Em julho, Elon Musk deu uma longa entrevista à editora-chefe do The Economist. Prometeu o que costuma prometer: uma era de abundância, inteligência artificial mais capaz do que qualquer humano em poucos anos, máquinas a produzir tudo por quase nada. A jornalista fez então a pergunta mais simples do mundo. Se as pessoas deixam de trabalhar e o Tesouro passa cheques, de onde vem a receita?

O homem mais rico do mundo respondeu que, nesse futuro, o dinheiro — e portanto os impostos — deixaria de ser relevante. Ou seja: não respondeu.

Não é um pormenor. É a pergunta inteira. E o facto de os arquitetos deste futuro não terem resposta devia preocupar-nos mais do que qualquer cenário de ficção científica.
Em setembro, um investigador britânico de 27 anos, Jacob Coxon, demitiu-se de uma das principais empresas de inteligência artificial com um aviso que correu o mundo: as empresas estão a correr para sistemas que se melhoram a si próprios, “apostando as nossas vidas”. Coxon não é um comentador. Passou três anos a construir estas máquinas por dentro. Podia estar enganado no prazo; não parece enganado no essencial: o problema, por agora, não é a máquina ter escapado ao controlo humano — é a corrida humana ter escapado à coordenação humana. Até os presidentes destas empresas admitem que gostariam de poder abrandar. Não podem. Do outro lado está a China, e numa corrida entre superpotências, abrandar é perder. A segurança fica para depois da vitória — que ninguém sabe definir.

Não sei se a superinteligência chega em cinco anos ou em cinquenta. Ninguém sabe, e desconfio por igual de quem vende o apocalipse e de quem vende o paraíso. Mas não é preciso adivinhar o destino para fazer uma pergunta sobre a viagem. Porque entre o mundo de hoje e a suposta abundância há uma travessia. E é na travessia que vivem as pessoas reais.

Façamos então contas. É o que sei fazer.

A economia é um circuito, não uma linha de montagem. O salário não é apenas um custo de produção: é a procura do lado de lá. Uma economia de robôs sem consumidores é uma fábrica a produzir para armazéns vazios.

Em Portugal, como na generalidade das economias europeias, os salários são a maior fatia do rendimento nacional. É sobre eles que assenta quase tudo o resto: o consumo, o IRS, e sobretudo a Segurança Social. Hoje, há apenas 1,8 contribuintes ativos por cada pensão paga pela Segurança Social (Pordata, 2025); em meados dos anos 70 eram mais do dobro. A pirâmide já está invertida antes de a inteligência artificial tocar num único emprego.

Agora acrescentemos a tendência. As empresas que adotam estas ferramentas não o fazem por curiosidade: fazem-no para produzir mais com menos gente. Cada uma, individualmente, tem toda a razão — nenhum gestor mantém postos de trabalho “pelo bem da procura agregada” enquanto o concorrente corta. Mas o que é racional para cada empresa pode tornar-se um problema para o conjunto: se o rendimento migrar do trabalho para o capital mais depressa do que os sistemas fiscal e social conseguem adaptar-se, desaparecem contribuintes antes de aparecer a base que os substitua. Os economistas chamam-lhe um problema de ação coletiva. Quem faz contas chama-lhe um balanço que não fecha.

Dir-me-ão: a riqueza não desaparece, muda de sítio — dos salários para o capital, dos trabalhadores para quem detém os modelos e os robôs. É verdade. E é precisamente esse o problema. O nosso sistema fiscal e contributivo foi construído para tributar trabalho. Se a riqueza migra e o fisco não a persegue até ao novo sítio, o contrato entre gerações quebra-se. Quem descontou quarenta anos fica a olhar para uma promessa; quem depende de uma pensão social fica a olhar para o vazio.

Já vivemos algo parecido. Nas primeiras décadas da Revolução Industrial, a produtividade avançou muito mais depressa do que os salários reais — fenómeno associado ao que os historiadores chamam a “pausa de Engels”: a riqueza foi criada muito antes de ser partilhada. Quem viveu essas décadas não foi consolado pelo facto de os netos virem a ficar melhor. A partilha, quando veio, não veio da bondade do mercado: veio da política — sufrágio, sindicatos, Estado social. Demorou gerações.

E aqui chegamos ao ponto que me tira o sono. Não é a tecnologia. É o encontro da tecnologia com as nossas instituições.

Escrevi aqui, há semanas, sobre o lume brando: instituições que se autopreservam, que gerem os problemas ao ritmo que lhes convém, que produzem grupos de trabalho onde deviam produzir decisões, e que se defendem primeiro a si próprias e só depois — se sobrar tempo — à sociedade que deviam servir. Em tempos normais, o lume brando é um desperdício. Perante uma rotura que avança em meses, é um perigo.

Porque a correção do século XIX teve um luxo que nós não temos: tempo. A política corrige em décadas; esta tecnologia avança em trimestres. Se a resposta institucional à inteligência artificial for como foi a resposta à justiça lenta, à banca ou à demografia — diagnósticos certeiros, décadas de adiamento, reforma feita à pressa quando já não há alternativa — então a fatura da travessia será paga por quem vive de salários e de pensões, e não tem como esperar pelo relatório final do grupo de trabalho.

Também escrevi sobre o ginásio dos neurónios: a tentação de entregar às máquinas o esforço de pensar, e o que isso fará a quem hoje se está a formar. Junto agora as duas pontas. Uma sociedade que desaprende de pensar e é gerida por instituições que se recusam a decidir é a pior combinação possível para atravessar uma rotura desta escala. Não seremos derrotados pela inteligência das máquinas. Seremos derrotados pela nossa preguiça — a individual e a institucional — se a deixarmos.

O que proponho não é um plano; desconfio de quem tem planos para o que ninguém compreende ainda. Proponho uma exigência, ao alcance de qualquer cidadão e de qualquer jornalista: que quem promete o futuro apresente as contas da viagem. Que a cada anúncio de abundância se responda com a pergunta da editora do Economist: de onde vem a receita? Que quem governa diga como se financia uma Segurança Social quando a base salarial encolhe — antes de encolher, não depois. Que a discussão sobre tributar capital, lucros e automação saia dos seminários e entre no Orçamento, enquanto é escolha e não emergência.

Nada disto exige prever o futuro. Exige somar o presente. As contas de hoje já não fecham com as tendências de hoje — e um país que se recusa a olhar para um balanço que não fecha não precisa de superinteligência para ter problemas. Basta-lhe o lume brando.

Não sei quem vence a corrida entre os Estados Unidos e a China. Sei quem perde a travessia, se ninguém a governar: quem não detém o capital, não controla a tecnologia e não pode esperar que a transição acabe. E sei que a pergunta mais subversiva que se pode fazer neste momento não é sobre robôs nem sobre consciência artificial. É a pergunta de quem faz contas.

Quem paga?