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George Harrison, Ringo Starr, John Lennon e Paul McCartney: os Beatles em 1964

Michael Ochs Archives

George Harrison, Ringo Starr, John Lennon e Paul McCartney: os Beatles em 1964

Michael Ochs Archives

The Beatles: a banda que nunca acabou

A "Antologia" tem mais um episódio (na Disney+) e um quarto álbum. E o livro "John & Paul" é publicado entre nós. Porque é que o fascínio, a história e o negócio destes quatro nunca terminam?

A 10 de abril de 1970, Paul McCartney esclarecia oficialmente que já não estava a trabalhar com os Beatles. O mundo tremeu, aguentou-se na medida do possível depois daquela que era a mais grave, dura e, apesar de tudo, esperada das separações. Que aquela novela já estava mal, talvez poucos soubessem de forma absolutamente esclarecida, talvez outros quisessem viver enganados, mas a inevitabilidade manifesta-se sempre.

Já entre 1970 e 1971, Neil Aspinall (1941-2008), responsável por tudo o que era coisa com a marca The Beatles, teve a ideia (como teve tantas outras ao longo da carreira da banda) de juntar tudo o que era imagem de arquivo com John, Paul, George e Ringo para fazer um filme documental sem entrevistas, apenas com os registos de atuações, sessões de estúdio, graçolas, pequenos dramas, desfiles de bons casacos entre a saída dos carros e a entrada em Abbey Road. A ideia era ótima, claro que era, mas o tempo era péssimo: seriam necessários vários anos até que um acordo entre as partes tornasse o fim da banda uma realidade digerível e a relação com o passado possível.

Em 1992, quando os Beatles-menos-John (1940-1980) já eram novamente um grupo de amigos mais ou menos saudável e se juntaram para fazer Anthology (um documentário em 6 episódios a contar a história do grupo, acompanhado por edições discográficas ambiciosas, em três volumes), a ideia de Aspinall tinha-se transformado na melhor de sempre em todos os sentidos e até teve planos alterados. Afinal houve entrevistas, conduzidas por Jools Holland (pianista-comunicador de enorme fama no Reino Unido), afinal os seis episódios transformaram-se em oito, os discos (originalmente três, agora com um quarto volume, com mais gravações e versões inéditas, 36 no total) ganharam capas ilustradas com magníficas colagens e, quando o primeiro episódio foi revelado em 1995, os Beatles voltaram a lembrar que nunca deixaram de estar na moda. A distância era apenas aparente e, por vezes, deliberada.

[o quarto volume de Anthology, já disponível em múltiplos formatos e também em streaming:]

No início dos encontros dessa mesma década, para arrancar com os trabalhos de escavação e seleção de arquivos, George Harrison (1943-2001) terá dito sábias palavras, como aliás costumava fazer (até mesmo quando não dizia nada era sábio, ora vejam o filme Get Back): “Foi bom as pessoas esquecerem os Beatles durante algum tempo, deixar a poeira assentar”. Mas as pessoas nunca os esqueceram, apenas aprenderam a viver com eles de outra maneira.

John Lennon já tinha dito, por volta de 1964, quando os Beatles estavam a caminho de ser maiores do que Jesus Cristo nos EUA, que sabia lá ele se a banda ia durar mais 2 anos ou 10 anos. Sabia lá ele onde iria estar, onde os companheiros iriam estar. Ringo Starr, inteligentíssimo a gerir o estrelato como coisa que sabia passageira, plástica e efémera, diz, a certa altura desta Antologia, que nem deu por nada: multidões, gritos, correrias, escândalos, ameaças, sucessos, tudo lhe passou ao lado porque ele estava no meio. Contas feitas, foi tudo “muito divertido”. Quem nos dera ser amigo de Richard Starkey.

Paul não. Paul era o cérebro e nunca deixou de ser. O chefe oficioso, o patrão não nomeado, o motivador que também era o polícia mau. O democrata que sempre soube que a democracia no rock’n’roll tem limites. O Mick Jagger dos Beatles. O melodista perfeito que carregou a bagagem até a ter perdido e que a recuperou assim que foi possível. É ele o motor de tudo. E Peter Jackson, que já tinha recuperado Get Back, recuperou Anthology, com McCartney como timoneiro.

[O trailer da reedição da série documental “Antologia”:]

Vai estar no Disney+ aos pedaços, a partir de 26 de novembro (primeiro com três episódios, mais três no dia 27 e os últimos no dia 29), como a contemporaneidade exige, mas é McCartney que paira sobre tudo isto, dando a mão a Yoko Ono, que gere o legado de Lennon, e dando corpo a outra frase chave do nono e novo episódio que esta reedição revela. Diz Paul: “É impossível contar a história dos Beatles”. A não ser que seja a história que os Beatles querem contar. E é por isso que agora temos uma hora extra: porque os Beatles quiseram. Eles que, afinal, nunca foram a lado nenhum.

Uma viagem mágica, misteriosa e sempre inacabada

A melhor banda de sempre, os mais visionários, os anos 60 em quatro pessoas, as quatro faces de Deus. Enfim, chamem-lhes o que quiserem, mesmo que prefiram os Rolling Stones, os Beach Boys ou o Quarteto 1111. Os Beatles parecem impossíveis. Como é que aconteceram? Como é que quatro tipos que tocavam em Hamburgo — porque era onde o rock’n’roll de amadores dava bom dinheiro, com álcool, erva e sexo à mistura (não deixem que a imagem inicial da banda voz engane, meninos sois vós se pensarem o contrário) — deixaram os quartos com beliches e tomaram conta do mundo de tal maneira que do mesmo mundo tiveram de fugir?

É isso que Anthology conta. Paul, George e Ringo, a recordar Liverpool, Hamburgo, primeiros sucessos, filmes, histeria, a América, a Índia, as Filipinas, as drogas, Dylan e Elvis, a magia do estúdio, o cansaço, os ciúmes e o fim, como na cantiga de McCartney. Mas é a história dos Beatles pelos Beatles. Faltam as discussões, os desacordos, as imposições, as separações feias logo no início, as chatices com dinheiro a caminho do fim, os desentendimentos sobre quem geria o quê, as acusações da mulher deste ou da mulher daquele, além do pós-separação, feio, difícil, uma travessia no deserto que ninguém nunca quer lembrar porque, enfim, há Strawberry Fields e Penny Lane e A Day in the Life e Rubber Soul e o White Album — porque raio haveríamos de concentrar atenções em qualquer outra coisa?

As canções que escreveram surgiram sobretudo das falhas que foram acumulando, dos erros que foram cometendo, dos desejos que foram alimentando

Simples: porque a humanidade dos Beatles torna-os ainda maiores. Imaginemos este cenário: se os Beatles fossem deuses (não são?), seria muito difícil inscrevê-los na História como os inscrevemos. Se fossem divindades, nada seria surpreendente e nada teria esforço, tudo resultaria de um estalar de dedos. Beatles é nome coletivo de quatro pecadores, cada um com a respetiva singularidade. As canções que escreveram surgiram sobretudo das falhas que foram acumulando, dos erros que foram cometendo, dos desejos que foram alimentando, nem sempre os mais saudáveis ou moralmente aceitáveis. Foi a glória do erro que lhes permitiu ser tão notáveis e notados.

De tal maneira a humanidade — leia-se “o facto de serem humanos” — moldou o destino dos Beatles que a morte revelou-se como um dos eixos centrais da vida do grupo. A morte precoce do conceito de “família” para Lennon (e, também demasiado cedo, da mãe do músico), que lhe atribuiu a busca eterna (e inalcançável) pelo reconhecimento; a morte de Brian Epstein, manager, guia, porto seguro; a morte do verão do amor, dos anos 60; a morte dos concertos ao vivo, insuportáveis; a morte de Lennon; a morte de Linda (McCartney); a morte de Harrison; a morte do produtor-mago George Martin. Mais houve, fiquemo-nos por aqui, que a amostra basta para fundamentar o argumento: cada morte serviu de ponto e vírgula; a cada uma se seguiu uma nova frase. E essa é apenas mais uma das certezas de Anthology, disponível para quem já a viu e vai rever, para quem nunca viu e o devia (e vai) fazer.

Quando um puxa, o outro estica. Se um faz mais canções num álbum, o outro esforça-se mais no próximo. Se McCartney escreveu Yesterday, a melodia ficou na mente de Lennon até à gravação de Imagine, cujo autor sempre duvidou que estivesse ao nível da lendária canção editada em disco em 1965. Chamemos-lhe obsessão.

Foi também a morte que deu vida a uma das coisas mais extraordinárias de todo este processo (gostos e qualidade e comparações à parte): as canções novas, com a voz de John Lennon. O mais carismático dos Beatles morreu em 1980, aos quarenta anos, assassinado por um fã obcecado até ao fim da vida e que continua preso. Em casa em Nova Iorque — e não só — o enorme Lennon, então um farrapo (financeira, romântica, física e psicologicamente), dobrava-se sobre ele próprio em terapia ao piano, quase o seu único amigo. E escrevia, compunha, fazia projetos de canções futuras, gravando-as em cassetes, som difícil para ilustrar aqueles dias (curiosamente ou não, quando morreu estava a caminho de casa, feliz, esperançoso). McCartney (cá está ele, perfeito até no timing) sabia-o.

No início dos noventas, Paul pede a Yoko permissão para usar as gravações. Com George, Ringo e a feitiçaria em forma de produção de George Martin, completam as canções de John, usando a voz, melhorando-a até ao limite. Assim fizeram Free as a Bird, assim fizeram Real Love. Foram editadas na altura, com as edições em disco de Anthology (recheadas de outtakes, lados B rejeitados, gravações ao vivo, sessões de ensaio e tudo aquilo a que um fã chama de epifania). Mas um terceiro tema, Now And Then, guardado numa cassete de Lennon datada de 1977, nunca foi completado. Só em 2023 a ouvimos. E também só por isso temos agora acesso ao nono episódio da série documental.

A capa de "John & Paul", de Ian Leslie, na edição portuguesa da Zigurate, com tradução de Sara Veiga

Porque é um episódio em que regressamos a 1995, viajamos 30 anos rumo ao passado para ver os Beatles a apontar para o futuro. “Talvez um dia acabemos também Now And Then, precisamos de mais tempo, de mais tecnologia.” Esta confissão só poderia surgir depois da canção ter nascido. Ei-la, nos 50 minutos que não acrescentam à história dos Beatles, mas que permitem que a mesma seja agora recontada. E demonstrando um outro aspeto fundamental: se a morte deu os tais pontos e vírgulas à narrativa dos Beatles, a relação entre John e Paul deu-lhe significado, miolo, sentido e rumo. A relação entre ambos está em todas as frases intercaladas pela tal pontuação.

A dupla dos corações solitários

Há poucas semanas foi publicado em Portugal o livro John & Paul (pela Zigurate, com tradução de Sara Veiga). Na capa tem os dois músicos, baixo e guitarra ao alto, ambos em palco, lado a lado, como todos os conhecem, como sempre os imaginámos, como os próprios quiseram sempre estar. O subtítulo é “uma história de amor feita de canções” e cada capítulo tem precisamente nome de cantiga. Ao focar-se na dinâmica entre estes dois, o livro revela uma boa dose de injustiça. Sabemos que os Beatles não teriam sido os mesmos sem George e Ringo. Mas também é um livro de uma objetividade lúcida impressionante, que escreve aquilo que todos parecemos saber mas não queremos dizer, porque em parte isso seria como pôr o planeta a girar para o lado contrário. Se sem George e Ringo os Beatles nunca teriam sido os mesmos, sem John e Paul os Beatles nunca teriam existido. Pior (se é que há pior): nós não seríamos aquilo que somos hoje.

Beatles é nome coletivo de quatro pecadores, cada um com a respetiva singularidade

Ian Leslie é autor de vários livros sobre o comportamento humano — a mentira, o desejo, a curiosidade, o confronto e o desacordo são temas sobre os quais já estudou e escreveu intensiva e extensivamente. Como lidamos uns com os outros, como nos anulamos a favor dos outros e como superamos os outros a nosso próprio favor. É uma dinâmica constante, muitas vezes silenciosa e definitivamente fundamental na vida de uma banda. De tal forma que representa o nascimento, a vida, a decadência e morte da mesma. Além de estudar e escrever sobre estas matérias aparentemente pouco sexys, Ian Leslie é também um enorme fã dos Beatles. Este não é o primeiro livro que escreve sobre o assunto, mas surge perfeitamente enquadrado neste ano do regresso de Anthology e ganha ainda maior pertinência. Porque esta é outra história dos Beatles.

Muitas biografias foram feitas, dezenas, centenas, dariam literatura para uma vida. Desde a “autorizada” de Hunter Davies, com tudo o que a autorização implica e esconde, à ambiciosa, longuíssima e mais recente de Mark Lewisohn. Escolham, divirtam-se, iluminem-se. Mas neste caso, o destaque é merecido, não só pela publicação em português (pouco habitual e mais do que vantajosa para a nossa existência), mas sobretudo pelo que representa quando regressamos à Antologia, que é como quem diz “o cânone” da cronologia da banda.

Quando estavam juntos nos Beatles, era a dualidade oposição/comunhão que os fazia chegar mais longe. Entre todas as características que fez dos Beatles uma força artística única — criatividade singular em tempos de transformações sociais, económicas e tecnológicas, sem nunca esquecer os químicos — o duelo entre ambos foi o motor constante.

Em John & Paul, Ian Leslie explica a sua crença: desde que se conheceram, Lennon & McCartney não mais souberam viver um sem o outro. E quando o tiveram de fazer, ou atravessaram um deserto aparentemente interminável ou entregaram-se à perdição. Leslie assume que houve criatividade, que Lennon esteve bem quando acertou no estúdio, exceto quando esteve bastante mal; McCartney oscilou entre o formidável e o esquecível a solo, sempre como estrela global, com ou sem os Wings. Quando estavam juntos nos Beatles, era a dualidade oposição/comunhão que os fazia chegar mais longe. Entre todas as características que fez dos Beatles uma força artística única — criatividade singular em tempos de transformações sociais, económicas e tecnológicas, sem nunca esquecer os químicos — o duelo entre ambos foi o motor constante.

Leslie não tem pudor em fazer de Lennon e McCartney humanos. O primeiro: caótico, nervoso, inseguro, abandonado, impulsivo, sensível, emotivo, apaixonado. O segundo: cuidadoso, seletivo, cerebral, calculista, patrão, atento, genial. As diferenças entre ambos estão nos opostos ou são complementares. Quando um puxa, o outro estica. Se um faz mais canções num álbum, o outro esforça-se mais no próximo. Se McCartney escreveu Yesterday, a melodia ficou na mente de Lennon até à gravação de Imagine, cujo autor sempre duvidou que estivesse ao nível da lendária canção editada em disco em 1965. Chamemos-lhe obsessão, a mesma que levou ambos a escrever letras cada vez mais intrincadas, confessionais mas pouco óbvias, psicadélicas mas nunca do outro mundo — e Ian Leslie faz um ótimo trabalho ao desdobrá-las e interpretá-las.

George Martin, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison durante a produção de "Anthology"

Os Beatles crescem nesta duplicidade, fazem-se homens com os olhos postos uns nos outros. Lennon olha para McCartney, este para o anterior, George e Ringo para os dois primeiros ou para qualquer outro lado, muitas vezes conscientes do quão afastados estão do centro da tempestade (sobretudo Harrison, que era um compositor genial e sabia-o). Lennon ouve o som vindo da cama de McCartney em Hamburgo e sabe que o amigo está a faturar mais. Paul vê em John o rock’n’roller que não se preocupa com a indústria e suas exigências e quer ter um pouco desse espírito. As canções ou são de um ou de outro, mas são assinadas em conjunto. É um amor indestrutível quando procuram o sucesso, quando são os mais brilhantes de uma ainda escurecida Britannia a lamber as feridas da guerra para tentar ser cool. É um amor indestrutível quando conquistam a América, quando se entregam à experimentação.

E depois? E quando as mulheres, os filhos e os jornais se metem no caminho? E quando a Índia e a meditação e uma outra qualquer salvação é acolhida de formas diferentes? E quando a disciplina de um é a irritação de outro? E quando os negócios dão confusão? E quando o sogro de Paul fica a gerir as finanças da banda e John está noutra? E quando não assinam os acordos que permitem o fim?

O negócio mantém-se porque o fascínio não termina. Nunca terminará. Tal como a (re)descoberta. Nenhuma outra banda nunca acabou como esta. E nenhuma alguma vez o fará.

O livro de Ian Leslie começa com a reação seca, direta, nada emotiva de McCartney face à notícia da morte de Lennon. Por fora, a aparente indiferença ou a crença numa qualquer inevitabilidade. Por dentro, total incapacidade em lidar com o momento, com o passado e com o futuro por construir. É quando os Beatles acabam que o livro se torna mais interessante. O que acontece a estas vidas quando o casal se separa? O calvário de Lennon, perdido entre Nova Iorque, a Califórnia, as drogas e um casamento no mínimo difícil. O sucesso de McCartney, a felicidade romântica e familiar e, em simultâneo, a eterna insatisfação. É a tal outra história dos Beatles, porque nenhum Beatle alguma vez o deixaria de ser, mesmo que a banda terminasse — coisa que, vai-se a ver, nunca aconteceu.

Há 30 anos, os Beatles eram inevitáveis. E quem não os conhecia, deles não mais fugiu. O mesmo aconteceu duas décadas antes, quando foram editadas as famosas coletâneas Vermelha e Azul. Ou nos 80s, com uma série de novas compilações, entre elas as Early Tapes e os dois Past Masters. Pelo meio, como Harrison diz no novo episódio da série documental, foi preciso a poeira assentar. Nos anos 2000, surgiram novas caixas, novas edições, remasterizações. Tudo também novamente em vinil, tal como tudo haveria de chegar ao streaming. É um negócio, como sempre foi, mas só compra quem quer. Já a banda que não acaba, aí está, mesmo para os que não embarcam no marketing. Com a morte como divisória entre fases e vontades, com a dupla Lennon-McCartney como motor da narrativa. O negócio mantém-se porque o fascínio não termina. Nunca terminará. Tal como a (re)descoberta. Nenhuma outra banda nunca acabou como esta. E nenhuma alguma vez o fará.

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