“O Fórum Económico Mundial exige que os governos globais imponham proibições ao cultivo de alimentos em casa por parte do público em geral, a fim de supostamente reduzir as ’emissões'” — é este o alerta que circula nas redes sociais para colocar a hipótese de uma eventual proibição de cultivo de alimentos em casa por forma a que possa ser atingida a neutralidade carbónica.
Na publicação que tem sido partilhada, é referido que “a organização global afirma que os alimentos cultivados em casa contribuem para as mudanças climáticas” e, por isso, o texto em causa alega que o evento de Davos, que reúne anualmente os líderes mundiais, defende um estudo realizado pela própria organização, cujos membros participantes descobriram que a “pegada de carbono” dos alimentos cultivados em casa está a “destruir o planeta”.
A publicação remete ainda para um link da Slay News que, por sua vez, remete para um estudo da Universidade de Michigan (supostamente financiado pelo Fundo Económico Mundial) em que as alegações são descritas com mais detalhe. É reiterado que o FEM, assim como “outros fanáticos climáticos globalistas, exigem agora que os governos intervenham e proíbam os indivíduos de cultivar seus próprios alimentos para salvar o planeta do aquecimento global”. São ainda acrescentadas, neste texto, conclusões do suposto estudo que teve como objeto 73 locais de agricultura urbana na Europa e nos Estados Unidos.
O relatório aponta, por exemplo, que as hortas urbanas e o cultivo caseiro de vegetais têm um maior impacto ambiental do que a agricultura industrial, gerando cinco vezes mais dióxido de carbono, uma ideia expressa por Benjamin Goldstein, professor naquela universidade.
No entanto, o mesmo estudo revela que “além da produção de alimentos, os produtores urbanos obtêm benefícios em saúde mental e física, partilham educação ambiental e possibilitam o desenvolvimento da capacidade comunitária […] oferecendo abrigo para abelhas e animais selvagens urbanos, além de alguma proteção contra o efeito de estufa”.
Mais. O estudo da Universidade do Michigan não desincentiva as plantações caseiras e urbanas, e ainda propõe métodos mais eficazes de o fazer de forma mais regular e sustentável: prolongar a vida útil da infraestrutura — como muros ou canteiros —, reutilizar materiais de construção ou restos de entulho, ou o uso de água da chuva para irrigação das culturas.
No entanto, em momento algum o documento refere o financiamento do Fórum Económico Mundial para a elaboração desta pesquisa. O apoio, conforme é enunciado no final do texto, foi prestado pelo Conselho de Pesquisa Económica e Social do Reino Unido, também pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha, pela Agência Nacional de Pesquisa Francesa, ainda a Fundação Nacional de Ciências dos EUA, o Centro Nacional de Ciências da Polónia e o programa de pesquisa e inovação Horizon 2020 da União Europeia.
O professor Benjamin Goldstein prestou inclusivamente esclarecimentos à Agência France Press, em que responde diretamente à polémica proibição, alegadamente, colocada sob hipótese pelos líderes mundiais, e foi claro: “Não pedimos de forma alguma a proibição da agricultura urbana ou a proibição do cultivo de alimentos no próprio jardim”, acrescentando que o estudo da Universidade de Michigan “não tem nenhuma relação” com o Fórum Económico Mundial.
À AFP, Goldstein acrescenta ainda que o estudo em causa tem como objetivo o aconselhamento às pessoas sobre formas de reduzir a pegada ambiental (que, segundo a pesquisa, incide principalmente na construção das estruturas que albergam as hortas urbanas), mantendo ao mesmo tempo os benefícios sociais e sanitários. “Estimulamos as cidades a adotarem políticas de apoio à agricultura urbana e as pessoas a participarem deste processo”, remata o investigador.
Conclusão
É facto que o estudo da Universidade do Michigan alega que o cultivo urbano de alimentos liberta mais dióxido de carbono do que a agricultura convencional (não por causa dos produtos em si, mas por causa dos materiais usados nas infraestruturas), mas o relatório da pesquisa incentiva a prática deixando conselhos sobre formas mais sustentáveis de criar e manter as hortas urbanas, lembrando ainda para os benefícios físicos e mentais assim como para o sentimento de comunidade.
Além disso, contrariamente ao que é afirmado no boato que corre nas redes sociais, este estudo não recebeu qualquer apoio ou incentivo financeiro do Fórum Económico Mundial. Portanto, não há qualquer relação entre o trabalho feito pela universidade norte-americana e a cúpula de Davos. Simultaneamente, não há qualquer indicação oficial publicada no FEM que remeta para a proibição de hortas particulares ou comunitárias em zonas urbanas. Logo, é falsa a afirmação que circula nas redes sociais.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.