O anúncio do Presidente argentino, Javier Milei, de que ia desclassificar os documentos secretos do Governo relacionados com a presença de nazis na Argentina depois da Segunda Guerra Mundial, fez disparar nas redes sociais teorias sobre o que supostamente consta nos ficheiros. Uma delas tem a ver com o próprio Adolf Hitler e a sua suposta fuga para a América do Sul em 1945, no fim da guerra.

As publicações que surgiram nas redes sociais são diversas e citam documentos dos serviços secretos norte-americanos para afirmar que Hitler terá vivido, nas duas décadas depois do final da guerra, na Argentina. Nessas partilhas é também referido que o ditador alemão terá conseguido fugir para a Argentina através de uma rota que envolveu o transporte por submarinos. São também referidos relatórios do FBI e da CIA sobre este assunto.

A parte verdadeira desta publicação é relativa à decisão de Javier Milei de desclassificar a documentação sobre a fuga de elementos do regime nazi alemão para a Argentina no final da Segunda Guerra Mundial. Este foi um compromisso assumido pelo Presidente da Argentina com o Centro Simon Wiesenthal, uma organização internacional de direitos humanos que se dedica à preservação da memória do Holocausto e também no seguimento do trabalho do seu fundador de tentar levar à justiça nazis que participaram em crimes de guerra e que fugiram no fim do conflito.

A organização reuniu-se com o Presidente argentino em fevereiro deste ano e levou-lhe inclusivamente um pedido de cooperação por parte da Comissão de Assuntos Judiciais do Senado norte-americano, para a “investigação que decorre sobre os ativos nazis desconhecidos no Credit Suisse e nos bancos predecessores, que agora estão sob a liderança do UBS Group AG”, de acordo com a carta divulgada pela própria presidência argentina na sua conta oficial no X.

A decisão de Milei pode, assim, ajudar com informações sobre as rotas de fuga que foram utilizadas por criminosos de guerra nazis para escaparem da Europa, refugiando-se na América do Sul, sobretudo na Argentina, evitando serem julgados por crimes de guerra. Mas também com documentação sobre transações bancárias e financeiras e todos os registos que foram mantidos pelo Ministério da Defesa argentino relativos a esse movimento. A carta divulgada não fazia qualquer menção a Adolf Hitler.

Não é a primeira vez que circulam teorias sobre o desaparecimento de Hitler, contrariando as informações de que se suicidou no seu bunker a 30 de abril de 1945. E também não é a primeira vez que são referidos documentos dos serviços secretos americanos para tentar confirmar a tese da fuga para a Argentina — esta é a outra parte verdadeira desta história, já que os documentos existem.

Neste momento, não há informação sobre novos documentos desclassificados pelas autoridades argentinas e aqueles que estão a circular nas redes sociais já eram conhecidos. Tanto a CIA como o FBI investigaram denúncias sobre supostos avistamentos ou informações relativas a Adolf Hitler ter fugido para a América do Sul, mas não foram encontradas provas que justificassem continuar as investigações.

Em 2018, investigadores franceses tiveram acesso a restos mortais de Hitler, nomeadamente os dentes, e concluíram que “são autênticos, não há dúvida possível. O estudo prova que Hitler morreu em 1945”. Philippe Charlier, um dos cinco especialistas que assinaram o artigo científico então publicado no European Journal of Internal Medicine, afirmou mesmo: “Podemos parar com as teorias da conspiração sobre Hitler. Ele não fugiu para a Argentina de submarino, não está escondido numa base na Antártica ou no lado negro da lua”, ironizou citado pelo France 24.

Conclusão

Não há informações fidedignas sobre novos documentos desclassificados pelas autoridades argentinas sobre a fuga de nazis para a América do Sul no fim da Segunda Guerra Mundial — ainda que Javier Milei já tenha prometido essa desclassificação a pedido das autoridades norte americanas. Os documentos que já se conhecem até agora mostram que a hipótese de Adolf Hitler ter sido um dos elementos que se refugiaram na Argentina, para fugir a julgamentos sobre crimes de guerra, foi investigada pelo FBI e pela CIA, mas as investigações não avançaram por falta de provas. Cientistas franceses concluíram entretanto, em 2018, que os restos mortais que existem do ditador alemão são mesmo dele.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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