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Um novo Orbán? Bulgária vai a votos e deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar a guerra

Ex-piloto convertido em político, Rumen Radev é o grande favorito para vencer as eleições búlgaras. Já criticou Zelensky e vê a Bulgária como um canal para melhorar as relações entre a UE e a Rússia.

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O encontro foi muito tenso. Em Sófia, em julho de 2023, o Presidente ucraniano encontrou-se com o homólogo búlgaro da altura, Rumen Radev. Conhecido por ser uma das vozes mais críticas do apoio militar à Ucrânia na política da Bulgária, o antigo chefe de Estado búlgaro não diminuiu o tom das críticas quando se reuniu com Volodymyr Zelensky perante as câmaras de televisão: “Continuo a achar que este conflito não tem solução militar e mais armas não o vão resolver. Nós não podemos apenas pensar na Ucrânia, mas também como a guerra afeta a Europa”. O líder ucraniano ripostou: “A Rússia quer destruir a NATO e a União Europeia [UE], esse é o seu objetivo”.

É este ex-Presidente que confrontou Volodymyr Zelensky que é o grande favorito para ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária, que vai a votos no domingo. Desde 2021, estas são as oitavas legislativas no país de 6,5 milhões de habitantes, que enfrenta um ciclo crónico de instabilidade política. Antigo piloto de caças soviéticos e antigo chefe de Estado com posições pró-russas (que renunciou ao cargo para se candidatar a primeiro-ministro), Rumen Radev está a tentar transmitir a imagem de que é o homem que vai consertar o sistema.

Corrupção, instabilidade, oligarcas e vendettas políticas constantes: a Bulgária chega às oitavas eleições em cinco anos mergulhada numa profunda crise na confiança da sua democracia. Neste contexto, Rumen Radev assumiu o protagonismo na política búlgara apresentando-se como um messias que pode acabar com o caos ao enfrentar os políticos de centro-direita pró-europeus. O Bulgária Progressista — partido criado há um mês e meio pelo antigo Presidente —, aparece à frente nas sondagens com cerca de 35% dos votos.

epa11403577 Bulgarian President Rumen Radev attends the NATO's Eastern Flank Bucharest 9 (B9) summit in Riga, Latvia, 11 June 2024. Latvia is hosting the leaders of Bulgaria, the Czech Republic, Estonia, Hungary, Lithuania, Poland, Romania and Slovakia during the Bucharest 9 (B9) summit of NATO members, which are part of the alliance's eastern flank. As well as Sweden's President Alexander Stubb and Prime Minister Ulf Kristersson attended the summit. The summit is an important event before the upcoming Washington summit for the B9 members to align each other's position ahead of that meeting. The B9 Summit is also be among the many events marking the 75th anniversary of NATO's founding and the 20th anniversary of Latvia's NATO membership.  EPA/TOMS KALNINS

▲ Rumen Radev, o ex-piloto convertido em político

TOMS KALNINS/EPA

É um resultado bastante positivo para um partido recente numa cena política tão polarizada. Ainda assim, não deverá ser suficiente para uma maioria absoluta, a que correspondem 121 (de 240) lugares na Assembleia Nacional búlgara. Independentemente da solução governativa, Rumen Radev deverá ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária. Será um novo rosto no Conselho Europeu e nas instituições europeias; um líder que nunca escondeu as suas posições pró-russas e as críticas às sanções aplicadas por Bruxelas.

Após a derrota do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a UE terá de lidar com um político que nunca escondeu que ambiciona normalizar as relações entre Bruxelas e Moscovo — e isso poderá revelar-se um novo problema para o bloco comunitário. Num país que ainda vê a Rússia com alguma nostalgia, a mensagem pró-russa de Rumen Radev não está a afastar o eleitorado búlgaro, mesmo estando o país geograficamente próximo da Ucrânia.

Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

Quando foi eleito Presidente em 2017, Rumen Radev deu uma entrevista a órgãos de comunicação social europeus. Na altura, a Rússia já tinha anexado a Crimeia e tinha desencadeado uma guerra com o recurso a milícias pró-russas no leste da Ucrânia — o que levou a UE a aplicar sanções. O antigo chefe de Estado já proclamava há nove anos que temia que a União Europeia “ficasse refém das sanções” aplicadas contra Moscovo, avisando que os “dois lados” ficariam a perder.

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▲ Vladimir Putin e Rumen Radev num encontro em Sochi (Rússia) em 2018

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A invasão em larga escala de 2022 não alterou substancialmente a posição de Rumen Radev. Embora tenha condenado a Rússia, o antigo chefe de Estado continuou a considerar que não deveriam ter sido impostas sanções, preferindo que o conflito terminasse o mais brevemente possível, mesmo que isso significasse que a Ucrânia teria de ceder partes significativas do seu território. O ex-Presidente alegava que a Bulgária sempre dependeu fortemente de energia russa barata e que mantinha laços económicos e históricos profundos com a Rússia.

Contrariamente a muitos países da Europa de Leste, a Rússia continua a gozar de uma reputação globalmente positiva na Bulgária, apesar da guerra na Ucrânia. O país usa o alfabeto cirílico, a população é maioritariamente ortodoxa e os búlgaros são culturalmente próximos de Moscovo. Na memória coletiva, permanece viva a guerra pela independência em 1878, na qual a Rússia desempenhou um papel fundamental ao libertar o que hoje corresponde à Bulgária das amarras do Império Otomano. Através deste enquadramento, a Rússia é vista como uma potência libertadora e um contrapeso histórico à influência turca no sul dos Balcãs.

Enquanto país independente no século XX, a Bulgária participou nas duas guerras mundiais ao lado da Alemanha. Nas duas, acabou derrotada. A aproximação às potências da Europa Central nunca correu propriamente bem. Assim, quando o Exército Vermelho entrou em território búlgaro, encontrou uma população exausta, que passou a ver na União Soviética uma potência capaz de derrubar a monarquia búlgara — que nunca tinha trazido nem prosperidade, nem paz ao país.

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▲ População de Sófia a receber militares do Exército Vermelho no final da Segunda Guerra Mundial

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No Pacto de Varsóvia, a Bulgária converteu-se no bom aluno de Moscovo, cumprindo diligentemente as orientações do Kremlin: apoiou a repressão da Revolução Húngara de 1956 e até enviou tropas para ajudar a esmagar a Primavera de Praga em 1968. Tanto assim foi que, nos anos 60, a direção do Partido Comunista Búlgaro chegou a propor a integração do país na própria União Soviética — algo que os líderes soviéticos acabaram por rejeitar.

Enquanto em Budapeste, Berlim ou Varsóvia se celebrou o fim da União Soviética, em Sófia houve algum alívio, mas também algum ceticismo. Apesar disso, o país converteu-se numa democracia parlamentar no início dos anos 90. Todor Zhivkov, o antigo líder comunista durante mais de três décadas, foi afastado do cargo, mas o novo sistema integrou grande parte dos altos quadros do antigo regime. Muitos deles criaram o Partido Socialista Búlgaro, uma das forças políticas responsáveis pela transição.

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▲ Todor Zhivkov, o antigo Presidente da Bulgária comunista

Gamma-Rapho via Getty Images

O processo de transição esteve longe de ser um êxito na Bulgária. A privatização rápida e pouco transparente da economia permitiu que antigos quadros do regime comunista acumulassem fortunas; transformaram-se em verdadeiros oligarcas e passaram a dominar a vida económica e política do país. A corrupção grassava e a qualidade de vida de muitos búlgaros deteriorou‑se em comparação com o período final do comunismo. Tal como os vizinhos romenos, os dirigentes da Bulgária viram na adesão à NATO e à União Europeia uma forma de consolidar a democracia e a liberalização económica.

A Bulgária entrou na União Europeia em 2007 e três anos antes na NATO. O país entrou no bloco ocidental — e, com isso, chegou um fluxo significativo de fundos comunitários. A qualidade de vida da população é certo que melhorou; ainda assim, muitos búlgaros foram percebendo que o dinheiro de Bruxelas foi usado para enriquecer as mesmas elites responsáveis pela transição. A corrupção não diminuiu significativamente com a entrada na UE.

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Desde 2009, a cena política búlgara tem sido dominada pelo GERB — o partido de centro-direita pró-europeu cujo acrónimo significa Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária. Liderado desde 2010 por Boyko Borisov, este homem tornou‑se o rosto mais marcante da política búlgara no pós‑adesão à UE. Visto pelos críticos como a personificação de um sistema oligárquico, o antigo autarca de Sófia entrou ao longo dos anos em sucessivos confrontos com o Presidente Rumen Radev.

▲ Boyko Borisov, o homem que liderou o GERB e foi primeiro-ministro da Bulgária durante anos

STR/EPA

Em 2026, o GERB continua a ser liderado por Boyko Borisov, que encabeça as listas da coligação em vários círculos eleitorais e permanece a principal figura desta força política, que pertence ao Partido Popular Europeu (a mesma família política do PSD e do CDS-PP). Embora não tenha declarado explicitamente que quer voltar a chefiar o Governo, é visto como o principal rosto da candidatura do GERB.

Apesar de ser um dos partidos do sistema que contribuiu para a rede de clientelismo na Bulgária, o GERB venceu várias eleições desde 2021 (apenas perdeu uma, na verdade). Contudo, nunca obteve mandatos suficientes para governar sozinho na Assembleia Nacional, optando por pactos governamentais, que foram sempre frágeis e de curta duração. Como força política mais votada, o partido enfrentou repetidamente a influência presidencial de Rumen Radev, que chegou à presidência em 2017 apoiado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda.

Para muitos búlgaros, o GERB é hoje o símbolo de um sistema político que se degradou com a corrupção e a incapacidade de assegurar estabilidade. As sondagens apontam que o partido de centro‑direita deverá ter cerca de 20% dos votos, o que deverá colocá‑lo, a partir de 19 de abril, no papel de principal força da oposição. Este resultado modesto também ajuda a explicar a popularidade meteórica de Rumen Radev: foi este homem que antagonizou Boyko Borisov e que, ao longo dos últimos anos, travou ou condicionou várias iniciativas de governos ligados ao GERB.

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▲ Cartaz de veto no GERB na Bulgária

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Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

Nascido em 1963, Rumen Radev destacou‑se desde cedo como um aluno brilhante e seguiu carreira militar na Força Aérea da Bulgária. Formado ainda no período comunista, integrou a elite da aviação militar e ganhou notoriedade como piloto de caças soviéticos MiG‑29, chegando mais tarde a comandante do ramo das Forças Armadas, cargo que manteve entre 2014 e 2017.

A política só entrou na sua vida relativamente tarde, mas, enquanto comandante da Força Aérea, Rumen Radev deixou claras várias das suas ideias políticas. Com a entrada da Bulgária na NATO e o debate sobre a modernização militar, entrou em rota de colisão com diversos governos, contestando planos de compra de caças ocidentais e defendendo a manutenção da frota de MiG‑29, mesmo que isso mantivesse uma certa dependência militar em relação à Rússia.

Numa altura em que o GERB já dominava a cena política búlgara, Rumen Radev opunha‑se abertamente a várias decisões do Governo de centro-direita. Partidos rivais começaram a explorar a ideia de o comandante da Força Aérea se lançar na política e concorrer à presidência em 2017. O piloto acabou por aceitar o convite do Partido Socialista, que o apresentou como candidato independente e o transformou no rosto da oposição para travar a candidata presidencial do GERB, Tsetska Tsacheva.

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▲ Rumen Radev a votar nas eleições presidenciais de 2017

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A candidatura foi bem‑sucedida: o ex‑comandante que abandonou a Força Aérea venceu a primeira e a segunda volta das presidenciais, sendo reeleito em 2021. Já na presidência, passou a ser um contrapeso ao domínio do GERB na política búlgara. Não raras vezes tornou a vida difícil a Boyko Borisov, com quem manteve sempre uma relação profissional e pessoal tensa e marcada por escândalos e confrontos públicos.

Nos últimos meses, após testar o terreno e ter chegado à conclusão de que não havia mais nenhuma “alternativa” na política búlgara, Rumen Radev anunciou que abandonaria a presidência da Bulgária para se candidatar às legislativas. Fundou o Bulgária Progressista, reuniu o apoio de outros partidos e tornou-se — desde que entrou na corrida — o preferido nas sondagens para ser primeiro-ministro.

Numa altura em que o domínio de Boyko Borisov é cada vez mais contestado dentro da Bulgária, a candidatura de Rumen Radev apresenta‑se como uma rutura com o passado recente de compadrio e desgaste associado ao GERB. O antigo Presidente tem, afinal, credenciais para isso: desde que entrou na vida política, posicionou-se como adversário do partido de centro‑direita, é tradicionalmente conotado com o campo socialista e traz consigo um historial de confrontos abertos com os governos do GERB.

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▲ Comício do Bulgária Progressista com Rumen Radev

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As incógnitas do que defende Rumen Radev

Enquanto ex‑Presidente e antigo comandante da Força Aérea, Rumen Radev nunca definiu de forma clara a sua ideologia. Usa um discurso nacionalista e defende um equilíbrio entre os compromissos com Bruxelas e Moscovo. Está associado também ao campo socialista e à defesa de políticas de bem‑estar social, mas combina essa agenda com posições socialmente conservadoras e uma linha dura no controlo de fronteiras e da imigração.

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Essa será mesmo uma tática deliberada. Ao jornal Politico, Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a empresa de sondagens Alpha Research, explica que “a sua estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis para permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele”. “Ele está a angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente.”

Em todo o caso, o antigo comandante sempre defendeu uma aproximação a Moscovo, criticando as sanções do Ocidente e condenando o envio de armas para a guerra na Ucrânia, alimentando o papão de uma possível guerra entre a Rússia e a União Europeia. Entre todos os assuntos que podem fragilizar a candidatura de Rumen Radev, o seu discurso pró-russo é provavelmente o mais controverso e o ativo mais tóxico. Mas nem isso está a preocupar os búlgaros.

"A estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis para permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele. Ele está a angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente."
Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a empresa de sondagens Alpha Research

Cansados de anos de instabilidade política e das redes de clientelismo associadas ao GERB, muitos búlgaros estão a focar-se, nestas legislativas, em temas como a corrupção e o elevado custo de vida, relegando a política externa para um segundo plano. Ao mesmo tempo, o peso dos antecedentes históricos faz com que uma parte significativa da população não veja a Rússia como uma potência expansionista na Europa, mas antes como um país culturalmente próximo, que ajudou à libertação da Bulgária do domínio turco.

Mesmo na relação com Bruxelas, muitos búlgaros encaram a União Europeia com desconfiança. A perceção da UE continua a ser positiva, mas a adesão ao euro em janeiro deste ano abalou essa imagem: a introdução da moeda única foi acompanhada de preocupações com o aumento do custo de vida e de protestos. Muitos na Búlgara consideram que o país — um dos mais pobres na Europa — não estava preparado para dar esse passo.

Neste sentido, Rumen Radev tem feito campanha em volta desse tema nos comícios por todo o país, acusando os governos do GERB de terem “introduzido o euro” sem convocarem um referendo. “Agora, quando pagam as contas, lembrem-se dos políticos que vos prometeram que pertenceriam ao clube dos ricos”, disse o candidato da Bulgária Progressista, citado pela Reuters.

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▲ Protesto contra a adesão ao euro em Sófia

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A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

A derrota de um líder eurocético em Budapeste fez os dirigentes comunitários suspirarem de alívio. É provável que a Hungria chefiada por Péter Magyar — que será o novo primeiro-ministro —, levante o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros prometido à Ucrânia, assim como é previsível que o Governo húngaro dê luz verde a novos pacotes de sanções contra a Rússia.

O estado de otimismo poderá durar pouco com a vitória de Rumen Radev. Poderá o antigo Presidente da Bulgária funcionar como uma nova força de bloqueio em Bruxelas no que toca ao apoio à Ucrânia? Os sinais são contraditórios. Por um lado, o antigo comandante nunca referiu que quer retirar a Bulgária da União Europeia ou da NATO, tendo condenado as ações militares russas na Ucrânia. Por outro, já deixou várias críticas ao envio de armas ocidentais e não esconde que quer reaproximar Sófia de Moscovo.

“Somos o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo oriental”, justificou, numa entrevista, Rumen Radev, antevendo que a Bulgária “poderia ser um canal importante” para a Europa “restaurar as relações com a Rússia”. Esta mensagem — no quarto ano de guerra na Ucrânia — colide com a postura defendida por Bruxelas, que não dá sinais de ceder no apoio político e militar a Kiev, nem de levantar as sanções impostas contra Moscovo.

“Somos o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo oriental."
Rumen Radev, antigo Presidente e principal candidato do Bulgária Progressista

As semelhanças com o discurso pró‑russo de Viktor Orbán são bastantes. E não se ficam por aqui. Rumen Radev tem defendido que o país deve comprar gás natural e petróleo da Rússia, argumentando que essa é a opção que defende melhor os interesses soberanos da Bulgária. O ex‑Presidente também deixou claro que se opõe ao envio direto de armas para Kiev; aliás, enquanto chefe de Estado, vetou iniciativas que concediam apoio militar à Ucrânia.

Sobre o que vai fazer na UE quando chegar muito provavelmente a primeiro-ministro, Rumen Radev ainda não aclarou se vai seguir a mesma linha de confronto com as instituições europeias como fez Viktor Orbán. Mas a Bulgária não é a Hungria. Como lembra o Telegraph, o país é o mais pobre na União Europeia e depende fortemente de fundos europeus. Um eventual congelamento de verbas, como o que atingiu Budapeste nos últimos anos, seria potencialmente devastador para a frágil economia búlgara.

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

A dependência búlgara face às instituições europeias poderá levar Rumen Radev a evitar bloquear iniciativas comunitárias de apoio à Ucrânia. E existem outros fatores de política interna que podem funcionar como travão ao pendor pró‑russo do ex‑Presidente. A principal? O facto de existir uma grande probabilidade de ser obrigado a fazer uma coligação ou entendimentos pós-eleitorais com forças pró-europeias.

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▲ Primeiro-ministro húngaro em funções e Rumen Radev

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Neste momento, as sondagens indicam que o Bulgária Progressista deverá vencer as legislativas, com um resultado na ordem dos 35% das intenções de voto com cerca de 100 mandatos, longe da maioria absoluta de 121 deputados. Em segundo lugar deverá ficar o GERB com cerca de 20%. Ainda assim, é improvável que o partido de Rumen Radev se coligue com a força política que tanto criticou no passado e cujo legado garante querer terminar.

Num sistema eleitoral em que é preciso obter pelo menos 4% dos votos para entrar no Parlamento, os estudos de opinião apontam que entrará o PP-DB, um partido liberal pró-europeu anticorrupção, que deverá reunir 12% dos votos. Segue-se, com 10% o DPS-NN, uma força política centrista pró-europeia que defende os interesses da minoria turca na Bulgária. Com cerca de 7% deverá ficar o Renascimento, a força de extrema-direita pró-russa. Uma coligação de partidos de esquerda (BSP) deverá ficar perto dos 4%.

Os analistas sugerem que o parceiro de coligação mais provável do Bulgária Progressista é o PP-DB, se bem que Rumen Radev tenha para já evitado fazer compromissos com o partido centrista. Ambos os partidos têm a bandeira da luta contra a corrupção e o fim da “oligarquia” que tem governado o país. De fora de eventuais coligações para o ex-Presidente, ficam o GERB e o DPS-NN, cujos líderes são associados por Radev ao sistema de compadrio e de corrupção.

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▲ Cartaz do PP-DB

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Para aceitar uma coligação com o Bulgária Progressista, o PP-DB exige que Rumen Radev abandone as suas posições pró-russas e colabore ativamente com Bruxelas. Num país em que existe uma instabilidade política crónica, esta poderá ser a solução mais consensual — que faria o antigo Presidente não comprar nenhuma guerra com a União Europeia. Uma aliança com o Renascimento, que aproximaria totalmente Sófia de Moscovo, também é bastante improvável; os dois partidos juntos não deverão atingir a maioria absoluta.

Boriana Dimitrova assinala ao Politico que o antigo Presidente pode ainda tentar governar sem formar uma maioria. “Ele pode tentar construir um governo minoritário e tentar forjar diferentes alianças em tópicos distintos”, acredita a especialista, que ressalva que essa missão exige “um considerável talento político”, principalmente num país em que a estabilidade política parece ser uma miragem.

O antigo piloto de caças soviéticos que comprou várias guerras com o partido dominante da Bulgária deverá ser eleito primeiro-ministro no domingo. As expectativas dos búlgaros são elevadas: Rumen Radev surge como o rosto da mudança política há muito ansiada e o nome associado do fim da instabilidade. Assumidamente pró-russo e desejando aproximar-se de Moscovo, reúne alguns ingredientes que alimentam o receio de que possa transformar‑se num novo Viktor Orbán, ainda que enfrente importantes condicionantes internas e externas. A partir de domingo, terá de tomar uma posição e escolher para que rumo quer levar a Bulgária.

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