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Em três episódios, "Get Back" mostra o dia-a-dia dos The Beatles em sessões de ensaio e gravação em janeiro de 1969, que resultariam no disco e filme "Let It Be"
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Em três episódios, "Get Back" mostra o dia-a-dia dos The Beatles em sessões de ensaio e gravação em janeiro de 1969, que resultariam no disco e filme "Let It Be"

D. R.

Em três episódios, "Get Back" mostra o dia-a-dia dos The Beatles em sessões de ensaio e gravação em janeiro de 1969, que resultariam no disco e filme "Let It Be"

D. R.

“Get Back”: o que sete horas no sofá com os Beatles nos dizem sobre o último ano da banda

Num baú fechado, Peter Jackson encontrou mais de 60 horas de vídeo e 150 horas de som. Fez uma série que nos mostra o dia-a-dia da banda em janeiro de 1969. É o mais perto que estamos de os conhecer.

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A 13 de janeiro de 1969, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon deparavam-se com um problema bicudo. Farto de ser tratado como um membro menor, como uma marioneta que seguia as ordens de McCartney e que via Lennon afunilar cada vez mais os seus interesses para uma omnipresente Yoko Ono, George Harrison abandonou os The Beatles durante as sessões de “Get Back”. Sessões, aliás, que viriam a resultar na edição do álbum Let It Be e na última atuação ao vivo da banda.

Pouco preocupado com as câmaras de televisão que rodeavam o grupo, nos estúdios londrinos Twickenham, George Harrison levantou-se da cadeira e proferiu as seguintes palavras: “Acho que vou… estou a sair da banda, agora”. Não as considerando suficientes, ainda quis deixar uma sugestão aos velhos amigos de Liverpool: “Arranjem um substituto. Escrevam à NME [revista musical inglesa] e arranjem umas pessoas”.

Só hoje, mais de 50 anos depois, podemos testemunhar o momento. Aquilo que o permite é “Get Back”, uma nova série documental cuja primeira parte fica disponível na Disney+ esta quinta feira, dia 25 (segunda parte dia 26 e a terceira no dia 27), que é, simultaneamente, uma viagem a 1969 e a mais de 60 horas de imagens e 150 horas de som restauradas e condensadas por uma equipa liderada por Peter Jackson (“Senhor dos Anéis”) em três episódios, com duração total de um pouco mais de sete horas.

Dizer que “Get Back” condensa arquivo até hoje trancado num baú seria injusto para o que se vê na série documental, que não recupera apenas as imagens de época mas também as abrilhanta e afina, sonicamente e visualmente.

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Ao ver “Get Back”, a impressão não é a de que estamos no sofá a ver os The Beatles na sua intimidade em janeiro de 1969 — se fossemos extra-terrestres acabados de chegar ao planeta Terra, diríamos até que estávamos a ver uma banda filmada hoje, ou pelo menos com as técnicas de captação de imagem e som mais modernas ao dispor dos humanos em 2021. Tudo graças a um longo trabalho de restauro, que procurou um equilíbrio entre ser fiel às gravações originais e torná-las mais claras, límpidas e esteticamente aprazíveis aos olhos e ouvidos do presente.

[o trailer de “Get Back”:]

Mas se hoje podemos ver o momento histórico em que George Harrison anuncia que saiu dos The Beatles (para regressar daí a uns dias) não o devemos apenas ao realizador Peter Jackon e à vasta equipa de técnicos que nos mostram em pouco mais de sete horas como eram os The Beatles em 1969, um ano antes de terminarem, como faziam e moldavam as canções, como se relacionavam e o que diziam uns aos outros. Devemo-lo também a um patinho feio da história chamado Michael Lindsay-Hogg, que dirigiu uma equipa que filmou e captou a banda naquela época.

Não há muitas provas maiores do quão traiçoeira e falível pode ser a memória e o olhar humano sobre as coisas do que Let It Be, o filme de Michael Lindsay-Hogg que chegou às salas de cinema três semanas depois dos The Beatles terem acabado e que, em uma hora e 21 minutos, resumia estas mais de 60 horas de gravações de imagem e 150 horas de som captadas na época.

Quem hoje vir Let It Be sem grande contexto encontrará um filme relativamente rudimentar no que se refere à estética — e por estética, queremos dizer qualidade de imagem e som — mas verá também quatro músicos excecionais a ensaiar, a gravar e a tocar ao vivo canções novas. A ironia é que quem viu “Let It Be” na altura e quem o viu mais tarde tendo em mente que os The Beatles não duraram muito mais de um ano depois disto, verá outra coisa: um grupo a desfazer-se amargamente, a fazer um esforço para continuar mas movendo-se já com as nuvens do fim a pairar sobre o quarteto.

Thomas Tobsahm, realizador. "Vi o Let Be quando tinha dez anos. Fiquei maravilhado mas também chocado por ver os Beatles discutir. Revi o filme há uns meses e descobri que só discutem durante uns 19 segundos." 

É a prova suprema de que o que sabemos molda e condiciona por completo o nosso olhar: quem viu “Let It Be” à luz do que sabia sobre os The Beatles, encontrou no filme o que ele não tinha. Um testemunho disso mesmo foi partilhado com o Observador pelo cineasta e realizador de a-ha: The Movie, Thomas Tobsahm: “O Let It Be era a minha grande inspiração. Vi-o pela primeira vez quando tinha dez anos. Fiquei maravilhado por ver uma banda a trabalhar em equipa, as pessoas no estúdio a fazerem canções. Mas também fiquei chocado na altura por ver os Beatles a discutir. Acontece que quando revi o filme há uns meses, depois de o ter visto há quase 50 anos, descobri que só discutem durante uns 19 segundos”.

Quando a 21 de dezembro do ano passado o realizador Peter Jackson decidiu deixar as pessoas espreitarem mais de cinco minutos de Get Back, a série documental que de certo modo complementa e aprofunda Let It Be, a internet dividiu-se entre o entusiasmo e a crítica. Não faltou quem, influenciado também pela falível perceção de Let It Be, dissesse que Jackson estava a embelezar uma época da banda que tem uma aura “maldita”, mostrando apenas os momentos animados daquelas gravações terríveis.

Era, conclui-se agora, uma crítica infundada. Nem aqueles excertos eram representativos da série documental — não se tratando de um trailer, tinha o propósito único de animar os fãs da banda antes de um Natal em pandemia — nem Jackson embelezou nada.

Os três episódios agora disponíveis mostram, isso sim, uma espécie de making of alargado do filme que mostrou o desafio hercúleo com que os The Beatles se deparavam em janeiro de 1969: o de em poucas semanas arranjarem 14 canções novas e gravarem um disco ao vivo.

Não se trata de um making of embelezado, mas de um making of que nos permite acompanhar uma banda que discute e que se diverte, que se divide e se aglutina na sua busca por canções. Peter Jackson vai até bem mais longe do que Michael Lindsay-Hogg e expõe imagens e conversas sensíveis, que Michael não pôde mostrar em Let It Be. Talvez seja por isso que Get Back não é a preto e branco: aqui não há bons e maus da fita, apenas momentos felizes ou cenas conturbadas. É, garantidamente, o mais próximo que estivemos de viver com os Beatles e de os conhecer na intimidade, em todas as suas matizes.

Os antecedentes: o refúgio nos estúdios, a morte de Epstein e “Hey Jude”

Em janeiro de 1969, quando entraram numa sala ampla do estúdio Twickenham onde passariam os dias seguintes, Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr procuravam uma espécie de regresso às raízes.

Há pouco mais de dois anos (desde o final de 1966) que a banda não dava concertos nem fazia digressões, trocando a incomodativa histeria das massas pelo conforto e possibilidades sónicas dos estúdios de gravação — que lhes permitiram uma sucessão de discos de pop-rock portentosamente vanguardista, casos de Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e The Beatles, também conhecido como White Album (1969).

A morte do antigo manager Brian Epstein, quase ano e meio antes (em finais de agosto de 1967), fora um golpe duro para a banda — e tanto assim foi que não é possível explicar o final dos The Beatles sem referir a perda de Epstein como uma das peças do puzzle. Mas no ano seguinte, 1968, o quarteto ainda lançou e editou o “álbum branco”, refugiu-se na Índia para um retiro espiritual e gravou um novo single, “Hey Jude”, nos estúdios a que regressava em janeiro de 69.

Em janeiro de 1969, os The Beatles procuravam um palco de concerto e chegaram a pensar num anfiteatro na Líbia — acabaram a tocar no telhado da Apple Corps

D. R.

A experiência de gravar “Hey Jude” numa sala cheia de fãs, no interior dos estúdios Twickenham, relembrara os quatro Beatles que era possível compor ao vivo canções sem maquilhagem, sem o auxílio das técnicas de edição e produção de som em que se tinham especializado. E o grupo estava decidido a voltar a depurar as canções até ao esqueleto: tocadas e cantadas ao vivo, compostas por todos em tempo real. Já Michael Lindsay-Hogg tinha outra tarefa. Fora encomendado ao realizador filmar ensaios e um concerto, que seriam incluídos num suposto “especial televisivo” que não chegou a acontecer — acabando preterido por um documentário.

A desorganização e os lados doce e amargo dos Beatles

Uma das maravilhas que as sete horas com os The Beatles editadas por Peter Jackson permitem é perceber como os The Beatles construíam canções. Camada a camada, Paul McCartney — quase sempre no comando do grupo —, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr vão transformando riffs iniciais, notas soltas e melodias em “Dig a Pony”, “Across the Universe”, “I Me Mine”, “Let It Be”, “I’ve Got a Feeling”, “One After 909”, “For You Blue” e “Get Back”, entre outras. Tudo temas que acabariam incluídos em Let It Be, o disco.

Essa construção de canções é por vezes tortuosa, percebendo-se por exemplo que John Lennon (com Yoko Ono sempre a seu lado) estava mais desligado das tarefas de composição e que George Harrison se sentia menosprezado e pouco tido em conta por Paul McCartney, que assumia as rédeas das principais decisões líricas e de som da banda. Mas é também uma composição lúdica, pouco rígida, talvez até desorganizada em excesso.

Quando os The Beatles iam para estúdio gravar um disco, o que acontecia mais habitualmente era chegarem já com algum grau de preparação, com esboços de canções e ideias de temas e de letras para gravar.

Assistindo a Get Back, é possível perceber que as sessões de janeiro de 1969 foram diferentes: com um especial televisivo em mente, vê-se uma descontração que não se diferencia assim tanto de caos organizativo, com os planos a mudarem constantemente — o especial televisivo passa a documentário, ninguém sabe onde vai ser o tão propalado concerto e as hipóteses vão de um anfiteatro na Líbia aos estúdios em que ensaiavam — e as canções novas a nascerem ali, mais do que a serem apenas finalizadas e gravadas.

Há uma certa humanização de quatro homens que entretanto ganharam estatuto de mitos, também. Essa humanização está nos momentos mais lúdicos das gravações: nas muitas piadas e gargalhadas, num sapateado de Ringo Starr, numa dança de John Lennon agarrado a Yoko Ono, em Ringo a ver McCartney ao piano e a confessar candidamente ao realizador que “pagava só para o ver tocar piano durante uma hora”, na forma como a banda tocava incessantemente uns segundos de canções alheias (covers que parecem infinitos) só para aquecerem os motores e para se divertirem. E, claro, nos últimos dias em estúdio, já bem mais ilustrativos da genialidade dos The Beatles do que os primeiros, e no concerto final improvisado no telhado da sede da Apple Corps, a empresa criada pelos The Beatles.

Abundam assim os momentos animados das gravações, aqueles em que a banda parece estar a tocar melhor do que nunca, em que os quatro parecem simplesmente miúdos de Liverpool com uma boa dose de loucura, em que a criatividade transborda de tal forma que permite-nos ouvir os primeiros esboços de canções brilhantes que entrariam em Abbey Road, o último disco a ser gravado pelos The Beatles.

Há momentos mágicos para qualquer fã que se preze dos The Beatles. Por exemplo, ver Paul McCartney ao piano e com um microfone a testar um primeiro esboço de “Let It Be”, ainda sem a letra definida, ainda à procura do tom certo para a canção, com Lennon e Harrison a aderirem ao “ensaio” e a tentarem com a voz (mas ainda sem palavras, à exceção do refrão) fazer melodias e harmonias.

O que não se pode dizer é que todas essas cenas não coexistem com tensões notórias em que a banda já vivia. Peter Jackson mostra-as com uma qualidade de som e imagem que não julgávamos possível, mas foi Michael Lindsay-Hogg que as captou em 1969. Fê-lo empregando técnicas mais e menos ortodoxas, que iam desde deixar as câmaras a gravar sem operador e com a luz que indicia que está a decorrer uma gravação tapada até plantar microfones escondidos para captar conversas que os protagonistas não queiram que fossem ouvidas.

Além de mostrar o que Michael Lindsay-Hogg captou mas não pôde mostrar no seu filme de 1970, Peter Jackson e uma vasta equipa de que se rodeou quiseram também incluir conversas que o próprio realizador à época não conseguiu registar em áudio ou vídeo. Parece impossível, mas explica-se rapidamente. Quando os quatro membros da banda queriam tornar as suas conversas impercetíveis, tocavam notas soltas nas guitarras elétricas para distorcer e tornar inaudível aquilo que diziam. O que Jackson e a sua equipa conseguiram fazer foi, com recurso a código e inteligência artificial, retirar o som dos instrumentos nesses momentos, ficando apenas com o que Lennon, McCartney, Harrison e Starr discretamente diziam.

Acompanhar a reação dos restantes três elementos à saída de Harrison é assistir a um pedaço de história que estava por desvendar. George podia ter o melhor baú de canções originais e inéditas no mundo: nos Beatles, não teria nunca o protagonismo da dupla Lennon-McCartney.

A saída (temporária) de Harrison da banda, vista pela primeira vez

O momento do documentário em que a tensão atinge o auge é quando George Harrison bate com a porta e diz que deixou de fazer parte da banda. No diário, que o filme mostra, Harrison escreveu: “Acordei, fui para Twickenham. Ensaiei até à hora de almoço. Deixei os The Beatles e fui para casa”.

Acompanhar a reação dos restantes três elementos à saída de Harrison é assistir a um pedaço de história que estava por desvendar. Vemo-los dizer que não sabem porque voltam ao estúdio umas horas depois (Lennon diz que estão “a fingir que nada aconteceu”) e fazerem piadas: “Se não voltar até terça-feira arranjamos o [Eirc] Clapton”. E percebemos que há um elefante na sala quando Neil Aspinall, da Apple Corps, desabafa que Harrison está de um lado e McCartney e Lennon do outro, “em relação às decisões sobre o que vão fazer e o que vão tocar”. George podia ter o melhor baú de canções originais e inéditas no mundo: nos Beatles, não teria nunca o protagonismo da dupla.

Quando, depois de um encontro em casa de Ringo Starr que corre mal, o trio não consegue convencer Harrison a voltar, vemos Paul McCartney e Ringo Starr nos estúdios Twickenham sem Lennon (ninguém sabe onde este estará) à conversa com a equipa que os estava a filmar, confessando que no encontro “a Yoko falou pelo John” e que “se algum dia chegarmos a um ponto em que ou é a Yoko ou são os Beatles, o John escolherá a Yoko”. E no entanto, acrescentava Paul McCartney, “ela é ótima, é porreira, simplesmente querem estar perto um do outro”.

Abalado pela ausência de Harrison, Paul McCartney tem uma ideia nova para o espetáculo de televisão que o grupo ainda não tinha trocado pela ideia de um documentário: entre canções tocadas ao vivo pelos The Beatles, uma equipa de jornalistas ia dando notícias importantes, até a banda acabar o concerto e ser dada a última grande notícia: “Os The Beatles acabaram”.

Paul McCartney, George Harrison and Ringo Starr Happy Hearts Club

Citado em comunicado, Paul McCartney disse: "Fomos escrevendo canções cada vez melhores, mas na forma de relacionarmos nunca deixámos de ser quatro miúdos de Liverpool"

Corbis via Getty Images

Ainda sem Harrison mas já com Lennon em estúdio, Paul McCartney dirige-se à cafetaria para uma conversa privada e afastada das câmaras com o velho amigo. Sem acesso a vídeo, há ainda assim o registo áudio dessa conversa, captado por um microfone escondido e que é uma nova (e importante) peça que compõe o puzzle sobre o entendimento relativo ao fim da banda.

Entre outras coisas, McCartney ouve Lennon dizer-lhe que tal como Harrison “já não sente satisfação suficiente” com o que faz nos Beatles e queixar-se que Paul tem medo “que ele não toque como queres que ele toque e é isso que fazemos e é isso que fazes comigo”, confessa que “tratamo-lo um pouco desse modo” (paternalista) e assume: “Temos um problema, os quatro: tu estás a ir por um caminho, o George por outro e eu por outro ainda”.

Fica portanto claro (como se já não estivesse) que não há uma razão única para explicar o final dos The Beatles. Esse desfecho resultou, na verdade, das tensões acumuladas por todos: a omnipresente Yoko podia ser um problema para todos menos Lennon, mas a castração da criatividade de Harrison (por Lennon e McCartney) e a forma como Paul McCartney reclamava cada vez mais para si o controlo de uma série de decisões relativas à banda e à escrita de canções eram um problema.

Lennon assumia-o, aliás, de forma clara: “Houve uma altura em que nenhum de nós te podia dizer o que quer que fosse sobre os teus arranjos [para as canções] porque rejeitarias tudo o que disséssemos”. Ao mesmo tempo, reconhecia: “Somos todos culpados quanto à forma como nos relacionamos entre nós, podíamos todos fazer muito mais”.

Toda esta tensão tem também um efeito: o de tornar ainda mais impressionante a química que a banda mostraria depois do regresso de George Harrison, uns dias mais tarde, enquanto ensaiava e gravava canções (já com o teclista e amigo Billy Preston) num estúdio mais confortável — montado nos escritórios da Apple Corps. A mesma sintonia que os quatro, aliás cinco, mostrariam depois quando se apresentaram ao vivo pela última vez, no telhado desses escritórios para um concerto que não estava anunciado e que nesta série documental pode ser visto pela primeira vez na íntegra.

“Tira isto, põe aquilo”. Peter Jackson não recebeu notas, só o maior elogio

Para se ter uma ideia da magnitude e dificuldade de esta série documental, basta dizer que Peter Jackson demorava cerca de quatro meses a editar (com as equipas com que trabalhava) um filme da saga “Senhor dos Anéis” — já esta série de três episódios demorou três anos a editar.

Numa entrevista por Zoom conduzida por Matt Everitt, a que vários meios internacionais incluindo o Observador assistiram, o realizador de “Get Back” explicava recentemente que já era um grande fã dos The Beatles antes de começar o trabalho. Defendia até que “quem quer que fizesse isto tinha mesmo de ser um fã para perceber algumas das referências a que aludem durante as conversas”.

Lembrando que 12 das 17 canções que entrariam mais tarde em Abbey Road já aparecem nestas sessões de estúdio da banda em janeiro de 1969, Peter Jackson notava que no filme vê-se também o grupo a ensaiar temas que acabariam incluídos em álbuns a solo, como “Gimme Some Truth” (John Lennon), “All Things Must Pass” (George Harrison) e “Another Day” (o primeiro single de Paul McCartney a solo).

Há 50 anos, “All Things Must Pass” confundia tudo: afinal, quem era George Harrison e quem tinham sido os Beatles?

Tentando explicar algum do caos e da constante alteração de planos retratada no documentário, Peter Jackson lembrava que “na última vez que tinham tocado ao vivo tinham o Brian [Epstein] ali” e que “quando iam para estúdio gravar um álbum tinham normalmente o George Martin em Abbey Road, a organizar as sessões de gravação”. Mas Epstein entretanto morrera e Martin só amiúde visita a banda em estúdio, até porque “em Twickenham estavam a ensaiar, não a gravar”.

O que Jackson conclui disto é que a banda estava “sem a sua equipa de apoio” enquanto era filmada. Os The Beatles, dizia ainda, “pareciam pensar que alguém estava ali a fazer tudo acontecer nos bastidores”. E arrisca que essa pessoa seria Dennis O’Dell, o produtor. Porém, este estava presente “em part-time”, pelo que tudo parecia “um pouco desorganizado”.

Elogiando o trabalho do realizador que captou a vasta maioria destas imagens e sons em 1969 por os tentar tentado filmar “o mais naturalmente possível”, e que “claramente filmou muito mais do que eles julgavam“, Peter Jackson comentava ainda: “Aqui vemos que os The Beatles não eram uma unidade. Eram simplesmente quatro seres humanos separados, como quaisquer quatro pessoas são. Estou grato a este projeto por me ter permitido passar a pensar neles como quatro pessoas”.

O realizador de "Get Back", Peter Jackson

Kevin Winter/Getty Images

O realizador revelou ainda que conversou com Michael Lindsay-Hogg, que lhe contou histórias caricatas sobre a pós-produção de Let It Be: “O Paul aparecia e dizer: podes pôr isto e tirar aquilo. No dia seguinte o John chegava e dava instruções completamente diferentes. Pobre Michael, a tentar satisfazer toda a gente. E não lhe foi permitido mostrar o George Harrison a sair da banda, disseram-lhe que não podia”.

Os The Beatles, reconhece o realizador de “Get Back”, tinham “fama de controlar muito a sua imagem”. Mas Jackson conta que “estava à espera de notas” sobre o que podia ou não mostrar e garante que não recebeu “uma única”.

Assumindo que Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono Lennon (viúva de John) e Olivia Harrisson (viúva de George) poderão estar “um pouco nervosos” porque “há uma certa coragem envolvida, já que isto expõe a banda”, Peter Jackson diz que esta versão das sessões de 1969 tem, também por ser mais longa e adiantada na história, “mais momentos controversos e delicados”. Mas Paul McCartney disse-lhe, conta, que este é “um retrato bastante fidedigno de como éramos naquela época” — e esse era a única nota que Peter Jackson queria receber.

A Disney ainda quis, explicava também Jackson, “remover os palavrões” que se ouvem em Get Back mas os dois membros vivos da banda e quem gere a imagem dos restantes elementos (John Lennon e George Harrison) não quis higienizar a série documental. E concluía: “Acho que a história de algum modo tornou mais descontraída a preocupação que têm sobre a imagem da banda. Precisam de estar preocupados com a imagem que as pessoas têm dos The Beatles? Já não precisam. Portanto, sinto que podem agora dar-se mais ao luxo de deixar o mundo ver de forma mais verdadeira como eram realmente”.

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