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© Hugo Amaral/Observador

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Virar a vida de pernas para o ar

A música, o teatro ou o circo, tiraram-nos do "bairro". E aos que não são do "bairro", deu-lhes um novo impulso escolar: são alunos melhores, mais atentos. E alguns, conseguem "voar" mundo afora.

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Na Casa Conveniente de Mónica Calle cabe um bairro inteiro

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É Candé que nos recebe e nos guia pelo Bairro do Condado adentro, na Zona J de Chelas, em Marvila, nos subúrbios de Lisboa. A ida até à Casa Conveniente é curta, faz-se por entre becos e ruelas, atalhos que só quem lá cresceu sabe como furar, e fá-lo ziguezagueando por entre as várias torres que elevam a paisagem do bairro. Pára. Pára repetidas vezes, para cumprimentar todos quantos se cruzam com ele.

– Já mudaste de telemóvel mais de vinte vezes, pá! — gritam-lhe do alto de uma varanda.
– É verdade, é verdade. Eu já te mando uma mensagem com o meu número novo, mas primeiro tenho que dar uma entrevista a este rapaz… — responde Candé, gracejando, meio envaidecido.

Não há quem não o conheça. É uma figura querida no Bairro do Condado. “A seguir temos que ir ali beber uma jola à Paragem [um café, logo à entrada do bairro], para te enturmares aí com o people. Não te preocupes, que são todos do bem, não são nada do que se diz nos jornais. És de qual, diz lá? Observador? Ahhh… não sei, mas depois envias-me a reportagem, ? Mas põe-me bonito, pá! Vês aquele prédio? Tens que ir lá acima, àquela torre [a mais alta do Condado, a perder de vista], para fazeres umas fotografias da vista. Uma vista do caraças, para o Tejo.”

Tem 34 anos, nado e criado na Zona J. “Olha, eu morava aqui. Aqui, onde estás a pisar. O meu prédio ficava aqui”, recorda, enquanto aponta para o que é hoje um monte de entulho e um estaleiro improvisado de obras. O lugar era apelidado de “Corredor da Morte”, um lugar mal-afamado, que a Câmara de Lisboa resolveu demolir em meados de 2009. “Nunca soube de ninguém que tivesse cá morrido. Soubeste? Só uma barata ou rato, se tanto”, ironiza. Bruno Candé é de trato fácil e de gargalhada sonora. “Querem reabilitar o Bairro. Vão pintar tudo de cinzento. São espertos, ?” Mas não seria a Zona J um lugar mais discriminatório, de exclusão, como fora projetado na década de 1980 por Tomás Taveira, todo colorido, todo berrante? Candé encolhe os ombros e diz: “É igual. Daqui por um ano, com a tinta rasca que eles vão usar para pintar as casas, vai ficar uma merda maior do que a que era.”

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Chegámos por fim à Casa Conveniente, com Candé e com Mónica Calle, atriz, encenadora e diretora da companhia de teatro que a própria criou em 1992. É uma casa sem portas nem janelas, mas é a casa possível por ora. “O projeto de reabilitação já nós temos, é de um arquiteto meu amigo, muito bom, e já foi aprovado na Câmara [de Lisboa], mas falta-nos o dinheiro para levá-lo por diante. Mas já cá apresentámos espetáculos, já cá encenámos muitos espetáculos e vamos continuar a encená-los”, conta-nos Mónica, e interrompe-a Candé: “No inverno faz é um briol do caraças, ó Mónica, lembras-te? E eu é que trazia uma lenha, e fazia uma fogueirinha, e a malta aquecia-se.”

"Todos nós, independentemente do sítio de onde vimos, independentemente do nosso passado ou da nossa história, aquilo que nos liga, atores ou amadores, quer vivamos em Campo de Ourique ou em Chelas, é transversal. Queremos encontrar-nos, num sítio, numa casa, e ser felizes lá." 
Mónica Calle, atriz, encenadora e diretora da Casa Conveniente

Candé e Mónica não se conhecem de Chelas, mas do lugar que se sempre foi a “casa” de Mónica, a Casa Conveniente original, no Cais do Sodré, na antiga Discoteca Lusitano, espaço que foi por muitos anos de má fama, de prostituição e de vícios. Foi lá que nasceram as criações de Mónica por mais de duas décadas. Mudou-se para Chelas no começo de 2015.

“O primeiro espetáculo que eu fiz foi o ‘Virgem Doida’, inspirado num texto do Rimbau. Surgiu o texto, primeiro, e depois surgiu a necessidade de me encontrar, de perceber se o que eu fazia merecia ser partilhado, se as minhas premissas faziam sentido como objeto artístico.” Mas era preciso um espaço, uma casa, onde apresentasse o espetáculo. “Na altura, em 1992, fui à procura de zonas marginais dentro da cidade de Lisboa. Uma das zonas era o Cais do Sodré e a outra o Intendente. Só não fui para o Intendente porque do Cais do Sodré me disseram que sim primeiro.” Saiu do Cais do Sodré porque a zona deixou de ter a marginalidade que as criações de Mónica precisam. “Para mim deixou de fazer sentido estar ali. E foi por isso que vim para a Zona J. Mas desta vez nem foi preciso procurar muito. Eu tinha muitos amigos, muitos deles que conheci e com quem trabalhei na prisão Vale de Judeus, outros que fiz no Cais do Sodré, que eram da Zona J. E eu vinha cá visitá-los, estar com eles, almoçar com eles, e percebi que era um lugar onde era possível voltar a misturar, a construir.”

Os amigos de quem Mónica Calle fala são René Vidal e Mário Fernandes. Os dois terminaram de cumprir pena no começo de 2011, mas Mónica trabalhou com eles, lá dentro, durante meses. Quando saíram em liberdade, convidou-os a participar no ciclo que a Casa Conveniente dedicou ao dramaturgo alemão Heiner Müller. Ao todo, foram quatro os espetáculos: “Álbum de Família”, “Sete Espelhos no Quarto de Dormir”, “O Passeio das Raparigas Mortas” e, por último, “A Missão – Memórias de Uma Revolução”, que contou no elenco com Calle, René e Mário. O ciclo venceria o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para o “Melhor Espetáculo de Teatro” de 2011.

“Eu sempre quis ser ator, sabes? Eu tinha, sei lá?, uns oito anos, e na Casa Pia nós tínhamos aquelas atividades de final de ano, e havia teatro e tal. O que é que eu fiz? Fiquei a noite toda acordado, a ver o vídeo da Tina Turner com o Bryan Adams, sabes qual é?, aquele do It’s only love [e trauteia o refrão], e fiz uma imitação do caraças!”
Bruno Candé, ator amador e morador da Zona J

Candé estreou-se em “A Missão”, de Calle. Mas foi a custo que veio conhecê-la. “Foi o Boss [de seu nome Mário Fernandes, um dos ex-reclusos que trabalhou com Mónica Calle em Vale de Judeus] quem me trouxe para cá. Mas não foi fácil, não foi fácil. O Boss sempre foi um gajo que anda sempre na brincadeira, na ‘reinação’ com toda a gente, e quando ele me disse que fazia teatro, e que queria que eu fosse lá com ele, eu achei que ele estava no gozo, tás a ver? Nem liguei. Mas ele insistiu, e um dia disse-me, se não quiseres vir, não vens. Fica para aí na tua vida! Ele tanto marrou comigo, vamos, vamos, vamos!, que eu abri a pestana e lá fui, ao Cais do Sodré. Mas calma… quando lá cheguei, disse: é aqui? É aqui que vão fazer teatro? Estava à espera de um palco, de uma cortina, de uma plateia. Não havia nada disso. Mas logo que comecei a trabalhar com ela [Mónica Calle], percebi que tudo aquilo fazia sentido exatamente como era.”

– Ó, tu! Pssst! Anda cá, anda cá. Fala também aqui com ele.

Candé chama por Emilita Cassamá, 30 anos, há nove no Reino Unido, que se aproxima, tímida. Está de visita ao Bairro onde cresceu. “Eu não fiquei contente com a vinda da Casa para cá, fiquei triste. [Risos] Eu sempre quis fazer teatro, sempre gostei de decorar textos, e participei numas peças das irmãs [da Ordem de Madre Teresa de Calcutá, no Bairro do Condado], que organizavam aí umas coisas pelo Natal. Mas fui viver para Londres e não tenho como participar nas peças da Mónica. Mas é bom, é mesmo muito bom para os jovens do bairro, que andam para aí sem rumo, para ver se ganham um. E talvez até descubram que têm um talento, que têm um dom e que podem ser atores.”

Bruno Candé foi um desses jovens. Hoje, é ele quem os traz. “O Bruno? O Bruno é o melhor ator que eu conheço. [Risos] Nós somos da mesma criação, crescemos juntos, e sei que ele sempre teve dentro dele o bichinho do teatro, e tinha a certeza que ele um dia ia ser ator, um grande ator. E ele é muito importante para a Casa Conveniente, porque toda a gente o conhece, toda a gente gosta dele, tem um grande carinho por ele, e muitos também vêm por causa dele, porque ele insiste. E depois gostam e ficam.”, lembra Emilita.

A história de Candé, e da vontade de Candé em fazer teatro, não começou com Mónica Calle, em 2011, mas vem desde a sua infância, na Casa Pia. “Eu sempre quis ser ator, sabes? Eu tinha, sei lá?, uns oito anos, e no nosso lar nós tínhamos aquelas atividades de final de ano, e havia teatro e tal. Um amigo meu, o Milton, desistiu em cima da hora, um dia antes da apresentação, e eu, também em cima da hora, tive que preparar qualquer coisa. O que é que eu fiz? Fiquei a noite toda acordado, a ver o vídeo da Tina Turner com o Bryan Adams, sabes qual é?, aquele do It’s only love [e trauteia o refrão], e fiz uma imitação do caraças”. Candé ainda frequentou o Chapitô, num workshop com Bruno Schiappa. “Foi o Sr. Magalhães que me propôs ir lá. Fiz um curso de expressão dramática com o Schiappa, mas foi só um ano. Mas calma!, não acabou aí, ainda fui fazer um casting ao La Féria, para uma espetáculo dele, tinha uns 16 ou 17 anos, mas era muito velho para o que ele pretendia, e não fiquei. Ele gostou de mim, e disse-me que era pena eu ter tanta idade”, recorda.

Foi com Mónica Calle que Candé voltou a representar. No final de 2011, em Macbeth, um espetáculo de Calle a partir da adaptação da tragédia de Shakespeare por Heiner Müller, Candé partilhou o palco com René e Boss, mas também com dois atores profissionais, Mónica Garnel — uma das atrizes que mais trabalhou com a Casa Conveniente desde o começo — e José Raposo. Mónica Calle nunca hesitou em rodear-se nas suas criações de atores e amadores. “Quando eu os misturo, há uma partilha que é muito bonita de se ver. Ao longo da vida, do nosso percurso, nós, atores, criamos obstáculos a nós próprios. A curiosidade, a inocência que há nos amadores, como o Candé, o René ou o Boss, volta a depará-los, aos atores, com a curiosidade e a inocência que os trouxe aqui, à profissão, e que foram perdendo. Todos nós, independentemente do sítio de onde vimos, independentemente do nosso passado ou da nossa história, aquilo que nos liga, atores ou amadores, quer vivamos em Campo de Ourique ou em Chelas, é transversal. Queremos encontrar-nos, num sítio, numa casa, e ser felizes lá.”

A viagem de Mónica Calle, 49 anos, há 23 como diretora, encenadora e atriz na Casa Conveniente, vai ainda no começo. Em novembro despediu-se do Cais do Sodré com um solo sobre “A Sagração da Primavera”, de Stravinsky. Chegou à Zona J com “A Boa Alma”, também a solo, com um texto reescrito por Luís Mário Lopes a partir de Brecht e música de JP Simões. Por estes dias, trabalha, não à lareira improvisada por Candé, que é verão e do Tejo vem uma brisa que faz de Chelas um lugar ameno, mas ainda à candeia, ainda sem portas nem janelas, ainda sentados em bancos que foram portas, bancos suportados por entulho que foram paredes. Trabalha-se Luigi Pirandello. “Esta Noite Improvisa-se” é precisamente isso: um espetáculo que tem muito de improviso, criado de manhã e apresentado à noitinha, todos os dias, na Casa Conveniente, no Bairro do Condado, em Chelas.

Circo: o lugar onde o risco do trapézio é menor que o risco da solidão

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A Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo (EPAOE) surgiu em 1991. São 24 anos de uma história que se confunde com a própria história do Chapitô — que nasceu uma década antes –, e os dois se confundem com a história de Teresa Ricou, ou Teté, a mais famosa mulher-palhaço do país, uma mulher das artes e não só do circo, uma ativista, que desde o primeiro dia desejou ter uma escola que, mais do que formar artistas, “formasse homens e mulheres de valor e com valores”. Encontrámo-la à tarde, na Costa do Castelo, onde o Chapitô assentou a tenda desde sempre. E é de olhos na tenda, onde os alunos do 1º ano do curso de Interpretação e Animação Circenses ensaiam o espetáculo de final de ano, que conversámos.

“Nós trabalhamos para a sociedade, integrando os jovens, mostrando que é possível integrá-los, vindos dos mais diversos meios, venham lá eles de onde vieram, através das artes. Não, o problema da integração não está na miudagem. O problema está sempre nos adultos. Os jovens são jovens, todos nós nascemos limpinhos e fresquinhos, e o mundo é que nos vai transformando conforme. Os jovens sempre existiram. Se eles crescerem com uma boa escola — que é o que nós tentamos fazer aqui –, eles vão sair ótimos adultos e ótimos profissionais. Agora, se eles não tiverem uma educação que lhes permita isso, eles vão andar para aí à toa, como muita coisa anda à toa neste país”, lamenta Teresa Ricou.

"São jovens em risco, jovens que são oriundos de bairros sociais degradados, jovens que têm, pela sua própria natureza, pela sua própria história de vida, situações de disfunção grave. E a arte, neste caso a arte circence, possibilita reconstruir personalidades. E quando falo em personalidade, falo na dimensão total: a dimensão cognitiva, a dimensão afetiva, a dimensão social e até a dimensão política." 
Américo Peças, professor do Chapitô

Há dois cursos profissionais no Chapitô, para os quais se pode entrar terminado o 9º ano, e que dão equivalência ao 12º, com Certificado Profissional de nível 4 — de acordo com a regulamentação da União Europeia. Anualmente são cerca de 120 os alunos inscritos na EPAOE, dispersos pelos três anos letivos. E não são só os ginastas, os trapezistas de Interpretação e Animação Circenses, os tais que abrilhantam a tenda, mas há também os que os fazem reluzir, os de Cenografia, Figurinos e Adereços (CENFA).

Laura Geraldes tem 18 anos, vai já no segundo ano de CENFA, chegou tarde à escola do Chapitô, porque andou, diz, “perdida” pelas Ciências no Secundário. “Eu não era boa aluna, definitivamente não era. Com a vinda para cá as minhas notas melhoraram e muito. Eu sempre andei em escolas ditas normais, e não de ensino artístico, escolas onde nunca podíamos expressar-nos artisticamente, onde os professores nos diziam, não te disperses!, estás a fugir ao assunto!, e eu sempre quis expressar-me pelas artes”.

"Não, o problema da integração não está na miudagem. O problema está sempre nos adultos. Se eles crescerem com uma boa escola -- que é o que nós tentamos fazer aqui --, eles vão sair ótimos adultos e ótimos profissionais. Agora, se eles não tiverem uma educação que lhes permita isso, eles vão andar para aí à toa, como muita coisa anda à toa neste país.”
Teresa Ricou, diretora do Chapitô

A primeira vez que Laura pisou a tenda do Chapitô tinha 11 anos. E fê-lo nos cursos de fim de tarde, onde se ensina a arte circense aos que são novos demais para ter concluído o 9º ano, ou que, mais velhos, nunca o fizeram e não podem, por isso, inscrever-se na EPAOE. “Nós somos como que irmãos, não de sangue mas por afinidade — e isso é o mais importante. Quem chega de novo, e chega de um bairro carenciado, que chega com problemas para interagir com os outros, todos o acolhem, ajudam-no a crescer e crescemos com ele. As pessoas sentem-se valorizadas e amadas, uma sensação que se calhar nunca sentiram ou tinham medo de sentir e dizê-lo no sítio de onde vêm. Aqui sentem-se em casa, uma nova casa, a casa que, se calhar, nunca tiveram.”

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Américo Peças é professor no Chapitô desde a primeira hora. É ele, também, o responsável pela Educação e os Assuntos Sociais. Crê, Américo, que o ensino do circo não pode ser visto como um fim em si mesmo, mas como um instrumento para a inclusão social. “A escola quando nasce, nasce com uma vontade, que é a de agarrar jovens, que são jovens em risco, jovens que são oriundos de bairros sociais degradados, jovens que têm, pela sua própria natureza, pela sua própria história de vida, situações de disfunção grave. E a arte, neste caso a arte circence, possibilita reconstruir personalidades. E quando falo em personalidade, falo na dimensão total: a dimensão cognitiva, a dimensão afetiva, a dimensão social e até a dimensão política. A arte capaz de regenerar vidas que têm marcas de sinal menos.”

Teresa Ricou considera que a arte circense é mais desafiadora, até provocadora, e é isso que atrai, hoje como no começo, os jovens à tenda. “É preferível que eles corram riscos aqui, na tenda, a subir ao trapézio, à corda, ao equilíbrio do arame, ao monociclo, é preferível que o façam aqui, do que estejam a fazer outras coisas que não interessam para nada, com comportamentos desviantes ou lá o que seja.”

O “João Paulo do Casal Ventoso” que é hoje uma referência maior do novo circo

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O Chapitô tem hoje mais de cem ex-alunos, artistas de circo ou novo circo, espalhados pela Europa e pelo mundo. João Paulo dos Santos, de 36 anos, é o mais renomado de todos. Chegou ao Chapitô em meados de 1995, trazido por “Toni” Tavares, um ex-aluno que lhe ensinou capoeira no bairro onde nasceu e cresceu, a Quinta da Bela Flor, mesmo ao lado do Casal Ventoso. “A partir do momento em que tu começas a ser considerado, em que o teu trabalho, aquilo que tu fazes, começa a ter interesse aos olhos dos outros, já é um primeiro passo para a socialização, já é um primeiro passo para a interação com os outros, para te valorizares como pessoa. Isso foi algo que, pouco a pouco, sem dar muito por isso, foi construindo a minha personalidade, e o Chapitô contribuiu de forma ativa para isso; foi o motor para uma série de sonhos. Sonhar é importante. Quando não tens sonhos, não tens objetivos na vida, e quando não tens objetivos na vida não vai para a frente”, recorda João Paulo, ao telefone desde Toulouse, França, onde vive e estabeleceu a sua própria companhia, “O Último Momento”.

João Paulo dos Santos ingressou em 1997 no Centre Nationale des Arts du Cirque de Chalon, em Châlons-en-Champagne, que é a maior escola de circo de França e uma das mais reputadas da Europa. E fê-lo com o apoio do Chapitô. Foi em Chalon que contactou pela primeira vez com o Mastro Chinês, que domina como poucos, e que o próprio, em França, ajudou a desenvolver, trazendo esta arte milenar, maioritariamente militar, que não era praticada em solo nem a solo, como João Paulo a faz, para o Século XXI.

"As pessoas pensam que por fazer umas coisinhas e meter um fato e uma maquilhagem, tá a andar! O trabalho é muito mais profundo, é muito mais pessoal. Eu dei muito da minha vida para chegar aqui. Tive que deixar o meu próprio país, tive que estar quase nove anos a trabalhar na escola [de Châlons-en-Champagne] sem receber, e não foi fácil. Há que ter muita humildade e muita disponibilidade."
João Paulo dos Santos, artista de novo circo e ex-aluno do Chapitô

“O João Paulo vinha do Casal Ventoso. E há por aí muitos miúdos de bairros de lata, como ele, que também têm aqui uma oportunidade, que têm acesso a isto, percebes? Sabes que o João Paulo ganhou o prémio Jean-Talon, no festival de circo Jean-Talon? Um português! Que veio do Casal Ventoso! Eu consegui pô-lo em França, a muito custo, porque é muito caro, mas consegui. O João Paulo era um jovem que tinha o destino a passar-lhe ao lado. Se eu tivesse desistido do João Paulo, ele não tinha chegado a França, mas eu fui lá, e tunga!, enfiei-o lá, empurrei-o, e fui à frente e desenrasquei-me, para que ele conseguisse entrar. E esse miúdo foi um sucesso e continua a ser”, conta Teresa Ricou.

João Paulo rejeitou integrar a trupe do Cirque du Soleil. Por duas vezes. O Cirque du Soleil, que fora a sua primeira e única ambição como artista de novo circo, que o fez deixar o país natal e viajar para França, “deixou de ter tanto sentido” quando criou “O Último Momento”, e percebeu que, sozinho, podia ser mais reconhecido, e deixar “a sua pegada” nas artes circenses em França e mundo afora. A quem hoje vai para o Chapitô com o mesmo sonho que ele teve um dia, mais do que acreditarem no sonho, pede-lhes trabalho. Muito trabalho.

“A primeira coisa a fazer é acreditar. Eu sou a prova disso, não é? Eu venho de um bairro de lata, de um país onde o circo contemporâneo não existe, e acabo por ser uma referência, uma lição de vida para todos eles. Mas se se acreditar, e não se trabalhar, não há química. A química só funciona quando tens uma ideia, quando tens uma crença, e atrás dessa crença estás a trabalhar. Nos alunos do Chapitô falta um bocado esse rigor, esse trabalho. As pessoas pensam que por fazer umas coisinhas e meter um fato e uma maquilhagem, a andar! O trabalho é muito mais profundo, é muito mais pessoal. Eu dei muito da minha vida para chegar aqui. Tive que deixar o meu próprio país, tive que estar quase nove anos a trabalhar na escola [de Châlons-en-Champagne] sem receber, e não foi fácil. Há que ter muita humildade e muita disponibilidade”, explica João Paulo dos Santos.

A orquestra “dos pequenos terroristas” cresceu para lá das fronteiras do bairro da Boba

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É sábado. Não há na Escola Miguel Torga, na Amadora, paredes meias com o Casal da Boba, um dos bairros sociais mais desfavorecidos e problemáticos do Concelho, a agitação de todos os dias. Mas do interior da escola sai música, primeiro dissonante, depois crescente e bem swingada. É jazz. A “Gerajazz” — que é o nome do ensemble que ali nasceu. O refeitório da escola vira sala de ensaios improvisada, oito horas por semana, três a quatro dias por semana, desde 2007. A Orquestra Geração surgiu, precisamente nesta escola, na Escola Miguel Torga, e surgiu inserida num projeto que já existia, o “Projecto Geração”, de integração social de jovens, que era apoiado por fundos europeus, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo município da Amadora.

António Wagner Diniz, professor da Escola de Música do Conservatório Nacional e responsável pela Orquestra Geração, foi quem sugeriu, na altura, que o projeto tivesse uma componente musical. A metodologia foi copiá-la ao “El Sistema” venezuelano. O “El Sistema” é o o Sistema de Orquestras Infantis e Juvenis da Venezuela, criado pela Fundación Musical Simón Bolívar, em 1975, e que reúne hoje 120 orquestras juvenis e 60 infantis, com mais de 350 mil crianças e adolescentes venezuelanos inscritos. O conceito é o mesmo na Amadora como em Caracas: dar apoio social a crianças e jovens oriundos de bairros desfavorecidos. “Nós temos um contrato com as autarquias, e são as autarquias que nos indicam os sítios onde nós devemos atuar. São sítios com um défice do ensino artístico, onde há problemas de desemprego, às vezes problemas de fome, e nós vamos trabalhar no sentido de melhorar a autoestima das crianças, e, também, de conseguir um aumento do rendimento escolar”, garante Wagner Diniz.

“Eu tenho muitos amigos que eram verdadeiros 'terroristas', e com a vinda para a Orquestra acalmaram-se. Porque a música estimula a atenção, estimula os reflexos, é necessário reagir à entrada do maestro ou seja o que for. E nas restantes aulas isso também se sente.”
Miguel Francisco, 15 anos, aluno da Orquestra Geração

“É verdade que os bairros são problemáticos, e que quem nasceu no bairro até pode não se interessar pelos estudos, e que é violento e resolve tudo à porrada, mas a música ajuda-os. Eu tenho muitos amigos que eram verdadeiros ‘terroristas’, e com a vinda para a Orquestra acalmaram-se. Porque a música estimula a atenção, estimula os reflexos, é necessário reagir à entrada do maestro ou seja o que for. E nas restantes aulas isso também se sente.” Quem o diz é Miguel Francisco, 15 anos, que nunca foi um gazeteiro, nem problemático, mas sempre partilhou a sala de aula com quem o foi. Cresceu no bairro do Casal da Mira, que não é tão mal afamado como o da Boba, mas é-lhe vizinho.

“Eu desde pequenino que queria ser baterista. Sempre gostei muito de rock, sempre gostei da bateria e da pinta que os bateristas tinham.” É assim que Miguel Francisco se apresenta. Miguel é tudo menos um rebelde sem causa, chega com a indumentária de Escuteiro, e garante que nunca foi mau aluno. Mas teve — e tem — as distrações de qualquer adolescente da idade dele. Entrou para a Orquestra Geração há cinco anos. “Quando eu era mais novo, no começo, era-me mais difícil vir às aulas. Eu tinha os amigos, tinha as namoradas, e isto ocupava-me demasiado tempo. A influência dos pais também é muito importante. Eles não têm que se impor, que impor a música ao filho, mas têm que questioná-lo e responsabilizá-lo, têm que perguntar-lhe: é mesmo isto que tu queres? É que na adolescência nós queremos desistir de tudo muito rapidamente.”

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Quando a Orquestra começou, eram pouco mais de 15 os inscritos, só na Amadora. Ao fim do primeiro ano, agregou-se à escola da Boba uma segunda escola em Vila Franca de Xira, a Escola de Vialonga, e o número cresceu para mais de uma centena de músicos de palmo e meio. Depois, numa segunda fase, a Orquestra Geração alargou-se a mais autarquias, de tal maneira que neste momento são 14 as escolas na zona da Grande Lisboa, em seis Concelhos, mais quatro escolas em Coimbra e uma na região do Porto, em Gondomar. No ano letivo de 2014/2015 a Orquestra Geração movia mais de novecentos alunos e noventa professores.

“O que é que os atrai? O que os atrai é, essencialmente, o modo como nós começamos. Nós não começamos com a chamada gramática da música, com o solfejo, as partes que lhes são mais chatas. Outro dos segredos, creio eu, é que os miúdos têm o seu próprio instrumento, que lhes é emprestado pela Orquestra, e começam logo a utilizá-lo, copiando o que o professor faz. Têm algo de seu. E imitando os professores, a progressão é mais fácil. À medida que eles evoluem, começam a relacionar os símbolos musicais com os sons que estão a emitir”, explica o professor Wagner Diniz.

“Nós temos um contrato com as autarquias, e são as autarquias que nos indicam os sítios onde nós devemos atuar. São sítios com um défice do ensino artístico, onde há problemas de desemprego, às vezes problemas de fome, e nós vamos trabalhar no sentido de melhorar a autoestima das crianças, e, também, de conseguir um aumento do rendimento escolar."
António Wagner Diniz, responsável da Orquestra Geração

A Orquestra Geração deu uma formação musical a centenas de crianças e jovens desde 2007. Muitos desses jovens, terminado o 9º ano, seguiram para a Escola da Orquestra Metropolitana ou para a Escola de Música do Conservatório Nacional. Aos que não seguiram, a Orquestra Geração trouxe-os para as Orquestras Municipais dos Concelhos abrangidos pelo projeto, e, de 15 em 15 dias, ensaiam, prosseguindo com os seus estudos noutras áreas que não a de música. “Mas atenção: nós não somos uma escola de música. A mim, o que me interessa, é que eles sejam bons naquilo que escolherem, que gostem do que façam e que o façam bem.”

Os casos de sucesso são cada vez mais. “Nós tivemos uma miúda, uma violoncelista do Bairro da Mira, na Amadora, que é um bairro difícil, que ganhou uma bolsa de estudo no Real Conservatório de Haia. Mas é como lhe digo, nós não os distinguimos. O que queremos é que eles sejam felizes, escolham o que escolherem, queremos é que continuem com o seus estudos e que sejam bons profissionais. Isso é o nosso objetivo. Se são músicos ou não são, isso é a escolha deles”, conclui o responsável pela Orquestra Geração.

Reportagem, texto e locução: Tiago Palma
Vídeo e fotografia: Hugo Amaral e Miguel Soares
Edição de vídeo: Miguel Soares

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