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Para que servem as convenções dos partidos dos EUA? Como uma festa pode ser uma carga de trabalhos

24 ago. 2020, 21:37
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Especial Eleições Americanas

Fotografia de João de Almeida Dias
João de Almeida Dias
Jornalista de Internacional
Segunda, 24 Ago 2020
Foto da Newsletter

Para que servem as convenções?

As convenções dos partidos nos Estados Unidos servem para fazer uma festa a poucos meses das eleições presidenciais, que neste ano estão agendadas para 3 de novembro. Mas, por vezes, uma convenção pode tornar-se numa carga de trabalhos. E, em particular para as convenções deste ano, em plena pandemia, é uma carga de trabalhos tornar isto tudo numa festa.

Vamos por pontos.

As convenções podem ser uma festa porque quando se abrem as portas dos pavilhões para receber os delegados de todo o país daquele partido já é claro quem vai ser o candidato escolhido para concorrer às eleições. Desta forma, as convenções servem para se tornarem em festivais de discursos, espetáculos e artifícios. Uma produção à Hollywood.

Às vezes, literalmente. Afinal, um desses momentos foi protagonizado pelo ator e realizador Clint Eastwood. Na Convenção do Partido Republicano de 2012, Eastwood apareceu no palco com uma cadeira vazia, fingindo que nela estava sentado Barack Obama. “Oiça, senhor Presidente…”, começou o realizador, num monólogo memorável. Mas também houve outros. De uma longa lista, podemos destacar o discurso de aceitação de Geraldine Ferraro, a primeira mulher que concorreu (e daí não passou) a vice-Presidente, na Convenção do Partido Democrata de 1984; o discurso de Barack Obama na Convenção do Partido Democrata de 2004, em que ficou a certeza de que uma dia voltaríamos a ouvir falar dele; ou o invulgar mas momentaneamente eficaz discurso de Sarah Palin na Convenção do Partido Republicano de 2008. Definiu-se como uma “simples mãe de hóquei”, desporto praticado pelos filhos, e depois perguntou: “Sabem qual é diferença entre uma mãe do hóquei e um pitbull? O batom”.

Depois há as convenções que são uma carga de trabalhos. É o que acontece quando as eleições primárias não têm um vencedor claro — deixando o primeiro classificado à mercê dos adversários, que podem escolher um deles ou uma terceira figura para, com a soma de todos os seus delegados, puxarem o tapete a quem julgava pisar chão firme. Nessas convenções, o ambiente é instantaneamente hostil. Lá se vai a festa.

Um exemplo clássico é a Convenção do Partido Republicano de 1976. O então Presidente Gerald Ford ganhou as primárias, com 1.127 delegados, a apenas três da maioria. Atrás, tinha um challenger: um tal de Ronald Reagan, com 1.043. Por pouco a festa não resultou em pancadaria. O incidente mais famoso da Convenção surgiu quando o vice-Presidente, Nelson Rockefeller, partiu ao meio um cartaz pró-Reagan. Enfurecido, um delegado do Utah pró-Reagan perseguiu Rockefeller até à mesa da delegação de Nova Iorque. Ali chegado, pegou no telefone que fazia a ligação ao escritório de Ford e arrancou-o pelo fio. Os seguranças evitaram problemas maiores, mas o mal já estava feito. No final, Ford venceu a nomeação, mas de pouco lhe valeu — afinal, meses mais tarde, perdeu as eleições contra o democrata Jimmy Carter.

Em 2016, as convenções também não foram propriamente de festa. Entre democratas, a revolta dos apoiantes de Bernie Sanders contra Hillary Clinton ficou evidente, com manifestações dentro e fora do recinto da Convenção. Sanders tentou serená-los num evento próprio, alertando que o importante era “derrotar Donald Trump e eleger Hillary Clinton”. Resultado? Também ele foi apupado. Mas não tanto como o senador Ted Cruz foi na Convenção do Partido Republicano, quando sugeriu aos delegados que votassem contra Trump. A matemática, porém, não estava do seu lado — e o pavilhão também não, como qualquer pessoa dotada de audição perceberia.

Finalmente, este ano, as convenções são festas que dão uma carga de trabalhos. Por causa da pandemia da Covid-19, ambos os partidos foram obrigados a mudar em grande parte o funcionamento das suas convenções.

A mudança mais radical foi no Partido Democrata, que tinha tudo preparado para fazer a convenção em Milwaukee, no Wisconsin, mas que decidiu fazer tudo de forma virtual. À exceção dos oradores daquele estado, todos os restantes falaram a partir do seu canto. Joe Biden nem chegou a sair de Wilmington, no Delaware, onde vive.

Do lado republicano também houve mudanças, mas não tão amplas. Mantém-se a decisão de fazer a convenção presencialmente em Charlotte, na Carolina do Norte — mas com menos delegados do que inicialmente previsto. Também Donald Trump não estará presente e fará o discurso de aceitação na Casa Branca. Para os que forem a Charlotte, há regras apertadas: além do uso obrigatório de máscara, cada um terá consigo um dispositivo bluetooth que ajudará a registar todos os contactos. Uma carga de trabalhos, portanto.

O que aconteceu esta semana

  • Convenção do Partido Democrata

Obrigados a distanciarem-se uns dos outros por causa da pandemia, os democratas fizeram uma convenção totalmente à distância, com cada orador a discursar a partir do seu canto do país. No final de contas, ficam como discursos mais fortes os de Michelle e Barack Obama, além de vários republicanos que, desiludidos com Donald Trump, deram agora o seu apoio a Joe Biden. E, claro, o próprio candidato democrata, que no seu discurso prometeu levar os EUA até à luz que diz ver ao fundo do túnel. “Vou ser um aliado da luz e não da escuridão”, prometeu.

  • Trump on tour

Enquanto os democratas falavam ao país de todo o lado, Donald Trump foi ao país (quase) todo falar ele mesmo. Ciente de que a agenda mediática estaria focada na Convenção do Partido Democrata, o Presidente tentou contrariar essa tendência com um roteiro de locais-chave onde discursou: Minneapolis, no Minnesota, onde George Floyd foi morto e começaram as manifestações e os motins contra a violência policial; Arizona, estado fronteiriço com o México, onde falou de imigração e do muro (que lhe trouxe uma má notícia esta semana, como veremos mais abaixo); Iowa, estado rural onde as sondagens começam a dar-lhe motivos de preocupação; além de Scranton, na Pensilvânia.

Esta última paragem passou despercebida a poucos: além de a Pensilvânia ser um estado decisivo nas eleições, Scranton é onde Joe Biden nasceu. Quanto a isso, atirou logo ao ar que Biden pouco tempo viveu ali (a família mudou-se quando ele tinha 11 anos): “Ele vai dizer-nos que nasceu em Scranton, mas ele saiu para aí há 70 anos. Esta coisa de Scranton… ele saiu e abandonou a Pensilvânia!”. E noutro discurso também naquele estado disse: “Se querem imaginar a vida sob a presidência de Biden, imaginem as ruínas fumegantes de Minneapolis, a violenta ilegalidade de Portland e as calçadas ensanguentadas de Chicago em todas as cidades da América”.

  • Steve Bannon, antigo diretor de campanha de Trump, detido por fraude

Esta foi a má notícia para Donald Trump: o seu antigo diretor de campanha, Steve Bannon, foi detido por alegada fraude e desvio de dinheiro de uma angariação de fundos para financiar a construção do muito que resta no muro entre os EUA e o México. Ao todo, a campanha “We Build the Wall” juntou 25 milhões de dólares (21,1 milhões de euros) — dos quais Steve Bannon terá usado 1 milhão (840 mil euros) para pagar despesas pessoais. Steve Bannon acabou por ser libertado após pagar uma fiança de 5 milhões de dólares e à saída da esquadra disse: “Este completo fiasco é para travar as pessoas que querem que o muro seja construído”. Já Donald Trump procurou desviar-se do seu antigo assessor. “Não contacto com ele há muito tempo, não sei nada sobre esse projeto”, disse.

  • Kellyanne Conway, conselheira de Trump, demite-se em crise familiar

Esta segunda-feira, uma das principais conselheiras de Donald Trump, Kellyanne Conway, anunciou que vai deixar as suas funções no final deste mês. A decisão surge depois de a filha mais velha da conselheira de Trump, que tem apenas 15 anos, ter feito uma série de tweets contra o Presidente e contra a própria mãe. “Estou devastada por a minha mãe ir mesmo falar à convenção republicana. Tipo, devastada para lá de tudo”, escreveu a menor. Alguns posts também foram dirigidos contra o pai e marido de Kellyanne, George Conway, que é uma das principais figuras do Lincoln Project, grupo político que reúne republicanos contra Donald Trump e a favor de Joe Biden. Também ele se demitiu daquelas funções. A demissão de Kellyanne Conway acontecerá no final do mês, por isso é possível que ainda venha a discursar na convenção republicana, esta quarta-feira. A partir daí, será como diz no seu comunicado: “Menos drama, mais mamã”.

os nossos especiais

Fotografia
Estados Unidos da América

Biden à procura de uma luz ao fundo do túnel /premium

Num discurso feito na penumbra, Biden citou Roosevelt e Obama como guias para sair do escuro. Lidera as sondagens, mas sobretudo porque "não é Trump". Tem 74 dias até às eleições para provar quem é.

Fotografia
Presidente Trump

De aliado a entrave: como Trump perdeu o Supremo /premium

Trump prometeu e cumpriu: o Tribunal Supremo tem uma maioria conservadora. Com isso, ganhou muitos votos. Mas depois de decisões pró-LGBT e pró-aborto, isso de pouco lhe valeu. Valerá a Joe Biden?

Fotografia
Estados Unidos da América

Biden tem apoio da secção geriátrica. E o resto? /premium

Aos 77 anos, Biden conseguiu ser nomeado para as presidenciais. No segundo dia da Convenção, teve o apoio de tudo o que são cabelos brancos no seu partido — mas a geração mais nova será um desafio.

o que se escreve lá fora

How Clinton’s Loss Paved The Way For Biden
FiveThirtyEight
55 Things You Need to Know About Joe Biden
Politico
Joe Biden’s Republican convention
Spectator
In Joe Biden, Democrats Lean on a Throwbac
Wall Street Journal
Kamala Harris Answers CFR’s questions
CFR
A Glimmer of Hope for Trump? How Bush Mounted a Comeback in 1988
The New York Times
The enduring Trump mystery: What would Trump do in a second term?
Politico
Trump bets it all on the base
The Hill

agenda para a semana

24 a 27 de agosto

Convenção do Partido Republicano

26 de agosto

Sister to Sister: Colóquio virtual com Kamala Harris

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