Na semana passada, um ex-investigador da Anthropic, Jacob Coxon, sentou-se no The Daily Show e disse a Jon Stewart aquilo que, segundo ele, os construtores desta tecnologia já dão por certo: não haverá empregos. Quase toda a produção passará para as máquinas, e a riqueza que daí vier distribuir-se-á por uma espécie de rendimento universal. Abundância para todos, sem ninguém ter de trabalhar para a ter.
Stewart não aplaudiu. Retorquiu, em substância, que não quereria viver nesse mundo — porque é o trabalho que lhe dá sentido, e uma sociedade que o dispensa não lhe está a oferecer uma libertação, está a tirar-lhe alguma coisa. O profeta trazia o paraíso; o humorista preferiu ficar de fora dele.
Tenho pensado nessa troca desde então, e acho que o humorista viu mais fundo do que o investigador.
Admitamos, por um momento, que a parte do dinheiro tem solução — que se paga um rendimento a toda a gente e o problema material fica resolvido. É uma concessão generosa, e não só porque financiar esta travessia está longe de ser simples, como já mostrei noutro lugar. Um rendimento pago a todos pode repartir riqueza; não reparte necessariamente poder. Quem controla as máquinas continua a decidir, mesmo quando paga a conta de quem já não decide nada. O próprio Coxon reconheceu que essa escolha não pode ficar nas mãos de um pequeno grupo. Mas concedamos aos utópicos a sua premissa mais favorável, porque é quando a concedemos que se vê o que ainda assim sobra. O erro da utopia não está, então, no dinheiro. Está em supor que o trabalho era só isso — um meio de pôr pão na mesa, uma inconveniência que a tecnologia finalmente nos poupa. Não era. Quem já trabalhou uma vida sabe que o salário é a parte menos interessante do que um emprego dá. Dá uma razão para a manhã existir. Dá um lugar no mundo, um «sou isto». Dá pessoas com quem se partilha um propósito. E dá a coisa mais difícil de substituir: a sensação de ser necessário, de que alguém, algures, precisa daquilo que eu faço.
Tire-se tudo isto e deixe-se o cheque, e o que fica não é o homem livre a dedicar-se à arte e à filosofia. A história já mostrou o que pode acontecer quando o trabalho desaparece sem que surja outra estrutura de pertença no seu lugar — e o resultado não foi bonito.
Não é preciso imaginar. Basta olhar para as regiões onde o trabalho desapareceu de facto — não por utopia, por colapso. As cidades industriais americanas depois do encerramento das fábricas, as zonas mineiras inglesas depois do fim das minas, o interior que se esvaziou. Não floresceram em criatividade. Dois economistas de Princeton, Anne Case e Angus Deaton, deram nome ao que lá se agravou: «mortes por desespero» — álcool, drogas, suicídio, a subir onde o trabalho saiu. As causas são muitas e emaranham-se, e os próprios autores avisam que não é a automação por si que explica tudo: outros países ricos viveram a mesma mudança técnica sem a mesma epidemia. Mas no meio do emaranhado há uma conclusão deles que interessa reter, e é mais perturbadora do que a da pobreza: não foi só a falta de dinheiro que adoeceu aquelas terras. Tirou-se àquelas pessoas, de uma vez, o estatuto, a rotina e a razão de serem precisas. Foi também a falta de para quê.
É por isso que o medo que esta utopia me inspira é diferente de todos os outros que se dizem sobre a inteligência artificial. Fala-se muito do dano que a tecnologia pode fazer nas mãos erradas — o ciberataque, a arma, a fraude. Esses são medos do mal que alguém pratica. O medo do mundo sem trabalho é o do vazio que fica quando ninguém pratica mal nenhum: quando tudo corre bem, a máquina entrega a abundância prometida, e o homem descobre que uma abundância que não precisa dele é uma forma educada de exílio. É o mais subtil dos receios, porque não tem vilão: a máquina não nos ataca, torna-nos dispensáveis — uma crueldade sem intenção, que costuma ser a pior.
E, no entanto, não acho que o destino seja o desespero. Por uma razão que a própria experiência de Case e Deaton deixa ver, se se olhar com atenção.
Nem toda a gente que deixa de trabalhar adoece. Há quem se reforme e desabe, e há quem se reforme e floresça. Uma diferença decisiva entre os dois não é o dinheiro — é se cada um tem, ou não, outro sítio onde ser necessário. O avô que passa a criar os netos. O reformado que treina os miúdos do clube. O que se mete na associação da terra e descobre que ali fazia falta. O emprego remunerado é a forma mais comum de sermos necessários uns aos outros. Nunca foi a única.
E é essa a pergunta que a utopia não faz, porque é mais difícil do que a do dinheiro. Não é «como pagamos a toda a gente quando as máquinas produzem tudo». Essa é a fácil. A difícil é: como organizamos uma sociedade em que as pessoas continuem a ser necessárias umas às outras, quando a máquina já não precisa delas para produzir? Essa pergunta não é para engenheiros nem para economistas. É para comunidades, para culturas, para a forma como escolhemos viver juntos. E é a única que interessa.
Escrevo isto com alguma suspeita de parte, confesso. Pertenço a uma geração que construiu a identidade toda à volta do que faz, e aproximo-me da idade em que a sociedade começa a sugerir, com delicadeza, que me posso ir afastando. Conheço o medo do convés vazio por antecipação. Mas conheço também a resposta, não por teoria — por acidente. Sem nunca ter decidido fazê-lo, enchi a vida de sítios onde sou necessário e que não me pagam nada: o clube de râguebi onde dou o que sei, umas linhas que escrevo de quando em quando, um jogo que programei para a minha filha aprender a brincar. Não teorizei nenhuma delas. Fui-as acumulando como quem se precavê, sem saber contra o quê.
Só mais tarde percebi contra o quê. A maioria das pessoas nunca teve de descobrir isto, porque o emprego lhes dava a necessidade de serem necessárias de graça, embrulhada no ordenado. Quando o embrulho desaparecer — e vai desaparecer para muitos, mais depressa do que gostaríamos — o que ficará por fazer é precisamente o que algumas pessoas já hoje fazem por instinto: inventar razões para levantar da cama que não dependam de a máquina precisar delas.
Essa é a travessia que ninguém anda a contar. O próprio Coxon traz consigo as duas coisas: avisa que a tecnologia nos pode matar e, no fôlego seguinte, promete a abundância em que deixaríamos de trabalhar. O receio mais fino não está em nenhuma das pontas. Está no meio, no cenário em que tudo corre bem: a máquina poupa-nos o trabalho e, sem querer, tira-nos a razão. O que falta fazer não é impedir a máquina de produzir, mas construir, para toda a gente, aquilo que sempre existiu nas margens para quem teve sorte ou instinto — uma rede de pertenças, de dependências mútuas, de pequenas necessidades humanas que nenhuma automação torna obsoletas, porque não são sobre produzir coisas. São sobre sermos uns dos outros.
Stewart, no fundo, estava a dizer isto. Não recusou a abundância por teimosia. Recusou-a porque percebeu que lhe estavam a oferecer tudo menos a única coisa que faz a manhã valer a pena: fazer falta a alguém.