Dark Mode 153kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

Barack Obama discursou a partir do National Constitution Center, na cidade de Filadélfia

DNCC via Getty Images

Barack Obama discursou a partir do National Constitution Center, na cidade de Filadélfia

DNCC via Getty Images

O dia era das mulheres, mas quem falou mais alto foi o patriarca Obama /premium

O terceiro dia da convenção democrata era das mulheres, mas foi Obama que falou mais e com mais força. Trump reagiu no Twitter — e com maiúsculas. Está nervoso? As sondagens dão-lhe razão para isso.

Fazia sentido que o palco fosse delas.

Dentro de seis dias, a 26 de agosto, serão assinalados os 100 anos da aplicação da 19ª Emenda dos EUA, onde se lê: “O direito ao voto dos cidadãos dos Estados Unidos não pode pode ser negado ou limitado pelos Estados Unidos ou qualquer Estado por causa do seu sexo”.

A propósito, não têm sido poucas as referências ao movimento sufragista que conseguiu o voto para as mulheres, em 1920, nestes dias da Convenção do Partido Democrata. O terceiro dia, porém, foi especialmente planeado como o momento em que as mulheres passariam para a primeira fila — depois de no segundo dia os políticos convidados a falar em segmentos próprios terem sido todos homens e com uma média de idades de 79,4 anos.

E assim foi, numa lista de oradoras que congrega alguns dos nomes femininos mais destacados dos democratas: a ex-secretária de Estado e adversária derrotada por Donald Trump em 2016, Hillary Clinton; a líder dos democratas na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi; a congressista Gabby Giffords, sobrevivente de um ataque contra ela dirigido, em que foi baleada na cabeça; a senadora Elizabeth Warren; e também a senadora e agora candidata a vice-Presidente Kamala Harris.

Mas qual é a coisa, qual é ela, que quando aparece faz praticamente esquecer uma catadupa de discursos da coqueluche feminina do Partido Democrata? Um discurso de Barack Obama, o patriarca do Partido Democrata.

Barack Obama falou de Trump e de Biden — mas acima de tudo dos EUA

Mal Barack Obama tinha começado a falar, já Donald Trump tinha ido ao Twitter para comentar em direto a Convenção do Partido Democrata. Ainda não o tinha feito (o mais próximo foi quando Michelle Obama discursou e, horas mais tarde, Donald Trump lhe devolveu os ataques que recebeu), mas o estilo inconfundível manteve-se.

Recorrendo apenas a letras maiúsculas, Donald Trump fez duas perguntas: “PORQUE É QUE ELE [OBAMA] RECUSOU APOIAR O JOE LENTO ATÉ ESTAR TUDO DESPACHADO, E MESMO ASSIM JÁ FOI MUITO TARDE? PORQUE É QUE ELE TENTOU IMPEDI-LO DE CONCORRER?”.

O ambiente do Twitter, dos posts efémeros de 280 caracteres, em tudo contrastava com o cenário escolhido por Barack Obama para este discurso: o National Constitution Center, na cidade de Filadélfia.

“Devíamos esperar que um Presidente fosse um guardião da democracia. Devíamos esperar que, independentemente do ego, da ambição ou das suas crenças políticas, um Presidente preservasse, protegesse e defendesse as liberdades e os ideais pelos quais muitos americanos se manifestaram, ou foram presos, ou lutaram, ou morreram”, disse Barack Obama.

Estas frases faziam já adivinhar o primeiro golpe contra Donald Trump — e o que veio a seguir confirmou essa expectativa.

“Eu já me sentei na Sala Oval com os dois homens que estão a concorrer à presidência. Nunca esperei que o meu sucessor defendesse a minha visão ou continuasse as minhas medidas. Mas esperei que, pelo bem do país, Donald Trump demonstrasse algum interesse em levar o trabalho a sério, que ele sentisse o peso do cargo e descobrisse alguma reverência pela democracia que lhe foi dada a cuidar”, disse, como quem arma o braço.

E, depois disto, o golpe propriamente dito: “Mas isso nunca aconteceu. Em quase quatro anos, ele não demonstrou nenhum interesse em entregar-se ao trabalho, nenhum interesse em encontrar terreno comum, nenhum interesse em utilizar o enorme poder do seu cargo para ajudar qualquer pessoa que não fosse ele próprio ou os seus amigos, nenhum interesse em tratar a presidência como algo que não fosse só mais um reality show criado para lhe dar a atenção que ele deseja”.

São palavras duras, mas não inéditas. Embora por norma se resguarde dos holofotes, Barack Obama não tem hesitado em voltar à primeira linha do combate político nas alturas mais decisivas. Foi assim nas eleições intercalares de 2018, onde deixou implícito no seu discurso que a democracia norte-americana estava em risco; tornou a sê-lo já durante a crise pandémica, em que acusou o seu sucessor de pensar a gestão como “um miúdo pequeno”; e foi-o de novo esta quarta-feira. Donald Trump, do seu lado, não tem hesitado em devolver-lhe em dobro qualquer crítica — ou começar ele mesmo essa conversa, tendência que inaugurou logo após a eleição de 2016 ao acusar Barack Obama de espiá-lo.

É um jogo do qual ambos parecem desfrutar — e que para além das paixões dos próprios, move também as de muitos norte-americanos. De acordo com a empresa de sondagens Gallup, Donald Trump e Barack Obama ficaram empatados como os dois homens mais admirados nos EUA em 2019.

Barack Obama discursou ao longo de 19 minutos, naquela que foi a intervenção mais longa de todas as que foram feitas até aqui na Convenção do Partido Democrata de 2020

Getty Images

Mas nem só de Donald Trump se fez o discurso de Barack Obama.

É certo que Barack Obama procurou destacar o seu “amigo” e “irmão” Joe Biden, que o acompanhou durante oito anos como vice-Presidente — e, como tal, garantiu que ele e a sua número dois, Kamala Harris, vão “restaurar a nossa posição no mundo”. Porém, a parte em que o ex-Presidente mais parece ter investido — e a sua equipa de speechwriters — foi aquela em que se falou dos EUA propriamente ditos. E, mais importante, as pessoas que são referidas no início da Constituição, que se faz começar com um “We, The People” (Nós, o Povo). E para estas Barack Obama tem uma mensagem essencial: apesar de tudo, votem.

“Entendo porque é que um operário branco de uma fábrica que teve um corte salarial ou cujo trabalho foi levado para fora do país possa sentir que o governo já não quer saber dele, ou porque é que uma mãe negra sinta porque é que o governo nunca quis saber dela de todo. Entendo porque é que um imigrante recém-chegado olhe à volta e se questione se este ainda é o seu lugar, entendo porque é que um jovem olhe para a política de agora mesmo, e para este circo todo, a maldade e as mentiras e as teorias conspirações loucas e pense: isto vale a pena porquê?”, lançou Barack Obama.

À vertigem deste momento, o ex-Presidente contrapôs alguma da História recente dos EUA — tudo para explicar que vale a pena votar.

"Se alguém tinha o direito de achar que esta democracia não funcionava e não tinha como funcionar, foram os nossos ancestrais. A eles foi-lhes dada uma democracia que não foi cumprida durante todas as suas vidas. Eles souberam o quão longe a realidade quotidiana da América estava longe do mito. E, no entanto, em vez de desistirem, juntaram-se e disseram que de alguma maneira, fosse qual fosse, vamos arranjar maneira de isto funcionar."

“Independentemente dos nossos contextos, somos todos filhos de americanos que se entregaram à luta. Bisavós que trabalhara em fornalhas ou em fábricas clandestinas sem direitos ou representação. Agricultores cujos sonhos ficaram perdidos no pó. Irlandeses e italianos e asiáticos e latinos que foram mandados para os sítios de onde vieram. Judeus e católicos, muçulmanos e sikhs, sujeitos a serem vistos como suspeitos pela sua fé”, enumerou. Já na parte final desta lista, Barack Obama parecia segurar lágrimas quando falou dos “americanos negros acorrentados e chicoteados e enforcados”: “A quem cuspiam por tentarem sentar-se no balcão para almoçarem. Espancados por tentarem votar”.

“Se alguém tinha o direito de achar que esta democracia não funcionava e não tinha como funcionar, foram estas pessoas”, disse. “Os nossos ancestrais. A eles foi-lhes dada uma democracia que não foi cumprida durante todas as suas vidas. Eles souberam o quão longe a realidade quotidiana da América estava longe do mito. E, no entanto, em vez de desistirem, juntaram-se e disseram que de alguma maneira, fosse qual fosse, vamos arranjar maneira de isto funcionar.”

Bendito o teu voto entre as mulheres

Dificilmente uma vitória de Joe Biden e Kamala Harris se fará sem o apoio do eleitorado feminino. Apesar de votarem há quase 100 anos, só a partir das eleições de 1980 (que levaram ao primeiro mandato de Ronald Reagan) é que o eleitorado feminino passou constituir um bloco de voto distinto. Desde então que se fixou a tendência para as mulheres votarem mais no Partido Democrata e os homens escolherem tendencialmente o Partido Republicano.

As eleições de 2016 não foram exceção a essa regra — com uma maioria de 52% de homens a votar em Donald Trump e 54% de mulheres a escolher Hillary Clinton. E, em 2020, as sondagens apontam para a mesma divisão — com um aglomerado de consultas entre 23 de julho e 12 de agosto a apontar que 56,8% de mulheres votariam em Joe Biden, contra 36,3% que escolheriam Donald Trump).

Não foi, pois, por acaso que no terceiro dia da Convenção do Partido Democrata, e apesar do grande apesar que foi o discurso de Barack Obama, a maior parte do tempo de antena fosse dado a vozes femininas. E a prova de que esta não é uma opção de nicho é que, apesar de temas mais caros ao eleitorado feminino como a violência doméstica ou o aborto terem sido referidos, o grosso das intervenções em causa foi também na onda dos últimos dias: o combate a Donald Trump.

Hillary Clinton recordou como, após a derrota de 2016, disse que Donald Trump merecia uma oportunidade. Agora, disse eufemesticamente: "Gostava que Trump tivesse sido um Presidente melhor"

DNCC via Getty Images

Hillary Clinton foi direta ao momento a que será sempre associada: a derrota na noite das eleições de 8 de novembro de 2016 e o discurso de concessão que fez já na manhã seguinte.

“Depois das últimas eleições eu disse que ‘devemos a Donald Trump uma postura de mente aberta e uma oportunidade para ele liderar'”, disse, parafraseando as suas próprias palavras daquele dia. “Quis mesmo dizer aquilo. Todos os presidentes merecem isso. E Donald Trump entrou na Sala Oval com muitas coisas a seu favor, como uma economia forte ou planos para gerir crises, como uma pandemia.”

“Se ele tivesse colocado de lado os seus interesses e o seu ego — se ele reconhecido a humanidade a uma criança que é arrancada aos seus pais numa fronteira ou a um manifestante que exige justiça ou a uma família cuja casa foi destruída por um incêndio e calhou viver num estado democrata —, se ele tivesse tentado governador bem e liderado o país, talvez teria conseguido demonstrado que estávamos errados. E isso seria bom, para a América e para o mundo”, disse. Hillary Clinton nem precisou de dizer qual é o seu veredito de todos aqueles ses. Em vez disso, rematou com uma frase lhe sai em jeito de eufemismo: “Gostava que Donald Trump tivesse sido um Presidente melhor”.

Outras oradoras tiveram um estilo mais direto. Foi caso de Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara dos Representantes, que acusou Donald Trump e o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, de “impedirem o caminho” de políticas que vão do alargamento de direitos a imigrantes e à comunidade LGBT, do controlo ao combate à pandemia. A senadora e ex-candidata às primárias democratas Elizabeth Warren apontou a “ignorância e a incompetência” de Donald Trump para “um perigo” para o país.

Kamala Harris, a vice de Biden que queria que Biden fosse vice dela — e que tem sempre uma resposta pronta

E, depois, houve Kamala Harris. Escolhida por Joe Biden para ser sua vice-Presidente, a senadora da Califórnia e ex-procuradora-geral daquele estado fez um discurso com grande foco autobiográfico e de tributo à mãe, uma cientista indiana que emigrou para os EUA e ali criou a mulher que agora pode tornar-se na primeira a chegar à vice-presidência dos EUA.

“Quando eu tinha 5 anos, os meus pais separaram-se e a minha mãe criou-nos em grande parte sozinha. Tal como muitas mãe, esforçava-se o dia inteiro par que tudo funcionasse. Tratava dos almoços antes de acordarmos e pagava as contas depois de irmos para a cama. Ajudava-nos nos trabalhos de casa na mesa da cozinha e levava-nos para a igreja para o ensaio do coro”, recordou. “Fazia tudo parecer fácil, embora nunca o tenha sido.”

“Já lutei por crianças e a favor de sobreviventes de agressões sexuais. Já lutei contra gangues transnacionais. Atirei-me contra os grandes bancos e ajudei a derrubar uma das maiores universidades com fins lucrativos. Sei reconhecer um predador quando o tenho pela frente.”
Kamala Harris, candidata a vice-Presidente dos EUA

No seu discurso, que foi feito em Wilmington, cidade do estado de Delaware onde Joe Biden vive, perante uma plateia exclusivamente composta por jornalistas sentados a quase dois metros uns dos outros, Kamala Harris acabou por falar tanto de si mesma como de Joe Biden — quebrando em parte a tradição do número 2 enaltecer acima de tudo o número 1. Mas estas eleições são diferentes.

“Já lutei por crianças e a favor de sobreviventes de agressões sexuais. Já lutei contra gangues transnacionais. Atirei-me contra os grandes bancos e ajudei a derrubar uma das maiores universidades com fins lucrativos”, disse, recordando o seu historial como procuradora em São Francisco, procuradora-geral da Califórnia. “Sei reconhecer um predador quando o tenho pela frente.”

Kamala Harris discursou em Wilmington, a cidade do estado do Delaware onde Joe Biden vive

Getty Images

Sobre Joe Biden, deixou vários elogios — prova consolidada de que os arrufos entre Kamala Harris e o ex-vice-Presidente são águas passadas entre os dois. Mas, desses elogios, talvez nenhum tenha sido forte como o que surgiu em contraste com o atual inquilino da Casa Branca: “Neste momento, temos um Presidente que transforma as tragédias em armas políticas. O Joe será um Presidente que vai transformar os desafios em objetivos”.

Mais uma vez, tudo isto foi acompanhado por Donald Trump no Twitter — e novamente em maiúsculas. “ENTÃO ELA NÃO LHE TINHA CHAMADO DE RACISTA??? ELA NÃO DISSE QUE ELE ERA INCOMPETENTE?”, escreveu o Presidente dos EUA, atribuindo a Kamala Harris citações de que não há registo, reagindo assim pela segunda vez em direto durante esta convenção.

Nervosismo? Só o próprio saberá dizê-lo. Neste momento, Donald Trump vai com um atraso de Joe Biden entre os 4 e os 10 pontos percentuais nas sondagens nacionais e também está para trás nalguns estados decisivos. Não é ainda claro que efeito a Convenção democrata terá no eleitorado — e é possível que a Convenção do Partido Republicano, agendada para os dias de 24 a 27 de agosto anule parte dele. Entre tudo isto, resta apenas uma certeza: faltam 75 dias para as eleições de 3 de novembro de 2020.

E, quanto a isso, Joe Biden parece estar com pressa. Momentos depois do fim do terceiro dia da Convenção democrática, escreveu: “Não podemos desperdiçar nem um minuto”.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.