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"Um e-mail consome meio litro de água. Não estamos conscientes do que estamos a fazer"

Na Espanha onde Virginia Mendoza nasceu e vive, o desespero árido é crónico e a chuva quase um milagre. No livro "Sede" explora a necessidade humana por água e suas consequências. Entrevistámo-la.

Para Virginia Mendoza, é parte do nosso encanto sermos contraditórios. Isso explica que tenhamos substituído as banheiras por duches, mas tenhamos aumentado o número de vezes que tomamos banho por semana ou até por dia; que, em tempos de prosperidade e abundância de água, sejamos excessivos a consumi-la em vez de a pouparmos para quando não a temos.

No livro Sede (ed. Objectiva), esta jornalista e antropóloga espanhola parte de histórias de infância passadas com os avós nas lezírias de Castela-Mancha, na província de Cidade Real, uma das regiões menos chuvosas da Europa, para falar sobre a ideia de sede como uma necessidade humana de procura pela água e de como foi encontrar respostas noutras eras e em geografias diferentes do mundo.

As secas, cíclicas, que costumam durar três a quatro anos por década, assim como as inundações (naturais ou fabricadas, como o são as barragens), ditam as culturas e as resiliências existentes nos territórios, mas também os êxodos e os despovoamentos a que ficam sujeitos. O estilo de vida que levamos atualmente não ajuda ao caminho que o planeta está a levar. O consumo invisível de água que fazemos, muito menos. Foi sobre tudo isto que falamos com a autora.

Sede é um manancial de informação, de muitos quadrantes. Como é que definiu a narrativa e fechou a estrutura do livro?
Não sei dizer como aconteceu, porque foi de uma maneira muito imprevista. Um detalhe levava-me a outro, um detalhe fazia com que fizesse uma pergunta e quisesse encontrar uma resposta. E tudo isso se foi encaixando de alguma maneira. Começava sempre os capítulos com histórias familiares, que iam cada vez mais longe. Então, nem foi necessário forçar muito para que tudo encaixasse, porque o que eu tinha primeiro em mente era, sobretudo, uma história familiar. O que eu queria era entender como aquilo que a minha avó, o meu avô e a minha mãe faziam se podia englobar numa história que os transcendia. Por exemplo: se a minha avó fazia uma dada coisa, eu queria saber se haveria alguma outra cultura no mundo que fizesse algo semelhante, ou que permitisse explicá-la. Encontrava a resposta e tudo, de alguma forma, se foi encaixando.

Partiu sempre do micro para o macro, do particular para o universal.
À exceção do epílogo. Estava com um bloqueio e não sabia como sair dele. Fiquei completamente em branco. E pensei: “talvez tenha chegado o momento de ler alguma coisa diferente, já passei muito tempo a ler sobre o mesmo tema”. Pus-me a ler algo que pensava ser diferente, mas que, na verdade, não o era. Uma pessoa da minha árvore genealógica, um homem condenado à morte, escreve à mulher uma última carta em que a aconselha a mudar-se para um lugar onde a vida fosse mais amável, porque a seca na região era tão grave que não deixava trabalhar os campos. De repente, foi como… uau! Claro! Ia ser um epílogo sobre esses êxodos provocados pela seca, sobre deslocações massivas. Neste caso, falo da seca, mas, devido às alterações climáticas em geral, haverá cada vez mais gente me fuga de zonas cada vez mais áridas, cada vez mais quem tenha de sair de territórios inundados pela subida do mar.

▲ A capa de "Sede", de Virginia Mendoza, na edição portuguesa da Objectiva

No epílogo, fala do fio de esparto, que liga os agricultores que olham o céu para ver se chove, aos caçadores-recoletores que olham para a água da terra a partir da caverna onde se abrigam, no Neolítico. Que fio liga o livro?
Talvez o que liga tudo seja a necessidade de entender que essa sede que eu vivi desde pequena partilho-a não só hoje, neste momento, mas também com pessoas de lugares muito distantes em todo o mundo e ao longo dos tempos. Quando falo deste fio de esparto, acredito que é um pouco o que nos une ao céu e à terra. Gerações de descendentes, não necessariamente da mesma família.

Que sede foi essa de que fala, de quando estava com os seus avós nos campos?
Não me lembro de uma sensação a nível físico nem nada disso. No livro, quando falo de sede, não falo só da necessidade fisiológica, falo de uma necessidade humana a nível coletivo da procura pela água. E não literalmente de a beber. Nas minhas primeiras lembranças — que tenho poucas, porque tenho uma memória muito má — estão presentes elementos que têm a ver com essa sede pela qual passámos. Por exemplo, uma imagem que me surge, não como uma lembrança porque não há uma narrativa, mas como um flash, é a de estar a observar girinos na água estancada. Na casa dos meus avós, por exemplo, havia um pátio grande, que tinha sido o curral onde no passado estavam os animais, e que estava cheio de todo o tipo de recipientes que pudessem acolher água, porque nunca se sabia quando ia deixar de se ter água. Lembro-me também dos banhos partilhados. Isto pode parecer hoje uma aberração, mas, quando não se tem água, tem de se fazer esse tipo de coisas, tem de se reutilizar a água de formas que ninguém imaginaria. Lembro-me também muito de ir com meu avô ao depósito da aldeia. Ele era o encarregado de abrir e fechar a água, todos os dias, nos tempos de restrições de água. Eu acompanhava-o, estava sempre com ele. Lembro-me também de vê-lo entrar numa caverna e, da abertura numa rocha, conseguir que saísse água para poder regar o jardim.

É também muito interessante esta ideia que passa no livro de que a falta de água é uma questão mais coletiva e o consumo um acto mais individual. Só quando a perdemos é que lhe damos valor?
Claro. Em geral, tenho essa sensação. A menos que se tenha passado por uma verdadeira necessidade, quando se tem água não se lhe dá valor. Até mesmo quando se toma decisões relacionadas com a gestão da água, elas são tomadas tarde. Porque, enquanto há água, achamos que nunca vai acabar. Está ali. Por outro lado, vivemos em lugares que sofrem de secas cíclicas e já deveríamos estar preparados para reagir antes. Não há razão para chegar a ter restrições como as que tivemos quando eu era pequena, de meia hora de água por dia, porque estávamos numa terra seca. Era algo por que não só as pessoas que naquele momento estavam vivas passavam, mas também todos os seus antepassados. Naquela caverna em que estava sempre com o meu avô, de onde saía a água, no ponto mais alto é onde ainda estão as oliveiras do meu tio-avô, irmão deste meu avô. Aí, foi descoberto um assentamento da Idade do Bronze, associado a uma cultura a que chamam Motillas. As Motillas são locais arqueológicos existentes na região de La Mancha, caracterizados por terem poços fortificados capazes de captar água subterrânea. Mas, na verdade, esses sítios não são poços, são lugares de enterro. Era onde se enterrava as pessoas que pertenceram àquela cultura. Aquelas pessoas construíram o poço mais antigo que se conhece na Península Ibérica, porque atravessaram uma época de aridez muito grave durante séculos, que acabou com civilizações. Nem todos os pesquisadores estão de acordo de que fosse uma seca global, mas muitos estudaram o colapso de algumas civilizações nesse contexto, como foi o caso do colapso do Império Acádio, na Mesopotâmia.

"Sempre houve humanos a deixar mais marca do que outros. Mas, se estivéssemos a passar agora por mais uma alteração climática como as que se deram ao longo da História, estaríamos a passar por uma mudança natural, por causas naturais, pelo que estaríamos a caminhar para um arrefecimento do planeta e não para um aquecimento."

Há também questões culturais. Não tem muitas décadas o hábito de se tomar banho ao sábado. Valorizávamos mais a água por haver gerações ainda vivas que nos lembravam como era transportar água em bilhas?
Na verdade, pelo menos em Espanha, está a acontecer uma situação bastante contraditória nesse sentido, que é estarmos a eliminar a banheira das casas de banho. Em grande parte terá a ver com o consumo excessivo de água, mas também porque passou de moda… Agora preferimos o duche. Pensamos: “que bom, estamos a tomar medidas para gastar menos água”.

Mas gastamos mais água assim. E o bidé também foi eliminado.
Saíram os dois, é verdade. Havia momentos em que o bidé nos permitia gastar menos água. Permitia que tudo não tivesse que converter-se em quatro duches diários no verão.

A antropologia tem como explicar estes fenómenos comportamentais?
É parte do nosso encanto sermos contraditórios, não é? Diria que a primeira parte do livro explica isso bem, isso de, sempre que vivemos em prosperidade, sermos excessivos.

Refere igualmente os vários ciclos climáticos que ditaram as várias idades da Terra. As alterações climáticas de hoje são diferentes das anteriores em quê?
As de hoje são diferentes porque há cada vez mais evidências de que o que está a acontecer se deve, em grande medida, ao estilo de vida que levamos. Os meus avós sempre fizeram um uso responsável da água, quase não utilizaram plástico na vida, nunca tiveram um carro. Também são seres humanos e não deixaram o mundo à beira do colapso como eu posso deixar, ou uma pessoa rica com o seu avião privado. Sempre houve humanos a deixar mais marca do que outros. Mas, se estivéssemos a passar agora por mais uma alteração climática como as que se deram ao longo da História, estaríamos a passar por uma mudança natural, por causas naturais, pelo que estaríamos a caminhar para um arrefecimento do planeta e não para um aquecimento.

E as migrações em massa estão a implicar com o centro gravitacional da Terra, de que também fala no livro.
Alguns cientistas detetaram que a barragem hidroelétrica das Três Gargantas na China e a construção massiva de poços, a extração massiva de água subterrânea, já fez inclinar o eixo de rotação da Terra. Em resumo, poderíamos dizer que é uma consequência da seca. Essas pequenas mudanças na inclinação são um dos principais fatores dentro do que se conhece como ciclos de Milankovitch. Essas mudanças climáticas ocorrem naturalmente e uma delas tem a ver precisamente com essa inclinação do eixo de rotação da Terra. Portanto, na verdade, não acontecerá nada, talvez não vá acontecer a mim ou a si, mas como podemos garantir que dentro de 25 mil anos não se veja realmente o que isso provocou no planeta? No geral, tendemos a ter uma mentalidade de curto prazo.

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▲ "Vivemos em lugares que sofrem de secas cíclicas e já deveríamos estar preparados para reagir antes", diz Virginia Mendoza

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Na verdade, pessimistas como andamos hoje, nem sequer conseguimos imaginar que existirá planeta Terra daqui a 25 mil anos.
Acho que não devemos dar por garantido que vai ser tudo uma maravilha e que se vai resolver sozinho, porque está nas nossas mãos solucionar algumas coisas. Mas também não devemos cair no catastrofismo, porque o catastrofismo leva à paralisia. É um pouco perigoso. É importante encontrarmos um meio termo, a esperança tem um papel fundamental na hora de levar ações a cabo, quer tenham maior ou menor repercussão: é essencial fazer algo. Quando nos chegam essas mensagens apocalípticas, o que pode acontecer é que acabe a nossa civilização primeiro, já que é uma forma de vida que não se sustenta de forma alguma. O planeta já nos manda mensagens disso mesmo. Mas o planeta vai seguramente continuar cá.

A ideia de que a digitalização de tudo vai poupar imensos recursos é também uma falácia. Uma só pesquisa num motor de inteligência artificial consome cerca de 750 ml de água. Precisamos de redimensionar a ideia de poupança de água?
Sim, acho que a nossa perceção do consumo de água e, portanto, das possibilidades que temos de poupar ou não, está muito adulterada. Em grande medida, porque boa parte do consumo, possivelmente a maior parte do consumo de água que fazemos no nosso dia-a-dia, é um consumo invisível. Quando partilhamos algo no Facebook, por exemplo, que será muito provavelmente algo que o mundo não precisa, essa ação requer um local de armazenamento que gasta água, que precisa de energia. Quando estava a escrever o livro, a previsão era que, para 2027, a inteligência artificial iria quintuplicar, o que iria supor que quintuplicasse o seu consumo de água. Um ano depois de publicar o livro, saiu outro estudo que afirma que se subestimou o valor, que vamos gastar muito mais. Um e-mail, por exemplo, consome meio litro de água. Um e-mail. Não estamos conscientes do que estamos a fazer. Nem podemos estar a pensar nisso o tempo todo. Normalizámos o uso do Whatsapp, algo que parecia ter simplesmente a utilidade de um sistema de mensagens que nos iria permitir fazer o mesmo que com o SMS mas sem pagar. Mas transformámo-lo num ruído constante, utilizamo-lo quase como um caixote do lixo da nossa solidão. Quando nos enviam um vídeo parvo, o mundo precisa disso? E esse vídeo foi enviado, reenviado, reenviado. Parece tão insignificante, mas está a consumir água. É tão extremo o consumo de água invisível, que é impossível ter tudo controlado. Estou a tentar fazer um uso mais consciente das redes sociais. Agora mesmo, não tenho, estou a descansar delas.

Qual a sua opinião sobre a política do governo espanhol relativamente à água que existe no subsolo e nos rios? Têm sido várias vezes notícia os desvios da água do rio Tejo para regar as culturas intensivas das lezírias na Andaluzia.
Não vou falar sobre isso. Não quero falar de política, acho que é algo que não me compete.

"Não devemos dar por garantido que vai ser tudo uma maravilha e que se vai resolver sozinho, porque está nas nossas mãos solucionar algumas coisas. Mas também não devemos cair no catastrofismo, porque o catastrofismo leva à paralisia. É um pouco perigoso."

Dá no livro o exemplo de um produtor latifundiário que retira a água do subsolo e a comunidade na aldeia fica sem água, ao ponto de o povo vir para a rua manifestar-se. Isso é político.
É muito político, sim. Mas não houve uma ambição política nesse sentido. Comecei simplesmente a contar lembranças de infância em relação a uma seca e, como o que eu queria era dar um enfoque antropológico, escrevi um livro sobre a sede. E dei-lhe um título simples, Sede. À medida que ia trabalhando no livro, dei-me conta de que a sede me permite incluir outros fatores ligados à seca como, por exemplo, alguns motins do pão, que foram precedidos por anos de seca, ou situações de desigualdade, em que alguém com muito poder pode decidir se partilha água ou não. De facto, vemos até como isso se pode tornar numa arma de guerra. Mas, se tudo isso fosse atribuído apenas à seca, estaria a cair no determinismo ambiental. Por isso, quis encontrar um meio termo entre aqueles investigadores considerados deterministas ambientais e os seus opostos, que acabam por opor-se à natureza – e não podemos desligar-nos da natureza porque somos natureza.

Há notícias constantes sobre fogos, secas e inundações. Parece que vivemos nisso constantemente.
Paradoxal é que, precisamente em lugares muito áridos, com uma vegetação escassa, podem ocorrer inundações gravíssimas. O que acontece é que, por vezes, essa terra tem mais dificuldade em absorver a água, o que provoca inundações com mais facilidade.

E há aldeias que desapareceram por causa da subida das águas.
Sim, por causa das barragens. Foi o tema que me levou a escrever este livro. Falei sobre ele num livro anterior, que não está traduzido para português, e que se chama Detendrán Mi Río (ed. Libros del K.O.). Conta a história de uma mulher que viveu num lugar que está hoje inundado por causa da criação de um reservatório de água. Como este lugar, há muitos em Espanha. Não se sabe exatamente quantos, mas acredito que tenhamos uns 500. Tenho vindo a fazer uma lista de locais, um Excel, que depois coloco num mapa online, que é como um mapa de reportagens. Tenho já colocadas cerca de 350 populações afetadas pela construção de reservatórios de água – e não tenho todos os lugares da lista colocados no mapa. Estas populações não estão necessariamente inundadas, porque há lugares em que a população se deslocou para um lugar mais elevado, que se salvou da água, mas os terrenos onde trabalhavam foram inundados. Houve vínculos sociais e económicos que foram cortados, o que fez com que esse lugar se fosse despovoando.

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▲ "A nossa perceção do consumo de água e, portanto, das possibilidades que temos de poupar ou não, está muito adulterada"

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Quer falar um pouco mais sobre este projeto?
É um trabalho a longo prazo, está um pouco parado. Parei quando comecei a escrever este livro, se bem que Sede faça um pouco parte do projeto, porque é o que me permite entender a situação das barragens a um nível mais abrangente. Quando trabalhava na história dessa mulher retratada em Detendrán Mi Río, entrevistei muitas pessoas que vivem em diferentes lugares de Espanha, inundados pela água de barragens. Com todo esse trabalho, pude ir fazendo essa grande reportagem multimédia. Quando se clica num desses povos no mapa, há uma micro-história. Não só diz que aquele lugar estava lá antes, como por vezes inclui o testemunho de uma pessoa que viveu ali. Tento também abordar temas que todos partilham, como a importância de levar consigo algo tão simbólico como a chave da casa que se acabou de perder. É muito comum ao longo da História, com as pessoas expulsas dos seus territórios. Há também o vínculo com o cemitério. Imagine-se uma sociedade campesina, essencialmente cristã, para quem é muito importante poder ir à campa dos familiares colocar-lhes flores, encontrar-se simbolicamente com eles. Em alguns casos, deixaram-nos transferir os ossos, mas não é a mesma coisa, há um desenraizamento.

Espanha tem também ainda aberta a questão dos mortos da Guerra Civil, valas comuns ou corpos que nunca apareceram.
Sim, sim. Tento abordar esses temas com o exemplo de alguma localidade, em que haja testemunhas, antigos vizinhos que falam de valas comuns. Na história da mulher para o livro Detendrán Mi Río, ela e os seus vizinhos lembravam-se de haver valas comuns no lugar que tinha sido inundado. Também a recuperação de património foi importante em muitos lugares que iam ser inundados. Por vezes, as pessoas pensavam “não podemos deixar aqui esta igreja, este arco romano”. Desmontavam-no pedra a pedra e reconstruíam-no no lugar mais elevado.

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