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O que é a lombalgia?

É o termo médico usado para descrever a dor na região lombar, que se situa na parte inferior da coluna vertebral. É uma forte dor nas costas e, apesar dos vários termos utilizados, “lombalgia é um sintoma, não um diagnóstico ou doença específica, pelo que a avaliação clínica é fundamental” diz Simão Serrano, médico fisiatra e coordenador da Unidade de Técnicas de Intervenção em Dor do Hospital Rovisco Pais – ULS de Coimbra. “Estima-se que, ao longo da vida, 80 a 90% da população adulta terá, pelo menos, um episódio de lombalgia incapacitante.”

A dor lombar é a dor crónica mais frequente e incapacitante na população mundial e “estima-se que afete um terço da população portuguesa”. É também uma das principais causas de consulta nos cuidados de saúde primários em Portugal e no mundo. “No entanto, a maior parte dos casos de lombalgia são episódios agudos isolados, sem causa identificada e resolvem-se espontaneamente em poucas semanas”, diz o também membro da Unidade de Dor Crónica do Hospital de Tomar – ULS Médio Tejo e vogal da direção da Associação Portuguesa Para o Estudo da Dor (APED).

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Quais os principais sintomas?

O sintoma principal é a dor na parte inferior das costas, que pode variar em intensidade e tipo de manifestação. Em 95% dos casos, a lombalgia agrava com os movimentos (dor de causa mecânica) e pode ter os seguintes sintomas:

• Dor difusa ou pontada na região lombar;

• Dor que irradia para as regiões do cóccix, nádegas ou para a parte de trás das coxas até ao joelho (muitas vezes confundida ou associada à ciática);

• Espasmos / contraturas musculares com rigidez na área;

• Dificuldade em mover-se ou em manter-se numa única posição (sentado, em pé);

• Dor que melhora com o repouso.

Em 5% dos casos podemos estar na presença de lombalgia de causa inflamatória (dor que agrava com o repouso) e pode dever-se a causas potencialmente mais graves (infeção, inflamação, ou até cancro).

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Quem afeta mais?

A lombalgia pode afetar pessoas de todas as idades, inclusivamente crianças, mas é mais frequente em adultos entre os 30 e os 50 anos “devido ao natural processo de envelhecimento dos discos intervertebrais, dos ossos e outras estruturas deste segmento, por exemplo, as articulações facetárias (artrose das facetas)”.

Algumas pessoas, no entanto, têm maior probabilidade de ter dor lombar:

  • Pessoas com má postura ao sentar-se, a levantar pesos ou a dormir;
  • Indivíduos com excesso de peso ou obesidade;
  • Trabalhadores que realizam esforço físico repetitivo ou permanecem em posições estáticas prolongadas;
  • Doentes sedentários ou, pelo contrário, outros que praticam treino excessivo sem o devido fortalecimento muscular do core (parte abdominal e costas).

Também pode afetar alguns jovens adolescentes e atletas que, fruto da atividade desportiva, desenvolvem pequenas fissuras/fraturas ósseas (ex. espondilólise lombar), bem como doentes submetidos a cirurgia lombar.

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Quando devo pedir ajuda?

Esteja atento a sinais de alarme que devem motivar a observação por um médico:

  • Dor intensa superior a quatro semanas;
  • Dor que irradia para as pernas;
  • Formigueiro, dormência ou falta de força na perna ou no pé;
  • Dor que surge ou agrava durante a noite.

Deve também pedir ajuda médica se a sua dor lombar se tornou crónica (com duração superior a três meses). “A dor crónica não tratada pode tornar-se uma dor ‘central’ — um processo chamado sensibilização central”, no qual a estrutura doente da coluna pode já ter cicatrizado, mas a dor permanece e passa a existir também no cérebro. “O nosso cérebro é uma máquina de aprender. Ele torna-se excelente naquilo que pratica repetidamente, seja tocar piano, conduzir ou sentir dor. As costas enviam informação, mas é o cérebro que decide se essa informação dói ou não. Na dor crónica, o cérebro habituou-se a decidir ‘dor’ para tudo, mesmo quando não há perigo real”.

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Como se diagnostica?

O diagnóstico é geralmente feito com base na história clínica e no exame físico realizado por um médico, que começa por perceber se a dor tem uma natureza de ritmo mecânico ou inflamatório, quando e como começou, o que a agrava e melhora, e se existem outros sintomas associados. É importante saber também quais os problemas de saúde prévios ou se existe toma prolongada de alguns medicamentos.

Podem ser necessários alguns exames complementares de diagnóstico para chegar a uma conclusão, como análises ao sangue (para perceber se há sinais de inflamação ou infeção), o raio-X simples à coluna lombar e / ou a TAC. “A ressonância magnética é utilizada em casos de lombalgia com irradiação e sintomas neurológicos como a perda de força e formigueiros/sensação de queimadura (parestesias) nas pernas, que possam sugerir o sofrimento/compressão de uma raiz lombar ou da medula, ou ainda, para exclusão de processos inflamatórios/infeciosos da coluna lombar”, explica o médico fisiatra. O estudo eletromiográfico (EMG) pode ser pedido para estudar os nervos e os músculos das pernas.

Simão Serrano diz que, em muitos casos, mesmo após a realização de vários exames, permanecem dúvidas relativamente à causa da dor lombar. “Nestas situações, nas unidades de dor crónica podem ser realizadas técnicas minimamente invasivas seguras (guiadas por ecografia ou por raio X) que vão permitir realizar os chamados bloqueios teste diagnósticos / prognósticos, e confirmar a origem da dor da coluna”.

“Se o doente melhora com o bloqueio teste, poderá ter indicação para técnicas de intervenção em medicina da dor, como a radiofrequência, a neuromodulação, a crioneurólise [um procedimento médico minimamente invasivo que usa frio extremo para bloquear temporariamente um nervo e reduzir a dor] ou mesmo a aplicação de produtos como o plasma rico em plaquetas do próprio doente” diz Simão Serrano, um dos coordenadores do Curso de Técnicas de Intervenção em Medicina da Dor da APED.

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E como se trata a lombalgia?

O tratamento depende da causa e da gravidade, mas a maioria dos casos de lombalgia aguda melhora com medidas simples. No caso da lombalgia crónica, recomenda-se o repouso relativo, ou seja, o doente deve manter-se ativo, mas evitar atividades que agravem a dor. “O repouso absoluto e prolongado pode, na verdade, piorar a situação e não deve ser praticado”, explica Simão Serrano.

Existem medicamentos de primeira linha, como os anti-inflamatórios não esteroides, como o ibuprofeno, que ajudam a reduzir a inflamação e a dor, mas só está recomendado para “tratamento curto ou intermitente”. Os analgésicos, como o paracetamol ou outros mais específicos e mediante prescrição médica. “Não são recomendados opióides no tratamento da lombalgia aguda.”

Os relaxantes musculares podem ajudar em casos de contratura e as aplicações de calor ou gelo podem ajudar a aliviar a dor e a inflamação.

Um programa de reabilitação e de fisioterapia são essenciais em casos de lombalgia crónica, pois inclui exercícios para fortalecer o core, o treino de flexibilidade e técnicas de terapia manual. “A estimulação elétrica transcutânea (TENS) pode ser usada para alívio da dor, criando uma corrente analgésica aplicada pelo próprio doente com aparelhos portáteis, domiciliários e de baixo custo”, diz o médico fisiatra.

A acupuntura e mesoterapia estão indicadas no tratamento da dor miofascial (que envolve músculos). O exercício terapêutico e o pilates clínico podem ter indicação na lombalgia crónica, “mas o tratamento deve ser individualizado e supervisionado, pelo menos numa fase inicial”. As técnicas de psicoterapia cognitivo-comportamental  estão também recomendadas em contextos de dor crónica, “pois o stress, a ansiedade e os comportamentos de dor, como o medo de se mexer, atuam como amplificadores do problema”.

Em casos mais graves e na lombalgia crónica pode estar indicado a realização de intervenções invasivas não cirúrgicas (percutâneas) ou cirúrgicas.

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Quais as consequências da lombalgia a médio-longo prazo?

Embora a maioria dos episódios agudos (com duração de menos de seis semanas) se resolva, a lombalgia pode ter um grande impacto na qualidade de vida. “Um pequeno, mas significativo número de pessoas desenvolve dor crónica que persiste por mais de três meses e a dor pode gerar incapacidade funcional, limitando muito as atividades diárias, o trabalho, a participação em desportos ou hobbies.”

A dor crónica está associada ao aumento de problemas psicológicos, como ansiedade, depressão e distúrbios de sono ou a dependência de medicamentos. “A gestão inadequada da dor crónica pode levar a uma espiral de dor, perda de força e de resistência física e isolamento social.”

Se sofre de dor lombar crónica, os médicos e profissionais de saúde são muito importantes na prevenção, educação e diminuição do sofrimento.

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Podemos prevenir a lombalgia?

Sim. Através de estilos de vida saudáveis, da educação do doente e de uma boa postura. Manter um peso saudável permite reduzir a tensão desnecessária sobre a coluna e o exercício regular ajuda a fortalecer os músculos abdominais e das costas para dar suporte à coluna. “É muito importante combater e prevenir a sarcopenia (o processo inevitável de perda progressiva e generalizada de massa muscular e da força, resultante do envelhecimento)”, explica Simão Serrano.

Ter uma postura correta, evitando permanecer muito tempo na mesma posição e a gestão adequada de cargas no ambiente doméstico ou de trabalho pode ajudar.

Acima de tudo, os profissionais de saúde recomendam uma boa higiene articular e postural, que passa por…

  • … dobrar os joelhos ao levantar objetos, mantendo as costas direitas e usndo a a força das pernas;
  • … manter os pés no chão quando sentado, com os joelhos ligeiramente mais altos que as ancas e apoio na curva lombar;
  • … utilização de um colchão firme e noites de sono de lado, com uma almofada entre os joelhos, ou de costas com uma almofada debaixo dos joelhos;
  • … evitar o sedentarismo e levantar-se e caminhar a cada trinta minutos, se o trabalho exigir longos períodos sentado.