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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

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Um balcão, paredes limpas e travessas de inox: o Velho Eurico é agora um sonho de tasca, apenas mais polido

Seis meses depois, Zé Paulo Rocha reabre as portas do Velho Eurico numa versão mais polida, com uma cozinha maior e mais organizada. A comida é a mesma, com os elogios a serem feitos pelas paredes.

A cozinha ardeu logo no primeiro dia. Foi durante o fim de semana, ainda antes de terem as reservas cheias para os próximos três meses, que o Velho Eurico abriu portas renovado para receber família e amigos em soft opening. Com chão novo, um balcão a estrear e uma cozinha com o dobro do espaço que a anterior — aquela pequena que servia tanto cliente seguido por dia —, o segundo serviço do primeiro dia quis também estrear os fogões desta casa com uma frigideira que deu para o torto. “Se uma coisa destas acontece no primeiro dia, uma pessoa fica relaxada para o resto”, comenta Zé Paulo Rocha, o lisboeta que desde 2019 está ao comando desta tasca depois de durante várias décadas o senhor Eurico Ferreira e a mulher, Carolina Cunha, lhe terem dado vida. “O resto” de que fala é o regresso ao trabalho desta que é a tasca onde mais difícil é arranjar mesa em Lisboa. Depois de quase seis meses fechados para obras, voltaram a abrir portas para continuar a receber e a servir bem — o suficiente para fazer aquela tão concorrida fila à porta.

Foi no domingo, 4 de maio, que fizeram o anúncio de que a partir de 6 estariam de regresso à (nova) rotina. As reservas foram abertas e no dia a seguir já tinham regressado àquilo que era habitual: pouco ou nada restava. Os saudosos clientes encheram as mesas de tal forma que, ainda a um dia de abrirem oficialmente portas, já só havia alguns lugares vagos para agosto. De notar, novamente, que é em maio que o Observador conversa à mesa do (novo) Velho Eurico — já essas são as mesmas de sempre, a acompanhar as cadeiras toscas que caracterizam o espaço. “As pessoas ontem passaram-se mesmo. Já está quase cheio para os próximos três meses. As pessoas estavam com muitas saudades, foram seis meses”, comenta, acrescentando que “dá uma segurança”. De forma a não sobrecarregar o serviço, vão começar sem lista de espera. Se abrirem, receberão apenas cinco mesas por turno, a contrastar com as 20 a 30 de antes. “A malta está muito motivada e queremos abrir com calma”, confessa.

▲ Depois das obras, o Velho Eurico perdeu alguns lugares sentados à mesa para ganhar espaço para uma cozinha maior, com balcão

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A vontade de mudar surgiu no verão do ano passado. Depois de cinco anos a trabalharem numa pequena cozinha para tantos clientes, Zé Paulo Rocha percebeu que o caos que ali se vivia, e a falta de fluidez com o serviço de sala, era preciso ser controlado. Precisavam de mudar as condições na cozinha e, para tal, preferiram dar um passo atrás em relação ao número de lugares que tinham para que pudessem ganhar mais espaço de operação e conseguirem ter um serviço “um bocadinho mais fixe e organizado”. “Comecei a olhar mais para as pessoas e não para o trabalho em si. Acho que as coisas só funcionam se as pessoas que trabalham connosco estiverem felizes. E também me deixa muito mais feliz pensar dessa forma”, explicou o cozinheiro, acrescentando ser “uma nova era do Eurico”. Mais saudável, afirma, deixam para trás o caos que não se sentia apenas na cozinha: “era na vida em geral”.

O que mudou então? As paredes estão despidas de história e de todas as palavras que ao longo dos anos foram escritas nos azulejos que as cobriam desde o chão até ao teto. Agora, há uma tela em branco pronta para ser preenchida. Já se contam alguns rabiscos, poucos para Zé Paulo que afirma serem “só de dois serviços” e que “ainda há muito para pintar”. Quem estivesse habituado à antiga imagem, vai agora encontrar apenas um Velho Eurico com um ar mais fresco, mantendo a mesma identidade que o caracteriza. As mesas de madeira ficaram, as cadeiras também, apesar da vontade inicial por investir em mobília antiga que se mantivesse no mesmo registo daquela que já cá andava. “Mas acabámos por pegar em tudo o que tínhamos e dar-lhe um tratamento e pintar”, explica, confessando ter medo que se a mudança fosse total, não fosse bem recebida. O mesmo aconteceu com as loiças: “Pensei em pôr os pratos todos iguais mas não fazia sentido, isto é a nossa cena”, diz, referindo-se aos pratos, cada um do seu tipo, que decoram as mesas. “Muda um pouco o espaço mas não muda a sua essência, seja na cozinha seja na decoração“.

▲ A cozinha foi renovada, as salas levaram chão e paredes novas (livres de palavras escritas) e o letreiro lá fora manteve-se igual

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Já a cozinha, bem maior, ocupa metade do espaço da primeira sala que antes recebia mesas e conta agora com um balcão — com três lugares para os amigos que por cá passem sem reserva. “Concretiza-se o sonho de tasca, que é um balcão, uma janela e travessas de inox” que recebe uma carta tão portuguesa preparada agora numa cozinha melhor equipada. “Temos um forno bom”, destaca, recordando já com nostalgia o antigo forno do Velho Eurico que tanto dava “180 ou 250 graus” e onde se colocava “um chinelo na porta para controlar a temperatura”. Sem truques, os pratos desta tasca são os mesmos de sempre, só com “20 ou 30% de novidades” para começarem com calma. “Prefiro nesta altura ter consistência de serviço, como é uma operação e um circuito diferente. Primeiro ganhar fluidez no serviço e depois vamos mexendo e vamos brincando”.

As brincadeiras estão escrita a giz no quadro preto sobre a parede e respondem a nomes como prego (10 euros), uma adaptação de ervilhas com entrecosto (13 euros), a salada de alface (5 euros), o atum de cebolada (14 euros), a morcela de arroz (8 euros), a pescada com todos (12 euros) e a torta de laranja (5 euros). “Depois destes dois dias de soft opening, provavelmente para a semana já vou mudar coisas”, confessa. Uma delas será a morcela: agora fazem o recheio, depois distribuído em tabuleiro, — “um bocado mais preguiçoso” — mas querem “testar encher mesmo morcelas, dá mais trabalho mas fica muito mais giro”.

Com um “feedback melhor do que estava à espera” naqueles dois primeiros dias de abertura, os clientes do Velho Eurico exploraram os novos pratos da carta, petiscando ainda os antigos que durante seis meses não puderam comer. Por isso, quem cá vier vai continuar a encontrar os croquetes de borrego (4 euros), o arroz de pato (14 euros), o frango da Guia (9 euros), o bacalhau à brás (15 euros), a lula e laranja (17 euros) e o leite creme (5 euros). Já durante este período fechados, houve sempre a oportunidade de rever as caras desta equipa no Crack Kids, com o Velho Eurico on crack, a cozinhar à beira rio de janeiro a março.

▲ Zé Paulo Rocha, o chef do Velho Eurico

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É um novo Eurico? “É uma versão mais polida”, afirma, sendo que, também assim, “é um novo Eurico”: “Acho que vai ser exatamente o que era o Velho Eurico. Num formato um bocadinho mais divertido, por termos o balcão”. Quanto ao antigo, vai poder ser recordado num documentário que estão a editar. Gravado ao longo do ano passado até ao momento em que fecharam portas para obras, vem retratar o que é o Velho Eurico, como é a vida dos cozinheiros, desde team buildings à diversão fora do trabalho, passando pelas visitas aos produtores. “É sobre backstages dentro de uma cozinha, de serviço de uma cozinha de produção”, explica. Por lá vai estar toda uma imagem preservada do espaço antigo — com tudo o que estava escrito pelas paredes — mas já sem o resultado das obras. “Foi a altura indicada para fazer um projeto daqueles, visto que o espaço ia todo abaixo. Acabámos por gravar muita coisa do espaço antigo no último ano que não tínhamos nunca filmado nos últimos cinco. Foi a oportunidade. Teve que ser naquela altura”, confessa.

A estreia está prevista para o final do ano, com quatro episódios de um quarto de hora cada, mas até lá há todo um novo Velho Eurico para explorar de terça-feira a domingo, seja ao almoço ou ao jantar, e aturar as longas filas para ter mesa — tanto à porta como nas reservas.

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