Primeiro a Joseph, depois a Chandra e, agora, a Kristin. Um desfile de depressões vindas do Atlântico Norte tem atingido Portugal nos últimos dias e a última entre as três não é a maior, mas é aquela que causa maior preocupação entre especialistas. A Proteção Civil acionou esta terça-feira o estado de prontidão máximo para responder ao impacto que a depressão Kristin terá na costa portuguesa quando, vinda do oceano, entrar em terra. O nível 4 significa que o Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro deverá mobilizar a totalidade dos seus dispositivos de resposta para responder a este “fenómeno complexo” que tem um “potencial destrutivo muito significativo”.

Passagem da depressão Kristin fecha estradas e escolas esta quarta-feira. Mau tempo causou 1.400 ocorrências em Portugal continental até às 18h

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) admite que existe “alguma incerteza” relativamente ao local exato onde a depressão Kristin vai atingir a costa, mas os modelos de previsão apontam para algures entre a Figueira da Foz e Vila do Conde. Com esta depressão vão manter-se os níveis elevados de agitação marítima, mas aquilo que mais preocupa os meteorologistas são as rajadas de vento que serão sentidas na costa ocidental e nas terras altas do país. De acordo com o IPMA, em determinados lugares, as rajadas poderão superar os 160 km/h — valor que foi raras vezes atingido este século.

De onde vêm tantas depressões?

No espaço de uma semana, Joseph, Chandra e Kristin estão a cruzar o território português. Mas, ao contrário destas três, nem todas as depressões são necessariamente nomeadas. Os especialistas fazem-no para as identificar, pelo impacto que têm e para as poderem estudar a posteriori. Se neste inverno tem havido mais depressões do que o normal a serem nomeadas (só ganham nome as de maior impacto, ou seja, as mais graves), é porque estamos a ter um início de ano “extremamente chuvoso“, explica fonte oficial do centro de operações do IPMA.

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Segundo as previsões meteorológicas do instituto, pelo menos até 2 de fevereiro, Portugal vai continuar a registar “chuvas, por vezes fortes“, associadas a depressões que têm passado (e vão continuar a passar) constantemente no Atlântico Norte. Chama-se a este fenómeno uma “corrente perturbada de Oeste“, mas para os meteorologistas a questão “menos comum” é que esta corrente se mantém ativa há mais de um mês. “Como temos tido depressões há mais de um mês e têm tido muito impacto sobre o país, Portugal, Espanha e França têm nomeado este ano muitas depressões”, acrescenta a mesma fonte.

Por que é a Kristin tão forte?

A depressão Kristin formou-se na zona noroeste dos Açores e foi nomeada esta terça-feira pelo IPMA, na sua sede em Lisboa, pelo impacto que se espera na madrugada de quarta-feira em Portugal Continental. Neste momento, ainda não é uma depressão com um centro muito baixo, mas isso vai alterar-se ao passo que esta se move rapidamente (110km/h) para o continente.

Isto porque, pelo caminho, a pressão do centro da Kristin vai descer muito rapidamente, naquilo que os especialistas chamam um “cavamento explosivo” ou uma “ciclogénese explosiva” que a tornam numa “tempestade bomba”. Concretamente, espera-se uma descida de 24 hectopascais (hPa) em menos de 24 horas. É esta descida rápida da pressão que torna esta tempestade mais potente porque, como explica fonte do centro de operações do IPMA, “quanto mais cavadas forem as depressões, mais agressivas são e mais vento têm”.

As depressões estão ligadas entre si?

Apesar de fazerem todas parte de uma “região depressionária complexa” do Atlântico Norte, a depressão Kristin não teve origem nas depressões Joseph ou Chandra. Após terem passado por Portugal, estas duas últimas depressões estão a girar em torno uma da outra numa região próxima do sul da Islândia.

Na madrugada desta terça-feira, o mau tempo que se sentiu no país foi ainda resultado da tempestade Chandra. Esta depressão foi inicialmente nomeada pelo serviço meteorológico britânico, mas deu origem a chuvas fortes em Portugal que resultaram em várias ocorrências por todo o continente. Só em Lisboa, foram registadas 56 ocorrências entre as 21h de segunda-feira e as 13h de terça-feira, dizendo respeito sobretudo a quedas de árvores. Em Évora, cinco pessoas ficaram desalojadas devido a inundações. Em todo o país, foram fechadas ao trânsito 17 estradas nacionais devido ao mau tempo.

No entanto, segundo as previsões do IPMA, tanto a Chandra como a Joseph — nomeada pelo IPMA dos Açores pelo impacto que se previa para o arquipélago — já não terão um impacto significativo em Portugal. Por sua vez, a Kristin formou-se numa região mais a sul, a oeste da Europa. Mesmo não tendo tido origem na Joseph ou Chandra, a depressão que vai atingir Portugal na madrugada de quarta-feira localiza-se ainda no “bordo sul” da tal vasta região depressionária que engloba as três.

Que impacto terá a Kristin?

A depressão Kristin vai dar origem a “ventos muito fortes” e as rajadas na ordem dos 140 a 160 km/h são “muito prováveis“, segundo o centro operacional do IPMA. O instituto colocou o aviso vermelho de rajada para os distritos do litoral centro e norte — Coimbra, Aveiro, Porto e Braga — assim como para o distrito de Viseu, pela sua contiguidade à zona litoral onde se espera a entrada em terra da Kristin, e o distrito da Guarda, devido às terras altas da Serra da Estrela que também estão mais suscetíveis a um impacto de grande intensidade.

Por sua vez, a Proteção Civil elevou o estado de prontidão especial para o nível 4 em toda a orla costeira entre os distritos de Viana do Castelo até Setúbal. Este nível de prontidão significa que as unidades de emergência, nomeadamente os Bombeiros (Sapadores Florestais inclusive), a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro e a Força Especial de Proteção Civil devem, segundo a lei, “garantir a guarnição do total dos seus veículos e meios operacionais adequados ao tipo de ocorrência ou risco”.

A zona de maior risco de passagem da depressão Kristin é precisamente o distrito de Coimbra. Contudo, a “incerteza” das previsões efetuadas até agora leva os meteorologistas a admitir uma entrada em terra no distrito de Aveiro, na direção norte, e ao distrito de Leiria, na direção sul. O centro operacional do IPMA pede aos cidadãos para acompanharem as previsões no seu site, à medida que se apurar com mais certeza o local de entrada em Portugal.

“Essa incerteza vai se traduzir numa incerteza no impacto. Portanto, no local onde a depressão entrar — e se entrar com a agressividade que os modelos nos dizem — o impacto pode ser catastrófico. Se ela passar mais a Norte, o local mais a Sul, ou vice-versa, pode ter um impacto muito menor”, alerta o centro operacional do instituto, que pede aos portugueses para ficarem em casa durante a tempestade.

Quanto tempo vai durar o impacto?

A depressão Kristin está a deslocar-se velozmente em direção à costa portuguesa e prevê-se que a passagem pelo território também seja relativamente rápida. O impacto em Portugal continental será entre as 3h e as 6h da manhã desta quarta-feira. A partir do início da manhã, a Kristin já terá passado o território nacional em direção a leste e espera-se uma “melhoria significativa das condições meteorológicas“, segundo o IPMA.

No entanto, as previsões meteorológicas excluem a possibilidade de dias com céu limpo até ao dia 2 de fevereiro. Mas pode haver abertas durante a manhã e o início da tarde de quarta-feira, na região sul do continente. No próximo sábado, dia 30, poderá também haver algumas abertas temporariamente.

O que esperar para os dias seguintes?

Ao longo desta semana, esperam-se também inundações a norte do rio Mondego e na bacia do rio Tejo, de acordo com a ministra do Ambiente e Energia. Maria da Graça Carvalho garantiu que o Governo está “a acompanhar em permanência” a evolução da situação de eventuais cheias, em articulação com a APA. O mau tempo dos últimos dias, nomeadamente devido à precipitação intensa da depressão Ingrid, levou a inundações em vários pontos do país. Esta terça-feira duas pontes do rio Tua fecharam devido à chuva intensa.

A meteorologista Maria João Frada reconheceu que, depois da passagem da Kristin, o maior risco vão ser precisamente as inundações. A funcionária do IPMA afirma que os rios portugueses “estão cheios” e os terrenos estão “completamente saturados” de água. “Até pelo menos ao final da semana, vai haver vários episódios de precipitação forte, vai haver necessariamente cheias, galgamentos de terra e é provável que haja derrocadas“, alertou Maria João Frada.

Serão os ventos mais fortes de sempre em Portugal?

O IPMA calcula que a depressão Kristin atingirá, de forma geral, a costa ocidental e as terras altas de Portugal continental com rajadas entre 100 e 120 km/h, mas prevê que “localmente poderão superar 140 a 160 km/h“. Ventos com esta intensidade são fenómenos muito invulgares no território nacional e é nesse sentido que os especialistas apontam para o potencial “castastrófico” da depressão que atingirá o país na madrugada desta quarta-feira.

Para contextualizar este números, fonte oficial do centro de operações do IPMA lembrou os dois episódios meteorológicos que trouxeram a Portugal rajadas com intensidades na escala do que poderá acontecer na madrugada de terça-feira.

Na madrugada de 23 de dezembro de 2009, uma tempestade arrasou a zona Oeste, com especial dano registado no concelho de Torres Vedras. Se na estação meteorológica de Dois Portos foi registada uma rajada de 142 km/h, o IPMA referiu que, junto ao solo em alguns locais da região influenciada pelo fenómeno” houve ventos que excederam os 220 km/h, segundo noticiou o Público na altura.

Em outubro de 2018, a depressão Leslie atingiu violentamente a região centro e, na estação do IPMA da Figueira da Foz, registou-se uma rajada de vento de 176,4 km/h, o valor mais elevado alguma vez registado oficialmente em Portugal. Esta tempestade provocou 28 feridos ligeiros, desalojou 61 pessoas e teve um prejuízo calculado de 32 milhões de euros.