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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Ventura acusa Montenegro de querer cortar pensões. E deixa recado para novo ano político: está preparado para governar

Chega vai voltar a insistir na descida da idade da reforma já no Orçamento do Estado e na proposta para expulsão de imigrantes que cometam crimes. Ventura traz eleições antecipadas para o discurso.

No início e no fim do discurso, André Ventura deixou uma mensagem para o arranque do novo ano político: o Chega está pronto para ir a votos e o presidente do partido está pronto para governar. Palavras do próprio, sem qualquer necessidade de entrelinhas. Durante pouco mais de 45 minutos, o líder do Chega fez essencialmente críticas a Montenegro e ao Governo, dedicou palavras duras para Luís Neves, atirou-se às “muletas” do PS e PSD, à esquerda e à direita, e fez promessas políticas para os próximos tempos.

Não há eleições à vista, Ventura até vai dizendo (e repetiu) que o país não deve andar de eleições em eleições, mas não perdeu a oportunidade para assegurar que, depois das idas às urnas de 2024 e 2025, o Chega não pode ambicionar nada menos do que a liderança do Governo.

“Não depende de nós. Não está única e exclusivamente nas nossas mãos que a crise venha ou não venha a acontecer. Não está única e exclusivamente nas nossas mãos que voltemos ou não a ser chamados às urnas tão depressa, [mas] há uma garantia que eu quero dar ao partido neste reinício da atividade política: (…) o Chega não cede e não transige na defesa de Portugal e dos portugueses, mas acima de tudo estaremos aqui a lutar por Portugal. E estamos prontos e estou pronto para governar Portugal”, garantiu André Ventura, já depois de no arranque ter justificado que o partido pode ser “chamado a qualquer momento”.

Em plena rentrée em Santarém, na ressaca dos discursos de Luís Montenegro no Pontal e de José Luís Carneiro em Olhão, André Ventura recuperou temas da Segurança Social para fazer um anúncio e para lançar dúvidas sobre o estudo apresentado por Jorge Bravo, em que se reafirma a necessidade de se analisar o regime de pensões da Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações de forma conjunta.

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O timing do estudo e o alegado “corte de pensões”

Após assegurar que o Chega vai insistir na proposta de descida da idade da reforma (linha vermelha que levou o partido a votar contra a reforma laboral), desta vez no Orçamento do Estado para 2027, o líder do Chega desconfiou do timing do estudo e sugeriu que o Governo o tornou público para dizer que a Segurança Social está em “grande défice”. “Quando se começa a pôr estes estudos cá fora, a dizer que a Segurança Social está em grande défice, já sabemos o que é que isso significa. Isto significa que daqui a um, dois ou três meses vão começar a dizer que temos de cortar as pensões, que o Estado tem de voltar a ser sustentável”, justificou o líder do partido, enquanto deu garantias de que o Chega não alinhará nas alegadas intenções de Montenegro.

E por falar em insistências, Ventura não só elogiou o papel do partido nas leis da imigração e da nacionalidade, como prometeu trazer novamente a debate o tema dos imigrantes que cometem crimes. Puxando dos galões de jurista, argumentou que “não [se] concebe que quem vem para outro país pode cometer um crime e não pode ser expulso porque é inconstitucional” e concluiu: “Isto não é inconstitucionalidade, é estupidez.”

No rol de críticas a Luís Montenegro, André Ventura considerou que Luís Montenegro “parece que vive num país extraordinariamente rico, onde toda a gente vive bem” e cenarizou que a chegada de um imigrante que viesse à procura do país que o primeiro-ministro descreve: “Quando chegasse e visse que o primeiro-ministro se chama Luís Montenegro, que é um aficionado de vários desportos de sorte e azar, que temos uma economia a cair há meses, para trás das economias que há uns anos estavam na esfera da União Soviética, carregado de impostos, onde os empresários não sabem mais o que fazer e tomado de assalto pela corrupção, percebiam o país real onde estamos.”

Prosseguiu para criticar as palavras do chefe de Governo sobre Portugal ter “uma das energias mais baratas da Europa”, enumerando que o país tem “o segundo gás mais caro da Europa, uma das eletricidades mais caras da Europa, onde quase 35% do que pagamos na fatura é imposto”, falando do preço dos combustíveis, do IVA da restauração e apontando um “conselho”: “Menos viagens aos mundiais e mais trabalho pelos portugueses e pelas pessoas.”

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O “silêncio sufocante” sobre Luís Neves

Para Ventura, foi “penoso” ouvir o líder do PS e o primeiro-ministro nas respetivas rentrées e deu continuidade à política de colar os dois partidos, garantindo ser o único que é uma verdadeira alternativa. Para isso, explicou que o Chega, enquanto maior partido da oposição no Parlamento, aprovou umas propostas e chumbou outras e justificou-o como sendo essa a vontade de quem votou. “Querem partidos muletas na AR? Já há o CDS e a IL, não é preciso do Chega. Os dois grandes partidos habituaram-se a ter muletas à esquerda e direita. O Chega não veio para isso. Chegaremos a conclusões positivas e negativas”, argumentou o presidente do Chega.

De resto, Luís Neves foi o grande visado do discurso de André Ventura. O líder do Chega aproveitou o facto de ter sido o primeiro a cavalgar o assunto para acusar todos os outros de terem aderido a um “silêncio sufocante” e “quase ensurdecedor”. Não só o PS — dizendo que Carneiro só falou depois de Ventura ter perguntado “30 vezes onde anda o líder do PS” —, mas também “Blocos de Esquerda, Livres e PCP”, que Ventura diz que se “apressam à mínima coisa a vir falar sobre o Chega” e que não o fizeram a tempo.

“Isto levanta-me uma suspeita grave e séria sobre o nosso sistema político. É incontornável a suspeita de que, da esquerda à direita, por uma ou por outra razão, estão todos agarrados ao mesmo sistema de interesses”, desconfiou Ventura.

O tema levou-o até a recuperar Francisco Sá Carneiro para recordar o que o move na política: “Para lá do carisma, do discurso, da palavra, o que sempre me marcou foi a coragem. A coragem de às vezes ir contra o seu próprio partido, contra o seu próprio grupo parlamentar, contra os autarcas, contra a sociedade civil, por uma mudança que sabia que tinha que acontecer. O país não podia ficar preso a uma ditadura, tinha que avançar para uma democracia moderna e de liberdade. (…) Hoje [a escolha] é outra escolha: um modelo de interesses instalados e de corrupção do Estado ou um modelo de transparência, de denúncia e de liberdade.”

Antes do arranque da rentrée, Ventura agarrou numa garrafa para servir vinho branco a militantes e propor um brinde ao Chega. Ao seu lado, o presidente da distrital, José Dotti, prometeu que nas próximas legislativas Santarém é para pintar de azul. Em boa verdade, as eleições só estão previstas para 2029, mas no Chega já se começam a fazer contas a um futuro embate eleitoral, seja próximo ou não.

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