Uma “aberração” e um dia “sombrio e vergonhoso” para a Irlanda. É desta forma que é descrita em múltiplas publicações no Facebook a informação de que um professor irlandês foi supostamente condenado a prisão perpétua por transfobia. Na origem da situação estaria a recusa de Enoch Burke em usar pronomes neutros em relação a um aluno ‘trans’ da Wilson’s Hospital School, num caso cujas origens remontam a 2022.
As referidas publicações — visíveis também noutras redes sociais e em mais do que um idioma — são acompanhadas de um vídeo de Enoch Burke a ser levado algemado por um polícia nas imediações do tribunal superior de Dublin.
Mas será que foi mesmo a recusa de usar o pronome ‘eles’ em relação a um aluno transgénero a ditar uma alegada condenação a prisão perpétua?
Não e não. Enoch Burke não foi condenado por qualquer ato transfóbico, nem sequer lhe foi aplicada uma pena de prisão perpétua pelos tribunais irlandeses. Com efeito, conforme vários sites internacionais de verificação de factos já atestaram (como a Reuters ou o The Journal), o professor — que será cristão evangélico — foi preso por desrespeitar as ordens do tribunal para não invadir o recinto da escola na qual era docente.
Burke foi suspenso em agosto de 2022 por ter interrompido um evento escolar para protestar contra a recomendação da direção para usar um outro pronome para se referir a um aluno ‘trans’. Posteriormente, o professor foi mesmo demitido e aquele estabelecimento de ensino conseguiu que a justiça declarasse a proibição de entrada nas instalações. Algo que Enoch Burke tem violado reiteradamente desde setembro de 2022, quando foi preso pela primeira vez pelas autoridades irlandesas por ignorar aquela decisão judicial.
Em paralelo, o professor não viu ser-lhe aplicada qualquer pena de prisão perpétua. Aliás, segundo o juiz Brian Cregan, que deliberou sobre o caso, Burke só depende de si mesmo para deixar a prisão, tendo as “chaves” nas suas mãos para deixar a cela.
“Ele não está na prisão por causa das suas opiniões sobre transgéneros, as quais tem todo o direito de ter”, afirmou o magistrado, acrescentando: “A ideia de que o Sr. Burke está a ser preso por causa das suas crenças religiosas é um disparate. Este tribunal não prende pessoas por causa das suas crenças religiosas. O Sr. Burke está a ser preso porque invadiu a propriedade alheia. Nem mais, nem menos“.
O tribunal determinou que Enoch Burke será libertado assim que se comprometer a respeitar a ordem do tribunal e a não entrar no recinto da escola sem autorização.
“Deve comprometer-se perante o tribunal a não entrar ou invadir novamente a propriedade da escola sem o consentimento desta. É tudo. Não tem de se comprometer a seguir as instruções do diretor da escola de se referir a uma criança como ‘eles’ ou ‘elas’. Não tem de aceitar os transgéneros. Não tem de parar de protestar. Não tem de mudar as suas crenças religiosas”, sintetizou o juiz na sua decisão.
Conclusão
É falsa a informação de que um professor irlandês foi condenado a prisão perpétua por se recusar a usar pronomes neutros relativamente a um aluno transgénero.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.