos dias de hoje beneficia quem ganha mais e quem ganha menos acaba por não ter um apoio, como de resto o PS, quando foi para este alargamento e para a alteração do funcionamento do IRS jovem, poderia ter feito.
E quanto à habitação?
É uma das maiores crises em que vivemos. Para dar resposta à crise na habitação, enquanto sociedade precisamos de ter primeiro a consciência de que é preciso fazer um esforço coletivo muito grande, como já foi feito pelos portugueses na criação do SNS, da escola pública. É um desígnio que temos que ter nos próximos anos. Não me parece que a resposta que o Governo tem dado, nomeadamente aos mais jovens, seja estrutural. O que várias entidades europeias nos têm vindo a dizer é que estamos a endividar uma geração onde a taxa de esforço é muitíssimo elevada e que não tem a capacidade de, a longo prazo, garantir que saiam dessa situação livremente. Se não estou em erro, 5% dos jovens puderam usufruir da garantia pública. Fico muito satisfeita que estes 5% tenham acesso mas não posso ficar tão satisfeita, como jovem, como líder de uma organização jovem, e como cidadã atenta, é que todos os outros fiquem à margem das políticas públicas deste Governo. Quando estamos a introduzir uma maior procura e não respondemos do lado da oferta, o que estamos a fazer é aquecer um mercado que já está a escaldar e não me parece que isto vai ter bom resultado.
Mas é uma medida que devia acabar?
Várias instituições europeias têm vindo a dizer que possivelmente deveria acabar e não apenas ser reformulada. Compreendo que um jovem que consiga ter acesso ao crédito para uma casa de 400, 500, 600 mil euros, possa parecer um alívio, uma ajuda neste curto prazo, muito apetecível, mas depois quando percebemos que as prestações são elevadíssimas e que a taxa de esforço de um jovem é cerca de 50%, estamos a endividá-los sem ter a capacidade de lhes dizer que os seus salários vão aumentar a médio prazo e que a sua vida vai melhorar.
Mas entre o deve e o haver do endividamento e da possibilidade de ter uma casa
O País devia estar a discutir um plano nacional bem estruturado com financiamento, do Orçamento do Estado, de verbas europeias, alocando outros recursos do Estado a esse mesmo plano de construção pública, para que tenhamos um parque público de habitação digno do seu nome. O parque público de habitação são cerca de 2%, é dos mais baixos da Europa. Temos uma crise aflitiva, principalmente nas grandes zonas urbanas, e se estamos a aquecer o mercado ao colocar incentivos na procura e não aumentar a oferta, se calhar o que estamos a fazer, já nem é a longo prazo é a médio prazo, é agravar ainda mais esse problema. Se prescindir de um, para podermos pensar estruturalmente num plano que dê resposta a médio e a longo prazo a esta geração, acho que era muito mais produtivo para todos.
O PS tem insistido em medidas para responder ao aumento do custo de vida diferentes das que o Governo tem aplicado. Defendem o IVA zero no cabaz alimentar e a descida do IVA dos combustíveis. É possível que o PS e o Chega aprovem estas medidas na fase de especialidade do Orçamento do Estado?
O PS não se vai demitir na fase de especialidade de propor um conjunto de soluções que possam dar, ou pelo menos mitigar, as consequências do aumento do custo de vida. Este orçamento não vai dar, no curto prazo, resposta a essas aflições que os portugueses vivem, nomeadamente no cabaz alimentar. Tive a oportunidade de entregar um cabaz alimentar ao primeiro-ministro para tentar perceber se estaria em condições de compreender a aflição das pessoas aos dias de hoje. Os partidos políticos que queiram acompanhar as nossas iniciativas, acho que será responsável fazê-lo. A propósito do Chega, há poucas sessões, no Parlamento, o Chega decidiu criar mais uma manobra ilusória para poder introduzir um projeto de lei que não poderia ser feito nesta altura por causa da norma travão, mas que pudesse ter início em janeiro. Em janeiro temos é que estar a avaliar de que forma é que podemos contribuir naquele momento para as pessoas e para as suas vidas. Neste momento, o que o PS fará, não se demitindo dessa função na especialidade, é garantir que as pessoas tenham uma resposta agora e que o Governo se compromete agora, porque hoje as pessoas também vão encher os depósitos e também vão às compras.
Compromisso de fundo? “Não vejo como possa acontecer”
O Presidente da República elogiou o PS pelo compromisso e pela capacidade de estabelecer pontes na questão do Orçamento. Francisco Assis disse ao Observador que o PS e o PSD têm a obrigação de promover um entendimento de fundo. Seria útil um acordo mais alargado entre a AD e o PS ou isso serviria apenas para dar mais força ao Chega?
O PS é a oposição democrática neste momento. Temos muitas divergências sobre a forma como vemos o mundo e o país e isso tem ficado claro a cada proposta que o Governo traz para cima da mesa, desde logo no trabalho, na habitação, nos direitos, liberdades e garantias. Não consigo, com este PSD, com este primeiro-ministro, com este líder da bancada parlamentar do PSD, com o qual pessoalmente me incompatibilizaria, numa dimensão muito alargada, não vejo de que forma esse compromisso estrutural possa acontecer a menos que o PSD esteja disponível a tornar-se tão democrata quanto os seus fundadores. Sempre que há posições estruturais para serem tomadas, na habitação, no trabalho, nos direitos, liberdades e garantias, e a tentar promover um conjunto de narrativas e intenções do Chega, estão mais próximos do que nunca. Gostava era de ver o PSD dizer se o não é não continua a ser assim.
Mas de forma mais lata, fazia sentido existir um acordo de fundo entre PS e PSD, independentemente dos protagonistas, numa lógica de avançar com as tais reformas que têm sido pedidas por muita gente?
As reformas estruturais podem e devem ter um consenso do PS. A propósito da revisão constitucional, o PS e o PSD, que fundaram este regime, é importante que juntos possam discuti-la e de que forma é que a Constituição pode ser alterada. Essas, sim, são reformas que podem ter o aval dos dois maiores partidos e dos antigos da democracia. Agora, por exemplo, na habitação, em que o PS e o PSD poderiam, de alguma maneira, consensualizar um conjunto de propostas que viessem a dar frutos para solucionar esta crise, francamente não consigo ver de que forma. A maneira como vemos a crise da habitação é muito diferente da forma como o PSD vê. O PSD está muito mais preocupado em reduzir os impostos aos senhorios do que propriamente a dar respostas a quem não consegue pagar um T0 ou um T1 e a quem tem que voltar para casa dos pais, ou viver como um estudante aos 30 anos mesmo trabalhando. Acho que este PSD está menos preocupado com as pessoas do que o PS sempre esteve.
“O PS, e todos os portugueses, já tiveram a sorte de contar com Mário Centeno”
À esquerda e à direita há duas figuras que têm ocupado muito o espaço mediático, são uma espécie de sombras das lideranças. Mário Centeno é uma espécie de Passos Coelho do PS?
Não, nem consigo compreender bem essa comparação. Pedro Passos Coelho já foi primeiro-ministro, tem um histórico bastante distinto de Mário Centeno.
No sentido de serem sombras dos líderes.
Quanto a Mário Centeno tenho a ideia que nem militante do PS é.
E não quer ser militante nem primeiro-ministro. Acredita nessa literalidade das palavras de Mário Centeno?
Não sei, não sei quais são os planos de médio e longo prazo de Mário Centeno. O que sei é o que vou ouvindo, que também vão todos ouvindo, não sei se tem intenção ou não. Foi um extraordinário ministro das Finanças, mas não me parece que isso seja uma situação que se coloque.
Seria uma mais-valia para o PS contar com Mário Centeno?
O PS já teve a sorte de poder contar com Mário Centeno. Aliás, todos os portugueses tiveram essa sorte. Pessoas com a capacidade de Mário Centeno, em qualquer que seja a dimensão, gostamos muito de contar com ele. Aliás, Mário Centeno tem participado ativamente em iniciativas do PS. Mas, a propósito de Passos Coelho, até numa entrevista que deu esta semana revelou ter saudades da política ativa, deixando alguns recados ao seu atual líder, e também não me surpreendeu muito a proximidade ao líder do Chega. Atrevo-me a dizer que foi talvez um dos padrinhos de André Ventura.
Acha que Pedro Passos Coelho pode ajudar também a esquerda a unir-se para polarizar votos numa eleição futura?
Não sei se será Pedro Passos Coelho a ajudar a esquerda a unir-se. Desde as últimas eleições legislativas, tenho a convicção de que a esquerda portuguesa, não só o PS, precisa de fazer a tal reflexão. Na altura, depois das eleições, falou-se muito em reflexão, mas não sei se foi feita na dimensão que deveria ter sido, para perceber porque é que perdemos a confiança do eleitorado. A esquerda, se calhar, perdeu as pessoas no momento em que deixou de lhes dar esperança e é preciso voltar a dar esperança e isso não é no contraponto com alguém.
Perdeu as pessoas na rua também?
Talvez. Acredito que a esquerda tenha vindo a perder as pessoas ao longo do tempo quando as respostas às suas vidas não foram dadas. E a esquerda não pode querer recuperar a confiança do eleitorado porque vem o diabo, mas porque as pessoas voltam a confiar no nosso projeto de país, com confiança e com coragem. É preciso coragem à esquerda portuguesa nos dias de hoje, e também ao PS.
José Luís Carneiro corre o risco de estar encurralado entre o passado, representado por Pedro Nuno Santos, que voltou a ter algumas aparições públicas, e o futuro que poderá ser ou não Mário Centeno?
Hoje o secretário-geral do PS é José Luís Carneiro, que está muito empenhado em fazer uma oposição séria e responsável ao Governo, que é pouco sério e responsável. Pedro Nuno Santos, que acompanhei também como líder da JS, e por quem tenho muito carinho, aliás, também vem da mesma casa comum que eu, que é a JS. Tenho também admiração intelectual por Mário Centeno, mas não parece que essa discussão seja realista aos dias de hoje. Temos um secretário-geral eleito que está a fazer um bom trabalho de oposição à frente do PS. O presente é o que é, o futuro vamos descobrir todos em conjunto, e o passado só temos que discuti-lo mas não sei se acrescenta muito para o futuro.
“O PS nunca irá pôr em causa a estabilidade do país num momento difícil como este”
Ainda ontem José Luís Carneiro acusou o Governo de provocar instabilidade. Estes casos com este Governo, aliados ao crescimento do PS nas sondagens, podem criar esta tentação de acelerar o calendário político e eleitoral?
Mais do que alguém que faz política ativa, como cidadã, estou muito cansada de todos estes temas dos casos e casinhos dos Governos, seja do PS ou do PSD. Deixou de se deixar à justiça o que é da justiça, apesar de achar, como é evidente, que os protagonistas políticos têm a responsabilidade de exigir um conjunto de explicações. Mas, a forma como são abordadas todas estas dimensões, desde há muito tempo, e como o próprio Ministério Público tem encarado a sua função, tem vindo a degradar a confiança das pessoas nas instituições. O PS nunca irá pôr em causa a estabilidade do país e dos portugueses num momento difícil como o que vivemos, independentemente dos casos e casinhos. Não me parece que estes casos e casinhos construam uma casa, não aumentam salários e, portanto, espero que não seja por aí.
Em 2029 deve ser José Luís Carneiro o candidato do PS a primeiro-ministro?
O secretário geral do PS é, historicamente, o candidato a primeiro-ministro, não vejo porque seria diferente.
Porque até 2029 ainda há um outro congresso.
O Partido Socialista fará, certamente, a sua discussão.