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O que é o gaming?

Gaming é o termo de origem inglesa que se refere a um conjunto de práticas relacionadas com o uso de videojogos. É o ato de jogar videojogos em várias plataformas (computadores, telemóveis, tablets, consolas, etc), online, offline ou misto, abrangendo vários tipos desses jogos.

“O gaming, por definição, é uma atividade de jogo sem envolvimento de dinheiro, isto é, não inclui jogos de apostas (ou azar), como o gambling”, explica o psiquiatra Mário Santos, do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD).

Há definições que fazem referência à interação com vários contextos e conteúdos relacionados com videojogos, como ver vídeos ou streams (transmissão de vídeo em direto) de jogos, frequentar fóruns ou comunidades ou competir em eSports (desportos eletrónicos).

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É apenas entretenimento ou pode ter um carácter problemático?

As duas coisas. Os videojogos e o gaming, em geral, podem trazer diversão, permitir o contacto com outras pessoas, ajudar a encontrar grupos de pertença, fomentar o desenvolvimento de capacidades de raciocínio e destreza. Há dados que apontam que estas atividades têm potencial para contribuir positivamente nos processos de desenvolvimento pessoal e social. Os videojogos podem ser uma base de competição, de trabalho (eSports), podem ter como objetivo principal educar ou, em casos mais recentes, ajudar no tratamento de alguns problemas de saúde (os chamados serious games).

Segundo dados da Federação Europeia de Software Interativo, em 2024, mais de metade da população, entre os 6 e os 64 anos, jogava videojogos, quase 45% do género feminino. “Para a larga maioria destas pessoas, o gaming ocorre de forma ocasional ou recreativa. É uma forma de entretenimento, para vários um hobby.”

Contudo, nota o psiquiatra, “existe um pequeno subgrupo de indivíduos que pode começar a perder o controlo sobre os seus hábitos de gaming, dando progressivamente completa prioridade a isto sobre todos os outros aspetos da sua vida e experienciando consequências negativas.” Nestes casos, o gaming ganha um carácter problemático.

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É considerado uma dependência?

Em casos extremos, sim, quando o gaming adquire progressivamente um carácter problemático. À luz do conhecimento médico atual, consideram-se as dependências como pertencentes ao conceito de doença/perturbação mental. Com base nesse contexto, em 2018-2019, a Organização Mundial de Saúde incluiu a Perturbação de Gaming no capítulo “Perturbações mentais, comportamentais e neurodesenvolvimentais”, mais especificamente na secção “Perturbações devidas a uso de substâncias ou comportamentos aditivos”.

Já antes, em 2013, lembra Mário Santos, a Associação Americana de Psiquiatria, no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5), tinha proposto critérios para Perturbação de Jogos de Internet no capítulo “Condições para estudo futuro”. “Isto ajudou na expansão de estudos sobre esta temática e na pavimentação do caminho subsequente que esta área tem vindo a adquirir ao longo dos últimos 13 anos, que permitiu a consolidação desta condição como uma dependência.”

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Há fatores de risco para dependência?

Há e podem contribuir para aumentar o risco. É o caso de outros problemas de saúde mental, depressão, perturbação de ansiedade generalizada, perturbação de ansiedade social, perturbações do espetro do autismo ou perturbação de hiperatividade e défice de atenção.

Características de personalidade como impulsividade e baixa tolerância à frustração, são também fatores de risco, bem como baixa autoestima, baixa sensação de autoeficácia e autonomia, défice de habilidades sociais, défices no desenvolvimento afetivo, cognitivo e comportamental. Conflitos familiares, problemas na relação com os pais, défice de comunicação familiar, carência afetiva, falta de supervisão, limites e controlo dos pais, são outros elementos de risco.

“Tende a ser mais comum em adolescentes do sexo masculino e a acontecer mais frequentemente em relação a videojogos com foco em jogabilidade online e que incorporam mecânicas de loot box (caixas digitais que contém itens virtuais aleatórios, sendo a maioria compradas com dinheiro real)”, diz o psiquiatra.

Mas há fatores protetores que contribuem para a redução do risco, como níveis mais elevados de competência social e autoestima, bem-estar relacionado com a escola, perceção de autocontrolo comportamental, monitorização familiar adequada, coesão familiar e uma boa relação progenitor-criança.

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E quais as causas dessa possível dependência?

As causas de qualquer dependência são múltiplas e interagem de forma complexa. Segundo Mário Santos, é necessário considerar fatores individuais como neurobiologia, personalidade, outros problemas de saúde mental, ideias e pensamentos sobre gaming, bem como aspetos relacionados com o ambiente circundante e os contextos familiar, social e escolar. Cada caso é um caso, portanto.

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Pode ter impactos na saúde física?

Dores de cabeça, dores nas costas, problemas de visão ou excesso de peso são algumas possíveis consequências. Além disso, há também consequências na saúde mental, no isolamento e diminuição de atividades com amigos ou familiares, o que pode agravar dificuldades nas relações com outras pessoas, levando a uma maior ansiedade social.

Nos impactos mais comuns e relevantes está ainda a negligência a vários níveis:

  • Negligência de cuidados pessoais, como na higiene (passar vários dias sem tomar banho ou lavar os dentes);
  • Negligência na alimentação (refeições menos equilibradas e consumir mais comida processada, com muitos açúcares, sal ou gorduras, ou mesmo beber grande quantidade de bebidas com cafeína ou energéticas);
  • Negligência no sono (dormir menos horas do que as necessárias ou inverter completamente o ciclo, dormindo de dia e jogando toda a noite).
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Quais os sinais de alerta?

Há vários. É necessário analisar uma constelação de sinais e sintomas. Olhando para a forma como a dependência se desenvolve e se apresenta, eis alguns sinais:

  • Pensamento constante sobre videojogos ou gaming;
  • Necessidade de passar quantidades crescentes de tempo envolvido/a em gaming;
  • Tentativas repetidas e fracassadas de controlar os comportamentos associados;
  • Irritabilidade, agitação ou ansiedade, que surgem quando a pessoa tenta abster-se de ou reduzir os hábitos de gaming;
  • Perda de interesse em passatempos e atividades de entretenimento prévias resultante de e com a exceção do gaming;
  • Uso dos videojogos como escape ou forma de lidar com sentimentos negativos (como tristeza, ansiedade, frustração…);
  • Negligência e impacto negativo em responsabilidades pessoais, profissionais, académicas ou sociais;
  • Continuação do padrão de comportamento, apesar de existirem consequências negativas desse padrão.
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Quando é necessário pedir ajuda?

Quando há sinais de alerta (pergunta anterior) e consequências negativas. Pedir ajuda, principalmente numa situação de dependência, pode ser difícil. Nem sempre a pessoa afetada percebe que há um problema e quais as suas repercussões. “Por isso, é preciso paciência, tempo e esforço”, diz Mário Santos. “O aconselhamento e a monitorização de médicos de família e pediatras podem ser muito úteis, nesta fase.”

Os pais devem assumir responsabilidade, desde o início, sobre a supervisão e monitorização do tempo passado online pela criança/jovem e pelos conteúdos que consome. A utilização da Internet e dos videojogos pode e deve ser partilhada com a criança (por exemplo, jogando em família ou em espaços comuns), promovendo a utilização consciente e crítica.

“Muitas vezes, encontramos pais muito e justamente preocupados e filhos que se sentem incompreendidos. Esta gestão é complexa e delicada, mas existem estratégias úteis para tentar evitar problemas ou ajudar a encontrar uma saída de uma situação problemática.”

Pode ser negociado com a criança/jovem o estabelecimento de regras e limites relacionados com a utilização da Internet e de videojogos e ajudar a garantir alternância de tempo de ecrã com outro tipo de atividades, sobretudo ao fim de semana. E deve haver um esforço para conhecer os sistemas de classificação deetária de videojogos e o conteúdo e características destes.

Se mesmo depois do esforço e de várias tentativas, não for possível lidar com uma situação problemática, então será necessário procurar ajuda mais especializada, recorrendo, por exemplo, ao médico de família.

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Há tratamento quando se torna uma perturbação?

Sim, há tratamento, que pode assumir várias formas que vão ter em conta o contexto pessoal, familiar e ambiental, para encontrar a abordagem mais adequada a cada situação. “Algumas pessoas têm procurado ajuda junto de psicólogos, pedopsiquiatras para menores ou psiquiatras para adultos, que são uma ajuda no processo de melhoria.”

Contudo, Mário Santos adianta que a forma considerada ideal de cuidados assenta em princípios multidisciplinares e num modelo biopsicossocial em que a pessoa e, muitas vezes, a família têm acompanhamento simultâneo e integrado por vários profissionais de saúde mental, incluindo psiquiatra ou pedopsiquiatra, psicólogo/a, assistente social e enfermeiro/a.

O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) providencia intervenções assentes nestes princípios e tem vindo a aumentar a capacitação dos seus profissionais e equipas para ajudar pessoas com Perturbação de Gaming. Abrange todo o território continental e a referência pode ser feita através de um profissional de saúde, de parceiros na comunidade ou por iniciativa própria, deslocando-se aos serviços ou através do Módulo de Inscrição Pública do ICAD.

Para Mário Santos, ainda há falta de literacia nesta área e, por isso, “iniciativas de educação para a saúde, de literacia digital e de prevenção são fundamentais para criar uma sociedade mais preparada para lidar com os desafios da vida contemporânea.” Existem vários recursos onde é possível encontrar mais informação, como o site do Centro Internet Segura.