Trump, através da National Security Strategy (NSS), restabelece a Doutrina Monroe baseada no America First. O objetivo é claramente afastar os seus adversários do hemisfério ocidental, que ele próprio descreveu, de forma cómoda, como “o seu quintal”. Esta postura não apenas redefine a política externa norte-americana, como acelera a erosão de uma ordem internacional baseada, ainda que de forma mínima, em regras.
Portanto, esta orientação ultrapassa largamente o enquadramento neoliberal que moldou as relações internacionais no pós-Guerra Fria. A sua concretização tende, aliás, a configurar um win-win tácito entre as três potências globalmente assumidas, cujas motivações geopolíticas revelam compatibilidade quanto às preocupações estratégicas e aos benefícios mútuos. Os exercícios militares em torno de Taiwan, o endurecimento da posição russa face à alegada tentativa de “assassinar Putin”, e o ataque à Venezuela com a captura de Maduro, não podem ser analisados de forma isolada. Trata-se, porém, do uso deliberado da força para alcançar objetivos geopolíticos e geoeconómicos.
Estamos, todavia, a assistir à transição de uma ordem internacional ainda baseada em regras para um mundo de áreas de influência. Alguns analistas chamaram-lhe “Tramputin” – e não é por acaso. No fundo, esta dinâmica materializa aquilo que Putin sempre reivindicou: reconhecimento explícito de esferas de influência como princípio central do sistema internacional.
O silêncio europeu é, neste contexto, preocupante. A invasão da Venezuela não se resume apenas à remoção de um líder ditador e ilegítimo; é ao fim e ao cabo, o início de uma anarquia do poder. As motivações de Trump não se limitam à Venezuela, estendendo-se a todo o continente americano, incluindo territórios como a Gronelândia, que pertence a um país aliado. A história recente mostra, de forma clara, que tentar remover líderes autoritários através da força nunca trouxe estabilidade. Pelo contrário: resultou em caos, miséria e sofrimento prolongado para as populações. O Iraque, a Líbia e, mais recentemente, a Síria de Assad são exemplos evidentes dessa turbulência.
Contudo, a postura europeia de se manter em silêncio perante esta agressão norte-americana à Venezuela, enquanto condena a invasão russa da Ucrânia, mina a sua própria credibilidade como defensora de valores e princípios do sistema internacional. Esta seletividade não é apenas incoerente, tem custos políticos. Ao aceitar a lógica das esferas de influência quando lhe convém e rejeitá-la quando a prejudica, a Europa contribui para a erosão da ordem que afirma querer preservar. No fim, a questão é simples, ou o continente decide afirmar-se como ator geopolítico autónomo, ou continuará a invocar princípios num mundo cada vez mais moldado pela força e pela anarquia do poder.