Uma publicação da página Sempre Questione, partilhada milhares de vezes nas redes sociais em Portugal, afirma que médicos holísticos foram “todos encontrados mortos”  após terem descoberto que as vacinas transportam enzimas causadoras de cancro. A publicação, que acaba por se referir a apenas uma pessoa, é falsa. O médico holístico em causa não foi assassinado — cometeu suicídio em 2015. E o produto que dizia provocar cancro, na verdade, é inofensivo para a saúde.

De acordo com o siteJames Bradstreet, que se apresentava como um especialista em autismo, tinha 60 anos quando foi “encontrado a flutuar num rio na Carolina do Norte” com “um tiro no peito”. “Foi dito que o médico poderia ter sido assassinado devido à pesquisa controversa que ele estava a conduzir”, afirma a página, embora não aponte quaisquer fontes.

Essa investigação estaria relacionada com um produto chamado GcMAF que, quando administrado, tornaria o sistema imunológico do doente mais resistente. “Ajuda o corpo a combater o cancro sem que a pessoa tenha de passar por tratamentos como radiação ou quimioterapia”, descreve o site

Supostamente, James Bradstreet era um “grande inimigo” das “grandes empresas farmacêuticas” porque tencionava vender cápsulas de GcMAF que “dão ao corpo o poder de se curar”.

Nem tudo é mentira nesta história. De facto, Bradstreet travava há longos anos uma batalha contra a indústria farmacêutica porque dizia ter uma cura contra o autismo, o cancro e a sida, doenças que, segundo ele, seriam provocadas por um ingrediente encontrado nas vacinas — já lá vamos. E também é verdade que foi encontrado a boiar no rio de Rocky Broad, na Carolina do Norte, com um ferimento de bala no peito.

O que não é verdade, apesar das afirmações da família e dos apoiantes, é que a morte tenha sido engendrada pela indústria farmacêutica. A polícia de Rutherford County garantiu ao The Washington Post que a ferida, provocada por uma arma encontrada na água a poucos metros do cadáver, apresentava todos os sinais de ter sido auto-infligida. James Bradstreet havia cometido suicídio. E os motivos são claros para as autoridades.

É que James Bradstreet geria uma fábrica ilegal de medicamentos que tinha sido proibida pela Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que licencia os produtos que chegam ao mercado nos Estados Unidos, por vender um produto que matou pelo menos cinco pessoas na Suíça.

Esse medicamento é feito à base de uma proteína que existe normalmente no sangue, mas que é modificada bioquimicamente em laboratório e concentrada em cápsulas. Chama-se Componente de Globulina no Fator de Ativação de Macrófagos, ou GcMAF. Segundo Bradstreet, essas cápsulas podem tratar o autismo em pessoas com “entre 18 meses e 40 anos de idade”.

Ora, segundo o site Sempre Questione, o médico holístico criou este medicamento por acreditar que as vacinas introduzem nagalase no organismo dos pacientes — uma enzima que, supostamente, “interfere com uma das proteínas mais importantes do corpo humano, que matam as células cancerígenas”: “Bradstreet e os colegas descobriram que a nagalase estava a comprometer o sistema imunológico e acreditava-se que estava a ser introduzida no corpo por meio das vacinas”, lê-se na página.

No entanto, não é da nagalase que James Bradstreet fala no estudo que publicou em 2003 numa revista não certificada, mas antes do mercúrio. O que o médico holístico realmente defendia é que os autistas têm maiores concentrações de mercúrio no organismo do que os pacientes saudáveis. E que esse metal tinha sido introduzido no corpo através de vacinas. Mas não se refere à ideia de o mercúrio também causar cancro, como sugerido no site Sempre Questione.

James Bradstreet criou esta teoria depois de o filho ter sido diagnosticado com autismo — algo que o médico holístico atribuía a uma vacina que o rapaz levou em bebé. A crença de que as vacinas podem causar autismo remonta a 1998, quando um estudo afirmou que a vacina contra a rubéola podia provocar essa condição. Desde então, milhares de outros estudos certificados por entidades oficiais negam que haja uma relação entre as vacinas e o autismo.

É verdade que algumas vacinas contêm um produto semelhante ao mercúrio na sua composição. Chama-se timerosal e funciona como um conservante. No entanto, esse produto não é nocivo para a saúde, garantiu em 2015 o Centro de Controlo de Doenças (CDC) nos Estados Unidos: “Um ingrediente das vacinas que foi estudado especificamente é o timerosal, um conservante à base de mercúrio usado para evitar a contaminação de frascos multidose de vacinas. A investigação mostra que o timerosal não causa autismo“.

Num comunicado publicado na sua página oficial, o CDC explica que, “entre 1999 e 2001, o timerosal foi retirado ou reduzido para quantidades residuais nas vacinas administradas em crianças, exceto em algumas para a gripe”: “Isto fez parte de um esforço para reduzir todos os tipos de exposição ao mercúrio em crianças até que os estudos determinassem se o timerosal era nocivo. Foi feito por precaução”.

Desde então, vários estudos comprovaram que o timerosal não é nocivo para a saúde. Não provoca autismo, ao contrário do que foi defendido por Bradstreet; nem cancro, como sugerido pelo site Sempre Questione. Por isso é que esse produto continua a ser usado nas embalagens de vacinas com várias doses.

De resto, não há evidências científicas que provem que o GcMAF de Bradstreet tenha resultados na cura do cancro ou de qualquer outra doença. Aliás, o Fundo Anti-Cancro, uma organização privada sem fins lucrativos, emitiu um comunicado avisando que “em tempos proclamada como uma proteína mágica capaz de curar o cancro, o GcMAF mostrou-se ineficaz”: “O caso retrata até que ponto os golpistas estão dispostos a ir para explorar pacientes com cancro desesperados e as suas famílias em busca de ganhos financeiros”, acusa.

A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Cuidados de Saúde, uma organização britânica, insistiu: “Estes produtos podem ser um risco significativo para a saúde humana. Não só foram produzidos sob circunstâncias inaceitáveis, como o material usado não é adequado para a utilização em humanos”.

Ora, no dia anterior à morte de James Bradstreet, as autoridades norte-americanas entraram na fábrica ilegal onde o médico holístico produzia GcMAF e encerrou-a, conta o The Washington Post. E no dia em que ele foi encontrado morto, a comunicação social suíça noticiou que a polícia entrou numa outra clínica ligada a Bradstreet depois de cinco pessoas terem sido encontradas sem vida após terem consumido as cápsulas de GcMAF.

Era a terceira vez que as clínicas de James Bradstreet eram encerradas pelas autoridades. A primeira tinha sido em fevereiro de 2015, quando a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Cuidados de Saúde fechou uma fábrica que o médico holístico geria em Cambridge. Era nessa fábrica que Bradstreet filmava os vídeos promocionais e produzia as cápsulas e injeções de GcMAF à base de plasma humano.

De resto, o nome de James Bradstreet não tem sido o único apontado em páginas de conteúdos virais, frequentemente falsos, para protagonizar um alegado complot das grandes farmacêuticas para eliminar supostos criadores de curas milagrosas para estas doenças.

site Punditfact, dedicado a desmascarar notícias falsas, denunciou outra página — healthnutnews.com — que, numa publicação exatamente com o mesmo título que a notícia do Sempre Questione, adianta outras pessoas que, supostamente, foram encontradas mortas em circunstâncias suspeitas após terem feito descobertas arrebatadoras para a indústria farmacêutica.

Um deles é Bruce Hedendal, um médico de 67 anos natural da Flórida que foi encontrado morto dentro do carro em junho de 2015. A causa da morte de Hedendal nunca foi revelada, embora a televisão local cite fontes policiais e indique que o terapeuta morreu de causas naturais. De resto, aponta o Punditfact, Hedendal era um profissional da quiroprática e não estava ligado a quaisquer investigações desafiadoras para a indústria farmacêutica.

Theresa Ann Sievers, outro nome apontado nesses conteúdos virais, tinha 46 anos e foi encontrada sem vida em casa, também na Flórida. Uma investigação policial apurou, no entanto, que foi o marido de Theresa, Mark Sievers, que a matou para ficar com o dinheiro do seguro de vida.

Jeffrey Whiteside, 63 anos, foi encontrado morto no estado de Wisconsin após ter discutido com a mulher. Mas, segundo o USA Today, Jeffrey Whiteside cometeu suicídio com uma arma de fogo. Patrick Fitzpatrick, 74 anos, médico oftamologista reformado, desapareceu em Montana e nunca foi encontrado. As autoridades acreditam que o desaparecimento está relacionado com episódios de confusão mental; e dizem não ter motivos para pensar que Fitzpatrick foi vítima de um crime.

Conclusão

Em suma, de todos os nomes que têm sido apontados como vítimas mortais da indústria farmacêutica, o único que mantinha ligações a ela é James Bradstreet. No entanto, embora seja verdade que James Bradstreet foi encontrado sem vida, a causa da morte foi suicídio — não homicídio, ao contrário do sugerido pela publicação do Sempre Questione. Também é verdade que Bradstreet defendia que as vacinas têm um produto causador de autismo, mas esse composto é inofensivo para a saúde — também não causa cancro, como dito pelo Sempre Questione. Além disso, a “cura” apresentada por Bradstreet não só se provou ineficaz, como pode ter provocado cinco mortos na Suíça.

No sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.