Tudo partiu de uma só imagem. Dezenas de pessoas, imigrantes, encostadas à parede, de mãos no ar, para serem revistadas. As imagens da operação policial que causou aparato na Rua do Benformoso, em Lisboa, a 19 de dezembro de 2024, deflagraram nas redes sociais como fogo.
Poucas semanas depois, centenas de pessoas tomaram as ruas numa manifestação contra o racismo e a xenofobia sob o lema “Não nos encostem à parede”, não sem motivar uma contra-manifestação de grupos da extrema-direita e do partido Chega tendo como mote “Pela autoridade e contra a impunidade.” “Encostem-nos à parede, até perceberem que este país é nosso e a lei é para cumprir”, gritou André Ventura.
O debate partidarizou-se. Certo é que o resultado da “operação especial de prevenção criminal”, assim descrita pela Polícia de Segurança Pública (PSP), foi uma detenção por posse de arma proibida e droga e outra por suspeita de crimes de roubo. E um segundo efeito: o episódio tornou-se símbolo da forma como a imigração tem sido tratada na Europa e o gatilho para o encenador Marco Martins, que já ponderava adaptar Um Inimigo do Povo, do norueguês Henrik Ibsen, focando-se no conflito entre o indivíduo e o coletivo. “Uma imagem aparentemente abusiva. Tudo partiu de uma só imagem. Os factos vieram mais tarde, as consequências vieram mais tarde. Quem eram aquelas pessoas? O que faziam elas ali?”, ouvimos aos 20 minutos da peça, que é levada à cena este sábado, 13 de dezembro, e domingo, 14, no Theatro Circo, em Braga (seguir-se-á Porto e Lisboa).
▲ A imagem que despoletou tudo mostra dezenas de imigrantes industânicos encostados à parede para serem revistados durante uma operação policial na Rua do Benformoso, em Lisboa, a 19 de dezembro de 2024
Um Inimigo do Povo propõe uma reflexão crítica sobre o uso político da imagem do imigrante e a ausência da sua voz no espaço público, percorrendo uma série de histórias de violência quotidiana sobre imigrantes. São casos de violência física, verbal, psicológica, nas ruas, nos transportes públicos, nas repartições públicas. E histórias pessoais, verídicas, recolhidas depois de audições com habitantes da Rua do Benformoso e da zona da Mouraria, em Lisboa, habitada maioritariamente por imigrantes do subcontinente asiático. A força dos testemunhos é ampliada pelo facto de serem os próprios protagonistas — dez imigrantes do Bangladesh e do Nepal — a ocupar o palco.
“Tinha uma entrevista de emprego nesse dia”
Shohel Rana, 40 anos, estava lá. É imigrante do Bangladesh e estava lá quando a polícia decidiu encerrar aquela artéria da capital, forçando dezenas de pessoas a encostar-se à parede.
▲ Shohel, 40 anos, deixou o Bangladesh em 2008. É um dos intérpretes da peça e estava na zona da Rua do Benformoso a 19 de dezembro de 2024, durante a operação da PSP
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O que aconteceu é o que conta na peça, sem máscara de ficção. Tinha uma entrevista de emprego nesse dia. Quando a polícia bloqueou a rua só pensava nisso: “vou perder a entrevista”. “Algumas pessoas choravam”, recorda ao Observador, “muitas tinham medo”.
Shohel deixou o Bangladesh em 2008. Foi para Londres tirar um mestrado em engenharia de redes da Queen Mary University e só a morte da mãe o fez regressar ao país natal. Em 2024, decidiu vir com a mulher para Portugal. “Uma pessoa que reconhecíamos de Portugal era o António Guterres, das Nações Unidas. A minha mulher disse-me que ele é um homem muito bom”, diz a este jornal. “Comecei por viver em Campo de Ourique. Na altura achei as pessoas muito simpáticas”, continua, tecendo comparações com o ambiente londrino. “Mas as coisas estão a mudar. Talvez este país esteja a ficar como os outros…”. Questionado sobre a possibilidade de partir, hesita. “Para ser honesto, não quero. Mas às vezes penso sobre isso.”
Já seria noite no Bangladesh (seis horas à frente da hora em Lisboa) quando Sabera Parvin se senta para conversar. Fala-nos com o hijab posto e um sorriso rasgado, um semblante bem distinto do que assumirá passado uns minutos, quando tomar o palco para o ensaio onde também é intérprete. Elogia-nos os sapatos (“São de pele, não são?”, pergunta) e diz que o calçado conta tudo sobre alguém. Olhamos para o chão. Calça umas sapatilhas de tecido com o logo da Marvel. Perguntamos-lhe se é uma espécie de super-heroína. Parvin solta uma gargalhada e diz: “mais ou menos”.
Médica bengali, tem 42 anos, e chegou a Portugal há três, depois de mais de uma década a trabalhar em hospitais e clínicas em Omã. Durante a pandemia de Covid-19 trabalhou em unidades de cuidados intensivos (“os ventiladores eram sobretudo para os árabes, e não para os imigrantes”, nota). Quis abrandar o ritmo, viver a vida, reerguer-se depois de um aborto inesperado. Já tinha estado na Dinamarca e tinha uma “boa vibe” da Europa. “Achei que o clima era bom, as pessoas simpáticas. Na Dinamarca se sorrimos ou dizemos bom dia não nos dizem nada. Aqui, mesmo que não nos entendam, os portugueses sorriem. Portugal é um país que pode não ter muitos recursos, mas tem uma energia muito boa.”
▲ Sabera, 41 anos, médica bengali, chegou a Portugal há três anos depois de mais de uma década a trabalhar em hospitais e clínicas em Omã
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Mudou-se com o marido e a filha e comprou “uma casa de sonho” na margem Sul do Tejo. Enquanto se prepara para poder exercer medicina em Portugal (já submeteu todos os documentos e espera agora fazer o exame teórico de Medicina no início de 2026), desenvolve trabalho comunitário em ONGs com mulheres imigrantes em Portugal. Quando lhe perguntamos se percebe mudanças, o tom altera-se: “Mudou um bocadinho. Agora as pessoas apontam o dedo… Mas tenho muita esperança na nova geração. Muita. A minha filha está na escola no Barreiro e vejo-os a abraçarem-se todos. Não sinto discriminação”.
É ela que atravessa o chão do palco, joelhos rastejantes e apenas o rosto visível perante o corpo todo coberto. Os homens olham para ela. Virá a levantar-se e a dançar. “É verdade. Eu dançava”, diz em personagem. “Eu costumava dançar isto no meu país, no Bangladesh.” Até que o pai não quis. “Porquê?”, interpela-a a atriz Rita Cabaço, que com Rodrigo Tomás compõe a dupla de únicos atores profissionais no elenco. “Porque não queria que ninguém dissesse que a filha era bailarina.” O pai de Sabera queimou-lhe todas as roupas. Um coro de pessoas dança, os braços ondulam pelo ar. A leveza dos movimentos contraria a dureza das histórias biográficas que se contam.
“São os caminhos da migração. Alguns vieram em busca de um sonho, outros para aumentar o conforto, outros, como eu, para curar a alma”, diz-nos Seba. “É uma moldura das histórias de vida de tantos. O imigrante não é o inimigo”, sublinha.
▲ O elenco é constituído maioritariamente por atores não profissionais do Bangladesh e Nepal, aos quais se juntam os atores Rita Cabaço (à direita) e Rodrigo Tomás
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Não é isso que se sente quando de repente estamos numa sala da AIMA imaginada, funcionários e imigrantes sentados frente a frente. “Fala português?”, “Tem documentos?”, “Trabalha?”, “Nem “Bom dia, boa tarde”, o básico?”, “Onde é a sua casa?”, “Ainda não conseguiu falar em português?”, disparam. “Posso falar. Tenho o direito a falar?”, escutamos a dada altura.
“As inquietações que sinto na vida trago-as para os meus espetáculos”, resume Marco Martins, encenador, findo o ensaio. Explica que para “esta onda de xenofobia que se tem espalhado nos últimos anos na nossa sociedade, muito apoiada pelo discurso da extrema-direita”, a mediática fotografia da Rua do Benformoso funciona como “um ícone dessa viragem social”. “A ideia de ter um primeiro-ministro que diz que não é preciso fazer crimes para as pessoas se sentirem inseguras, indiciando que há grupos étnicos ou grupos sociais que são eles próprios uma ameaça só por pertencerem a esse grupo…”, solta.
“Aquela imagem daquelas pessoas encostadas contra a parede transformou-se num ícone da relação, no fundo, política que temos com a imigração em Portugal”, acredita. “Levantou-me muitas questões e, sobretudo, a desumanização daquelas pessoas, ou seja, no fundo, bastava estar naquela rua para ser encostado a uma parede, não era preciso haver nenhuma causa, e, sobretudo, havia alguns lojistas, ainda por cima, naquela rua, que eram portugueses nativos, que continuaram a andar.”
▲ A peça propõe uma reflexão crítica sobre o uso político da imagem do imigrante e a ausência da sua voz no espaço público
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Em julho de 2025, a Provedoria de Justiça acabaria por identificar falhas graves na operação da PSP na rua do Benformoso. Para esta entidade, “foram detetadas falhas graves na planificação da operação” e faltou uma justificação para as revistas pessoais feitas pela PSP, que deixaram pessoas perfiladas contra a parede. Ainda assim, o parecer acabaria por ter apenas uma fração do impacto público dos cartazes de campanha de André Ventura para a corrida a Belém de 2026 — cartazes que ocuparam as ruas com frases como “Isto não é o Bangladesh”.
“Aquele cartaz podia ser um cartaz da peça em si”, comenta Marco Martins, que começou a trabalhar em Um Inimigo do Povo muito antes de as mensagens do líder do Chega surgirem e originaram queixas por discriminação.
Para o encenador de peças como A Colónia (2024) ou Pêndulo (2023), a lógica da obra que agora leva a Braga é clara: as minorias, sobretudo as comunidades imigrantes, são frequentemente transformadas em alvo político precisamente porque não têm representatividade nem voz pública. “O discurso dessas pessoas é facilmente manipulado pelos partidos, à direita e à esquerda. Criar um inimigo é sempre um objetivo político. Neste caso, o inimigo são ‘as pessoas do Bangladesh’ ou, genericamente, ‘os hindustânicos’. A construção do inimigo é uma estratégia recorrente — sobretudo da extrema-direita — e o inimigo é sempre o estrangeiro, aquele que vem de fora, aquele que se pode responsabilizar por todos os problemas sociais.”
Bode expiatório
“O princípio democrático diz que a maioria tem razão. Mas o que aconteceria se essa maioria defendesse, por exemplo, a expulsão de imigrantes ou de judeus?”, questiona Martins. “A peça confronta-nos exatamente com isso: quem é essa maioria? De que é feita essa maioria? É composta por pessoas informadas ou por pessoas totalmente desinformadas?”. Ibsen não suaviza: “A maioria foi sempre feita de idiotas”.
“Sendo uma frase tão provocadora, que é central na peça — ‘a maioria nunca tem razão’ —, pelo menos obriga-nos a discutir o que é, afinal, essa maioria”, diz o encenador. Na mesa de ensaios habitam diferentes autores: Hannah Arendt, Cesare Pavese, Adília Lopes. Mas foi sobretudo a partir da investigação das jornalistas Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro e das biografias pessoais dos intérpretes que Marco Martins trabalhou. Mais do que as capacidades performativas, procurou realidades distintas, plurais, desconhecidas do grande público. “Interessa-me a história de cada pessoa. Interessa-me colocar em palco corpos, vozes e pensamentos que estão excluídos do discurso dominante.”
▲ O encenador Marco Martins, durante um ensaio de "Um Inimigo do Povo", que se estreia este sábado, 13 de dezembro, no Theatro Circo, em Braga
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
É o caso de um dos intérpretes, imigrante do Bangladesh ou do Nepal, que foi vítima de redes de tráfico e percorreu quase todo o trajeto até Portugal a pé, ao longo de anos, tendo sido detido no percurso. “A arte tem, às vezes, um lugar de utopia. E esta peça é muito isso: dar-lhes uma representação decidida por eles, não por nós. Ver esses corpos em palco é algo que quase nunca acontece.”
E, no entanto, Rita Cabaço atira-nos desde o palco: “O teatro não acrescenta nada. Não conheço nenhum teatro que iguale a potência de políticos ou de polícias que encostam alguém à parede.” Confrontado, Marco Martins reconhece: uma peça não mudará o mundo, nem sequer o país. Mas rebate: “Acho que vai mudar completamente a vida das pessoas que participam no espetáculo. E espero que transforme também quem o for ver.”
Sobretudo, “gostava que a peça desinquietasse”. “A peça provoca-nos a todos, abre discussão. Não pretendo moralizar nada — até porque, como a Rita diz, somos todos culpados. No estado a que chegámos… ninguém é santo.”
Theatro Circo, Braga, 13 e 14 de dezembro, 21h, sábado, 16h, domingo. Teatro Rivoli, Porto, 16 e 17 de janeiro de 2026. Centro Cultural de Belém, Lisboa, 13 a 15 de março de 2026.