Raramente se vê um rei ou uma rainha casar no exercício do poder. Na maioria dos casos, os monarcas sobem ao trono depois de já terem dado o nó. Carl Gustaf da Suécia foi uma exceção à regra: só três anos depois de se tornar rei é que casou com Silvia Sommerlath, a primeira mulher, em cerca de 200 anos de história sueca, a casar com um rei em funções, passando automaticamente de plebeia a rainha. Quase 50 anos depois, o dia 19 de junho de 1976 permanece um marco na história da monarquia daquele país. Foi o primeiro casamento real sueco transmitido pela televisão, embora as duas irmãs de Carl já tivessem casado e foi visto por milhões de pessoas pelo mundo fora, muitas delas entusiasmadas com o romance de um rei com uma cidadã comum. A escolha da data não foi aleatória, tendo sido a mesma de vários casamentos reais no país, incluindo o da Princesa Herdeira, Victoria, com o seu então personal trainer, Daniel Westling, em 2010.
▲ Novos Retratos Oficiais de Carl Gustaf e Silvia da Suécia
Elisabeth Toll/ Royal Court of Sweden
2026 vai ser um ano particularmente importante para esta família real. Para além de celebrar as Bodas de Ouro com a Rainha Silvia, Carl Gustaf assinalará também o seu 80.º aniversário em abril. O calendário das celebrações deste ano já foi divulgado por fontes oficiais, e inclui uma cerimónia religiosa na igreja do Palácio Real, bem como um grande jantar de gala. Os principais festejos estão previstos para 13 de junho, uma vez que o dia 19 coincide com a véspera do solstício de verão, uma das festividades mais importantes do país. Durante o dia, o Rei e a Rainha farão um passeio na emblemática barca real e, mais tarde, vão desfilar numa carruagem num cortejo pelas ruas de Estocolmo. Entre os vários eventos públicos, muitos ainda por anunciar, destaca-se uma exposição no Palácio dedicada aos 50 anos de casamento real.
A par do calendário, também foram divulgados novos retratos oficiais dos monarcas no Palácio de Drottningholm, a residência da família real. Nas imagens, a Rainha Silvia surge com um vestido de renda verde esmeralda, da marca alemã Georg et Arent, complementado por várias condecorações, um colar de diamantes e por uns brincos com quase dois séculos. No entanto, o que chama mais à atenção é a Tiara Bragança, também conhecida como Tiara Brasileira, que a Rainha de 82 anos apenas utiliza em ocasiões “muito, muito, muito especiais”, de acordo com a revista Tatler. “Chegou à Suécia por herança da imperatriz Amélia, que casou com Dom Pedro I, e para mim é, naturalmente, um pouco especial, porque a minha mãe era brasileira e a imperatriz Amélia era muito amada no Brasil”, contou Silvia.
Uma história de amor que começou com desporto e um par de binóculos
O conto de fadas de Carl Gustaf e Silvia da Suécia começou, tal como o de vários casais da realeza, num cenário olímpico. Na edição de 1972 dos Jogos Olímpicos em Munique, Silvia Renate Sommerlath, alemã com raízes brasileiras, trabalhou como anfitriã oficial e intérprete em cinco línguas (inglês, francês, alemão, português e espanhol), recebendo e acompanhando os convidados. Foi nesse contexto que conheceu Carl Gustaf, dando início a um romance que mudaria para sempre a sua vida. Em entrevista à revista espanhola Hola!, a Rainha contou que o então príncipe a havia chamado à atenção ao observá-la através de um par de binóculos, mesmo estando a apenas um metro de distância. Quando confrontado, Carl Gustaf alegou estar a olhar para outra coisa. “Quando nos conhecemos, atrevi-me a convidá-la para jantar, algo totalmente invulgar, pois eu era o herdeiro do trono e devia seguir o protocolo, mas não me importei, porque queria conhecer melhor a mulher que hoje é rainha”, revelou o Rei.
Carl Gustaf tinha 26 anos quando conheceu Silvia, três anos mais velha. Ao “clique” instantâneo entre os dois, seguiu-se um namoro de quatro anos, vivido longe dos olhares do público e até mesmo dos mais próximos. Segundo o New York Times, numa das suas primeiras visitas a Estocolmo para encontrar Carl Gustaf, Silvia chegou a usar uma peruca loira para despistar os curiosos. No início de 1973, ano em que Carl se tornou oficialmente rei após a morte do avô, Gustaf Adolf, um jornalista sueco fotografou o casal no mesmo carro. Para a maioria das pessoas, Silvia ainda era uma desconhecida, e a imprensa especulava sobre a identidade da mulher que conquistara o príncipe herdeiro.
Quando desejavam escapar aos jornalistas suecos, Carl Gustaf e Silvia passavam algum tempo a esquiar na Suíça e a apanhar sol no Mediterrâneo francês e italiano, embora tenham sido apanhados várias vezes. Foram também fotografados em discotecas em Munique e numa propriedade que pertenceu a Otto von Bismarck, na Alemanha. Em janeiro de 1974, começaram a surgir notícias de que o casal poderia casar ainda nesse ano. Meses mais tarde, Silvia mudou-se para um apartamento em Estocolmo, propriedade da princesa Christina, irmã do Rei, gesto que deu um novo fôlego aos rumores já existentes. Ainda assim, o anúncio oficial teria de esperar mais algum tempo.
O anúncio de noivado e a pré-boda ao som de “Dancing Queen” dos Abba
O noivado foi anunciado em março de 1976 numa conferência no Palácio Real, com o casamento a realizar-se apenas três meses depois. Os planos não surpreenderam a maioria dos suecos, que aceitavam a decisão do seu monarca em casar-se com uma plebeia. Quando questionado sobre o que o atraiu na sua futura mulher, Carl Gustaf respondeu que os jornalistas podiam ver por eles próprios. Para além disso, reconheceu que Silvia já tinha uma carreira consolidada, mas duvidou que a noiva conseguisse manter um emprego normal enquanto Rainha, como tinha feito nos anos anteriores.
▲ Carl Gustaf e Silvia da Suécia no anúncio do noivado
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Ao longo da conferência, Silvia referiu que queria viver dentro da normalidade, dada a sua posição, mas que o seu novo país a interessava muito, admitindo ser uma pessoa muito curiosa. A imprensa também perguntou ao casal sobre os planos de ter filhos e Carl Gustaf pediu autorização para casar primeiro. O monarca ofereceu à sua noiva um anel com um diamante de dois quilates, que pertencia à sua mãe, Sibylla, que tinha morrido quatro anos antes.
Na noite que antecedeu a cerimónia, a The Swedish Opera House recebeu um espetáculo de celebração conhecido como Royal Variety Performance. Nessa noite, os Abba, no pico da fama, subiram ao palco vestidos com trajes oitocentistas, tal como os membros da orquestra e do coro, e cantaram ao vivo, pela primeira vez, a canção “Dancing Queen”, em homenagem à futura Rainha. Apesar de não ter sido escrita para Silvia, que já tinha conquistado a admiração dos suecos por essa altura, a música ficou, até aos dias de hoje, associada à monarca.
O concerto marcou a primeira vez que Silvia utilizou publicamente uma tiara (a tiara de diamantes Connaught), uma das preferidas da mãe de Carl Gustaf. Após a atuação, a transmissão mostrou o casal real, no seu camarote, acompanhado pelos pais da noiva. O tema “Dancing Queen” voltou a ser recuperado para uma homenagem a Silvia em 1993, a propósito do seu 50º aniversário, já depois da separação do grupo musical. Anni-Frid Lyngstad, um dos membros, voltou para entoar a canção, primeiro a solo, depois acompanhada por um coro.
▲ Carl Gustaf e Silvia da Suécia, acompanhados pelos pais da noiva, no espetáculo de celebração na Swedish Opera House
Sjöberg Bildbyrå/ via Getty Images
A cerimónia na Catedral de Estocolmo, o desfile pelas ruas e a saudação ao público no Palácio Real
O casal entrou na igreja de mãos dadas, sorridente, acompanhado por seis crianças, ao som da “Sinfonia di Chiesa” de J. H. Roman. A cerimónia religiosa durou cerca de 40 minutos e incluiu vários hinos suecos. Carl Gustaf e Silvia seguiram a tradição alemã, com apenas um anel: o Rei colocou uma aliança no dedo da noiva, mas Silvia não fez o mesmo pelo marido. A noiva proferiu os seus votos em sueco quase perfeito, impressionando não só os convidados como também o público sueco que assistia à cerimónia pela televisão. Nenhum dos dois foi convidado a prometer obediência, uma prática então comum na igreja, refletindo uma mudança dos tempos. No final da celebração, os monarcas percorreram o corredor ao som da “Sinfonia in D Major” de J. S. Bach. Precisamente às 12h21, Silvia tornou-se a primeira rainha da Suécia em 11 anos, desde a morte de Louise, mulher do avô de Carl Gustaf.
▲ Carl Gustaf e Silvia da Suécia durante a cerimónia religiosa na Catedral de Estocolmo
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Depois da cerimónia religiosa, os recém-casados desfilaram numa carruagem aberta puxada por cavalos, enquanto acenavam à multidão de 150.000 a 180.000 pessoas, que enchiam as ruas de Estocolmo, muitas das quais estavam ali desde as primeiras horas da manhã. Carl Gustaf e Silvia da Suécia foram recebidos com aplausos, por bandeiras suecas em miniatura e havia também quem segurasse balões com fotografias do casal. Na ilha de Skeppsholmen, em frente ao Palácio Real, o Rei e a Rainha embarcaram na barca real, enquanto três divisões de jatos da Força Aérea Sueca desenharam um enorme coração branco no céu durante uma salva de 21 tiros da Marinha Sueca. O casal desembarcou e entrou no Palácio, enquanto mais de 200 músicos folclóricos tocavam uma marcha nupcial sueca. Seguiu-se a icónica saudação a partir da varanda, onde Carl Gustaf levantou a mão de Silvia e demonstrou a sua felicidade perante todos.
▲ Saudação ao público a partir da varanda do Palácio Real
Helmut Reiss/ United Archives via Getty Images
O vestido da Dior que Silvia pediu ao designer Marc Bohan e a lista de convidados
A jovem noiva escolheu o designer francês Marc Bohan, então diretor criativo da Dior que substituíra Yves Saint Laurent após este ser chamado a cumprir serviço militar, para desenhar o seu vestido de casamento. O modelo é simples, feito com seda branca. Tem uma gola alta, mangas em forma de sino e uma longa cauda, com mais de três metros. A sobriedade do vestido tinha como objetivo destacar outros elementos do conjunto de Silvia, particularmente a tiara e o véu, que tinham sido utilizados pelas cunhadas, as princesas Birgitta e Désirée, nos seus casamentos.
Crê-se que a tiara foi um presente que Napoleão encomendou para a sua mulher, a imperatriz Josefina, e é dourada, decorada com pérolas em vez de diamantes e exibe sete camafeus, rodeados de efeitos florais que retratam cenas da mitologia grega e romana. Chegou às mãos da família real sueca através do casamento da neta de Josefina com Oscar I da Suécia, e a filha de Silvia e Carl Gustaf, Victoria, também a utilizou no seu casamento. O véu de renda data do século XIX e foi passado de noiva para noiva desde então. Silvia utilizou um par de pequenos brincos de pérola, dispensando colar e pulseiras, e levou um bouquet de orquídeas e jasmim. Já Carl Gustaf utilizou o seu uniforme de almirante da Marinha Sueca, ostentando os símbolos das quatro ordens suecas.
▲ O vestido que Silvia da Suécia utilizou no casamento e o fato de Carl Gustaf
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Embora o casamento de Carl Gustaf e Silvia da Suécia tenha contado com menos membros da realeza do que algumas cerimónias, teve cerca de 1200 convidados. Entre os mais notáveis, estiveram presentes o príncipe Bertil da Suécia, duque de Halland, acompanhado por Lillian Craig, que viria a tornar-se duquesa ainda nesse ano, bem como vários membros da família Sommerlath, incluindo os pais de Silvia, Walther e Alice, e os irmãos da noiva. Marcaram igualmente presença as princesas suecas Margaretha, Birgitta, Désirée e Christina, acompanhadas pelos respetivos maridos.
Vários representantes de outras casas reais europeias também estiveram no casamento, como os duques de Gloucester, em representação da monarquia britânica, a princesa Beatrix e o príncipe Claus dos Países Baixos, o grão-duque Jean e a grã-duquesa Joséphine-Charlotte do Luxemburgo, a rainha Ingrid da Dinamarca, o rei Constantino II e a rainha Anne-Marie da Grécia. O rei Olav V da Noruega, a rainha Margrethe II e o príncipe Henrik da Dinamarca também estiveram presentes. Para além de membros da realeza, a festa contou com a presença de vários chefes de Estado, entre eles o presidente da Finlândia, Urho Kekkonen, o presidente da Islândia, Kristján Eldjárn, e o presidente da então Alemanha Ocidental, Walter Scheel.
Os escândalos sexuais que afetaram a imagem (e o casamento) do rei “digno”
O casamento contribuiu muito para reforçar a popularidade de Carl Gustaf e da própria monarquia sueca. Ambos tinham enfrentado críticas desde o início do reinado do soberano, sendo que muitos acreditavam que o Rei era demasiado irresponsável para o cargo. O casamento com Silvia Sommerlath trouxe estabilidade à monarquia, e o seu romance aqueceu os corações dos suecos. No entanto, este não foi um matrimónio livre de escândalos: em 2010, foi publicada uma biografia do Rei não autorizada, intitulada “O Monarca Reticente”, que deu palco a episódios fora do casamento protagonizados pelo monarca, que incluíam não apenas casos extraconjugais, mas também idas a clubes de striptease geridas por mafiosos, orgias “selvagens” e festas em jacuzzi na companhia de modelos nuas. O livro alega que o monarca teve uma relação com a cantora e ex-modelo sueca Camilla Henemark, e que a rainha sabia do caso.
Os escândalos fizeram com que diversos órgãos de comunicação, nacionais e internacionais, acampassem às portas do Palácio de Drottningholm, perto de Estocolmo, e que o povo sueco ficasse perplexo com um Rei que até, então, era considerado “discreto” e “digno”, segundo o The Telegraph.“Clubes de striptease, clubes ilegais, senhoras alugadas que ficam nuas sob os seus casacos de pele. As mulheres eram simplesmente sobremesas, usadas como doces para serem servidos com o café”, escreveu a jornalista Katrine Kielos no diário sueco Aftonbladet. Sobre as polémicas, o Rei fez a seguinte declaração pública: “Falei com a minha família e com a rainha e optámos por virar a página e seguir em frente porque, pelo que entendi, são coisas que aconteceram há muito tempo”.
Apesar das revelações, Carl Gustaf e Silvia da Suécia continuaram juntos e estão prontos para celebrar 50 anos de casados. O casamento resultou em três filhos, Victoria, a Princesa Herdeira, Carl Philip, Duque da Varmlândia e a Princesa Madeleine, Duquesa da Helsíngia e Gestrícia, assim como em oito netos ao todo. A sucessão será assegurada por Victoria, muito popular entre os suecos, que também adoram a sua filha mais velha, a princesa Estelle, de 13 anos.